(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

■HKB1 



■ 

Iranãp 
■sar»"™ 



■ - : ' « -' ■ '■' 

bJrS^HB 



Bina* 




IH» 






/-■■•■.....-■■ 
-..-:•"■■:■'..■■ 
I- ■'■ ' ■■'. ■'•• ' 



BHHfflffii 



■ 










»|§§3*i 






DA ÁSIA 

D E 

DIOGO DE COUTO 

DOS FEITOS 5 QUE OS PoRTUGUEZES FKERAM 

NA CONQUISTA , E DESCUBRIMENTO 

DAS TERRAS , E MARES DO ORIENTE. 

DÉCADA OITAVA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Typografica* 

a n n o m.dcclxxxyi. 

í#m licença i* Real Me%a CenfirU , ç Privilegie Real 







* ^ K 



i 77* 

1/ f 



AO MUITO CATHOLICO, 

E 

MUITO PODEROSO 
MONARCA DASHESPANHAS 

D. FILIPPE 

REY DE PORTUGAL 

O SEGUNDO DO NOME 

NOSSO SENHOR. 



JHL 



Quella cruel , e ãeshtimana har- 
pia da inveja , muito Catholico , Podero- 
fo Monarca , e Senhor noffb , he tão an- 
tiga , e tão levantada , qye em Deos nojfo 

Se- 



Senhor cr e ando os Anjos , logo entra pela 
Gloria , e dejiroe aquella foberana Mo- 
narquia , com lhes metter em cabeça , que 
podiam fer femelh antes ao Altijfimo , com 
que do mais alto fez dar com elles no 
mais baixo do Inferno ; e depois que no 
Ceo não teve que fazer , defceo d terra : 
e tanto que Deos nojfo Senhor formou os 
homens 5 entre os primeiros dous que ha- 
via fe mette cruel embaidora , e faz com 
que Caim mate [eu irmão Abel ; e ajjlm 
como foram crejcendo as gerações , affim 
foi ella fazendo feus eflragos ; porque em 
fe alevantando a primeira Monarquia y 
que foram os AJfyrios , logo trabalhou de 
a derrubar , até que o fez ; e fuc cedendo 
a fegunda dos Medos , e Perfas , foi en- 
trando por ella até a desbaratar ; e cref- 
cendo a dos Gregos , ella a derrubou cm 
pouco tempo ; e depois de fe alevantar a 
dos Romanos , não confentio que perma- 
nece jje , porque logo a confumio 5 e ajjim 
foi publnào liaris , e alevantando outros 7 e 
jogando a choca ( como lá dizem ) com os 
Senhorios , Ffiados , e Reinos , em que 
fempre fez feu officio ; e aj/lm como come- 
çou 



çou no mais alto e/lado, que foi o âoCeo\ 
ajjim defceo ao mais baixo da terra ; tan- 
to , que veio a entender comigo , que nae 
pode fer maior defpropofito ; porque ven- 
do ella as mercês que V. MAGESTADE 
me faz a mim , e a todos os Portuguezes 
em mandar imprimir as minhas Décadas 
da Hifloria da índia 5 que eu com tanto 
trabalho ? e gojlo compuz por mandado do 
muito Catholico , e Prudente Rey D. Fi- 
lippe nojfo Pai , e pelo de V. MAGES- 
TADE , que muitos annos viva ; e que 
andava tão acreditada pelo Mundo ? on- 
de fe tratava tradAizirem-fe em Francez, 
e Alemão , o que me fez alevantar tanto 
o animo que em breves tempos acabei a 
oitava 7 e novena Décadas , que jd o anno 
paffado per tendia mandar a V. MAGES* 
TADE. Mas ejla dejlroidora de tudo 
cruel , e inhumana inveja parece que fe 
metteo em algum peito diabólico , e dá 
ordem com que me furtem ejles dous vo- 
lumes , havendo que ijlo fez que como eu 
era velho ? e por razão da natureza não 
podia viver muito , e imprimirem-na em 
nome de quem quer que fojfe , e ficarem- 



fie logrando do meu trabalho , efiuor. Mas 
Deos nojfio Senhor , Author de todos os 
bens , que não confente hum tão mane* 
fejlo roubo , quiz que me ficajfiem alguns 
fragmentos , e lembranças , das quaes com 
o que me ficou na memoria das coufas 
que vi y que aquellas duas Décadas con- 
tém j o tempo de D. Antão de Noronha , 
de D. Luiz de Ataíde 5 de D. António de 
Noronha 5 de António Moniz Barreto y 
de D. Diogo de Menezes , efiegunda vez 
do Conde D. Luiz de Ataíde , em que eu 
militei nefte EJiado , ejlava prefente nas 
mais das confias , em que me achei. Per- 
mittio Deos nofifio Senhor encaminhar-me 
de feição y que tornei a recopilar efias 
duas Décadas a modo de Epilogo , em 
que refiumi as confias mais notáveis , e 
fiubfianciaes que fiuc cederam y e fiquei af- 
fim fiupprindo o melhor que pude o furto 
que me fizeram ; e quando alguma hora 
apparecerem , logo fie conhecerão ajjlm 
pelo meu efiilo , como pela matéria. Defie 
naufrágio eficapdram a decima , deci- 
mei primeira ? e parte da duodécima y que 
tinha já nejfie Reino a fialv amento \ e pois 



st obra toda he de V. MAGESTADE , 

que a mandou fazer y e imprimir ? a V. 
MAGESTADE a ojfereço , e humilde- 
mente peço a receba com a benignidade , 
com que recebeo as mais ; porque quando 
'virem o como V. MAGESTADE favo- 
rece efte meu trabalho ? fe alevantem de- 
pois de mim novos engenhos , a continuar 
ejla Obra y pois dijfo redunda tanta glo- 
ria a Deos , e a V. MAGESTADE , e 
tanta honra a feus Vaffallos , que a tro- 
co das vidas trabalhão por dilatar o Im- 
pério j que V. MAGESTADE tem nejle 
Oriente , até que de todo o tragão ao jugo 
de Chrijlo , e ao de V. MAGESTADE , 
a quem nojfo Senhor dê o que a toda a 
Chriflandade lhe he necejfario. Goa 28. 
de Janeiro de 161 6. 



Diogo do Couto. 

IN- 



INDIC E 

DOS CAPÍTULOS , QUE SE CONTEM 
NESTA 

DÉCADA VIII. 



CAP. T. D. António de Noronha eleito 
Vifo-Rey da índia. Pag. i. 

CAP. II. Da grande batalha que D. 
Paulo de Lima teve com o Canatale. 9. 
CAP, III. Torna a continuar o grande cer- 
co da Cota. 15*. 
CAP. IV. Mo gores entrados nas terras de 
Damão. 39. 
C AR V. António Teixeira com recado ao 
Grão Turco , e vai com a rejpojia ao 
Reyno. ■ 43. 
CAP. VI. Em que Je continua o cerco de 
Cananor 5 e fuccejfos , que nelle hou- 
ve. 46. 
CAP. VII. Do defpejo da Cidade da Cota 
pêra Columbo. $6. 
CAP. VIII. Da ida de D. Fernando de 
Monroy ao eflreito de Meca , e do que 
ld lhe fuccedeo. 60. 
CAP. IX. Profegue a guerra do Cana- 
nor. 63. 
CAP. X. Dos provimentos que ejle anno Je 
fizeram pêra a Fortaleza de Ceilão 6j. 

CAP. 



Índice 

CAP. XI. De como D. Diogo Pereira foi 
com huma Armada grojja ao ejireito de 
Meca , e o que lhe fuccedeo na viagem : 
ç como fe per de o com a maior parte ãel~ 
la. 68. 

CAP. XII. De como mandou o Rey do Pegií 
pedir huma filha ao Rey de Ceilão pêra 
cafar com ella. ■ 74. 

CAP. XIII. Da grandeza , e riqueza com 
que ejle dente foi recebido em Pegú. 83. 

CAP. XIV. De como fe conjuraram os 
Reys do Decão contra o Rey de Bifna- 
gd , em que lhe deram batalha , na qual 
o desbarataram , mataram , e tomaram 
o Rey no. 88. 

CAP.XV. Do encontro dejles Reys , rompi- 
mento y e batalha , em que o Rey de Bif 
nagd ficou msrto , e desbaratado. 89. 

CAP. XVI. De como Gonfalo Pereira Mar- 
ramaque foi a Amboino , e a caufa da 
fua ida. 9^. 

CAP. XVII. Da ida de D. Jorge de Mene- 
zes Baroche ao ejireito de Meca , e do 
que lhe fuccedeo. 102. 

■CAP. XVIII. Da ida de D. Francifco MaJ- 
carenhas Palha ao Malavar. 103. 

CAP. XIX. De como o Vtfo-Rey D. Antão 
parte pêra Mamgalor em 8. de Dezem- 
bro de 1567. e kvou efia Armada. 106. 

CAP. XX. Chega o Vifo-Rey a Manga lor , e 

com- 



dos Capitulou 

commetteaterra: e o affalto que os Mou- 
ros deram nos nojfos , tm que houve mor» 
tos , e feridos ; e grande confusão. viu 

CAP. XXI. Do grande , e memorável cerco 
que poz fobre a Fortaleza de Malaca 
Sultão Alabaradí Rey do Achem : e da 
potencia com que appareceo fobre aquella 
Cidade , e recados que houve entre elle , 
e D. Leoniz Pereira, Capitão daquella 
Fortaleza. 130. 

CAP. XXII. Da poder -aja Armada eom que 
o Achem appareceo fobre Malaca. 133. 

CAP. XXIII. Das novas que chegaram ao 

Vifo-Rey dos apercebimentos que o Achem 

fazia contra Malaca , e dos foccorros 

que defpedio. 163. 

CAP. XXIV. De como fe apercebeo EIRey 
de Viantana pêra ir contra o Achem , 
que jd acha recolhido , e vifita o Capi- 
tão D. Leoniz. 166. 

CAP. XXV. Do que acontece o a Gonfalo 
Pereira Marramaque depois que partio 
de Malaca. 172. 

CAP. XXVI. Da morte que Diogo de Mef 

quita fez a EIRey de Maluco , e a cau- 

fa de fua morte. 206. 

CAP. XXVII. Do que fuecedeo a D. Luiz 
de Almeida no rio de Surrate com duas 
ndos de Meca. 2K. 

CAP. XXVIII. Entra o tempo do Vifo- 

Rey 



Índice 

Rey D. Luiz de Ataíde , que he da mi- 
nha oitava Década. i\y. 

C AP. XXIX. Das duvidas que fe moveram 
em Goa fobre fe venderem cavallos à 
Mouros. 235*. 

CAP. XXX. Da grande , e famofa vitoria 
que Mem Lopes Carrafco alcançou de 
huma poderofa Armada do Achem. 246. 

CAP. XXXI. Das coufas que fuccedêram 
ejle anno em Maluco a Gonfalo Pereira 
Marramaque. 263* 

CAP. XXXII. Da ida doVifo-Rey D.Luiz 
de Ataíde a Barcelor. 271, 

CAP. XXXIII. Da conjuração dos Reys 
todos da índia contra o Efiaão. 283. 

CAP. XXXIV. Do modo com que fe forti- 
ficou o Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde em 
Goa : e de como proveo os pajfos contra 
o poder do Idalxd : e do poder , e modo 
com que elle defceo o Gatte. 309. 

CAP. XXXV. Da refolução que o Idalxá 
tomou fobre o accommettimento da Cida- 
de de Goa : e da pratica que Nortichãa 
fez a EIRey fobre a guerra de Goa. 327* 

CAP. XXXVI. Do fuccejfo que houve nejle 
tempo em Chaul : e de alguns grandes 
feitos que os no (fos fizeram. 34 r. 

CÀP. XXX VIL Em que fe torna a conti- 
nuar com a guerra de Goa , e o que os 
no fos nella fizeram. 374* 

CAP- 



dos Capítulos. 

CAP. XXXVIII. Do que fuccedeo no cerc& 
de Ckaul no tempo de D. Jorge de Me~ 
nezes. 41 1. 

CAP. XXXIX. Do que fuccedeo na guerra 
de Goa , e do levantamento da Rainha 
de Onór contra a nojfa Fortaleza : e do 
foccorro que o Vifo-Rey lhe mandou. 4^5'. 

CAp. XL. Do cerco que o C^amori poz d 
nojfa Fortaleza de Chalé \ e do que nelle 
fuccedeo. 4^8* 



/ 



DE- 



<S X>:íX^>0:OO^XX):0<):0<^:-<MX 2> 
4; Xí^X^X>:0<^>C<>:0<mX>í-X):(X ;>> 



-^=^=5^=^:4 



DÉCADA OITAVA. 

Da Hiftoria da índia. 



CAPITULO L 

Dom Antão de Noronha eleito Vifo- 
Rey da índia. 




Avendo tresannos que os Tu- 
tores de EIRey D. Sebaítião, 
a Rainha fua Avó , e o Car- 
deal D. Henrique feu Tio , ti* 
nham mandado por Vifo-Rey 
da índia o Conde do Redondo D. Francií- 
co Coutinho , trataram de o mandar vir, 
fem faberem ainda de fua morte; e tratan- 
do na eleição da peíToa, que lhe havia de 
ir fucceder , dizem que por efcufarem def- 
pezas, quizeram eleger hum dos Fidalgos, 
que eílavam na índia , que havia muitos pa- 
ra efte lugar, e lhe tinham apontado hum, 
Couto. Tom. F.P.L A a 



a A S I A de Diogo de Couto 

a quem elles eftavam affeiçoados , por ter 
muitas partes pêra iíTo; mas porque era ca- 
iado em Goa, deixaram de o eleger; por- 
que naquelle tempo eftranhavaElRey mui- 
to cafarem na índia os Fidalgos: pela mef- 
ma razão que os Romanos não elegiam Le- 
gados pêra os exércitos parentes dos Con- 
luies , porque não queriam que andaíle a- 
quelle governo de permeio : o que he mais 
prejudicial na índia, conforme aquelle ada- 
gio : Muitas mãos , e poucos cabellos , âe- 
preffajam depennados: como eu vi depen- 
nar muitos filhos , e parentes de alguns 
Vifo-Reys, e Governadores eíle pobre Efta- 
do , até o deixarem em calva; eoque mais 
monta que tudo , he darem alguns as Ar- 
madas de importância a filhos , irmãos , e 
parentes, pêra as quaes muitos não tinham 
partes: e ouvi queixar a efte Vifo-Rei, de 
que começo tratar, que algumas fem-jufti- 
ças que fizera , parentes lhe tiveram diflb 
a culpa- Em fim , efte inconveniente deíTe 
Fidalgo , que eítava apontado para o Go- 
verno , teve tanta força no Confelho , que 
trataram de outra coufa; e por ter, havia 
pouco, chegado da Índia D* Antão de No- 
ronha , que acabara de fer Capitão de Or- 
muz , de que levava quarenta mil xerafins , 
como deixou declarado em feu teílamen- 
to por fua morte ? que naquelle tempo não 

f e 



Década Vllt Ca*. I. g 

fe tirava mais daquella Fortaleza, e da de 
Çofala, e Malaca } porque aquelles Capi- 
tães guardavam juítiça , inteireza, e huma- 
nidade com os moradores, e eftrangeiròs : : 
o que tudo depois faltou em alguns , pelo 
que tiraram daquellas fortalezas duzentos , 
e trezentos mil cruzados. Tinha eíle Dom 
Antão de Noronha chegado ao Reyno nas 
náos paliadas tão acreditado com as cou- 
fas, que na índia fez, porque era Fidalgo 
de grande confelho , governo , e prudên- 
cia , que trataram os Tutores deElRey de 
o mandar outra vez á índia fucceder ao Con- 
de do Redondo , e lhe mandaram ordenar 
quatro náos , com que partio do Reyno ntf- 
te Março de 64 , em que andamos , como 
fe verá no meu Epilogo , na primeira par- 
te , que trata das Armadas que foram á ín- 
dia y e tendo boa viagem , veio furgir na 
barra de Goa a três de Setembro , e dahi a 
poucos dias defembarcou, porque efperou 
em quanto lhe ordenaram o recebimento j 
e defembarcando no cães dos Paços dos Vi- 
fo-Reys , o efperou o Arcebifpo D. Gafpar y 
Capitão da Cidade , Vereadores , e mais 
povo, que o receberam com muitas feitas : 
ealli fem fe mudar oVifo-Rey, vendo que 
o Governador João de Mendoça o não fo- 
ra efperaf ao cães , como era coftume , por 
eílar doente, mandou fazer pelo Secretario 

A ii huixí 



4 ÁSIA de Diogo de Couto 

hum aflento 5 de como o Capitão da Cida- 
de lhe fazia entrega doEftado da índia em 
nome do Governador João de Mendoca : 
depois de aprefentar fua Patente, e Provi- 
são , por que fe mandava ao Vifo-Rey D. 
Francifco Coutinho , Conde do Redondo , 
ou a quem eftiveíTe em leu lugar, que lo- 
go lhe fizefle entrega do Eftado da índia, 
do qual o havia por deíbbrigado delle : que 
tudo dalli fe foi moftrar ao Governador João 
de Mendoça , que aíhgnou nos Termos , e 
Autos , que fe fizeram. Acabada efta fole- 
mnidade , entrou o Vifo-Rey na Cidade com 
grande alvoroço , eapplauíb de todos, por 
fer muito amado delles pelo conhecimen- 
to que tinham de fuás partes , e qualida- 
des, pelas quaes efperavam grande proce- 
dimento ; por eílar averiguado entre os ve- 
lhos , que o que houver de governar a ín- 
dia , ha de ter aprendido nella , como os 
bons Pilotos , que começaram de pagens da 
náo , e vam íubindo por todos os gráos 
até fubirem ao de Piloto , como efte Vifo- 
Rey fez. 

Das primeiras coufas , em que eíle Vi- 
fo-Rey intendeo , foi foccorrer Cananor, 
pêra onde logo defpedio D. António de 
Noronha, cafado em Cochim , por Capitão 
da gente de guerra , com alguns Capitães , 
que partio no mefmo Setembro \ e em vin- 
te 



Década VIII. Cap. I. fr 

te de Outubro defpedio Gonfalo Pereira 
Marramaque , que tinha vindo com elie por 
Capitão Mor do mar, com huma boa Ar- 
mada pêra o.Maiavar , porque apertavam 
os Mouros muito com a noíla Fortaleza; 

Í)orque D. Francifco Mafcarenhas , que já 
á andava , fe havia de vir , pêra entrar na 
Capitania de Çofala , e Moçambique , de 
que era provido , por fer falecido Fernão 
Martins Freire , que lá eftava. Os Capitães 
que acompanhavam Gonfalo Peneira , são os 
ieguintes : Heitor da Silveira o Drago , Je- 
ronymo Corrêa Baharem , João Gomes de 
Caftro , Jeronymo Teixeira de Macedo , D. 
Diogo de Souza, que depois foi Balío de 
Acre , que faleceo ha dous annos , D. Dio- 
go Fernandes de Vafconcellos , João Lopes 
Leitão, Ayres Gonfalves de Miranda, que 
eftá hoje neíla Cidade, João deMendoça, 
filho de Chriítovão de Mendoça , D. Jero- 
nymo de Menezes , João Gomes de Abreu 
de Lima , Alexandre de Souza , que foi Ca- 
pitão de Chaul , depois D, Francifco Hen- 
riques , que morreo fendo Capitão de Ma- 
laca, D.Diogo de Almeida, D. LuizMaf- 
carenhas , Fernão de Miranda de Azeve- 
do, Francifco Vas de Siqueira , Gafpar Ve- 
lho , Manoel de Brito o Coxo , D. Pedro 
de Caftro , irmão do Conde doBafto , Ay- 
res de Saldanha y que depois foi Vifo-Réy 

da 



6 A S I A de Diogo de Couto 

da índia, Manoel de Saldanha feu irmão, 
António Botelho , Diogo Lopes de Azeve- 
do , Fernão Gomes da Gram , que depois 
foi Guarda Mor das náos em Portugal , Je- 
ronymo Nunes de Menezes , Simão Reinei , 
D. Álvaro Manoel, filho de D.Jorge Ma- 
noel , hum dos formofos mancebos que en- 
traram na índia, quefaieceo andando neí- 
ta Armada, muitos dos outros , que já lá 
andavam com D- Francifco Maícarenhas. 
Gonfalo Pereira Marramaque foi feguindo 
fua viagem ; e fendo tão avante, como os 
Ilheos deAngediva, encontrou D. Francif- 
co Mafcarenhas , que lhe fez entrega de to- 
da a Armada , e Te foi pêra Goa , donde 
partio pêra Moçambique em Janeiro feguin- 
te de $6ç. e o Gonfalo Pereira Marrama- 
que fe foi pêra Cananor, onde achou os nof- 
los cercados dos Mouros, fazendo em fua 
defensão maravilhas nas armas ; e não fe 
contentando com iííb , lhes fahiam muitas 
vezes , e lhes davam aífaltos repentinos, 
èm que lhes mataram muitos Mouros ; e 
com a chegada da Armada eram mais ali- 
viados , e os Mouros ficavam mais enfrea^ 
dos ; mas não deíiílíram do cerco, 

Havia em Goa falta de mantimentos; 
c querendo o Vifo-Rey fupprir aiífo, ele- 
geo a Pedro da Silva de Menezes com fete 
pavios pêra levar ás cáfilas , o qual partio 

env 



Década VIII. Cap. I. 7 

entrada de Janeiro , e foi vifitando a coita 
do Canará 5 deixando por aquelles portos 
os navios de cáfila pêra carregarem de ar- 
roz: levou fete navios , de que, afóraelle, 
eram Capitães Gomes Eannes de Freitas 
hum Fidalgo das Ilhas Terceiras , Vicente 
Paes , Diogo Fernandes Parelhao , Ruy de 
Mello, Simão Caldeira, eVafco da Silva; 
e tanto avante como o rio Barcelar , lhe deo 
hum tempo rijo , com que não pode aturar 
íbbre a amarra, efoi correndo toda a noite 
com hum pequeno detraquete; e tanto que 
amanheceo , fe achou tanto avante com o 
rio Canharoto, com três navios menos , e 
voltou até Mangalor em bufea delles , e os 
achou com três paraos de Malavares toma- 
dos ; porque em lhes paliando a tormenta 
ao outro dia, indo em bufea do feu Capi- 
tão Mor, encontraram eftes paraos, que ti- 
nham fahido de hum rio ; e commettendo- 
os , os abordaram cada hum feu ; porque 
naquelle tempo tinham os homens outro 
brio, e perdido o medo aos Malavares; e 
depois da refrega durar bom efpaço , fica- 
ram os inimigas rendidos com a maior par- 
te dos Mouros mortos á efpada : dos mais 
alguns fe cativaram , e outros fe lançaram 
ao mar ; e quando Pedro da Silva os encon- 
trou , vinham com os paraos a toa , e elíe os 
feftejou muito > e voltando Pedro da Silva 



8 ÁSIA de Diogo de Couto 

pela cofta abaixo 9 encontrou outro parao , 
o qual foram feguindo até fe lhemetter no 
rio da Marabia junto de monte Deli; epor 
os feus Capitães lhe irem á mão deixou de 
entrar dentro, ondeeítavam outros fete pa~ 
raos , de que elles não fabiam ; e andando 
correndo a coita tanto avante como o rio 
Canharoto entre os Uheos , e a terra , en- 
controu dezefete paraos de CoíTairos , de que 
era Capitão Mor Murimuça , hum valente 
Mouro ; o qual vendo os nofíbs navios que 
jãhiam em armas , logo oscommetteo com 
grande determinação ; e paliada a falva de 
artilheria, e arcabuzeria , que fez algum da- 
no , fe abordaram , e os em que os noíTos 
fete navios puzeram as proas , logo os axo* 
ráram com panelas de pólvora , e á efpa- 
da , e dous mettêram no fundo ; e os íinco , 
que eram galeotas de cubertas mui fermo- 
fas , lhes ficaram nas mãos , e os mais dos 
Mouros foram mortos ° e alguns que efea-* 
param 9 fe falváram a nado nos outros na- 
vios , ficando nas galeotas vinte peças de 
artilheria de bronze. Entre as galeotas foi 
a de feu Capitão Mor , que foi morto na 
briga ; os mais 3 vendo aquelle deftroço, 
tomaram o remo , e foram-fe acolhendo , e 
os noffos apôs elles , até os encerrarem no 
rio dePudépatao, donde lhesfahíram mais 
três paraos ? e mais de fincoeata almadias , 

car- 



Década VIII. Cap. L 9 

.carregados de Mouros , que lhes vinham 
acudir ; os noffos os csbombardeáram de 
feição , que huns , e outros fe acolheram 
ao rio. Morreram nefta batalha quinhentos 
Mouros \ da noíTa parte três Portuguezes , 
e ficaram oitenta feridos y que fe curaram o 
melhor que pode fer; e dando á vela pêra 
Goa , ^entraram por aquella barra com as ga- 
leotas á toa. 

O Vifo-Rey receheo Pedro da Silva 
com muitas honras 5 e aos mais Capitães , 
e lhes fez mercês ; a todos os feridos man- 
dou curar no Hcfpital com muito recado, 
e lá lhes mandou pagar feus quartéis. En- 
trou em Goa a 3. de Fevereiro de^ó^. em 
que fe lhes tinham acabado os provimentos. 

CAPITULO II. 

Da grande batalha que D. Paulo âe Lima 

teve com o Cana tale, 

SAbendo o Vifo-Rey o eftado, em que a 
guerra de Cananor eítava , ordenou de 
mandar mais alguns navios a Gonfalo Pe- 
reira Marramaque , e mandou negociar qua- 
tro > de que fez Capitão Mor D. Paulo de 
Lima , que tinha ficado em Goa da perdi- 
ção quediífe que teve emAgoílo na barra; 
Q qual partio em fim de Fevereiro de 6$. 

el- 



io A S I A de Diogo de Couto 

elie embarcado nagaleota S.João Baptiíla, 
na qual fe embarcou três vezes , e fempre pe- 
lejou com Malavares, e os desbaratou 5 por- 
que parece que tinha nella a fua gente. Dos 
outros três navios foram por Capitães Ben- 
to Caldeira natural de Almada , Pedralves 
de Cananor, e outro; e indo tanto avante 
como Batecaia já perto da noite , tiveram 
vifta de féis» navios; e parecendo ahuns, e 
a outros ferem paraos , prepararam-fe pêra 
fe commetterem ; e fendo já perto, fe co- 
nheceram, e os féis navios eram da Arma- 
da de Gonfalo Pereira , dos quaes eram Ca- 
pitães Manoel de Brito , Ayres Gonfalves 
de Miranda, Manoel de Saldanha, Fernão 
Gomes da Gram , MemDcrnellas, eNuno 
Velho Pereira , os quaes mandava Gonfalo 
Pereira bufcar o mefmo D. Paulo , que já 
fabia íicar-fe aviando em Goa , por ter re- 
cado de ter fahido hum grande Coííairo do 
Malavar, chamado Canatale, comfete na- 
vios. Chegados os navios huns aos outros , 
vendo os da Armada de Gonfalo Pereira, 
que D. Paulo trazia bandeira de Chriílo pe- 
la quadra, eque anão enrolava, tomaram- 
fe tanto diíTo , que lhe diíFeram , que fe 
queria ir pêra onde eftava Gonfalo Pereira , 
fenao que fe iriao elles logo , porque não 
podiam aguardar : ao que lhes refpondeo 
D. Paulo , que os foldados levavam a rou-* 

pa 



Década VIII. Cap. II. n 

pa cuja 3 e que a queriam ir lavar a Bate- 
cala, que ficava defronte meia légua, eque 
ao outro dia partiriam; mas elles comoef- 
tavam pejados com a fua bandeira , fem te- 
rem mais cumprimentos com ellc , deram 
á vela, e fe foram. Vede a quanto chega- 
va huma deíconfiança , e em quanto riíco 
poe muitas vezes huma Fortaleza, ehuma 
Armada entre nós: digo que entre os Ca- 
pitães eftrangeiros não ha ifto ; e fe o ha , 
pagam-no logo. Eíles Capitães puzeram ef- 
ta de D. Paulo , e mais não foram caíliga- 
dos ; porque ao outro dia , eftando D. Pau- 
lo furto na bahia, appareceo a Armada de 
Canatale , o qual vinha já dacofta do Nor- 
te carregado de prezas que nella fez , e foi 
o primeiro que a ella paífou : o qual vendo 
os noflbs navios , virou Jogo a elles. D.Pau- 
lo eílava já preítes ; porque tanto que os 
vio , logo fe preparou , e chegou os outros 
a li ; e quiz fua boa fortuna que tinha ain- 
da toda a gente dentro nos navios , por fer 
manha cedo ; porque fe tardaram huma ho- 
ra , não faziam mais que chegar, e dar toa 
aos navios , porque já os foldados haviam 
de fer defembarcados : e certo que fegun- 
do a pouca difciplina da foldadefca da ín- 
dia , he mais trabalhofo a feus Capitães 
domar-lhes feus appetites , que desbaratar 
feus inimigos , porque efes vencem^fe com 

as 



12 ÁSIA de Diogo de Couto 

as armas ; e aos foldados nem com ellas$ 
nem com a razão fe podem domar. D. Pau- 
lo 3 tanto que efteve preparado , fahio ao 
inimigo , porque não quiz dar-lhe animo , 
e cuidarem que o receava; chegando perto 
huns dos outros , deram a primeira falva 
de artilheria , de que os inimigos recebe- 
ram a peior, porque D.Paulo levava hum 
fermoíb camalete com huma roca de feixos 
na boca , o qual difparando-fe , efpalhou- 
fe a roca pelos navios que vinham juntos , 
nos quaes fez tão grande deílroço , e ma- 
tança , que logo os noííos o íen tiram no 
como ficaram divididos , e embaraçados ; e 
todavia o Canatale , como era esforçado , 
virou aos noífos , e elle , e outros dous a- 
bordáram á galeota de D. Paulo, e osmaiè 
aos três navios , dos quaes hum fó aturou , 
que foi o de Bento Caldeira, que logo foi 
abrazado , e todos os noífos mortos ; e os 
outros dous puzeram o remédio no remo , 
e fe foram acolhendo , e também não fo- 
ram depois caítigados , fenão com quatro 
dias de prizão , o que tem feito na índia 
grandes males ; porque o não temerem o 
caíligo , lhes faz temer tanto a morte. O 
Canatale , que abordou D. Paulo , cuidou 
que nas primeiras pancadas o levaíle , mas 
enganou-fe; porque como elle, e todos os 
feus viram que os remédios de fuás vidas 

ef- 



Década VIII. Cap. II. rj 

eílavam em fcus braços , tantas maravilhas 
fizeram nas armas os noílbs fincoenta Tol- 
dados , ou Heótores y que com morte de 
mais de duzentos Mouros os fizeram apar- 
tar y tendo elles já derrubado dos noflbs mais 
de trinta de efpingardadas , e de outras fe- 
ridas ; e ao afaítar-fe deram huma bombar- 
dada a D. Paulo por huma coxa , que lhe 
foi forçado aíTentar-fe na coxia , por fe não 

f>oder ter em pé , tendo recebido quatro 
rechadas em feu corpo ; e vendo os Mou- 
ros afaftados , não fez termo algum , em 
que os inimigos fentiílem que os receava , 
antes fempre lhes foi virando o rofto , co- 
mo quem efperava por elles. O Canatale 
afaílou-fe com osfeus navios bemdeílroça- 
dos ; e fallando com os Capitães , lhes dif- 
fe, que pareceria covardia irem-fe íem le- 
varem aquella galeota , que já não eílava 
pêra fe defender: que ellc voltaria a ella y 
que quem o quizeíle feguir, ofizeíTe, e af- 
nm viraram todos com elle. D. Paulo de 
Lima bem tinha entendido , que os inimi- 
gos haviam de tornar a elle y pelo que fe 
preparou 5 e esforçou os feus , e prometteo 
muito dinheiro aos marinheiros , pêra que 
não largaífem os remos das mãos : e man- 
dou repartir as lanças por alguns efcravos 
que havia na galeota , e pollos em ordem 
pelas perchas, pêra que viífeni os inimigos 

que 



14 A SI A dê Diogo de Couto 

que ainda havia gente pêra fe defender: e 
mandou aos marinheiros que foffem reman- 
do contra os inimigos , e que elles , e os 
Cafres deíTem grandes gritas ; e ao feu Tam- 
bor que tinha apar de íl , mandou que to- 
caíle a -batalha, como fez: e affim com ef- 
tas carrancas , e eftrondos foi commetten- 
do os inimigos , que vendo aquella deter- 
minação , voltaram logo , nãooufando aef- 
perar aquella fúria ; e o mais certo he , que 
o permittio Deos aífim , por ter guardado 
efte Fidalgo pêra outras coufas maiores : e 
aílim fe foram acolhendo , ficando os nof* 
fos com a vidloria , e curando-fe. D. Pau- 
lo , e os mais 5 o melhor que puderam > de- 
ram á vela pêra Goa , onde entraram ao ou- 
tro dia : e foi D. Paulo tirado nos braços 
de todos os Fidalgos que acudiram , e le- 
vando-o a cafa deMartim Affonfo de Mel- 
lo , aonde o Vifo-Rey o foi vifitar 3 e lhe 
diífe palavras de muitas honras , e depois 
acudio com obras, mandando-lhe muito di- 
nheiro : efoi viíitar osfoldados, que fe re- 
colheram aoHofpital a curar, e a cada hum 
per íl diífe muitos louvores , e lhes mandou 
dar dinheiro ; porque na guerra o Capitão 
ha de ter palavras , e obras , que he o que 
anima aos homens mais que tudo. 

CA* 



Década VIII. Cap. III. j$ 

CAPITULO IIL 

Torna a continuar o grande cerco da Cota. 

NAo aquietava o tyranno Rajú com o 
intento em concluir com a Cota , ou 
com Columbo ; que qualquer delles que to-» 
maíTe, logo o outro fe lhe entregaria , e ha- 
veria EIRey D. João ás mãos , pêra ficar 
Senhor de toda aquella Ilha; eaííim fazen- 
do feus diícurfos , e dando fuás traças , de- 
terminou fazer por ardis o que não podia 
por força ; e pcra efte eíFeito ajuntou hum 
grande exercito com muita artilheria > e mu- 
nições , e deitou fama que hia fobre a Co- 
ta , porque fe defcuidaíTem. os noíTos de Co- 
lumbo , para o tomar defapercebido , eha- 
velío ás mãos : e aílim com aquella maqui- 
na appareceo fobre a Cota aos £ dias de 
Outubro, e fe aíTentou com todo o exerci- 
to no mefmo lugar, em que da outra vez 
efteve, por lhe ficar Columbo mais perto. 
Eftava ao tempo que elle appareceo fobre 
aquella Fortalleza, Pedro de Ataíde nella, 
que tinha já ido a vifitar ERey, deixando 
em feu lugar por Capitão de Columbo D. 
Diogo de Ataíde. Vendo Pedro de Ataíde o 
inimigo , e achando-fe defapercebido , e fem 
mantimentos baftantes pêra o cerco que ef- 

pe~ 



i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

perava , ordenou-fe na melhor forma que 
pode pêra o receber , e fe fortificou por on- 
de lhe pareceo neceííario , e defpedio reca- 
do pelo mato a D. Diogo de Ataíde, que a 
proveífe cada vez que pudeffe de mantimen- 
tos, porque lhe haviam de fer neceflarios; 
e fazendo alardo da gente que tinha , achou 
trezentos foldados entre velhos , e enfer- 
mos, e nenhuma gente de EIRei , por lhe 
ter toda fugido pêra os inimigos , por ar- 
dil que pêra iffo teve o Rajú : e repartio 
os lugares de maior rifeo pelos Fidalgos , 
e Capitães , que alli havia , por efta manei- 
ra : Gafpar Pereira de Lacerda á entrada 
da Cota com trinta homens , António Car- 
dofo Soeiro em hum paíTo defronte dehu- 
ma Ilheta, que alli fazia o rio, que fe cha- 
mava dosDefafios, porque peraella fedef- 
afiavam os foldados , Manoel Lourenço em 
hum paíTo que chamam dos Mofquitos , João 
de Mello de Ataíde nopaífo de André Fer- 
nandes, Ayres Ferreira , fobrinho de Pedro 
Ferreira de Sampayo , no paílb dos Pachas , 
Henrique Moniz Barreto no muro da pri- 
meira Cota, ondeeítava por Capitão Fran- 
cifeo Gomes Leitão , João Corrêa de Brito 
no paílo dos Mainatos : com o Capitão fi- 
caram alguns Fidalgos , e Cavalleiros , pêra 
acudirem com elle , e com EIRey , onde 
foífe mais neceíTarip : eftes foram hum D, 

Fran- 



Década VIIL Cap. III. 17 

Franciico de Noronha , que me não foube* 
ram dizer mais delle , Rodrigo Furtado i ir- 
mão do Governador André Furtado i hum 
foão de Ataíde Lerma , Francifco de Ma- 
cedo, que ainda hoje vive em Cochim Fra- 
• de da Ordem Terceira de S. Francifco , ho- 
mem muito honrado , e que neíle cerco fez 
grandes cavallarias , e Gafpar Gonfalves 
Meftre Capitão dos Inhames muito conhe- 
cido, e outros de que não tive noticia. O 
Raju foi continuando o cerco com toda a 
fua potencia , e defendendo que não vief* 
fem mantimentos aos nofíbs , que já eíla- 
vam em extrema neceihdade. O Capitão do 
campo do Rajú , que por fua linguagem lhe 
chamavam Bicarnaílnga , de algumas vezes 
que D* Diogo de Ataíde mandou manti- 
mentos á Cota , fempre fe encontrou com 
fua gente , que o desbaratou , de que elle 
eftava tão defconfiado 5 que mandou defa* 
fiar D. Diogo pêra fe verem ambos noAm- 
bolão , que lie o meio do caminho de Co- 
lumbo pêra a Cota : o que D. Diogo lhe 
acceitou , e aprazou o tempo pêra dalli à 
três dias , do que mandou avifar a Pedro 
de Ataíde Inferno, o qual no dia limitado 
fahio da Cota com cento e íincoenta ho- 
mens , e mandou dous Fachas homens dos 
matos, pêra que foílem defcubrír o inimi- 
go , e faberem a gente que tinha 7 pêra o 
Couto. Tem.P\ P*L B tor^ 



18 ÁSIA de Diogo de Couto 

tornarem a avifar ; e que não achando o Bi- 
carnaíínga , paíTaífem a Columbo , e diífef- 
fem a D. Diogo de Ataíde , que fe abalaíTe 
com os mantimentos que pudeíTe , porque 
elle o efperava no Outeirinho das Pedras , 
meia légua da Cota. Eftes Pachas paflaram 
a Columbo 5 e differam a D. Diogo que o 
Bicarnaíínga não apparecia 5 nem havia gen- 
te alguma no caminho. Com eílas novas fa- 
hio de Columbo hum cafado Capitão de 
vinte homens fem ordem de Capitão , o qual 
fe chamava João Rodrigues Pé furado , e 
trouxe comfigo humArache chamado Fran- 
cifco de Almeida com vinte e finco Lafca- 
rins y e levou comfigo alguns mantimentos 
£era deixar na Cota; e fazendo feu cami- 
nho tanto avante como huma arvore, que 
chamam Carcapuleira , encontraram com to- 
do o poder do Rajú , que efperava por D. 
Diogo , e deram nelle , e o cercaram , e 
mataram o Pé furado com dez Portuguezes , 
e aoArache, e Lafcarins , e lhes tomaram 
a fardagem ; pelo que fempre fufpeitou D. 
Diogo , e Pedro de Ataíde que os Pachas 
foram peitados do Rajii. 

Pedro de Ataíde teve onde eílava avifo 
do que paliava , pelo que fe foi recolhen- 
do pêra a Cota quafi por força , porque o 
fizeram recolher os Capitães que levava, 
porque defejcu ir dar noRaju. Eílando as 

cou- 



f Década VlIL Cap. ÍIL 19 

coufas nefte eftado , coiíio o Pvajú eftavá 
com o dlho em Columbo , dalli a oito dias 
que iílo paíTou ., levantou huma noite o ex- 
ercito , e foi marchando contra Columbo ^ 
porque havia que ò tomariam defcuidado^ 
de que logo Pedro de Ataíde foi avifado y 
e deípedio com muita preíTa a Nuno Fer- 
nandes de Ataíde , e a Pedro Juzarte Ti- 
ção com quarenta foldados , pêra por ca- 
minhos delviados fe irem metter em Co- 
lumbo. O Rajú chegou fem fer fentido á- 
quella fortaleza 5 e logo a cercou , e a com- 
metteo toda á roda com muitas eícadas , que 
pêra iílb levou , e fe puzeram em íima da 
cerca mais de ddus mil ; mas D. Diogo de 
Ataíde , que não eftava defcuidado , acudio 
com D. Martinho de Caftello-branco , e ou- 
tros Fidalgos , e Cavalleiros ; e dando nos 
inimigos 3 mataram muitos , e outros fize^ 
ram lançar dos muros abaixo ; mas o Raju 
ácudio alli , e tornou-os a commetter com 
grande determinação , fobre o que metteo 
toda a fua potencia, andando elle einpef- 
iba fazendo chegar os feus , que trabalha- 
ram tudo quanto puderam por tornar a ga- 
nhar os muros , que os noffos lhe defen- 
deram com muito valor ; e taes cavallarias 
fizeram , que obrigaram áo Rajú a f etirar- 
fe , por vir amanhecendo , ficando-lhe de 
redor dos muros mais de quinhentos mor- 

B ii tos, 



io A S I A de Diogo de Couto 

tos y afora grande fbmma dos feridos que 
levou comílgo* Os que hiam da Cota de 
foccorro , chegaram áquella Fortaleza a tem- 
po que já o Rajú fe hia recolhendo > e fe 
mettêram dentro. 

Vendo-fe o inimigo tão contraftado 5 e 
com tanta perda , e alfronta obrigado a a- 
faftar-fe daquelles muros , ficou como dou- 
do , e poz em lua vontade de levar aquella 
guerra por outro rigor , que era matar os 
noílbs á fome, cpera iílb fe tornou contra 
a Cota , e cercou todo o caminho de mar 
a mar defde Mapano até o Matual , com 
o que os noíTos ficaram de todo defconfia- 
dos de foccorro , nem Nuno Fernandes de 
Ataíde com os mais puderam tornar-fe de 
Columbo. O Rajú andava doudo; e traçan- 
do modos , com que pudeífe concluir aquel- 
le negocio , aífentou que o melhor feria , 
ainda que foífe a puro trabalho, divertir o 
rio , que cercava a Cidade por muitas par- 
tes , pêra aífim a pé enxuto poder entrar 
nella, e pêra iífo mandou ajuntar hum gran- 
de numero de gaítadores , com que come- 
çou a pôr as mãos á obra , coufa que aca- 
bou de defconfiar os noííos. Os foldados y 
que eftavam daquella banda , que eram trin- 
ta , fentindo o rumor da obra , deram nos 
inimigos , e mataram huma grande fomma 
dos gaíiadores , e lhes tomaram huma em-* 

bar- 



i 



Década VIII. Cap. IIL ii 

barcaçao chamada Catapanel ; e acudindo 
Pedro de Ataíde Inferno , mandou metter 
nella fmcoenta foldados de efpingardas , 
com os quaes fe embarcou o Padre Fr. Si- 
mão da Nazareth de S. Francifco , pêra os 
animar, e confolar, os quaes chegaram á 
parte, por onde os inimigos começavam a 
abrir , e ás efpingardadas derrubaram hum 
grande numero , e tornaram a entupir a- 
quelia parte. 

Aqui aconteceo hum grande milagre, 
que foi em quanto os noflbs andaram nefta 
obra , os cercou hum nevoeiro mui efpef- 
ío , que totalmente os encubrio todos aos 
inimigos , ficando elles muito deícubertos 
aos noflbs , que nelles fizeram grande dei- 
truiçao , derrubando-lhes trezentos , que alli 
ficaram , afora muitos que fe recolheram fe- 
ridos. Ifto durou até ao meio dia , que fe 
acabou de entupir aquelle lugar , e que os 
noflbs fe recolheram fem receberem perda 
alguma, nem ainda dehuma pequena feri- 
da. Cuftou ifto tanto ao Rajú , que nunca 
mais quiz commetter aquelle negocio , e fi- 
cou aííim no mefmo lítio , defendendo os 
mantimentos , que os noflbs , por totalmen- 
te carecerem deli es , mandou o Capitão ma- 
tar dous elefantes de EIRey , com que fe 
foi entretendo alguns dias , e iflb mefmo fez 
a hum cavallo ; e com iflb deram os noflbs 

nos 



22 A S I A de Diogo de Couto 

nos cães, e gatos da Cidade, enao lhes e£ 
capou hum íó, nem ainda outras fevandi* 
lhas da terra , de maneira que efgotáram 
tudo. Os noflbs que eftavam no baluarte do 
paffo da terra , vendo-fe em extrema necef- 
íidade , mandaram alguns fervidores ao ma-^ 
to afazer lenha, e buícar hervas pêra co- 
merem : eftes fouberam qye eftavam mui- 
tos inimigos com alguns elefantes embre- 
nhados junto de huma arvore, que fede á 
çugidade de gente, e tão medicinal pêra o 
ar, que em breve efpaço faz grandes effei-* 
tos moída 5 e untada nas partes lefas : e 
em minha cafa fe experimentou ifto muitas 
vezes ; e poíto que também ha eftas arvo» 
res nas terras vizinhas a Goa , todavia efta 
de Ceilão tem mais virtude. 

Deita gente avifáram os fervidores ao 
Capitão , o QUál fahio da Cota com oitenta 
íòldadcs , e foi-fe metter na cava velha , que 
não tinha mais que hum fó paíTo muito ef- 
treito, e de ambos os lados era tudo alaga-r 
diço , com o que o lugar ficava muito forte , 
e feguro a todo o poder que vieíTe, Dalli 
mandou Balthafar Paçanha com trinta fol- 
dados , pêra ir pelo mato a defeubrir os ini- 
migos j e fendo a tiro de efpingarda , deo 
com o poder do Rajú, que eftava embof-? 
çado , com intento de tomar o noílb balu-* 
grte, que eftava pêra aquella parte ., porfer 

o 



Década VIII. Cap. III. 23 

o mais importante de toda a Cota. Os nof- 
fos que fe acharam no meio daquella mul- 
tidão de inimigos, voltaram pêra o -Capi- 
tão, indo já o inimigo íbbre elles , perfe- 
guindo-os com a fua arcabuzaria , e chega- 
rão ao Capitão com hum foldado meno6 , 
chamado António Martins, natural de Ar- 
ronches 5 muito bom cavalleiro; e já quan- 
do fe recolheram na cava, hiam tão aper- 
tados dos inimigos , que quaíi eftiveram en- 
trados de volta com elles. O que vifto pe~ 
los noflbs foldados , fem ordem do Capi- 
tão , fahíram a elles com hum furor efpan- 
tofo ; e dando nos inimigos , fizeram n el- 
les hum muito grande eftrago ; e com não 
ferem mais que oito os que lhes fahíram , 
os foram levando diante de íi como carnei- 
ros até ao corpo do exercito , donde fe tor- 
naram a recolher em muito boa ordem ; mas 
nâo tanto afeufalvo, que não vieífem to- 
dos feridos , ficandc-lhes morto hum com- 
panheiro chamado Diogo de Mefquita , os 
mais, que fe chamavam Gafpar Fernandes 
de Aguiar, Pedro deSoufa, António Lou- 
renço , Pedro Ribeiro , António Dias , Pe- 
dro Pires o Rume , pelo fcr de nação , e 
Cofmo Gonfalves. Pedro de Ataíde ficou 
alli até o Rajú fe retirar para o feu arraial , 
jí ás quatro da tarde. Succedeo iíto dous , 
ou três dias antes do Natal , e que já na 

Co» 



^\ A S I A de Diogo de Couto 

Cota não havia nem hervas do mato , que 
até eíías não podiam ir bufcar ; pelo cjue 
defpedio o Capitão dons foldados , Antó- 
nio da Silva , e João Fernandes o Desbar- 
bado com recado a D. Diogo de Ataíde da 
fumma miferia , em que eftava , os quaes 
foram pelos matos ter a Columbo *, e faben-* 
do D. Diogo o eílado , em que ficavam, 
defpedio humPacju com recado a Pedro de 
Ataíde, que pela cofta do mar, pela ban- 
da de fora mandaria algumas embarcações 
de arroz até ao palmar de EIRey , que fe- 
ra de Columbo três léguas , que mandaífe 
lá bufcar ifto. 

E logo defpedio os mefmos foldados 
çom hum batel , e dous tones com dez can- 
dís de arroz , e vefpera de Natal pela ma- 
nhã teve o Capitão o recado de D. Diogo, 
e no mefmo dia no quarto da Prima delpe- 
dio Francifco Gomes Leitão com cem foi- 
dados , e com alguns Lafcarins práticos ra 
terra , pêra irem recolher aquelle mantin 
mento : o que elle fez com muito rifco , e 
trabalho , e logo voltou com o arroz , e ao 
Quarto da alva chegou meia légua da Co- 
ta , onde achou o Capitão com toda a gen- 
te da Cidade , que o eftava efperando , e 
çom grande alvoroço fe recolheram á Ci- 
dade ; e cuidando o Capitão que tinha ar- 
roz, achou-fe copi muito pouco , porque os 

foi- 



Década VIII. Cap. III. 25- 

foldados o deixaram efcondido pelo mato , 
pêra depois o irem bufcar , do que fe in- 
dignou tanto o Capitão , que r arrancou da 
efpada , e remetteo a Francifco Gomes Lei- 
tão pêra o matar ; e o fizera , fe o Padre 
Fr. Simão de Nazareth fe não mettêra no 
meio: epor aquella diligencia entregaram 
os foldados o arroz que tinham efcondido. 
Com eíte pobre mantimento , e provimen- 
to pagaram alguns dias com muita regra; 
c acabado elle, pela gente fer muita, tor- 
naram ás fomes mortaes , pelas quaes al- 
guns foldados determinaram defepaífar ao 
Rajú, porque a fome, efrio, diz o rifão, 
te fará metter com teu inimigo. 

lílo era fim de Janeiro de 1565. quan- 
do os noífos fe viram no extremo das ne- 
ceílidades ; e paliando por huma rua hum 
Francifco de Macedo, encontrou com ou- 
tro foldado , chamado Luiz Carvalho , da 
obrigação do Conde do Prado , que andava 
paífeando muito penfativo ; e chegando-fe 
o Macedo a elle , lhe perguntou , que pen- 
famentos eram aquelles , com que andava? 
O Carvalho , olhando pêra elle mui infla- 
do , lhe refpondeo , que ou Deos fallava 
delle , ou o demónio : o Macedo lhe tor- 
nou a dizer , que fe lhe defcubrifte , por- 
que bem entendia os cuidados , em que an- 
dava, Tornou-lhe a dizer o Carvalho , que 

J á 



26 A S I A de Diogo de Couto 

já lhe havia de defcubrir tudo : e logo lhe 
contou, como humfoldado filho da índia, 
chamado Fernão Caldeira , andava convo- 
cando alguns homens pêra fe paliarem ao 
Rajú : e que já tinha quarenta negociados , 
pêra huma noite fe paliarem pelo palio de 
António Cardozo Soeiro: eque fe haviam 
de paíTar á outra banda , e levarem hum 
camelete de metal que eítava no paífo : e 
que elle eítava apoítado a fe ir com elies ; 
porque o Rajú mandara lançar naquelle paf- 
fo , e nos outros olas , pêra que quem fe 
quizefíe paífar pêra elle , o recolheria , e 
teria comílgo muito mimofo ; e que os que 
fe quizeílem paliar á Fortaleza de Manar, 
os deixaria ir livremente , e os proveria do 
neceíTario : e defces ardis ufou fempre elle 
Tyranno , e por elles fez paíTar toda a gen- 
te de ElFvey pêra o feu exercito. 

O Francifeo de Macedo , que era mui- 
to bom homem , tomou Luiz Carvalho , e 
o levou coinfigo, epelo caminho ofoidef- 
viando daquelle propoíito , e dando-lhe mui- 
tas razões, pêra hum homem tão honrado 
não haver decommetter hum cafo tão abo- 
minável , e diabólico ; porque indo com o 
penfamento por diante , logo aquella For- 
taleza era perdida , e daria de tamanho mal 
muito larga conta a Deos : e de pratica em 
pratica o levou até onde eítava o Padre Fiv 

Si~ 



Década VIII. Cap. III. 27 

Simão da Nazareth , e perante elle lhe cleo 
conta do cafo , que o Padre ouvio com gran- 
de dor, e fen ti mento ; e tomando a Luiz 
Carvalho pela mão, o abraçou muitas ve- 
7es , e confolou , e animou ; e tantas cou- 
fas lhediffe, movendo-lhe Deos a lingua, 
que o rendeo , e confeflbu feu peccado ; e 
deixando Francifco de Macedo com Ma- 
noel Lourenço , Capitão do feu baluarte , 
fe foi ao Capitão com Luiz Carvalho , e lhe 
relatou o cafo todo , e o que eftava orde- 
nado entre aquelles foldados. Pedro de Ataí- 
de poz os olhos nos Ceos , e deo grandes 
louvores a Deos noíTo Senhor de fedefeu- 
brir aquelle negocio , no qual eftava a per- 
dição daquella Fortaleza , fe fenão defeu- 
bríra : e abraçou muitas vezes a Luiz Car- 
valho , dizendo-lhe palavras de muita hon- 
ra, efazendo-lhe muitos cumprimentos : e 
logo alli mandou chamar a Fernão Caldei- 
ra , cabeça do negocio ; e apartando-fe com 
elle , o aviíou do cafo que tinha ordena- 
do , e fobre elle lhe fez huma falia , em 
que -lhe lembrou a obrigação que tinha a 
morrer pela Santa Fé Catholica , pois era 
Chriílão velho , creado , e fuftentado com 
o leite da Santa Igreja Catholica: que cila 
obrigação era fobre todas, e a de feu lan- 
gue : bem entendia que lhe havia de repy* 
gnar ir em aquella lua defefperação avan- 
te: 



18 A S I A de Diogo de Couto 

te : que Deos era grande , e que nos maio- 
res trabalhos foccorria os feus : e tantas cou- 
fas lhe diíle deftas , que fe lançou a feus 
pés com grandes moftras de arrependimen- 
to ; e levantando-o o Capitão , o abraçou , 
•e coníblou , e lhe prometteo , que fe efca- 
paíle dalli , que havia de trabalhar pelo fa- 
zer honrado : e ailim ficaram tão amigos, 
que fempre o trazia o Capitão a par de 11 ; 
e por não fazer reboliço naquelle cafo, não 
quiz fallar com os mais foldados da par- 
cialidade , antes fez que o não fabia. E por- 
que não havia dinheiro na Fortaleza , cha- 
mou o Capitão dos Inhames , que era ami- 
go de todos os foldados , e lhe deo huma 
efpada fua de prata, e adaga , e talabarte, 
pêra que o desfizeífe em larins , por haver 
alli officiae^ diíTo , e que déííe a Fernão Cal- 
deira a maior parte , e que o mais repar- 
ti fle pelos foldados ; e todavia mandou ter 
grande guarda nos paífos em fegredo , por 
não entenderem que fe ficava receando dei- 
les , pelos não metter em defconfianças , 
nem entre elles houve mais algum movi- 
mento. 

Jorge de Mello o Punho , que eftava por 
Capitão em Manar, fabendo o aperto , em 
que eftavam os da Cota, perfuadio ao Rey 
de Cândia, que já era Chriftao , e fe cha- 
mava também D. João como o da Cota, 

P e ~ 



Década VIII. Cap. III. 29 

pêra que mandaííe gente.,- que entraíle pelas 
terras do Rajú , que também era feu inimi- 
go , pêra o obrigar a acudir ás lixas terras , 
e que aílim defapreílaria a Cota. Fácil foi 
de acabar iflb com elle , porque eram ini- 
migos mortaliííímos elle , e o Rajú : e logo 
com brevidade defpedio o feu Capitão de 
campo , que fe chamava D. Affoníb , com 
íinco mil homens , e com elle foi Belchior 
de Soufa , o qual o Vifo-Rey mandou com 
D. Affonío áquelleRey, como pareceo ao 
Guarda Mor. 

Eftes Capitães entraram pelas terras do 
Rajú , e as foram pondo a ferro , e a fogo, 
até chegarem á Cidade deChilão, que era 
muito grande , e a deftruíram de todo. Ef- 
tas novas chegaram ao Rajú, que as fentio 
muito , e determinou de apertar com os nof- 
fos , e concluir aquelle negocio com todo o 
rifco feu que pudefle , e mandou preparar 
fuás gentes , e elefantes , e maquinas , pêra 
dar o derradeiro aííaito pela banda da pri- 
meira Cota : e o dia de antes mandou o Rajú 
huma carta ao Capitão , na qual lhe pedia , 
e aconfelhava ., que lhedefpejaífe a Cidade 
da Cota 5 e elle com EIRey , fato , e arti- 
Iheria fe paííaíTem livremente a Columbo : 
e que não iníiftiíTem a morrerem todos de 
fome j porque bem fabia o eftado , em que 
eftavam por falta de mantimentos , febre o 

<jue 



30 A S I A de Diogo de Couto 

que lhe tinha já de antes efcrito duas ve-* 
zes , ou três ; mas defta foi com mais liber- 
dade , e offerecimento. A efta refpondeo ao 
Rajú , que em quanto elle ouviífe íbar os 
•feus tambores ; e elles tiveíTem pelles , e os 
çapatos folas pêra comerem , fe havia de 
iuítentar 5 mas depois que fe acabailem , e 
as neceífidades apertaílem com todos , que 
iriam bufcar mantimentos ao feu arraial , e 
que lhe não vinha bem ter taes hofpedes 
em fua cafa. 

Ficaram os noíTos aíTim no derradeiro 
extremo , fem haver que comer , até aos on- 
ze dias de Fevereiro , que foi hum Domin- 
go ; e fendo três horas da tarde 3 chegou 
huma mulher Chingalá ao baluarte da pri- 
meira Cota , e bradou que lhe abriflem, 
que relevava fallar com o Capitão, a qual 
foi recolhida dentro ; e levada a elle, lhe 
diííe ', que fe preparaíle , porque aquella 
noite lhe havia de dar o Rajú o derradei- 
ro aíTalto por todas as partes da primeira 
Cota , 110 qual havia de metter toda a fua 
potencia. Houveram todos que a chegada 
defta mulher fora do Anjo da guarda da- 
quella Fortaleza , que os veio avifar daquel- 
le negocio. Ifto conta Francifco de Mace- 
do na relação que me mandou 5 mas o Ca- 
pitão dos Inhames mediíie muitas vezes, 
que aquella mulher eftava ., ou eftivera aman- 

ce- 



Década VIII. Cap, III. 31 

cebada com hum foldado noíTo , a quem 
queria bem ; a qual vendo o rifco , em que 
a Fortaleza eílava, o fora avifar , com de- 
terminação de ver fe o podia falvar , acon- 
tecendo algum defaltre á Fortaleza, e que 
efte foldado a levara ao Capitão: em fim , 
como quer que foíle , eila pareceo encami- 
nhada por Deos pêra vir dar aquelle avifo. 

O Capitão logo defpedio pêra Colum- 
bo a António da Silva, que ja lá fora al- 
gumas vezes, pelo qual mandou dizer a D. 
Diogo de Ataíde , que aquella noite , tan- 
to que ouviífe bombardadas , fe abalalle de 
Columbo com toda a gente , e foíle dar 
pelas coitas ao inimigo, que havia de eftar 
embebido no aífalto , que pertendia dar pe- 
la primeira Cota , o qual logo mandou pro- 
ver de muitas munições , armas dobradas ; 
e elle em peífoa com os que o acompanha- 
ram , e com EIRey , fe mettêram em hum 
dos baluartes da primeira Cota , por onde 
fe podiam mais recear. 

O António da Silva chegou a Colum- 
bo ainda de dia, e achou alli já Jorge de 
Mello Capitão de Manar , que com cem 
foldados tinha chegado o dia de antes pê- 
ra íoccorrerem os noífos ; e ouvindo o re- 
cado, logo todos fe puzeram em campo, 
pêra fe partirem de noite ; e D. Diogo man- 
dou difparar hum camelete , que era o fi- 
nal, 



3 2 ÁSIA de Diogo de Coífro 

nal, que Pedro de Ataíde lhe mandou que 
fizeííe, perafaber fe chegara lá António d$ 
Silva , o qual fe ouvio muito bem em Co- 
ta, e ficou Pedro de Ataíde alguma couía 
aliviado; porque fabia muito bem ,. que ha- 
via de íer foccorrido , fem faber ainda da 
chegada de Jorge de Mello. 

Entrando o outro dia o quarto da alva , 
commetteo o Rajú a Cidade toda em roda. 
Elle em peííoa com o maior poder remet- 
teo com a primeira Cota , levando diante 
de íi os elefantes , pêra porem as teítas nos 
baluartes , que eram de madeira ; mas acha- 
ram tanto fogo , e tantos inítrumentos mor- 
taes , e nos poucos homens , que os defen- 
diam , tantas cavallarias , que pafmáram do 
que viram. O mais poder 9 com que com- 
metteo a Cidade em roda, foi paliar agen- 
te o rio por íeis partes em íima de eílei^ 
rocs mui grolTos de bambus; mas da outra 
parte acharam os noífos tão preíles , vivos , 
e expertos , que a feu pezar os detiveram 
com morte de muitos , porque fizeram o 
emprego da arcabuzaria muito á fua vonr* 
tade; e todavia hum palio foi entrado com 
morte de parte dos noífos ; e correndo a 
nova, acudia o Capitão com EIRey, e al- 
guns dos feus contínuos , e achando os ini- 
migos dentro no paíFo , remettêram a el- 
ks y e travaram de roílo a roíb huma cruel y 

e 



Década VIII. Cap. III. tf 

eefpantofa batalha, em que Pedro deAtaf 
de andou fempre diante de todos fazendo 
tantas cavallarias por feu braço , que pode- 
mos dizer que elle fó fez mais que todos ; 
e andando na maior força do furor, felhe 
defencabou a efpada , e lhe faltou fora da 
mão , depois de ter muitos inimigos mor- 
tos ; e remettendo com hum foldado , lhe 
tomou huma alabarda das mãos , eom que 
fe metteo entre os inimigos , fazendo bar- 
baridades, até os lançar outra vez fora do 
paílb j e poílo que elle fez muito , e pele- 
jou como valente Capitão que era, os que 
o acompanharam não fizeram menos valen- 
tias ; antes tantas coufas , que de cada hum 
fe puderam encher muitos capítulos; enão 
os nomeio , porque tudo o que poífo di- 
zer de hum , poílb dizer de todos , porque 
não fei couía em que algum fe avantajaffe 
dos outros* Nos outros paífos havia bem 
de neceíTidades \ mas os noíTos , rotos , e 
famintos , e os mais. deli es fem nome, fi- 
zeram em fua defensão tantas proezas , ca- 
vallarias , e eftragos nos inimigos , que foi 
efpanto. Em hum paífo , em que houve mais 
neceífidade , fe achou EIRey , que acudio 
alli pela grita , e brados que ouvio , e o 
fez como muito bom cavalleiro ; e o que 
nefte paflb mais finezas fez , foi Eftevao 
Obnfalves , Meftre , e Capitão dos Inhames i 
Couto. Tom.F. P.L C pe- - 



34 A S I A de Diogo de Couto 

Í>era o que ao chegar dos efteirões , pêra 
ançarem gente em terra , fe lançou elle em 
o rio , até fe envafar á meia perna , e dalli 
fez coufas como hum leão , eftando-o El- 
Rey vendo pafmado do que aquelle homem 
fazia : em fim elle , e a efpingardaria fi- 
zeram recolher aos inimigos com grande 
perda , porque ficou o rio naquella par- 
te , e em todas cheio de corpos mortos , 
e elle tornado em fangue. O Capitão dos 
Inhames , como vio os inimigos idos , fu- 
bio-fe ailima feito hum alarve ; e vendo-o 
EIRey , remetteo a elle , e o abraçou mui- 
tas vezes , e defpio huma roupeta de gram 
que trazia toda abotoada de ouro , e lha 
lançou nas cofias. Efte paíTo chama-fe o dos 
Pachas , em que eftavam derredor vinte ho- 
mens , pelo qual commettêram três mil, e 
podemos dizer que fó quatro foldados o de- 
fenderam a todos, o Capitão dos Inhames, 
que fe avantajou , os mais foram Ignacio 
de Gamboa Falcão , Pedro Pires o Rume, 
e outro , de que não me fouberam dizer o 
nome , e cada hum deli es fez coufas em de- 
fensão do paíTo , que nem Manlio na de- 
fensão do Capitólio, que era differ ente em 
fortaleza, as fez maiores. 

Em todos os paíTos havia trabalho ; e 
pofto que em todos fe ouviam clamores , e 
gritas, efefentia bradar porfoccorro, nin- 
guém 



Década VIII. Cap. ÍIT; tf 

guem fe movia de feu lugar , que guarda- 
va , porque lho tinha affim mandado o Ca- 
pitão. 

Eftando a coufa nefte confli&o , chega- 
ram os dous Capitães D.Diogo de Ataíde, 
e Jorge de Mello com toda agente de Co- 
lumbo a Cota pela parte , onde eftava o ar- 
raial doRajú; eachando-o defpejado, de- 
ram-lhefogo, efe deixaram ficar alli, por- 
que não fabiam onde o inimigo eftaria , por- 
que era muito efcuro. Os nofíbs na pri- 
meira Cota tiveram muito trabalho , porque 
ao tempo que acudio o Capitão ao paíTo 
que eftava entrado , carregou o Rajú com 
todo feu poder , trabalhando tudo o que 
pode pela entrar ; mas foi-lhe muito bem 
defendida de ílncoenta foldados que havia 
naquella parte , que fobre iíTo fizeram al- 
tiífimas cavallarias , e tão grande eftrago 
nos inimigos , que fenão foram ajudados 
do braço Divino , não puderam efcapar á- 
quella fúria , e poder : e os nlefmos inimi- 

fjos difleram depois , que viram huma mu- 
her fermoííílíma , que com hum manto a- 
zul chegara áquellahora, e o eftendêra fo- 
bre os uoíTos , e os amparava daquellas nu- 
vens de frechas , e pelouros que cahiam fo- 
brè elles : e que a mefma mulher tomava 
no ar as fettas dos inimigos , e as tornava 
a lanhar fobre elles : e que também viram 

C ii hum 



cl 



36 A S I Â de Diogo de Comra 

hum homem velho veítido de vermelho ■$ 
que com hum baítao que trazia , fizera gran- 
des eítragos nos Chingalás : e affirmáram , 
que aquella Senhora com a fua viíta , e da- 
quelle venerável velho lhes caufára a to- 
os tamanho terror, que logo fe desbara- 
taram per íi ; e piedofamente podemos crer 
que efte velho era o bemaventurado , ecaf- 
to S. Jofé , que naqueíle tranfe acompa- 
nharia fua Santiífima Efpofa a Virgem San- 
tifíima noíTa Senhora. 

O Rajú , vendo o desbarate dos feus , 
e que vinha já efclarecendo a manha , afaf- 
tou-fe donde eílava , e fez íinal aos feus , 
que eftavam em outros paífos , os quaes lo- 
go fe recolheram defordenados por diffe- 
rentes caminhos ; e o Rajú , Tem tomar o 
do feu arraial , fe foi recolhendo peraCei- 
tavaca : e fem duvida que fe D. Diogo de 
Ataíde, e Jorge de Mello lhe fahíram nas 
coitas , que o acabaram de desbaratar de 
todo j mas elles , como fouberam de fua 
fugida, temendo-fe que foífe fobre Colum- 
bo , que ficava fó , fem fe verem com Pe- 
dro de Ataíde, fe foram com muita pref- 
fa acudir á fua Cidade. O Capitão Pedro 
de Ataíde , como fe vi o defalivado , lan- 
çou efpias afaber dos inimigos, que já ti- 
nham paílado o rio Calane , e foi correr 
todas as eltancias a e achou que nenhum £oU 

da** 



Década VIII. Cap. IIL 37 

dado morrera em todo aquelle combate 5 
fenão hum chamado Francifco Fernandes 
Gameiro : pelo que fahio fora ao campo , 
e achou aquelle eílrago nos inimigos , e fe 
julgou p afiarem de dous mil , aróra mor 
copia que fe recolheram feridos , de que 
morreram muitos ; e vendo que na Forta- 
leza não havia que comer naquelle dia , 
mandou aos foldados que recolheflem os 
mortos , pêra os falgarem em talhas , por- 
que fe o inimigo voltaífe , fe valefíem da- 
quella matalotagem : e aílim fe recolheram 
em breve efpaço quatrocentos , os mais gor- 
dos , fenao quando hum mulato chamado 
Fernão Nunes abrio logo alli hum , e lhe 
tirou os fígados , e os afiou , e comeo. O 
Padre Fr. Simão da Nazareth , vendo re- 
colher aquelles corpos, acudio com muita 
prefla ao Capitão , e lhe requereo , que não 
fe recolheflem os mortos , porque era cou- 
fa prohibida aos Chrifiãos comer carne hu- 
mana ; Pedro de Ataíde lhe difle , que em 
extrema neceflldade , como a em que elles 
eftavam , fe permittia aquillo ; e eftando 
neftes debates , chegou ao Capitão hum Ca- 
fre Chriftão , que vinha do arraial do Ra- 
jú , e lhe contou como fora desbaratado , 
e que já o deixava em Ceitavaca , com o 
que deíiítio daquella carniça , e mandou pôr 
o fogo a todos aquelles corpos. 

Dal- 



3 8 ÁSIA de Diogo de Couto 

Dalli a duas horas lhe chegaram deCo~ 
lumbo alguns mantimentos , e apôs elles 
D. Diogo de Ataíde , e Jorge de Mello , 
com todos os mais que puderam ajuntar, 
aos quaes todos fahíram a receber com tan- 
ta alegria , e alvoroço , como homens que 
áquella hora cuidavam que refuícitavam ; e 
entre tantas alegrias não faltaram invejas 
nos de Columbo deverem aqueíles homens 
tão debilitados , e fracos , terem obrado 
todas as cavallarias : e allim rotos , e def- 
figurados eílavam tão gentís-homens , que 
os puderam invejar todos os do mundo* 
Pedro de Ataíde foi-fe logo pêra Colum- 
bo a reformar, e deixou na Cota Francif- 
co de Miranda Henriques com alguns fol- 
dados dos que foram de Columbo , porque 
os da Cota foram também como Pedro de 
Ataíde a refaser-fe. Durou eíle cerco qua- 
tro mezes ; e os quarenta dias foram das 
fomes cruéis , em que não comeram mais 
que hervas , e ainda eíTas faltaram alguns 
dias , pela qual razão fe pode contar efte- 
cerco pelo mais famofo de todos os do 
inundo. 



CA- 



Década VIII. Cap. IV- ! 3? 
CAPITULO IV. 
Mogores entrados nas terras de Damão. 

NA entrada deite anno de iyó?. fen* 
do Capitão de Damão João de Sou- 
fa , entraram pelas terras três mil de ca- 
vallo , a maior parte de Mogores , dos quaes 
era Capitão Mir Mahamed , primo com- 
irmão do Trecbar , e outros doze com Ab- 
dulacan , que fora Rey do Mandare , que 
ambos andavam fugidos do Grão Mogor, 
porque lhes tomou o Reino do pai , e re- 
ceava-fe que também os mataíle. Atenção 
de virem fobre Damão foi pêra fe fazerem 
fenhores daquella Cidade , pêra nella fe for- 
tificarem contra o Mogor , porque o feu 
rendimento bailava pêra fuftentar três , e 
quatro mil de cavallo. João de Soufa Ca- 
pitão daquella Fortaleza , tanto que teve 
avifo de fua entrada pela gente que vinha 
fugida delles , logo defpedio recado a Goa , 
e ás Fortalezas do Norte a pedir foccor- 
ro ; e elle fe ficou fortificando o melhor 
que pode , porque então não havia muros 
mais que huns entulhos groíTos , e metti- 
dos nelles groíTos paos de teca , que efta- 
vam encadeados com hervas leiteiras , que 
fazem muito bom tapigo , e fe não podem 

ba- 



40 A S I A de Diogo de Couto 

bater com artilheria , nem chegarem a fe 
cortar com machados , porque qualquer go- 
ta do f eu leite que faltar nos olhos ., logo 
cega. Os recados fe deram em Baçaim , e 
Chaul , onde eftava por Capitão Trilião de 
Mendoça ? que logo negociou féis , ou ÍLCto 
•navios com duzentos homens , que lhe ro- 
garam pêra os levar : e hoje já nao ha quem 
os faça embarcar pêra eftas'neceífidades, 
nem com penas , nem com dadivas. O Vi- 
fo-Rey , tanto que teve o recado 3 foi~fe 
pôr no cães , e nao fe fahio delle, até ne- 
gociar quatro navios , de que foram por 
Capitais D, Fernando de Alarcão , D. Dio- 
go Pereira , filho baftardo do Conde da 
Feira 3 Ayres de Saldanha , que foi Vifo- 
Rey , e D. António de Cafíello-branco , 
baftardo daquella Cafa do Meirinho Mórj 
e defpedidos com muita prefla , em breves 
dias chegaram a Damão , achando já lá 
Triftão de Mendoça 5 e alguns navios de 
Baçaim , e o Capitão João de Soufa pres- 
tes pêra ir bufcar os inimigos. Deites Ca- 
pitães fez logo feifcentos ioldados de ef- 
pingardas , e cento e vinte de cavallos Ará- 
bios. Com toda efta fabrica fe paífou á ou- 
tra banda do rio; e chegando á povoação 
deCoulaca, teve avifo que os inimigos ef- 
tavam em Parnel , que feria diante três lé- 
guas j e ordenando-fe > foi em fua bufea, 

dan- 



Década VIII. Cap. IV. 4* 

dando a dianteira a Triftao de Mendoça, 
Capitão de Chaul , com trezentos homens , 
^ algumas peças de campo ; e chegando 
meia légua de Parnel de noite , defcançá- 
ram com grandes vigias , e no quarto da 
alva tornaram a marchar , e ao romper da 
alva houveram vifta dos inimigos , que ef- 
tavão ao longo de hum fermofo tanque. 
Triftao de Mendoça mandou logo recado 
a João de Soufa a lhe pedir licença pêra 
romper logo com elles , porque fe não or- 
denaíTem melhor : ao que lhe mandou di- 
zer , que fe folie detendo , porque a arti- 
■Iheria ficava atrás : e difto fez Triftao de 
Mendoça alto. Os inimigos tanto que vi- 
ram os noííos , como eftavam feguros de 
cuidar que os podiam ir bufcar , foi tal o 
feu medo , que não fizeram mais que fal- 
tar nos cavallos , e acolher em-fe , deixan- 
do o arraial com todo o feu recheio. Hum 
gentio danoíTa parte chamado Mapanoca, 
quando vio o defcohcerto , com que os ini- 
migos fe levantaram 5 adiantou-fe , e fubio- 
fe ao alto do tanque ; e vendo-os ir der- 
ramados , capeou aos noílbs , do que Trif- 
tao de Mendoça fe abalou; e chegando ao 
tanque, logo fe fenhoreou do arraial , que 
era muito grande, e rico ; e porque pare- 
ceo a João de Soufa que podia aquillo fer 
eftratagema dos inimigos ^ porque não po- 
dia 



4^ A S I A de Diogo de Couto 

dia imaginar que hum poder tão groflb fe 
desbarataffe por li fem golpe de efpada , e 
que faria aquillo pêra voltarem fobre Da- 
mão , que ficava fó , fem tomar defcan- 
ço voltou com toda a preífa que pode , e 
chegou áquella Cidade ao outro dia. Os 
inimigos roram-fe por caminhos defvia- 
dos , e fe recolheram a Cambaia , e alguns 
3era o Balagate ; e porque efte cafo não 
.\e bem que fique efquecido , o contarei 
brevemente. 

Parece que eftes Capitães Mogores dei- 
xaram em Surrate três , ou quatro criados 
fazendo alguns negócios , aos quaes en- 
commendáram partiíTem logo , porque den- 
tro em Damão os achariam; e partindo el- 
les ao outro dia , não encontrando a fua 
gente , que fe recolheo por outros cami- 
nhos , chegaram até ao rio de Damão ; e 
achando da outra banda a barca da paífa- 
gem , na qual andava hum Chriftão muito 
ladino , lhe perguntaram fe já lá eílavam 
os Mogores na Cidade : o barqueiro , en- 
tendendo-os , diíTe que já eftavam na For- 
taleza. Com aquelle alvoroço fem mais con- 
íideracão fe mettêram na barca , e defem- 
barcáram da outra banda com muita confi- 
ança. O barqueiro deo rebate aos da praia, 
que logo lançaram mão deUès , e os leva- 
ram ao Capitão , que fabendo o cafo , os 

man- 



Década VIII. Cap. V. 45 

tnandou entregar aos rapazes, que tiveram 
com elles hum arrazoado regozijo , e affim 
acabaram com fua fandice. 

CAPITULO V. 

António Teixeira com recado ao Grão Tur* 
co ? e vai com a refpojla ao Reyno. 

SEndo Governador da índia o Conde do 
Redondo, e Capitão de Ormuz D.João 
de Ataíde , eftava por Baxá em Baçorá hum 
Turco da obrigação de Ali Baxá , o da pri- 
meira porta do Turco Solimão. Efte Baxá 
chegando a Baçorá novamente , como era 
fagaz , e ardiloíb , deitou olho á terra , e 
ao commercio , e trato dos noflbs de Or- 
muz cora. aquella Cidade , que eftava quaíi 
roto , e perdido : quiz tornar a renovallo , 
pelo proveito que delle efperava , e com 
efte intento eícreveo a Ali Baxá , reprefen- 
tando-lhe o muito que fe perdia em terem 
guerra comnoíco , porque além da groífi- 
dão do proveito que fe podia eíperar da- 
quelle^commercio , podia vir a refultar ou- 
tro maior ao Eftado do Grão Senhor ; por- 
que como os Turcos começaiíem a tratar 
em Ormuz , pelo tempo em diante fe lhe 

}>odia abrir huma boa occaíião , com que 
ançaffem mão daquella Fortaleza , pelo 

def- 



44 ÁSIA DE DlOGô de Cotjtô 

defcuido que havia entre nós , e ainda fé 
podia coníiderar poder-lhe vir todo o fe- 
nhorio do Reyno de Ormuz , donde me- 
lhor poderiam confeguir a conquiita do Rey- 
no da Perlia. 

O Ali Baxá fez aquelle negocio tão fá- 
cil ao Turco , que lhe diffe o trataíle co- 
mo lhe pareceffe , e aífim o efcreveo ao Ca- 
pitão de Bácora , o qual começou logo de 
apalpar o Capitão de Ormuz , que lhe ref- 
pondeo , que fem ordem do Vifo-Rey da 
índia não podia elle fazer coufa alguma na- 
quelle negocio : que mandaffe elle huma 
peflba á Cidade de Goa tratar nefta maté- 
ria , e o que fe refolvefle , cumpriria in- 
teiramente : e com ifto defpedio o Baxá 
hum Arábio , o qual chegando a Goa , te- 
ve entrada com o Viío-Rey , e lhe propoz 
o negocio de feição , e tanto em noííb pro- 
veito , e utilidade do commercio , que lhe 
não pareceo mal ; com tudo lhe refpon- 
deo , que não affentaria coufa alguma na- 
quelle negocio fem faber a vontade do Grão 
Turco : que elle lhe mandaria huma peíToa 
grave de authoridade , com poderes pêra 
aífentar o que fe determinaíTe ; e pêra efta 
jornada elegeo António Teixeira , homem 
Fidalgo , que fabia a lingua Períia , e parte 
da Turquefca , e efcreveo huma carta ao 
Grão Turco fobre aquellas coufas. Efte An~ 

to* 



Década VIII. Cap. V. 45? 

tonío Teixeira partio de Ormuz efte ve- 
rão y em que andamos , fendo já Capitão 
D. Pedro de Soufa , e levou comíigo qua- 
tro Portuguezes de cavallo muito bem ne- 
gociados , e elle muito apparatofo , e po- 
lido de fua peflba , e foi dar a Baçorá , e 
de ahi pelo Eufrates até Babylonia , onde 
tomou cavalgaduras, em que foi até ornar 
maior , onde fe embarcou , e foi aportar 
na Cidade de Calata da outra parte de Conf- 
tântinopla , donde mandou recado a Ali 
Baxá , que ficou fobrefaltado , porque fora 
aquelle negocio tratado fem ordem do Grão 
Turco ; e foi neceflario dizer-lhe , que era 
chegado hum Embaixador de EIRey de 
Portugal por via da índia a lhe pedir pa- 
zes. Pelo que diífeRs. er o que Ali Baxá fez; 
com outros Baxás : e o dia que o havia de 
levar ao Turco, o metteo em fua camera, 
onde entrou levado por ambos os braços , 
e foi por ella efpaihando algumas moedas 
de ouro , como he coftume dos Embaixa- 
dores. Eftava o Turco fentado em hum ef- 
trado cozendo humas carapucinhas a mo- 
do de efcofias de quartos , como os Mou- 
ros trazem debaixo das toucas , coftume 
muito antigo dos Senhores da Cafa Otto- 
mana , ganharem por fuás mãos o que hão 
de comer, e os Baxás, e Grandes da Cor- 
te as comprão por muito dinheiro 7 de que 



46 A S I A de Diogo de Couto 

fe fazem as defpezas da fua meza; e dan** 
do-lhe o Turco audiência , lhe diíTe elle, 
como o feu Baxá mandara pedir pazes ao 
Vifo-Rey da índia , pêra fe continuar o 
commercio deBaçorá pêra Ormuz : ao que 
o Turco lhe refpondeo , que elle não pe- 
dia pazes a ninguém ; e fe EiRey de Por- 
tugal as quizeífe delle , mandaífe hum ho- 
mem grande da fua Corte a tratallas : e a£* 
Hm o efcreveo em huma carta mie lhe deo , 
e o mandou defpedir: e dalli fe paífou e£ 
te homem ao Reyno , e deo a carta ao Car- 
deal que governava , e fez relação do que 
paífou com o Turco ; e achou-fe a carta 
tão íecca , que fe calaram todos , e não 
quizeram mais bulir niífo. 

CAPITULO VI. 

Em que fe contimía o cerco de Cananor^ 
efuccejfos, que nelle houve. 

CHegadas as novas da morte de André 
de Soufa a Goa, que foi muito fenti- 
da , defpedio logo o Vifo-Rey D. Antão 
a D. António de Noronha , pêra ir aíTiílir 
alli em lugar de André de Soufa , como 
atrás temos dito. Os Mouros foram con- 
tinuando na guerra com grande importuna- 
ção j e mór cabedal > achando fempre em 

to* 



Década VIII. Cap. VI. 47 

todos os commettimentos em D, António 
de Noronha grande refiftencia , o qual não 
fe contentando de fe defender dentro das 
cercas , fez muitas fahidas aos inimigos, 
nos quaes por vezes lhes matou mais de 
dous mil Mouros , e lhes cortou mais de 
quarenta mil palmeiras , que era toda a fua 
lubílancia, e a mor guerra que fe lhes po- 
dia fazer : do que efcandalizados os Mou- 
ros convocaram todo o Malavar pêra aquel- 
la guerra , e affim fe ajuntaram de redor 
de cem mil delles , com tenção de efcala- 
rem a Fortaleza , e fizeram efcadas, man- 
tas , e outros petrechos , e affim tinham por 
certo que a haviam de tomar , de que hou- 
ve entre os Mouros grandes repartições das 
coufas delia ; porque o Aderaja refervou 
pêra íi a artilheria , outros a prata das Igre- 
jas , outros as cafas principaes dos cafados 
mais ricos com feus moveis : de maneira 
que não ficou coufa, que naotiveíTe dono. 
Nicoriguaripo , Jangada da Fortaleza , Nai- 
re da melhor bondade que houve outro , e 
fideliffimo aos Portuguezes , em toda efta 
guerra avifou ao Capitão de tudo o que fe 
movia entre os Mouros , o qual vendo a 
guerra , e groífo poder que traziam , e as 
maquinas , e petrechos pêra efcalarem as 
tranqueiras , teve modo com que mandou 
avifar a D. Payo de Noronha , dando-lhe 

con- 



48 A S I A de Diogo de Couto 

conta por carta do que eftava affentado en-* 
tre elles , e aconfelhando-lhe que fe reco- 
UieíTe tudo na Fortaleza, e não pertendeffe 
defender as tranqueiras , porque fe arrif- 
cava a perder huma coufa , e outra. 

Com eíta carta chamou a confelho os 
Capitães , e peífoas principaes , e lha leo , 
€ lhes pedio deífem livremente feus pare- 
ceres. Entre todos houve muitos differen- 
íes , convém a faber : o Capitão diífe , que 
o bom feria tomar o confelho de Nicori-^ 
goaripo , porque já fabiam delle fua ver-* 
dade , e lealdade , e que não havia de acon- 
felhar aquillo , fenão pelo que via : e que 
elle era de parecer que todos fe recolhef- 
fem na Fortaleza, que era a que fe havia 
de legurarj que nas tranqueiras de taipa , 
que cercavam a povoação de fora , hia pou- 
co , porque elle fó da Fortaleza tinha da^ 
do homenagem , e que eífa havia de traba- 
lhar pela defender. 

D. António de Noronha lherefpondeo, 
que a Fortaleza , roupa , e moradores da 
povoação podia mandar recolher ; mas que 
elle , e os foldados , que o quizeíTem acom- 
panhar , haviam de ficar de fora defenden- 
do as tranqueiras, porque não era elle ho- 
mem que de medo largaífe o que lhe era 
encommendado , nem aqu elles foldados , e 
cavalleiros haviam de querer outra coufa. 



Década VIII. Cap. VI. 49 

Vendo D. Payo de Noronha aquella re- 
foluçao , diiTe , que fizeífe o que lhe pare-* 
ceife naquella parte : e logo mandou reco^ 
Iher dentro alguns cafados , que moravam 
fora , com toda a roupa , e fazenda que ha^ 
via na povoação. D. António de Noronha 
fez preftes munições , petrechos , e coufas 

?[ue lhe pareceram neceííarias pêra fúa de- 
ensao , e também tratou da alma , como 
fizeram todos , que ffc confefsáram com os 
Padres de S. Francifco , que entre elles an- 
davam exercitando aquelie offició com mui-- 
ta caridade. O Capitão fe deixou ficar en- 
tre as portas da guarda com os mais mo-* 
radores , pêra recolher aos de fora , fe foíTe 
necefíario , e pêra dahi os prover de nun 
nições que mandou ter preftes : e toda a- 
-quella noite pariram todos em grande vi-* 
gia ? com as armas fempre íias mãos até co- 
meçar a claridade da manhã , que appare- 
cêram fobre aquellas tranqueiras aquellas 
nuvens de Mouros como de gafanhotos , 
que cubriam toda a terra , e com grande 
determinação remettêram com as tranquei- 
ras , e as rodearam de eícadas , pelas quaes 
muitos fubiam muito oufadameilte , fegun- 
do a grita j e labyrintho $ a que elles cha- 
mam coqueadas 5 tal que iífo fó pudera metH 
ter temor , e efpanto em todo 6 mundo* 
Neíle primeiro ímpeto fepuzeram emííma 
Couto. Tom.V. P.L D . mais 



yo ÁSIA dè Diogo de Couto 

mais de dous mil , e deram comíigo em 
baixo nos quintaes das cafas , que guarda- 
va Manoel TravaíTos , que tinha trinta Tol- 
dados , e dentro teve com os inimigos hu- 
ma afperillima batalha , em que mataram 
os noíTos a muitos delles. D. António de 
Noronha com a gente , que trazia de fua 
guarda , foi correndo as eílancias das tran- 
queiras , onde os noíTos andavam a braços 
com os inimigos ; e esforçou , e animou a 
todos de feição , que poílo que elles fa- 
ziam maravilhas, a viíla do feu Capitão os 
affervorou tanto , que pareciam leões famin- 
tos -j e houve alguns foldados , que liados 
com os inimigos , com os dentes ferravam 
nelles , e os efcalavravam muito. 

D. António chegou ás eílancias que de- 
fendiam Thomé de Soufa Coutinho , Gaf- 
par de Brito , e os dous irmãos Betanco- 
res , e achou a todos tão encarniçados com 
os inimigos , que não houve pêra que lhes 
fazer lembranças , fenao metter-fe entre el- 
les , e em. cada eílancia fazer maravilhas 
nas armas : e o eftrago que fe fez nos Mou- 
ros , foi grandiífimo , porque aflim os es- 
candalizaram j e feriram , que muitos fe 
lançaram das tranqueiras abaixo ; e como 
os Mouros cubriam os campos , fizeram 
nelles tal emprego com a efpingardaria y 
que pafmavam elles ; e não oulavam a che- 
gar a tiro. O 



Década VIII. Cap. VI. Çt 

OAdeRajao da parte donde eftava fe- 
guro , vendo afracar os feus , mandou dous 
Cacizes velhos aos animar, o que elles fi- 
zeram , mettendo-fe entre elles , elembran- 
do-lhes que pelejavam por honra de Ma- 
famede , fegurando a todos que fe ahi mor- 
reflem, iriam defcançar com elle na outra 
vida , onde teriam muitas recreações , e 
paíTatempos > com as quaes palavras os fi- 
zeram tornar com aquella confusão , e bar- 
baridade que elles coítumam , porque cui- 
dam que efpantam mais com os gritos , e 
vozerias , que com o effeito i e valor das 
armas. 

Dentro na Fortaleza fe ouvia aquellá 
Vozeria , e confufos gritos , e andavam as 
mulheres pelas ruas defcabelladas de Igre- 
ja em Igreja , pedindo mifericordia a Deos 
nolío Senhor. Os Frades de S. Francifco 
tinham o Senhor expoíío , e fe não afafta- 
vam nunca de ante o Santiílimô Sacramen- 
to , pedindo-lhe com muitas lagrimas que 
fe lembrafíe daquella Fortaleza. 

Coufa maravilhofa ! que eílando o ne- 
gocio no maior rifco , ê perigo , viram os 
Fradinhos encher-fe a Igreja de hum ref- 
plandor tão fermofo , e claro , que òs alu- 
miou como nà forca do meio dia, não fen- 
do ainda manhã clara ; e entendendo que 
aquillo era favor do Ceo , levantáram-íe 
D ii dous^ 



5T* ÁSIA de Diogo de Couto 

dous , a quem Deos deo aquelle eípirito ; 
e tomando Crucifixos nas mãos , iahíram 
da Fortaleza , e fubindo-fe ás cercas , em 
que os noílos eftavam com grande confli- 
áío 9 e levantando Chrifto crucificado nos 
ares 5 e com grandes vozes , que todos ou- 
vi íTem , lhes diíferam : Eia, cavalleiros de 
Chrifto , aqui o tendes comvoíco , que vem 
em voíTa ajuda : não temais , esforçados Tol- 
dados , que o Senhor eftá em voíía com- 
panhia : da fua parte vos promettemos hu- 
ma grande viíloria deftes inimigos de fua 
fanta Fé , por iífo maneais as mãos : ef- 
forçai-vos , e não queirais mor galardão y 
que faber que os que aqui morrerdes , ides 
gozar aquella gloria , que perpetuamente 
ha de durar ; e fe aqui ha alguns com as 
conferencias pejadas , cheguem-fe a nós , e 
aliviallos-hemos 5 para que pelejem com 
mais animo , e fegurança. 

Com eftas palavras que ouviram , e com 
a figura de Chrifto que viram , foi tama- 
nho o furor que deo em todos , que rom- 
pendo nos Mouros , os deitaram das cer- 
cas em baixo , ficando os quintaes , as ca- 
fas , e as ruas cheas de corpos mortos , e 
efpedaçados. Durou ifto até mais de meio 
dia , em que fe recolheram os Mouros tão 
desbaratados 5 e quebrantados , que deter- 
minaram não commetter mais as tranquei* 

ras, 



Década VIII. Cap. VI. 5-3 

ras , mas continuar a guerra até cançar os 
noílbs. 

D. António de Noronha , que andava 
feito hum leão , e aflim mefmo os Capi- 
tães , e foldados , vendo aquella mercê ta- 
manha, que lhes Deos fizera 5 alfim como 
eftavam em companhia dos Padres com os 
Crucifixos levantados , entraram na Forta- 
leza , onde D. Payo recebeo a todos com 
fraudes louvores , e foram á Igreja de S. 
rancifco dar as graças a Deos noflb Se- 
nhor pela grande mifericordia que com el- 
les ufára , e mercês que lhes fizera , indo 
apôs elles todas as mulheres 3 e meninos 
com grandes gritos de prazer , deitando- 
lhes muitas benções , e dizendo-lhes mil 
louvores. A certeza dos Mouros que mor- 
reram , nunca a pude averiguar 9 porque os 
de Cananor variam niíío : íiuns dizem que 
finco mil , outros menos , outros muitos 
mais , em fim a vióloria foi huma das gran- 
des que na índia fe alcançaram. O Capitão 
mandou queimar os mortos , por não cau- 
farem corrupção : dos noffos morreram pou- 
cos , mas muitos feridos que faráram lo- 
go. Poucos dias depois chegou Gonfalo Pe- 
reira Marramaque com toda a fua Armada , 
com o que os da Fortaleza ficaram muidef* 
aliviados ; e fabendo da guerra que os noí- 
fos houveram 5 deo muitas graças a Deos , 

e 



5*4 ÁSIA de Diogo de Couto 

e a todos grandes louvores de feus anL* 
mos. Gonfalo Pereira foi continuando na 
guerra contra o Rey de Cananor , toman- 
do-lhe os rios , porque não fahiíTem os na- 
vios a roubar , e dando-lhes em algumas 
povoações que deftruio : e D. António de 
Noronha também por fua parte fez muitas 
fahidas aos inimigos , nas quaes lhes quei- 
mou muitas fazendas , e matou muitos : e 
em hum encontro que teve com elles en- 
tre a Fortaleza , e a povoação de lima , que 
foi muito crefpa , fahio D, António ferido 
de huma efpingardada ; e mandando novas 
a Goa , deípedio o Vifo-Rey Álvaro Paes 
Soto-maior por Capitão da Fortaleza , e que 
íe fofTe D, Payo pêra Goa , o qual partio 
em Maio de zç6$. em que andamos; e to- 
mando poffe da Fortaleza, tratou da guer- 
ra que le havia de fazer ao Reyno de Ca^ 
nanor , e communicou com Gonfalo Perei- 
ra Marramaque darem na povoação doRa- 
ja pêra o quebrantarem, Aílentado iílo en- 
tre elles , fizeram-fe preíles pêra huma ma- 
drugada , e que a hum final havia de def- 
embarcar Gonfalo Pereira Marramaque na 
praia , e fahir da Fortaleza Álvaro Paes 
com toda a gente i como fizeram com mui- 
to boa ordem , entrando pelo Bazar, que 
aífim chamam as Cidades y lhe foram pon-< 
do fogo por huma, e outra parte, que o> 

me- 



Década VIII. Cap. VI. 57 

meçou a arder com grande eftrondo. O Ade 
Raja com todos os Mouros acudio a de- 
fender a Cidade , que eítava recheada de 
muita fazenda , e no meio delia tiveram hu- 
ma grande batalha , indo já juntos os Ca- 
pitães ambos 5 e a nofía arcabuzaria fazen- 
do nos Mouros grandes danos , e também 
dos nofíbs houve feridos , e não fe achou 
quehouveíTe mortos aqui. Nomeio do Ba- 
zar , indo D, Jorge de Menezes , que de- 
pois foi Alferes Mor , que fe achou alli 
acafo , por ir pêra Cochim embarcar-fe pê- 
ra o Reyno , lhe deram huma efpingarda- 
da por a borda do peito em baixo junto 
das virilhas , e lhe cahio o pelouro aos 
pés ; e Gonfalo Pereira , ouvindo dizer que 
o D. Jorge eftava mal ferido , chegou a 
elle, e lhe perguntou o que era; o D. Jor- 
ge lhe refpondeo com fuás bizarrices cos- 
tumadas 5 que era hum pelourinho , que 
tanto que tocara em fua carne , que achou 
em feu contrario , logo lhe cahíra aos pés : 
em fim o negocio ficou feito como os nof- 
fos queriam , e a povoação queimada ? e 
cortado hum fermolo palmar , fem dano 
mais que de alguns feridos ^ e fe recolhe- 
ram muito a feu laivo. 



CA- 



$6 ÁSIA de Diogo de Couto 
CAPITULO VIL 

Do defpejo da Cidade da Cota pêra 
Columbo. 

VEndo o Vifo-Rey o grande trabalha 
que deo ao Eílado o cerco da Cota, 
e o que daria fe tornaffe oRajú fobre ek 
Ia, affentou com os do Confelho , que fe 
defpejaííe , e fe paífaífe EIRey a Coluna 
bo : pêra a qual execução mandou Diogo 
de Mello , pêra ficar por Capitão naquella 
Fortaleza , o qual levou os navios feguin- 
tes : elle emhumagalcota, Manoel Juzarte 
Tição , Fernão Vas Pinto , António Froes , 
Fernão Trinchão , António da Coita Tra- 
vaífos , que tinha vindo de Columbo, Che-r 
gada efta Armada áquella Fortaleza , logo 
Diogo de Mello poz o negocio em execu-» 
cão , e foi bufcar EIRey , e recolheo os 
Frades , e derrubou o Templo que lá th 
nham ; e em fim deixou tudo d eferto , e paf- 
fou aquellas coufas a Columbo , onde fe fi-> 
zeram apofentos pêra EIRey* , a quem o 
boíTo de Portugal mandou que fe trataíle 
muito bem : e lhe ordenou que do muito 
dinheiro que lhe deviam, lhe deflem cada 
gnno dous mil xerafins pêra feu entreteni- 
mento 7 porque ficava desherdado > e fein 

ter. 



Década VIII. Cap. VII. 57 

terras , de que comeíle y fó algumas aldeãs 
que poíluia alli nas terras de Columbo ; e 
pelo tempo adiante foram os Capitães da- 
quella Fortaleza , e outros alguns , que a 
ella foram de íbccorro , esbulhando efte po- 
bre Rey até daquillo que fe lhe devia > por- 
que hum lhe pedia dous mil cruzados de 
mercê , outro mil , outro quinhentos , e aí- 
fim o foram confumindo , o que tudo pa- 
gavam os Vifo-Reys : o que fabido por El-- 
Rey D. Sebaftião , mandou que fe tornaífe 
a arrecadar o dinheiro que fe dera a eítas 
partes , e que nunca mais EIRey pudeííe 
Fazer mercês do dinheiro que devia y no 
que , cuido , fe não fez execução. 

Depois de Diogo de Mello partido , 
logo D. António de Noronha mandou al- 
gumas fuítas de partes com eftes provimen- 
tos : dez mil xerafins em dinheiro , trezen- 
tos candís de trigo , oitocentos de arroz , 
duzentos quintaes de bifcouto , muitas mu- 
nições , cotonias , e outras coufas delias. 
Nefte Abril de 1565. foi João Gago de An- 
drade fazer huma viagem de Maluco, ele- 
vou muitos provimentos pêra aqueílas For- 
talezas. Gonfalo Pereira Marramaque dei- 
xou-fe andar no Malavar todo o refto do 
verão , em que tomou muitos paraos aos 
Mouros: e em Fevereiro defpedio Manoel 
de Brito , que era feu tio , çom dez > ou 

do- 



58 ÁSIA de Diogo de Couto 

doze navios , de cujos Capitães não achei 
os nomes , pêra ir ao Cabo Comorim re- 
colher as cáfilas dos navios , que haviam 
de vir de Malaca , China 3 Maluco , Pegú y 
Bengala , e de toda a coita de Coroman- 
dei 5 onde eíleve até Abril i em que ajun- 
tou mais de oitenta , entre grandes , e pe- 
quenas , com as quaes fe partio , vindo- 
lhes dando muito boa guarda , e muito de 
vagar por caula dos Noroeftes , que naquel- 
les mezes curfam muito rijos ; e por ir to- 
da a Armada , e cáfila falta de agua , foi 
furgir a Monte Deli , onde a mandou fa- 
zer , lançando em terra guarda de folda- 
dos , pêra favorecerem os marinheiros que 
a iííb foram ; e como aquella terra he de El- 
Rey de Cananor, com que eftava em eíta^ 
do de fnierra , fahíram muitos Mouros a 
defender a agua , fobre o que fe travou com 
os noflbs hiíma grande batalha , a que Ma- 
noel de Brito mandou acudir com a maior 
parte da Armada , e ainda foi neceflario 
defembarcar elie , por crefcer o numero , 
cm que os noífos fizeram grande matança , 
até os arrancarem do campo , e os irem fe- 
guindo até áfua povoação, a que puzeram 
fogo 5 e a hum navio que tinham no efta- 
leiro , e lhes cortaram grande quantidade 
de palmeiras ; e com iíto feito , fe recolhe- 
ram os noííbs depois de fazerem a aguada 

á 



Década VIII. Cap. VIL 5*9 

á fua vontade , e foram leu caminho pêra 
Goa , fendo já Gonfalo Pereira Marrama- 
que recolhido , por fer muito tarde , e a 
Cáfila chegou toda a falvamento. 

Recolhido Gonfalo Pereira Marrama- 
que, proveo oVifo-Rey logo agente que 
havia de ir invernar a Cananor , pêra on- 
de defpedio eíles Capitães , António Bote- 
lho com huma Companhia de foldados, 
Manoel de Mello , filho de Simão de Mel- 
lo , que foi Capitão de Malaca 3 com ou- 
tros tantos ? Vicente de Saldanha , e Eíte- 
vao Bobadilha feu irmão comfincoenta ca- 
da hum 5 Heitor da Silveira 3 D. Lopo de 
Mendoça de alcunha o Caroto , Ruy Vas 
Pereira , irmão natural de Gonfalo Pereira, 
André de Torquemada , Fidalgo Caftelha- 
no , com D, Luiz Mafcarenhas , e Callifto 
de Siqueira, filho natural de Francifco de 
Siqueira , Eícrivao da cozinha delRey , mu- 
lato mui conhecido por valente , homem 
grande efpingardeiro. Eíta gente fe repar- 
tio pelas tranqueiras de fora , donde fize- 
ram muitas fahidas aos Mouros , de que 
adiante fali arei. Nefte Abril de 1565-. foi 
Pedro de Mefquita fazer as viagens de Ma- 
luco , e levou provimentos pêra aquellas 
Fortalezas, 



CA^ 



6o A S I A de Diogo de Couto 

CAPITULO VIII. 

Da ida de D. Fernando de Monroy ao ep 
treito de Meca , e do que lâ lhefuccedeo. 

E x Ntrado o anno de 1565. em Feverei- 
i ro defpedio o Vifo-Rey D. Antão de 
Noronha D. Fernando de Monroy , Fidal- 
go Caírelhano da Cafa de Oropeza , com 
numa Armada de dous galeões , e quatro 
galeotas , pêra ir ás Ilhas de Maldiva ef- 
perar as nãos que haviam de ir pêra Me- 
ca , que naquelle tempo partem do Achem, 
e varn demandar os canaes daquellas par- 
tes , e Ilhas , por entre as quaes coftumam 
a paíTai-. Foi D. Fernando no galeão San- 
ta Cruz primeiro, e Pedro Lopes Rebello 
no galeão S. Sebaítiao : das galeotas eram 
Capitães Vafco Delgado de Brito, Martim 
Pereira de Sá , Diogo Ferreira de Padilha 
com o Principe D. João , e Baftiao Criado 
de Abreu. Com eita Armada fefoi D. Fer- 
nando de Monroy peio canal de Cardu , e 
.mandou a Pedro Lopes Rebello com a ga- 
leota de Diogo Ferreira , pêra que fe foíle 
por outro canal , que são os dous ordiná- 
rios , por onde as náos paflam. Eftando 
Pedro Lopes no feu canal , veio demandai- 
lo huma fermofa náo do Achem , que tra- 
zia 



Década VIII. Cap. VIII. 61 

2ia mais de quatrocentos homens brancos 
Turcos , e de outras nações , e muita , e 
boa artilheria. Pedro Lopes em havendo 
viíla delia , largou a amarra fobre a bóia , 
e preparou as velas , e foi commetter a 
náo que vinha muito confiada , a qual dis- 
parou nelle a primeira falva de artilheria, 
de que teve a refpofta arrazoada; e como 
efte Capitão era homem de rçíoluçao , in- 
veftio a náo inimiga , e logo lhe lançou gen- 
te dentro , que teve com os inimigos hu- 
ma grande , e cruel batalha , ajudando de 
fora o Capitão da galeota , que lançou mui- 
to fogo na náo inimiga , e o meímo fize- 
ram os das náos huma a outra ; e foi tanto , 
Í[ue fe ateou em ambas de maneira , que 
em remédio arderam ambas , fem os nof- 
fos lho poderem defender. Vendo-fe Pedro 
Lopes perdido , 'não teve outro remédio 
mais que deitar-fe ao batel com alguns 7 e 
outros a galeota de Diogo Ferreira, como 
também fizeram os Mouros , dos quaes elle 
recolheo alguns , e os repartio pelos foi- 
dados , como gente de preza. As náos fe 
confumíram em cinza , fem efeapar coufa 
alguma da de Meca , que hia muito rica. 
D. Fernando de Monroy no canal onde ef- 
tava, ouvio a briga da artilheria; e dando 
á vela, foi lá, e achou as náos já abraza- 
das j e recolheo comfigo a Pedro Lopes Re- 

bel- 



6i AS IA de Diogo de Couto 

bello 5 e o proveo de fato , por efcapíár 
com fó o veítido que tinha no eorpo , e o 
mefmo fez aos feus foldâdos ; e fabendo 
que Diogo Ferreira tomara os Mouros da 
náo 5 lhos mandou pedir pelo Feitor da 
Armada , ao que os foldâdos fe alteraram , 
e os não quizeram entregar , antes toma- 
ram dous , e os enforcaram na verga , e 
comelles foram dar volta por derredor do 
galeão do Capitão Mor , o que elle teve 

f)or grande defobediencia : e mandou pe- 
os outros navios de remo levar a fufta de 
Diogo Ferreira abordo , emetteo na bom- 
ba todos os foldâdos ; e a Diogo Ferreira 
prendeo em hum camarote; e os Mouros 
que eram de refgate , entregou ao feu Fei- 
tor da Armada , e deixou-fe andar por en- 
tre aquelles , e os mais , até fe acabar a 
monção , que fe partio pêra Goa. O Vifo- 
Rey caítigou os toldados com degredo , e 
não fei fe prendeo Diogo Ferreira ; mas 
achei huma Provisão regiítada nos livros 
deita Torre do Tombo, em que lhe havia 

Í)or perdoada a culpa que teve naquelle ca- 
io y fendo julgado crimemente : pelo que 
me parece que fe proceflaram autos contra 
elle. 



CA* 



Década VIII. Cap. IX. 63 
CAPITULO IX. 
Profegue a guerra de Cananor. 

ENtrado o inverno , ainda que as chu- 
vas eram grandes , não deixavam os 
Mouros de continuar a guerra, dando ca- 
da dia aílaltos de huma , e de outra par- 
te , em que fempre havia fangue. Calliíto 
de Siqueira , que era hum dos maiores ef- 
pingardeiros , que o mundo tinha , veio a 
inventar hum ardil pêra matar os Mouros ., 
o qual lhe cuftou também a vida. Notou 
a parte mais ordinária , por onde os Mou- 
ros appareciam , e de noite mandou fazer 
huma cova redonda , em que elle coubeíTe 
de joelhos , e cubrio-fe com folhas de pal- 
meira 5 e todas as manhans femettia nella, 
e dalli não apparecia Mouro nenhum a ti- 
ro de efpingarda , que o não derrubaíTe , 
e vinham outros a levar aquelle, que tam- 
bém ficavam alli huns fobre outros , do que 
todos andavam pafmados , porque defcu- 
briam o campo , e não viam donde lhes vi- 
nha aquelle mal. 

Havia alli hum Mouro grande efpin- 
■gardeiro , o qual andou vigiando , e notan- 
do donde lhes fuccedia aquelle dano , até 
cahir no que era , pelo que também de noi- 
te 



64 ÁSIA de Diogo de Couto 

te mandou fazer huma cova , e metteo-f<* 
nella. O Callifto pela manha foi-fe mettei" 
na fua , e delia vio bulir naquella parte, 
em qtie o Mouro eftava ; e entendendo o 
que era , o Mouro também delia eftava pref- 
tes com fua efpingarda , de maneira que 
fegurando-fe hum , e outro em feu ponto-, 
diíparáram , e ambos foram tão certos , que 
fe tomaram pelos teftos , e cahíram ambos 
logo mortos. Da Fortaleza acudiram a le* 
var o corpo de Callifto , e o enterraram hon-> 
radamente : e certo que foi fua morte fan* 
tida , porque era muito grande cavalieiro.- 
Andavam os noííos muito inquietos com 
os contínuos aflaltos , que os Mouros lhes 
davam , e ás vezes o tomavam por paífa^ 
tempo. Succedeo em hum delles fahir. hu- 
ma Companhia de foldados j em que en- 
travam alguns Fidalgos , e Cavalleiros , e 
baralháram-fe com os Mouros , pelejando 
vaierofamente , e fizeram nelles arrazoada 
matança: mas não femcufto defansrue dos 
noííos , porque ficaram alguns feridos , eu* 
tre os quaes foi D. Lopo de Moura , filho 
de D. Manoel de Moura , de alcunha o 
Caro to , que pouzava a S. João da Praça:, 
e fogro de Ayres de Saldanha , mancebo 
com que me criei na efcola, e nos eftudos 
de Santo Antão, ao qual deram huma ef- 
pingardada por huma perna , de que não 



Decâda VIIL Cap. IX. 6f 

pode bulir-fe ; e hum Cafre feu , que fem- 
pre foi á fua ilharga ? o tomou ás coitas , 
e ohia levando pêra a Fortaleza em com- 
panhia dos noílbs , que fe hiáo recolhen- 
do já enfadados. Os Mouros vendo ir os 
noflos , tornaram a voltar fobre elles com 
grandes coqueadas , os quaes fizeram rofto 
aos Mouros , e fe travou huma muito cref- 
pa , e porfiada briga , até acudir Álvaro 
raes Capitão da Fortaleza com o reíto da 
gente. O D. Lopo de Moura , que hia ás 
coitas do Cafre , vendo a briga i gritou ao 
Cafre que o largafle , o que elle não quiz 
fazer ; e todavia tanto fez , que o Cafre o 
largou j e aífim manquejando fe foi metter 
na briga , da qual os noflos fe recolheram 
com tanta preffa , e defordem, que houve 
matarem os Mouros alguns , entre os quaes 
foi D. Lopo de Moura > a quem cortaram 
a cabeça , e lha levaram, porque logo lhes 
pareceo peflba de preço pelas boas armas 
que levava. Álvaro Paes tornou a voltar 
fobre os Mouros , e os fez recolher com 
dano feu , e tiveram tempo de levarem os 
noílbs o corpo de D. Lopo , ao qual de- 
ram honrada fepultura. 

Aífim ficou a guerra continuando por 
eftes aííaltos até Setembro entrada do ve- 
rão , em que chegaram eftes navios , pêra 
Ruy Vas Pereira andar com elles de Ar- 
Couto. TonuV. P.L E ma- 



66 A S 1 A de Diogo de Coxjt o 

mada na coíla do Malavar , Antão Barre- 
to 5 Manoel Nunes de Macedo , Vicente 
Paes , Carlos Façanha , Franciíco Rifcado , 
Baftião Vieira , Jacome Viegas 5 António 
Fernandes Malavar ; e em Cananor fe ar- 
maram eftes Capitães , Gonfalo Pereira de 
Caftro , Simão de Mello , Baftião de Ma- 
riz , Luiz de Carvalho , Jorge da Silva Pe- 
reira. 

Com a chegada deita Armada EIRey 
de Cananor mandou commetter pazes ao 
Capitão , dando luas defcargas da guerra , 
em que moítrou que elle não tivera culpa, 
as quaes lhe elle acceitou ; e deo ouvidos 
a ellas 5 por ter commifsão do Viíb-Rey 
pêra iflb , e vindo-fe concluir com as con- 
dições ordinárias 3 que nunca eftes Mouros, 
e gentios cumprem 5 e mentem , e nada 
dam depois : e diflimula-fe com elles não 
fei por que refpeitos , porque elles cada 
vez que querem tornam a levantar fua pa- 
lavra, e quebram as pazes , e contratos ju- 
rados com tantas ceremonias : mas como 
pode vir a fer verdade o que fe jura íbbre 
tanta falfídade , como a de feus idolos ? 
Eftes contratos , e todos os que íe fizeram 
na índia com todos os Reys , tenho eu na 
Torre do Tombo em livro feparado. 



CA- 



Década VIII. Cap. X. 67 

CAPITULO X. 

Dos provimentos que ejle atino Je fizeram 
pêra a Fortaleza de Ceilão. 

NEíle Setembro de 1565. mandou o 
Viíb-Rey D.Antão de Noronha hum 
galeão a Ceilão , por ellar ainda de guer- 
ra , no qual foi por Capitão Fernão Rodri- 
gues de Carvalho , que levou pêra aquella 
Fortaleza duzentos candís de trigo , qua- 
trocentos de arroz ? e muitas munições ; que 
defta maneira coftumavam os Viíb-Reys da- 
quelle tempo prover as Fortalezas : e nò 
mefmo tempo defpedio eltes navios > pêra 
com elles , e com outros que eftavam em 
Cananor , andar Ruy Vas Pereira por Ca- 
pitão na coita do Malavar , dos quaes na- 
vios eram Capitães Antão Barreto > Manoel 
Nunes de Macedo , Vicente Paes , Carlos 
Pacanha , Dio^o Colaço ; e em Cananor fe 
armaram eftes Capitães , Gonfalo Pereira 
deCaftro, Simão de Mello , Diogo Nunes 
Pedrozo , Sebaílião de Mariz , Luiz Carva- 
lho , Jorge da Silva Pereira , Francifco Rii- 
cado , íSebaftião Vieira , e Sebaílião Vas, 
que todos inverríáram em Cananor. Foi 
mais de Goa Nuno Pereira de Lacerda por 
Capitão de hu-ma caravela Latina ; pêra an- 

E ii dar 



6& A ST A de Diogo de Couto 

dar de Armada no Malavar ; porque na-» 
quelle tempo havia féis , ou íete deitas na 
índia , pêra andarem neíta coita , pêra irem 
aos eítreitos , por ferem navios mais ma- 
neáveis , e de mais proveito que galés , e 
de menos gaftos. 

CAPITULO XI. 

De como D. Diogo Pereira foi com huma Ar~ 

maàa groj/a ao ejtreito cie Meca , e o que 

lhe fuccedeo na viagem : e como fe 

jperdeo com a maior parte delia. 

NA entrada deite anno de 1566. man- 
dou o Vifo-Rey D. Antão de Noro- 
nha huma Armada ao eítreito de Meca a 
efperar as náos que vieíTem fem cartazes , 
da qual elegeo por Capitão Mor a D. Dio- 
go Pereira feu cunhado, filho baítardo do 
Conde da Feira , o qual partio de Goa 
com finco galeões , de que , afora elle que 
hia no galeão S. Lourenço , eram Capitães 
D. Nuno Alvares Pereira , também filho do 
Conde da Feira, no galeão S. Chriítovão , 
Gonfalo Pereira de Caítro , filho baítardo 
de Ruy Vas Pereira , Capitão que foi de 
Malaca, no galeão S. João, João da Silva 
Pereira , filho de Ruy Pereira da Silva , em 
huma galeota, Manoel Freire de Andrade 

em, 



Década VIII. Cap. XI. 69 

em outro galeão: levou mais féis galeo tas , 
cujos Capitães foram Brás Tavares , Dio- 
go Nunes Pedrozo, Manoel de Medeiros, 
meio irmão de D. Diogo Pereira Capitão 
Mor 5 filho de fuamãi, Álvaro Fernandes , 
e hum foão Ferreira , do outro não foube 
o nome. 

Efta Armada foi logo ás Ilhas da Mal- 
diva, por haverem novas eftarem nellas fin- 
co náos carregadas pêra Meca, e nove ga- 
lés do Achem em lua guarda. Os noílbs 
tanto que chegaram ás Ilhas , foram logo 
viítos dos inimigos , e tiveram recado das 
velas que eram , com a qual nova fe mu- 
daram do canal do Cardum, ondeeftavam, 
pêra outro. O Capitão Mor, fem faber do 

?[ue pairava , mandou a Goníalo Pereira que 
e foífe com o feu galeão furgir no mefmo 
canal do Cardum , onde furgio bem tarde, 
e achou em terra final de como alli eítive- 
ram os Turcos. Os inimigos fizeram con- 
fideração que fe os noílbs foubeílem dei- 
les , os haviam de ir efperar nas portas do 
Eftreito , e aflim os quizeram divertir , e, 
enganar , como fizeram , e foi que de noi- 
te atiraram muitas bombardadas , como que 
fe levavam , e faziam á vela. O Capitão 
que as ouvio , cuidou que Gonfalo Pereira 
encontrara as náos no canal do Cardum , 
e que andava com ellas ás bombardadas j 

e 



70 A S I A de Diogo de Coitto 

c levando-fe , andou toda a noite ávéla. de 
Ilha em Ilha , e de canal em canal até a^ 
jnanhecer. 

Gonfalo Pereira também cuidou em ou- 
vindo as bombardadas , que o Capitão fe 
encontrara com os inimigos , pelo que es- 
tava fem fab.er o que fizeífe ; e tanto que 
amanheceo , chegou o Capitão Mór ao ca- 
nal do Cardum , onde achou furto Gonfa- 
lo Pereira pofto em armas ; e fabendo que 
as bombardadas não eram de huns , nem 
dos outros , havendo confelho fobre o que 
fariam , aííentáram que fem duvida as náos 
inimigas fe fizeram á vela pêra o eílreito 
de Meca : logo fe levaram todos , e os fe- 
guíram , e trabalharam por chegarem pri- 
meiro que elles ; mas os inimigos que en- 
tenderam o que fora, deixáram-fe ficar fur- 
tos onde eítavam - y porque todos eftes ar- 
tifícios ufáram , por não ferem tão arremef- 
fados como nós : e parece que tinha obri-r 
gação o Capitão Mór de mandar pelos na- 
vios ligeiros vigiar todos os canaes , ainda 
que niífo fe gaftaíTem dous , ou três dias , 
pêra fe fegurar na verdade na bolada, em 
que hia tanto : em fim os noílos foram ful- 
gir na ponta da Ilha Sacotorá , e os ga- 
leões ? e galeotas fe dividiram por para- 
gens a vigiar os inimigos \ e com tudo ifto 
foi a vigia tal ? que huma das náos foi de- 

man- 



Década VIII. Cap. XI. 71 

mandar a mefma Ilha Sacotorá , em que 
os noflbs eftavam , e foi dar á coita da ou- 
tra banda da contra-cofta , onde fe fez em 
pedaços. 

Diíto tudo teve avifo o Capitão Mor, 
e que pela terra dentro havia mais de qui- 
nhentos Turcos , que vinham na náo , pelo 
que mandou pedir ao Xeque da Ilha, que 
lhe entregaííe toda aquella gente , como 
era obrigado por amigo do Eftado da ín- 
dia , fenáo que os iria bufcar , e o caítiga- 
ri.a a elle rijamente. O Xeque , que tam- 
bem era fagaz , entendendo que mettendo 
qualquer tempo em meio , o livraria da- 
quillo , porque os noflbs fe viam enfada-? 
dos , ou poderia fucceder dar-ihe alli hum 
tempo , com que muitas vezes fe perderam 
■naquella paragem muitos navios 5 lhe man* 
dou pedir oito dias de efpera pêra fazer 
aquella entrega 5 porque os Turcos anda- 
vam derramados por toda a Ilha , e que 
elles eram muitos , e não tinha poder pêra 
os tomar : e allim de recado em recado foi 
confumindo o tempo , e por fim fe aco* 
lheo ás ferras , e não appareceo mais 5 com 
o que o Capitão Mór defembarcou em ter- 
ra , e laqueou 5 e queimou a Cidade , que 
era grande, e com muitas fazendas, manr 
teigas , couramas , e ambolins , fangue de 
Dragão 3 zevre^ focotorimo , e outras cou^ 

fas, 



7^ ÁSIA de Diogo dè Couto 

las 3 de que também carregaram os galeões ; 
e fendo o tempo gaílado , deram á vela 
pêra Goa em Abril , e tanto avante como 
a ponta de Dio 5 íeíTenta léguas ao mar, 
em dezefete do dito mez , que foi a con- 
junção de Lua nova , quarta feira a derra- 
deira Oitava da Pafcoa , lhe deo huma tor- 
menta muito rija 5 que lhe durou finco dias , 
nos quaes correram os ventos da agulha , 
como fazem os tufóes da China y que quan^ 
do dam , parece huma reprefentação da ira 
de Deos. O primeiro dia da tormenta vio 
toda a Armada fubverter o galeão de Ma-, 
noel Freire de Andrade ; e ao outro dia 
ás oito horas do dia viram o galeão do 
Capitão Mor a arvore fecca , e o viram 
fumir debaixo do mar : os galeões de D, 
Nuno Alvares Pereira , e de João da Sil- 
va , e de Gonfalo Pereira de Caítro efca- 
páram por novos , que puderam melhor 
ibffrer os mares : das galeotas a do Ferrei- 
ra defappareceo. Diogo Nunes Pedrozo , e 
p Tavares , em vendo os íinaes da tormen- 
ta , fe acolheram onde melhor puderam : 
o Tavares entrou pela barra de Baçaim , 
íem faber por onde hia , Diogo Nunes Pe- 
drozo atinou com a barra de Dio , que to^ 
mou meio alagado i Leonardo de Medei- 
ros era ido a Caxem por mandado do Ca- 
pitão Mor > e iúq lhe dço a tprmenta > e 

de-s 



\ 



Década VIII. Cap. XI. 73 

depois de fazer o negocio a que o man- 
daram , foi bufcar o Capitão Mor a Saco- 
torá , cuidando achallo ainda lá , e á viíta 
da Ilha encontrou huma champana que ía- 
3iia do porto carregada dos Mouros da 
náo ; e commettendo-a , pelejou com ella 
três dias , no fim dos quaes de aberta das 
bombardadas foi ao fundo , e os Mouros 
andando a nado , os matou todos á eípa- 
da j e feito ifto , fe pafíbu pêra Goa , aon- 
de chegou a íalvamento. Perdêram-fe nef- 
ta tormenta nos dous galeões , e gàleotas 
ao redor de quatrocentos homens. Contá- 
ranv-me alguns foldados que fe aqui acha- 
ram, que os Mouros da champana, tanto 
?[iie viram a noíTa galeota , confiados em 
erem mais de duzentos , por fer a cham- 
pana muito grande , por fegurarem os nof- 
fos , fizeram que fugiam, e eicondêram-fe 
debaixo de cubertas , ou das bejas , pêra 
que os noíTos nao viífem tantos ; que o ter- 
mo que fizeram de fugir , accendeo mais o 
defejo aos noíTos de chegarem ; e aífim fe 
deram tanta preíTa , que os alcançaram , e 
lhes puzeram a proa ; e primeiro que os 
noíTos fe lançaílem dentro , fahíram os Mou- 
ros debaixo , que fe fe deixaram eftar, fem 
duvida tomaram todos ás mãos ; todavia , 
como os noílbs eílavam atracados , lançá- 
wm-fe dentro , e os dous primeiros foram 



74 A S I A de Diogo de Couto 

logo mortos ; mas os mais com grande ani- 
mo, e valor lançaram dentro muito fogo, 
com que os abrazáram , e fizeram lançar 
ao mar , onde todos foram mortos. 

CAPITULO XII. 

De como mandou o Rei do Pegií pedir 

huma filha ao Rei de Ceilão pêra 

cafar com ella. 

AIndã que toda a vida fe gaite em eíV 
crever as fuperítiçóes deites Gentios 
Pegús , e Bramas , não fe poderá acabar de 
dizer ametade delias , e por iflb quando 
trato algumas , fam aífim de paffagem , co- 
mo farei aqui agora. Na nafcença deite Rey 
Brama fizeram os Aítroiogos grandes ob- 
fervaçóes, e "levantaram muitas figuras pê- 
ra faberem fua boa , ou má fortuna , e as 
coufas que na vida lhe haviam de fucceder 
de mal , ou de bem. Entre as coufas que 
efcrevêram do que notaram, foi que havia 
de cafar com huma filha de EIRey de Cei- 
lão , e que havia de ter taes , eta.es íínaes, 
e que as feições de feu corpo haviam de 
fer de certas medidas , que logo aponta- 
ram j e querendo o Brama Rey do Pegu 
cumprir iíto que elles tinham como profecia , 
mandou Embaixadores a ElPvey D, João 

de 



Década VIII. Cap. XII. 75- 

.de Columbo, que íb ellc no fangue, e le- 
gitimidade era o verdadeiro Imperador de 
toda a Ilha , a lhe pedir huma filha pçra 
mulher , e lhe mandou huma náo carreira- 
da de mantimentos , pelos nao haver em 
Ceilão j e muitas peças , e jóias ricas : e 
chegaram eftes Embaixadores a Columbo 
no meímo tempo que efte Rey íe paliou 
da Cota pêra aquella Cidade , os quaes El- 
Rey recebeo com muita honra, e gazalhá- 
dos ; e fabendo ao que vinham , diífimulou 
com o negocio , não negando que não ti- 
nha filha , como de feito não tinha, nem 
teve , no que já feus Aílrologos mentiram ; 
mas como elle em íua cafa criava humafif 
lha do feu Camereiro Mor , que também 
.era do langue Real , ao qual Francifco Bar- 
reto , fendo Governador , fez Chriftão 5 e 
lhe poz o feu nome , ao qual pelo fangue > 
e partes lhe eítava EIRey mui fujeito , e 
podemos affirmar que mandava tudo. 

A efta moça , a que elle chamava filha , 
por lhe querer grande bem , fazia elle gran- 
de honra como a filha ; e depois que os 
Embaixadores do Brama lhe deram fua em- 
baixada , fempre a poz comíigo ámeza, e 
lhe chamava filha , e com efte nome a quiz 
conceder ao Brama por fua mulher ; mas 
temeo-fe que o Capitão de Columbo lho 
£Ítprv2ÍTe ; e o mefmo fizeflem os Padres 

de 



*j6 A S I A de Diogo de Couto 

de S. Francifco , poíto que ella era ainda 
gentia ; porque como tinham aquella ove- 
lha das portas a dentro , e cada dia a po- 
diam fazer Chrifta , como havia dous que 
o pertendiam , eftava certo impedirem-lhe 
a jornada. Eftas coufas todas praticava com 
o leu Camereiro Mor, que era prudente, 
e de grande artificio , a que EIRey eftava 
entregue de todo : o qual vendo EIRey 
defapoflado da Cota , e pobre , e que fe 
abria caminho com efte cafamento pêra ter 
muito commercio com o Brama , e a mo- 
ça fer ília filha , diíTe a EIRey , que elle 
daria ordem pêra élla poder ir encuberta- 
mente fem fe fentir em Columbo. 

E ainda fe fez mais em muito fegredo 
com EIRey , da ponta de hum veado fez 
hum dente tão próprio como o do Bogio , 
que D. Conftantino levou , e o engaftou em 
ouro , e fez huma charola muito rica , e) 
com muita pedraria,. em que o metteo : e 
o Camereiro Mór , que era ainda gentio , 
praticando hum dia com os Embaixadores 
do Brama , e os Talupões , que vieram em 
fua companhia , que eram feus Bifpos , e 
Reíigiofos , que fe vinham offerecer á pe- 
gada de Adão que todos adoram , e vene- 
ram , lhes deo em muito fegredo conta da-> 
quelle negocio, e de como EIRey D, João 
tinha o verdadeiro dente do Bogio , çn do 

feu 



Década VIIL Cap. XII. 77 

feu Quiar ;i que o que levara D. Conftan- 
tino , era fallb , e fingido : e que elle Ca- 
mereiro Mor o tinha guardado em fu a ca- 
ía em grande fegredo , por EIRey fer Chri- 
ftão. Os Embaixadores , e Tampões ou- 
vindo aquillo , alegráram-fe muito , e lhe 
pediram lho moftralle , o que elle fez com 
tantas cautelas , que os obrigava mais a 
vello , e aífim os levou huma noite a fua 
cafa , e lhes moílrou o dente na charola, 
que eítava poíta fobre hum altar muito apa- 
ramentado com muitas velas, e perfumes; 
e em elles o vendo , fe baquearam no chão , 
e o adoraram muitas vezes com grandes 
ceremonias 5 e luperílições , no que gaita- 
ram a maior parte da noite , e depois pra- 
ticaram com o Camereiro Mor fobre o den- 
te , pedindo-lhe que o mandaíTe ao Bra- 
ma com fua filha ; e pêra o gofto , e fei- 
tas do cafamento ferem maiores 3 elles fe 
lhe obrigariam a lhe mandar o Brama hum 
milhão de ouro , e todos os annos huma 
náo carregada de arroz , e mantimentos , 
como fe lhe obrigaram : o que tudo fe tra- 
tou em tanto fegredo , que fó EIRey , e 
o feu Camereiro o fouberam. Tanto que 
fe fez tempo de efta moça fe embarcar , o 
fez o Camereiro Mor em tanto fegredo , 
que nem Diogo de Mello Capitão de Co- 
lumbo ? nem os Padres o inventaram : e 

foi 



78 ÁSIA de Diogo de Couro 

foi naqueila companhia por Embaixador 
de EIRey de Ceilão André Bayão Mude- 
liar ; e navegando com bom tempo , foram 
tomar outro porto abaixo de Coími , on- 
de defembarcáram , e aviíaram o Brama de 
tudo o palfado , e da chegada da Rainha , 
o que foi pêra o Rey , e todos os Gran- 
des de grande alvoroço : e logo EIRey 
defpedio todos os Ximes , que fam Duques , 
e Grandes, pêra que afoífem acompanhar,. 
e lhe mandou jóias , e peças muito ricas : 
etoda eíta gente, que era infinita, hia pe- 
los rios abaixo em muitas embarcações , que 
chamam Lagoas , que fam como galés , to- 
das douradas , toldadas , e embandeiradas 
de fedas de cores ricas ; e a em que havia 
de a Rainha fe embarcar, era todo o tol- 
do , e camera forrada de ouro , e ella e£* 
quipada de mulheres fermofas , e ricamen- 
te ataviadas, que remavam melhor, emais 
a compaílb que os forçados da Europa , e 
delias mulheres tifíha EÍRey muitas em bair- 
ros léparados , e he certo que fe cafavam 
liumas com as outras , e viviam de portas 
á dentro de duas em duas como caiados : 
c eu fallei com alguns Portuguezes , que 
foram cativos em Sião , principalmente com 
hum António Tofcano , que foi meu vizi- 
nho , e tem ainda filhos em Goa , os quaes 
diíTeram que foram muitas vezes ver eftes 

bair- 



Década VIII. Cap. XII. 79 

bairros das marinheiras , que era verdade 
ferem cafadas humas com as outras. Nes- 
tas galés que vou dizendo > mandou EIRey 
embarcar a mulher do Banha da Cidade 
velha , pêra fua Camereira , e Aia , e ou- 
tras Damas ricas , e fermofas. 

Chegada efta fabrica y que era coufa 
muito grande , foi a Camereira Mor viíitar 
a Rainlia , e fazer-lke acatamento, e a co- 
meçou a íervir como Rainha : era ella mu- 
lher muito velha , e de grande refpeito , e 
authoridade , e aíhm como eíTa , a Rainha 
a começou a tratar como mai. PaíTados al- 
guns dias , em que a Camereira tinha já 
poffe delia , e que corriam em grande ami- 
zade , lhe diíle hum dia , que o Rei Bra- 
ma era avifado dos feus Aítrologos , que: 
havia de cafar com huma Princeza de Cei- 
lão 5 que teria certas medidas nas pernas , 
braços , e pefcoço , como fe declarava na- 
quelles livros , que a Camereira lhe mof- 
trou alli : que por iífo lhe havia de dar li- 
cença , porque aílim importava muito , pê- 
ra lhe tomar aquellas medidas : que pêra 
iífo a mandara EIRey, por confiar aquilío 
mais delia que de outra. A Princeza a ou- 
vio muito grave , e com muita authorida- 
de lhe refpondeo , que no feu corpo não 
havia de tocar outra peílba alguma* , mais 
que EIRey feu marido : que iria a Pegú , e 

el- 



8o ÁSIA de Diogo de Couto 

elle lhe tomaria lá as medidas que quizef- 
fe. A Camereira não pode obrigalla a na- 
da ; mas logo avifou EIRey do que parta- 
va , porque por correios tinha todos os dias 
avilos de tudo ; e dando-lhe efte recado da 
Camereira do que paliara com a Rainha , 
o feítejou muito , e fez diflb muita arte, 
e galantaria , e mandou que logo cami- 
iihafíe pêra lá , como fez : e por todo o ca- 
minho a foram acompanhando todos os 
principaes das Cidades , e povoações por 
onde paliavam., com muitas feitas, bailes, 
e tangeres , e ainda com muitas dadivas y . 
e prefentes ricos , até chegar á Cidade de 
Pegú , onde defembarcou com a maior pom- 
pa , mageftade ," e riqueza y que fe podia 
imaginar. O filho herdeiro de EIRey a foi 
receber á defembarcaçao , e por todas as 
ruas por onde paliou , achou novas inven- 
ções de arcos , theatros , riquezas , e repre- 
ientações , que os naturaes dos Reynos fu- 
j eitos ao Brama lhe faziam. EIRey fahio 
a recebella á .porta dos Paços 5 em que fe 
ella havia de apofentar , que eftavam ri- 

?[uiiTimamente aparamentados com todo o 
erviço da comera , recamera , e guarda- 
roupa , com tudo o mais neceítario á mu- 
lher de hum tão rico , e poderofo Monar- 
ca , e depois lhe applicou groíias rendas 
pêra defpeza de fua çafa. Eíles primeiros 

di- 



Década VIIL Cap. XU. 2i 

dias correo com ella , mandando-a levar a 
fua cafa , e a fez jurar por Rainha com 
grande magefhide ; mas como elle tinha 
muitas Princezas filhas de Reys feus vaífal- 
los por concubinas , e outras Damas mui- 
to fermofas das fuás portas a dentro y fe- 
chadas mais que em hum Moíteiro , e ella 
veio a faber que corria com ellas , come- 
çou-lhc a demandar ciúmes , e carrancas, 
coufa que nenhuma lhe fez nunca > nem elle 
fabia o que aquillo era , e goftava muito 
diífo , e fazia grandes rifos > e paífatempos 
deitas coufas todas. Os capados , que fer- 
viam a Rainha , avifavam a António To£ 
cano ? com quem corriam em amizade $ que 
me contou tudo iíto , e outras coufas que 
deixo , por não fer proluxo* 

E como ahi não ha coufa que fe não 
faiba , veio EIRey Brama a faber que aquel- 
la mulher não era filha de EIRey de Cei- 
lão , fenão de feu Camereiro , porque pa- 
rece que o André Bayão i que lá foi com 
ella por Embaixador , veio a dar com a 
lingua nos dentes ( como lá dizem j ) pra- 
ticando com alguns Chinas de Pegú , que 
o contaram a EIRey , que fez dilfo pouco 
cafo , por lhe eílar aíFeiçoado > e também 
porque os Talapões , e Embaixadores que 
foram bufcar a Rainha , lhe deram conta 
do dente de Bogío , e da veneração , com 
Couto. Tom. V. P* 1. F que 



8i ÁSIA de Diogo de Couto 

que aquelle Rey o tinha , e como ficara 
concertado com elle que o entregaria : o 
que o Brama eftimou muito , porque aquel- 
le dente o tinham pelo do feu idolo Qui- 
jay y e eitimava elle fobre todas as coufas da 
vida : e prouvera a Deos que aflim eítima- 
ramos nós hum dente de Santa Apollonia ; 
mas não digo muito nefte dente deita San- 
ta, mas hum cravo com que Chriíto foi en- 
cravado , ou hum efpinho que lhe atravef- 
fou lua iantiffima cabeça , ou o ferro da 
lança , que lhe rafgou leu fagrado peito , 
que tudo efteve muitos annos em poder dos 
Turcos , fem os Reys Chriítãos os manda- 
rem refgatar , como efte Brama fez ao den- 
te do diabo , ou do veado ; porque logo 
tornou a defpedir os mefmos Embaixado- 
res , e Talapões a pedir aquelle dente , e 
Hiandou por elle aquelle Rey groiTiilimas 
riquezas , e com promeflas de outras maio- 
res. Eíles Embaixadores chegaram a Co- 
lumbo , e trataram o negocio em fegredo 
com aquelle Rey, o qual lhes entregou o 
dente em fua charola com muitas ceremo- 
nias , e cautelas , com o qual logo fe em- 
barcaram com muita preíTa na mefma náo 
que pêra iíío levaram. 



CA- 



Década VIII. Cap. XIIL 83 
CAPITULO XIIL 

Da grandeza , e riqueza com que ejle den+ 
te foi recebido em Pega. 

POucos dias puzcram até Cofmi , porto 
de Pegú , onde logo fe deram as no^ 
vas > e acudiram todos os Talapões , e gen- 
te que por ali i pouzava , e foram adorar 
com grande veneração ; e pêra o defem- 
barcar infinitas jangadas fobre embarcações 
com meaílas feitas em ííma muito bem la- 
vradas , e aparamentadas ; e a em que fe 
havia de embarcar o maldito dente , era 
toda fundada de ouro , e prata , e outras 
curioíidades muito euftofas : defpedio-fe lo- 
go recado a Pegd ao Brama, que mandou 
com muita prella todos os Grandes ao re- 
ceber , e lhe ficou preparando o lugar , on- 
de fe havia de depofitar , no qual o Bra- 
ma moftrou fua potencia j e riqueza» O den- 
te foi pelo rio aílima , que era entulhado 
de embarcações euftofas , e curiofas i cer- 
cada acafa, em que hia acharola, de tan- 
tas luminárias , que efeondiam a claridade 
do dia. 

EIRey , como teve tudo preftes , em- 
barcou-fe cm fuás embarcações forradas àè 
ouro, e aparamentadas de borcado , e foi 
F ii re* 



&4 ÁSIA de Diogo de Couto 

recebello dous dias de caminho ; e chegan- 
do á vifta das embarcações , em que fe tra- 
zia o dente , fe metteo na camera da fua 
galé , e fe lavou , e purificou com muitas 
aguas cheiro fas , e fe veítio dos mais ricos 
veílidos que tinha ; e tanto que entrou na 
jangada , em que o dente vinha , defde a 
proa até chegar a elle , foi fempre em joe- 
lhos com grandes exteriores de devoção ; 
c chegando ao altar 5 em que a charola ef- 
tava , tomou o dente na cullodia em que 
hia , nas mãos , e o poz muitas vezes fo- 
bre fua cabeça , e fez íolemniíTimas acções y 
com exteriores efpantofos , e depois o tor- 
nou a leu lugar , e o foi acompanhando 
até á Cidade , recendendo todo aquelle rio 
em cheiros fuaviííimos 5 que fe levaram em 
todas aquellas embarcações > e ao defem- 
barcar do dente fe lançaram ao mar os mais 
honrados Talapões , e Xenis de todos os 
Reynos y e os principaes tomaram a cha- 
rola fobre feus hombros , e foram cami- 
nhando pêra os Paços com tanto concurfo 
de gente, que não havia poder romper ^ e 
os Senhores principaes defpíram feus ver- 
tidos muito ricos , e cuítofos > e os foram 
eftendendo pelo chão , pêra por íima dei- 
les paílarem os que levavam aquella ne- 
fanda relíquia. 

Os Portuguezes que fe acharam prefeiv* 



tçs > 



Década VIII. Cap.XIIL 8? 

tes, hiam pafmados de ver aquella bruta* 
lidade , e mageftade ; e António Toícano , 
que atrás diíTe que foi hum delles > me con- 
tou coufas notáveis da mageftade, e gran- 
deza , com que foi recebido , que o não 
fei efcrever, e confeffo que me faltam pa- 
lavras , e eltylo pêra o dizer : em fim tu- 
do quanto todos os Emperador^s , eReys 
do mundo juntos podism fazer em huma 
fefta folemniillma , em que todos quizeílem 
moítrar íiia potencia 5 efte bárbaro fó fez. 
Defembarcando o dente , foi pofto no meio 
do terreiro do Paço , onde fe lhe tinha ar- 
mado hum riquiííimo tabernáculo , aonde 
affim EIRey , como todos os Grandes fo- 
ram oíFerecer feus riquiffimos dons , e pre- 
fentes , declarando-lhe logo de quem eram , 
e eram efcritos , e receitados por officiaes 
que pêra ifíb eftavam deputados. 

Alli efteve dous mezes efte dente , até 
que fe mudou a huma varela , que fe aca- 
bou de fazer no lugar , em que venceo , e 
desbaratou o Ximido Sátão, que fe lhe le- 
vantou com o Reino , em gratificação da- 
quella grande vitoria. E por concluir com 
eftas coufas, por irem todas enfiadas , tra- 
tarei das que fuccedéram ao Rey de Cândia 
com eíte Brama a refpeito de EIRey D.João 
de Ceilão 5 pofto que fuccedéram efte anno 
que vem ; mas porque cabem aqui > não quis 
deixar pêra o diante» Ef- 



8á A S I A de Diogo de Couto 

Efías coufas, que o Rey de Ceilão D; 
João tratou em tanto fegredo com o Bra- 
ma , aííim do eafamento daquella moça com 
o nome de fua filha , como o do dente do 
Bogio , foram logo ás orelhas de EIRey 
de Cândia ; o qual íabendo o caio como 
paliou , e as grandes riquezas , que o Bra- 
ma lhe mandou por o dente que fingio ler 
de Bogio, dando-lhe inveja de tudo, com 
fer muito parente de EIRey D. João, e ca- 
iado com huma fua irmã , ainda que não 
faltou quem diffeíle que era filha , defpe- 
dio logo Embaixadores ao Brama , os quaes 
elle recebeo honradamente ; e quando os 
ouvio, lhe diíTeram da parte do leu Rey, 
que aquella moça, que lhe EIRey D.João 
mandara por fua filha , tinha entendido que 
o não era, mas que era filha do feu Carne- 
reiro Mor: e que o dente que lhe manda- 
ra com tantas ceremenias , e veneração , era 
feito da ponta de hum veado: que elle de* 
fejava muito de fe aparentar com elle , e 
que pêra iffõ oíFerecia huma filha fua por 
mulher não fingida , fenão verdadeira : e 
que também lhe fazia a laber , que elle fó 
tinha , e era depoíitario do verdadeiro den- 
te deQjijay , porque nem o que D. Conf- 
f-antino levara de Jafanapatão , era verda- 
deiro , fenão aquelle que eíle tinha, como 
faria certo por efçrituras 7 e olas antigas. 



Década VIII. Cap. XIII. . $7 

O Brama informado do cafo , deitou fuás 
contas; e vendo que tinha já jurado aquel- 
la moça por Rainha , e recebido o dente 
com aquella mageftade , e collocado em 
varela particular , diífimulou com o nego- 
cio , por não confeíTar que fe enganou, 
porque tão máo he enganarem-fe osReys, 
como enganarem-nos a elles : e aflim ref- 
pondeo aos Embaixadores , que elle efti- 
mava muito o parenteíco que EIRey de 
Cândia queria ter com elle , e o meímo o 
dente de Bogio : que lhe fizeíTe mercê man- 
dar-lhe tudo , e que pêra o trazerem lhes 
daria huma náo muito fermofa com coufas 
pêra EIRey : e mandou preparar duas náos > 
que mandou carregar de arroz , e de pe- 
ças ricas 5 aífim pêra o Rey D. João , co- 
mo pêra o de Cândia ; e na de EIRey D. 
João mandou embarcar todos os Portugue- 
zes que lá tinha cativos i em; que entrou 
António Toícano , que foi o que mediffe^ 
e contou eítas coufas muitas vezes. 

Chegadas eítas náos a Ceilão , a que 
foi furgir no porto de Cândia 3 primeiro 
que defcarregaile lhe cortaram as amarras-, 
e deram com ella á coita, onde fe perdeo 
tudo , e fe affogáram os Embaixadores : e 
prefumio-fe que fora por ordem de EIRey 
D. João de Ceilão , que eítavam inimigos 
capitães ; e fe tal foi ; devia fer ardil do 

Ca- 



SS ÁSIA de Diogo de Couto 

Camereiro Mor , porque EIRey não tinha 
artificio pêra nada : e com tudo ifto ficaram 
eítas coufas nefte eílado , fem mais haver 
cfFeito^ nem fe fallar nellas. 

CAPITULO XIV. 

De como fe conjuraram os Reys do Decao 
contra o Rey de Bifnagd , em que lhe de- 
ram batalha , na qual o desbarataram y 
e mataram > e tomaram o Rey no. 

EM muitas partes das minhas Décadas 
tenho eferito , em como os Reys de 
Biíhagá foram Senhores de todos os Rey- 
nos que fazem de Bengala até o Cinde , 
cuja potencia , e riqueza foi coufa incrível ; 
e depois que os Mouros conquiftáram o 
Reyno do Decao , fempre entre elles hou- 
ve grandes ódios , e guerras ; e ainda os 
annos paííados de quinhentos feíTenta e três ? 
em tempo do Conde do Redondo , entrou 
Rama Rey do Bifnagá pelos Reynos de Iza- 
maluco hum anno apôs outros 5 e os def- 
tniío , aííolou , e desbaratou de todo , dos 
quaes levou grandes riquezas. O Izamalu- 
co magoado daquelle geral , convocado o 
Idalxá , e o Hebrahe , e o Cotubixa , e o Ve- 
rido , pêra efta liga ficar tão fegura , ( fe en- 
tre Mouros ha feguranca) tratou de fe apa- 
reis 



Década VIII. Cap. XIV. 89 

rentar com todos , como fez por efta ma- 
neira : ao Idalxá deo huma filha em cafà- 
mento com grande dote, e a Cidade Sela- 
por , que lhe tinha tomado , e ao Cotuhi- 
xa deo outra ; e elle cafou com huma fi- 
lha , ou irmã do Idalxá : os quaes cafamen- 
tos foram celebrados com grandes feitas , 
e firmes juramentos de fe ajuntarem todos 
contra o Rey de Bifnagá, do que elle lo- 
go foi avifado ; e ajuntando feu poder, e 
convocados feus vafíallos , fe poz logo em 
campo com feus irmãos Venta VengataRa- 
je Capitão do campo, eTimaraje Veador 
da fazenda, eaffirma-fe que tinha cem mil 
cavallos , e mais de feifcentos mil de pé. 
Os três inimigos trariam íincoenta rúil caval- 
los , e trezentos mil de pé , e algumas pef- 
foas do campo : com efte poder fe foram 
bufcar huns aos outros com grande deter- 
minação. 

CAPITULO XV. 

Do encontro dejles Reys , rompimento , e 

batalha , em que o Rey de Bifnagá 

ficou morto , e desbaratado. 

OS três Reys da conjuração chegaram 
aos extremos do Reyno Bifnagá , e fo- 
ram entrando por elle, e fazendo grandes 
danos P e cruzeas; o de Bifnagá também foi 

em 



90 A S I A de Diogo de Couto 

em bufca delles. Eftando hum dia jantan* 
do 5 lhe deram rebate que appareciatn os 
Reys inimigos, pelo que com muita pref- 
fa fe poz em hum fermoíb cavallo , e or* 
denou a fua gente o melhor que entendeo. 
Os dous irmãos fe foram a elle , e lhe pe- 
diram que fe recolheífe á Cidade de Bif- 
nagá que era forte , e que elles ficariam 
dando batalha aos inimigos : e que com fa* 
berem que o tinham em Bifnagá , cuida- 
riam que fempre os foccorreria : e os inis 
migos haviam de fazer difcurfo , como fou- 
beffem que elle eftava lá , que tinha com- 
ílgo mais groífo poder , e fempre o haviam 
de recear. 

O Rey com fer de noventa e féis an- 
nos , com brio de trinta lhes refpondeo y 
que fe recolheífem elles embora, que elle 
ficaria ás mãos com os inimigos : e que fof- 
fem elles agazalhar feus filhos , e brincar 
com elles : e que elle era Rey , e havia de 
fazer feu officio , que era andar diante de 
feus vaílallos , defendendo-os , e animando- 
os. Tinha EIRey mandado diante de feus 
vaífallos hum Capitão da coíla Real com 
dez , ou doze mil foldados da cofta Rafes 5 
que chamam Rachebidas , como os Janiza- 
ros dos Turcos , pêra defcubrirem o cam- 
po ; e eftando elle neílas praticas , e dos ir- 
mãos 3 lhe veio recado y que já os Rache- 

bi- 



Década VIII. Cap. XV. 91 

bidas tinham travado com os inimigos ; pe- 
lo que vcl ando ocavallo, tcmou duas lan- 
ças , em cada mão Jmma , e mandou dian- 
te feu irmão Vengata Raje , corno Geral do 
campo , pêra que foíle favorecer os Rache- 
bidas. O Vengata Raje chegou aonde os feus 
andavam travados , e metteo-fe de envolta 
com elles , pelejando valerofamente ; mas 
aos primeiros encontros defappareceo lo- 
go ; e acudindo Intima Raje com feu filho 
Ragfanate Raje , foram dando com muita 
torça nos inimigos , cujo encontro lhes ti- 
nham fó mil e quinhentos Rachebidas , por 
ferem os mais mortos , e feridos ; e metti- 
dos na batalha, poílo que fizeram grandes 
cavallarias , foram feridos elle , e o filho 
muito mal , e fe fahíram da batalha. Eftas 
novas deram ao Rey ; e arrancando com o 
refto do poder , foi dando nos inimigos , 
appeílidando por vezes dorida , Gorida ? 
que he o feu idolo das batalhas, como nós 
o fazemos ao Apoftolo Sant-Iago. A van- 
guarda dos conjurados trazia o Idalxá , e 
Cotubixa , e a retaguarda o Izamaluco : aos 
primeiros encontros do Rey de Bifnagá, 
que foram muito furiofos , lhe largaram os 
da dianteira o campo; e dando o Rey com 
os Rachebidas no Izamaluco , que tinha 
dez mil de cavallo , o arrancou do cam- 
po 3 e foi dando nelle por efpaço de meia 



9^ ÀSIÀ de Diogo de Couto 

légua, em que lhe matou de vantagem de 
dous mil. Os Rachebidas , como viram o 
feu Rey mettido no perigo , defcéram-fe 
dcs cavallos , e a pé quedo fizeram nos ini- 
migos grande matança. O Izamaluco , que 
hia em desbarato , tornou a fe reformar , e 
voltou com algumas peças de campo , e a- 
chou o Rey de Bifnagá miílurado com o 
Idalxá ; e pondo fogo ás bombardas , fez 
nos inimigos tamanha deítruiçao , que foi 
efpanto , e com o medo delias fugiram to- 
dos , ficando o pobre Rey velho cativo , e 
muito mal ferido 5 eaffim foi levado ao Ni* 
zamexa , que em o vendo , remetteo a el- 
le , e lhe cortou a cabeça, dizendo : Ago- 
ra que me vinguei de ti ,faça Deos de mim 
o que quizer. 

O Idalxá teve logo rebate da prizão de 
EIRey , e acudio muito depreíTa pêra o li- 
vrar, porque era tamanho feu amigo, que 
lhe chamava Pai , mas já o achou fem ca- 
beça , o que fentio em extremo. Desbara- 
tado o campo , deixáram-fe eílar os vence- 
dores no lugar da batalha três dias , nos 
quaes os filhos dos Rajos fobrinhos de EI- 
Rey entraram em Bifnagá , e carregaram 
mil e quinhentos e fincoenta elefantes de 
jóias , pedraria , dinheiro amoedado , e ou* 
trás coufas deíla forte , que fe eftimou em 
mais de cem milhões de ouro } e a cadeia 

ra 



Década VIII. Cap. XV. 93 

*a Real > em que EIRey fe fentava em dias 
de fuás feitas , que fe affirma fer fem eíli- 
ma , e com tudo iílo fe foram peio certão 
dentro, e recolheram tudo noPaçodeTre- 
mil 5 por fer muito forte ? o qual eílava em 
fima de huma ferra inexpugnável , dez dias 
de caminho de Bifnagá ; e depois delles re- 
colhidos com eíles thefouros , deram os Be- 
dués , que fam gentes dos mattos , féis ve- 
zes em Bifnagá 5 e levaram outras riquezas 
mui grandes , o que tudo perderam os con- 
jurados , por não feguirem logo a viíloria. 
Acabados os três dias , fe foram á Cidade 
de Bifnagá a rabifcar o que ficou , que foi 
tanto , que fe detiveram niífo finco mezes , 
no cabo dos quaes fe recolheram todos mui 
ricos: e ainda hoje o Idalxá tem hum dia- 
mante tamanho como hum ovo , que o Rey 
de Bifnagá trazia no pé das plumagens da 
cabeça do feu cavallo , e outro por botão 
das nominas , fora outras peças de infinito 
valor. PafFados os finco mezes , foram-fe 
os conjurados pêra feus Reynos ; e os fi- 
lhos , e fobrinhos do Rey morto reparti- 
ram entre fi os Reynos , que ainda hoje 
poííiiem feus herdeiros. 

Deite desbarato do Rey de Bifnagá fi- 
cou a índia, e o noíToEftado mui quebra- 
do ; porque o maior trato que todos tir 
nham, era o deite Reyno, aonde levavam 

ca- 



94 ÁSIA de Diogo de Couto 

cavallos , veludos , fetins , e outras fortes de 
mercadorias , em que faziam grandes pro- 
veitos : e a Alfandega de Goa o fentio bem 
em íeu rendimento , de maneira que de en- 
tão pêra cá começaram os moradores de 
Goa a vir a menos ; porque as beatilhas , 
e roupas finas , que era hum trato de gran- 
de importância pêra Ormuz , e pêra Portu- 
gal , logo eítancou ; e os pagodes de ou- 
ro , de que todos os annos vinham mais de 
-quinhentos mil a empregar nas náos do 
Reyno , valiam então a fete tangas e meia , 
e hoje valem a onze e meia , e aífim a ef- 
ta conta todas as mais moedas: ainda que 
niílo nós temos a primeira culpa 5 e a maior, 
porque bulimos nas moedas liquidas , e pu- 
ras , e as fizemos falfas , e de mim forte , 
com que tudo fe alterou. 

Na entrada deite anno defeíTenta efeis 
foi Luiz de Mello entrar na Capitania de 
Ormuz 5 por virem novas de fer falecido 
D. Pedro de Souza y o qual foi enterrado 
entre as portas das Fortalezas , e fcus of- 
fos foram mudados á parede > onde tem 
hum nicho com grades de ferro , e feu le- 
treiro. Foi Fidalgo muito honrado , bom 
Chriítão, e temente aDeos. Dizem que ti- 
nha Formão do Grão Turco , pêra poder 
ir por terra pêra o Reyno , e levar cerres 
homens de cavallo r pêra o que fe fazi$ 

prek 



Década VIII. Cap. XV. 9? 

preftes ; mas Deos noflb Senhor ordenou 
que foffe pêra outro melhor Reyno , aon- 
de fe preíume iria por fua virtude , e bon- 
dade. Foram no mefmo tempo pêra o ef- 
treito de Meca dous navios de remo , Ca- 

Eitaes António Cabral , e Pedro Lopes Re- 
ello $ pêra tomarem falia de galés , e avi- 
farem Ormuz; epor acharem tudo quieto, 
voltaram a invernar a Goa. 

A finco de Setembro deite anno de i^óó. 
faleceo o Turco Solimao , eílando fobre Se- 
gete 5 lugar nos confins de Ungria 5 fendo 
de idade de feífenta e féis annos. Succe- 
deo-lhe feu filho Solimao II. do nome ? que 
foi a quem o Senhor D. João de Auítria 
desbaratou aquella potente Armada, fendo 
General dos da Liga ; outros dizem que não 
faleceo fenão mais adiante em 15*67. Foi efte 
Solimao coroado por Emperador dos Tur- 
cos o mefmo dia , que o foi o Emperador 
Carlos V. invivílilíimo do Império de Ale- 
manha. 

CAPITULO XVI. 

De como Gonfalo Pereira Marramaque foi 
a Amboino , e a caufa da fua ida. 

Tinham vindo em Abril paliado dous 
Embaixadores de Amboino chamados 
D. António P e D. Manoel 7 Chriítãos natu- 



96 AS IA de Diogo de CotrTo 

raes , da parte de todos , os quaes propu- 
zeram em fua embaixada , que as coufas 
daquellas Ilhas eftavam em eftado defeper- 
derem , e de retroceder toda aquella Chri- 
ftandade , pelas grandes guerras que os vi-* 
zinhos lhe faziam. Com iflb trouxeram com- 
ligo hum Padre da Companhia , que quiz 
acompanhallos naquelía jornada tanto do 
ferviço de Deos , o qual com palavras de 
muita obrigação íignificou em Confelho o 
perigoíb eítado daquellas Ilhas ; e pondo 
o Viíò-Rey aquelle negocio em Confelho 
por algumas vezes , no qual foram ouvidos 
os Embaixadores 5 e o Padre , aíTentou-fe 
que era neceííario acudir áquellas coufas y 
que eram de muita importância ; porque fe 
fe perdefíe Amboino , eílava certo perde- 
rem-fe todas as Ilhas de Maluco logo ; e 
■aíTentado em fe mandar efte foccorro 7 poz o 
Vifo-Rey os olhos em Gonfalo Pereira Mar- 
ramaque, pelo que tinha fuccedido aquelle 
verão paliado , e vinha-lhe bem achar-íe 
naquelía jornada , pêra remediar y . e vir en- 
trar na Fortaleza de Ormuz , de que era 
provido ; e o feu cafo foi efte : 

Sendo Capitão Mor de Malavar , anda- 
va na Armada hum Caílelhano Fidalgo Ca- 
valleiro , chamado André deTorquemada, 
com o qual parece que o Capitão Mor te- 
ve algumas razões ^ de que elle ficou, quei* 

xo- 



Década VIII. Cap. XVI. 97 

Xofo ; e vindo o Gonfalo Pereira de cafa 
do Vifo-Rey a pé com alguns foldados y 
entrando pela rua de Nuno da Cunha, on- 
de elle poufava , andava o Caítelhano paf- 
íeando a cavallo com Heitor dá Silveira 
Drago^ Emparelhando Gonfalo Pereira com 
elles , fallou-lhe de barrete , e Heitor da 
Silveira Drago lhe tirou o feu , mas o Cas- 
telhano não , do que enfadado o Gonfaíò 
Pereira, fez pé atrás , e diíle ao Cafteíha- 
no : Quando eu f aliar , fallai-me ; e fenão y 
e calou-fe. O Caítelhano , que era fober- 
bo , e arrogante, tanto que Gonfalo Perei- 
ra diífe: E fenão , refpondeó : Y 'fino , fea 
luego \ e lançando-fe do cavallo , apunhou. 
Os foldados de Gonfalo Pereira arranca- 
ram , e remettêram a elle ; e Gonfalo Pe- 
reira , fem tirar efpada , fe metteo em meio y 
bradando : Tá , tá \ mas não pode eítorvaf 
que lhe deífem huma eílocada em huma 
mão , e outra na cabeça , das qtiaes o Caf- 
telhano veio a morrer em poucos dias , dei 
que Gonfalo Pereira tirou Carta de fegu- 
ro , aífim pêra íi , como pêra os foldados y 
ainda que elles eíbavam feguros enl fua ca- 
fa j e porque eíle negocio havia de ir ao" 
Reyno, e podia fer que fe tomaííe amai, 
quiz o Vifo-Rey tirar efte Fidalgo de Goa, 
emandallo naquella jornada, que era mais" 
importante de todas , pêra com iíFo ficar 
Couto. TonuVF.L G a- 



98 A S I A de Diogo de Couto 

aquelle negocio no Reyno apagado , por- 
que o Torquemada era favorecido da Rai- 
nha : e lhe ordenou logo huma Armada de 
quatro galeões , e oito galeotas , em que 
hião mais de mil homens. Os Capitães dos 
galeões y afóra Gonfalo Pereira , foram D. 
Duarte de Menezes de Vafconcellos , a que 
cá chamaram o Narigão , Manoel de Bri- 
to j tio de Gonfalo Pereira 5 e Gomes de 
Brito , que hia no galeão S. Thomé a fa- 
zer viagem de Maluco , de que era provi- 
do. Das galeotas hiam por Capitães Se- 
baítião Machado , António Lopes de Si- 
queira , Mem Dornellas de Vafconcellos, 
Lourenço Furtado , meio irmão de Trilião 
de Mendoça , que foi Capitão de Chaul 3 
Francifco de Mello , e Simão de Mello > 
filhos de Gafpar de Mello. Partio eíla Ar- 
mada quaíi em fim de Abril de 1566. ecom 
Gomes Barreto foi embarcado Gabriel Re- 
bello por Feitor daquella Armada , e que 
o havia de fer da Fortaleza de Ternate, 
que já tinha andado naquellas Ilhas, e en- 
tendia as coufas delias melhor que todos 
os que lá paíTáram , das quaes fez hum Dia- 
logo muito curiofo, que eu tenho em meu 
poder , do qual me ajudei muito nas cou- 
fas que efcrevi de Maluco. Foi eíle homem 
grande Filofofo natural , e de vivo enge- 
nho j e táo honrado ^ que quando EIRey 

or- 



Década VIII. Cap. XVI. 99 

ordenou nefte Eftado a Meza da Confcien- 
cia , o elegeo , eítando cá , por Secretaria 
delia. 

Gonfalo Pereira chegou a Malaca , on- 
de eílava D. Diogo de Menezes por Capi- 
tão , que eram cunhados , e parentes mui- 
tas vezes j pelo que lhe fez grandes gaza^ 
lhados , e recebimentos y e alli efteve até 
fe partir em Agoílo feguinte de 1567. 

Depois em Setembro feguinte partio pê- 
ra Banda D. Manoel de Noronha provida 
daquellas viagens , que partio a vinte e dous 
daqueile mez no galeão Santa Maria com 
muitos provimentos pêra Amboino pêra a 
Armada de Gonfalo Pereira , o qual D. Ma- 
noel teve humas palavras muito ruins com 
o Efcrivao da náo , que fe chamava foao 
Boto , e dizem que lhe deo com huma ca- 
na ; mas o outro , como era muito honra-' 
do , que o conheci eu 5 e a três irmãos que 
cá pairaram , endireitando com o Capitão , 
matou-o ás adagadas ; e como elie era a 
fegunda peífoa da náo, e levava regimen- 
to pêra fucceder na viagem i não puderam 
entender com elle, e affim foi a Banda fa- 
zer fua carga , e tornou a Goa y onde fe 
livrou do cafo, Efte D. Manoel de Noro- 
nha cuida que era das Ilhas Terceiras , e 
cafado lá , ficáram-Ihe dous filhos , que cá 
paliaram, ehum deli es foi D. Francifco de 

G ii Ne* 



ioo ÁSIA de Diogo de Coitto 

Noronha , que foi Capitão de Baçaim , e 
morreo inchado como hum odre. 

Na entrada de Janeiro deite anno de 
1567. defpedio o Viíò-Rey Álvaro Paes So- 
tomaior Capitão de Cananor , que veio a 
Goa a negócios , por eílar já aquella For- 
taleza de paz com a de Rajáo , o qual Ál- 
varo Paes foi por Capitão Mór de Mala- 
var: elevou efta Armada de JoãodeMen- 
doça , filho de Trilião de Mendoça, D. Gon- 
falo de Menezes que veio com o Vifo-Rey 
do Reyno , irmão do Alferes Mór D. Jor- 
ge de Menezes , Fernão Gomes da Grã > 
íobrinho do mefmo Álvaro Paes , João Ro- 
drigues de Beja, filho de Rodrigo deVaf- 
concellos , Veador que foi do Infante D. 
Luiz , Luiz da Silva , cuido que he filho 
de Francifco Barreto , D. Miguel de Me- 
nezes , irmão de D. João Tello , Vicente 
Paes , Pedro Ribeiro , Jeronymo Fernandes, 
António Fernandes de Chalé, António Fer- 
nandes de Cananor , Pedro Fernandes , An- 
tónio Froes , Belchior Barboza de Cananor, 
e ScbafHão Vaz. Nefta companhia mandou 
o Vifo-Rey Francifco Pereira Coutinho pê- 
ra ficar invernando em Chalé , e dar meza 
a todos os foidados. Nefta Armada houve 
pouco que fazer , porque como havia pa-. 
zes no Malavar, não houve nada. 

E porque houve atoardas > que ainda 

dos 






Década VIII. Cap. XVI. 101 

dos rios de Malavar fahíram paraos , com 
eftarem de paz , ordenou finco navios aven- 
tureiros 5 mui ligeiros , e efcolhidos , pêra 
da r em volta pelo mar , a ver fe achavam 
alguns coíTairos. Deites navios foram por 
Capitães D. Duarte Deça , Fernão deMen- 
doça, Manoel de Mello filho de Simão de 
Mello , que foi Capitão de Malaca , D. Luiz 
de Caftello-branco filho do Camereiro Mór 
deEiRey D.João, D. Francifco de Caftel- 
lo-branco Pai de D.Jorge de Caftello-bran- 
co , que agora ha pouco que faleceo em Or- 
muz , fendo Capitão , e Gil de Góes. Parti- 
ram em Março de 1567. e não lhes fucce- 
deo mais que fazerem aífugentar alguns la- 
drões. 

No mefmo tempo partio Diogo Lopes 
deMefquita pêra Capitão da Fortaleza de 
Ternate , e Maluco , por acabar feu tem- 
po Álvaro de Mendoça , que lá eftava , o 
qual no galeãa S. João levara muitos pro- 
vimentos pêra Amboino , e Ternate , e pê- 
ra a Armada de Gonfalo Pereira. Hiam 
mais nefta companhia duas galeotas , de 
que eram Capitães Duarte de Vilialobos ,. 
e Cofme Faia. Diogo Lopes de Mefquita 
foi fazendo fua viagem; e as duas galeotas 
arribaram a Goa aos três dias de viagem. 



CA- 



102 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XVII, 

J) a ida de D. Jorge de Menezes Baroche ao 
ejlreito de Meca , e do que lhefuccedeo. 

PArtio D. Jorge de Menezes Baroche 
pêra o eílreito de Meca em Janeiro de 
1567. elle no galeão Santa Maria daEfpe- 
rança , Francilco de Miranda Henriques , 
que depois cafou em Cochim , no galeão 
S. Chriílovao , António Cabral no galeão 
S. Vicente , Pedro Lopes Rebello no ga-* 
leão S. João Baptiíta 5 António Cabral na 
galé S. João Evangelifta , Balthazar Evan- 
gelho fufta , Gafpar Vas de Mefquita fuf- 
ta , Leonardo de Medeiros fuíla , e Gafpar 
Sueiro outra. Levava regimento pêra ir ef- 

Serar as náos do Achem nas Ilhas deMal- 
iva y e de ahi ir a Monte de Feliz efpe- 
rar que foflem pêra o eílreito , e queficaí- 
fem invernando em Ormuz nas Ilhas de 
Maldiva. Não houve que fazer , porque não 
viram náo alguma , e foram invernar em 
Ormuz ? tirando Francifco de Miranda , que 
invernou em Dio. 

Em Setembro deite anno de 1567, man- 
dou o Vifo-Rey Lizuarte de Aragão de Sou-* 
za , que era provido ; das viagens de Cei- 
lão , por Capitão de hum galeão com mui- 
tos provimentos de dinheiro , que partio 

em 



Década VIII. Cap. XVII. 105 

em 26. de Setembro , e tornou em 16. de 
Março de 156$. 

ríefte Setembro de 1567. defpachou o 
Vifo-Rey a feu Cunhado D. Leoniz Perei- 
ra , pêra ir entrar na Capitania de Mala- 
ca , de que eílava provido , por acabar feu 
tempo D. Diogo de Menezes 5 que depois 
foi Governador da índia , que ia eílava 3 e 
levou boa viagem até áquella Fortaleza. 

Depois delie em 6. de Setembro partio 
Lopo de Noronha pêra Maluco no galeão 
Reys Magos , pêra ir fazer aquella viagem , 
por contrato que fez com o Vifo-Rey , em 
que fe obrigava a dar pêra EIRey tantos 
barris de cravo forros ; porque com EIRey 
metter muito cabedal neílas viagens , nun- 
ca colhia delias coufa alguma , por tudo 
fe confumir em gaítos ? e mercês. Eíle ga- 
leão arribou , porque achou tempos con- 
trários, 

CAPITULO XVIII. 

Da ida de D. Franctfco Mafcarenhas 

Palha ao Malavar. 

DEpois do Vifo-Rey defpachar eílas 
coufas , intendeo na Armada que ha- 
via de mandar ao Malavar, de que eílava 
nomeado por Capitão Mor Pedro Barreto 
Rolimj mas chegaram novas pela Armada 

do 



io4 ÁSIA de Diogo de Couto 

do Reyno , de que veio por Capitão Mór 
J020 Gomes da Silva, que depois foiVea- 
dor da Fazenda do Reyno , que era mor- 
to Fernão Martins Freire , que eftava por 
Capitão em Moçambique , e o Pedro Bar- 
reto era provido daquella Fortaleza apôs 
elle : foi neceffario defiftir da Armada , e 
fazer preítes pêra ir entrar naquella Capi- 
tania ; e o Vifo-Rey nomeou pêra o Ma- 
lavar D. Francifco Mafcarenhas Palha , a 
quem ordenou levar derredor de trinta na- 
vios , porque determinou aquelle verão ir 
caíligar a Rainha de Olaia , e Mangalor, 
por eílar levantada, e não querer pagar as 
páreas j e fazer naquelle feu porto huma 
Fortaleza , afíim pêra a fegigar com eila , 
como pêra as nofTas Armadas terem alli re- 
colhimento , e pêra que os Malavares não 
foílem levar o arroz daquelle porto , don- 
de a Cidade de Goa , e a Fortaleza de Or- 
muz fe luílentava ; e porque D. Francif- 
co Mafcarenhas não podia partir cedo , era 
neceílario mandar tomar aquelle porto de 
Mangalor 5 pêra que a Rainha não mettef- 
fe dentro foccorro de Malavares 5 nem fe 
levaífe dalli o arroz. Defpedio diante João 
Peixoto cafado em Goa , muito bom cavaí- 
leiro ? velho 5 e de muita experiência ? o 
qual partio de Goa a 7. ou 8. de Setem- 
bro com doze navios 5 de que afora eíle 

eram 



Década VIII. Cap. XVIII. 105- 

eram Capitães João da Silva Pereira , D. 
Miguel de Menezes , Chriítovão de Boba- 
diJha filho de António de Saldanha , e ir- 
mão de Ayres de Saldanha , que foi Vifo- 
Rey da índia , Fernão Gonfalves Gavião , 
D. Bernardo de Caftro , Nuno Ferrão da 
Cunha , João Rodrigues de Beja , Álvaro 
Monteiro , Diogo Soares de Albergaria , 
Francifco Pedrógão ; com a qual Armada 
João Peixoto foi correr a coita do Canará , 
até Monte Deli , pêra que os paraos de Ma- 
lavares fenão foítem encher de arroz, co- 
mo coítumavam fazer no Cede , e depois 
no fim de Outubro fe fez D. Francifco Mas- 
carenhas a vela com os mais Capitães dos 
navios , que afora elle eram Manoel de Sal- 
danha j D. Rodrigo de Souza , eíles em ga- 
leotas , D. Duarte de Lima galeão S. João 
Evangeliíta, Lopo de Barros filho de João 
de Barros, que efcreveo tão doutamente as 
três Décadas da Hiftoria da índia , que eu 
fegui por mandado do Prudente Rey D* 
Filippe, Manoel Simões Feitor da Arma- 
da, André da Fonfeca , Manoel Rodrigues, 
João deMendoça filho de Triílao de Men- 
doça 3 D. Francifco de Almeida , D. Luiz 
de Caítello-branco , Miguel'" Colaço deCa- 
nanor , João de Siqueira , Luiz Ferreira , e 
Cofme Faia. Com efta Armada foi o Ca- 
pitão Mor correr a coita do Malavar, até 

fer 



io6 ÁSIA de Diogo de Couto 

fer tempo do Vifo-Rey chegar : e levou or- 
dem pêra mandar cartas á Cidade de Co- 
chim, em que lhe fazia faber, que elle fe 
ficava fazendo preíles pêra ir caíligar a Ra- 
inha de Olaia 5 e lhe pedia o ajudafíe com 
alguns navios ; e aos Fidalgos que lá eíla- 
vam cafados , efcreveo que vieUem achar- 
fe com elle naquella empreza em navios á 
fua cufta , e o mefmo efcreveo ás Cidades 
de Chaul 5 Baçaim , Damão , Dio , pêra que 
cada hum acudiífe com o que pudeife : e 
affim fe ficou preparando pêra eíla jorna- 
da 5 e dando defpacho ás náos do Reyno 
pêra irem tomar carga a Cochim , pêra on- 
de as defpedio em Novembro , e por não 
deixar a cofta do Norte defamparada , def- 
pedio por Capitão Mor delia a Jorge de 
Moura com quatro , ou finco galeotas mui 
bem negociadas , de cuja jornada , e fuc- 
çeífo depois fallaremos. 

CAPITULO XIX. 

De como o Vifo-Rey D. Antão parte pêra 

Mangalor em 8. de Dezembro de 1567. 

e levou efta Armada. 

GAlés. O Vifo-Rey D. Luiz de Almei- 
da, D. António Pereira, D.Jorge Ba- 
roche , D. Francifco de Monroy , D. Pedro 
de Caítro , Pedro Lopes Rebelio. 

Ga- 



Década VIII. Cap. XIX. 107 

Galeões. António Cabral galeão Santo 
Eftevão ? Pedro Fernandes Meftre da fer- 
raria galeão ? Manoel Simões Veador , e 
Alferes , Francifco Paes de Mello , Gomes 
Freire de Andrade , D. João de Menezes 
de Baçaim , Álvaro de Lemos , António de 
Mello de Baçaim , António de Andrade de 
Vafconcellos 5 Jorge da Silva Corrêa , D. 
Diogo Lobo o velho > que lá mataram , Igna- 
cio das Povoas , Nuno Velho Pereira , An- 
tónio de Sá Pereira , Ruy Dias Cabral o 
grande privado de EIRey D. Sebaftiao , que 
aquelle anno veio do R^eyno , Manoel Fer- 
nandes de Manar , Fernão de Mendoça , 
Fernão Rodrigues de Carvalho , Pedro Ju- 
zarte Tição , João Alvares Soares de Ba- 
çaim , Ignacio de Lima. 

Fuftas , e galeotas. D. João Pereira o 
velho, cunhado do Vifo-Rey, António Bo- 
telho , Fernão Telles , que foi Governa- 
dor > com quem eu fui , D. Pedro Coutinho 
irmão de D. Jeronymo Coutinho , Nuno 
Alvares Carneiro Secretario , Belchior Bo- 
telho Veador da Fazenda , D. Sebaftiao de 
Teive 5 D. Nuno Alvares Pereira , João Dor- 
nela deGufmão, João deTovar, Paulo de 
Mefquita de Chaul , André de Pina , Ro- 
drigo Monteiro Efcrivão da Fazenda , Fran- 
cifco Louzado , Vafco Barboza 5 Henrique 
Moniz Barreto > João de Souza que acabou 

de 



io8 ÁSIA de Diogo de Couto 

de fer Capitão de Damão , Sebaftião Bo- 
carro , Chriítovão de Souza de Baçaim , An- 
tónio de Noronha de Cochim, Nuno Vas 
de Villalobos , Pedro Leitão , que veio por 
Capitão de huma náo do Reyno , Eítevao 
Juzarte Tição , Ruy Goníalves da Came- 
ra, que depois foi Capitão de Ormuz , Hei- 
tor de Sampaio , Ruy de Mello filho de 
Simão de Mello , António de Efpinola de 
Cochim , João Corrêa de Brito , e outros 
muitos navios de Cananor, Cochim, con- 
tras partes. 

E pofto que no Norte andava Jorge de 
Moura com a Armada que diffe , deixou o 
Viíb-Rey negociada outra , de que nomeou 
por Capitão Mor D.João Coutinho irmão 
do Senhor de Caparica : e com eítes na- 
vios 5 elle na galeota Peçoa ; Lourenço de 
Brito , Diogo Pinto , Vicente Paes 5 Braz 
Corrêa , Luiz de Aguiar em fuílas ? e em 
íua companhia foi Luiz Freire de Andra- 
de, que era cafado com huma enteada do 
dito D.João pêra ir entrar na Fortaleza de 
Chaul, de que era provido: a qual Arma- 
da fahio de Goa em Janeiro 5 e tornou em 
fim de Fevereiro fem lhe acontecer coufa 
alguma. 

O Viíb-Rey deo á vela , e foi-fe pôr 
emAngediya, pêra alli recolher toda a Ar- 
mada que ficava em Goa , onde eíleve pou- 
cos 



Década VIIL Cat. XIX. 109 

cos dias até fe ajuntar , e dalli mandou re- 
cado diante a Álvaro Paes Sotomaior Ca- 
pitão de Cananor , que folTe ter com elle 
a Mangalor poucos dias depois do Vifo- 
Rey. 

De Angediva defpedio o Vifo-Rey re- 
cado a Jorge de Moura , que foíie pêra 
elle, e o acharam vindo deChaul comhu- 
ma grande canla de navios ; e antes de che- 
gar a Carepatao , aviíaram que dentro na- 
quelle rio eftavam três navios de ladrões 
Malavares ; e entrando o rio, deixou a cá- 
fila furta na barra , eindo ao redor de hu- 
ma légua pelo rio dentro , encontrou os 
Coílairos , que eram huma galeota Latina , 
em que hia hum Rume grande roubador, 
que era Capitão Mór ; e inveftindo-a , o Ca- 
pitão Mor a abordou logo , e o meímo fi- 
zeram os outros navios aos Coffairos ; e 
como eftavam muito perto da terra, fe lan- 
çaram a maior parte delles ao mar, fican- 
do os navios aos noflbs ; e voltando com 
elles á toa , chegaram a Goa a falvamen- 
to , onde Jorge de Moura achou recado do 
Vifo-Rey que tornafíe a voltar pêra o Nor- 
te , o que elle fez: a galeota Latina fe ar- 
mou , e fe embarcou nella Manoel de Sou- 
za Coutinho , que depois foi Governador 
da índia , que em companhia de outros na- 
vios foram pêra Mangalor, onde já acha- 
ram 



tio ÁSIA de Diogo de Couto 

ram o Vifo-Rey. Jorge de Moura levou a 
cáfila ao Norte , e tornou a bufcar o Vi- 
íb-Rey a Mangalor. 

E depois deites navios partidos ficáranx 
ainda em Goa D. Luiz Mafcarenhas irmão 
de D. Jeronymo Mafcarenhas , que depois 
foi Capitão de Ormuz , mancebo mui gen* 
til-homem , e galhardo , e hum D. foão De- 
ça : e cada hum armou feu navio á fua cuf» 
ta ? pêra fe irem achar naqueila jornada , 
por andarem homiziados por huma refiften- 
cia que fizeram ao Ouvidor Geral , em que 
o trataram mal : e eíles dous Fidalgos tar- 
daram alguns dias em fe aviarem > e buf- 
carem foldados y e ambos juntos fahíram , 
e deram á vela huma manha pêra Manga- 
lor ; e indo juntos , ao outro dia encontra- 
ram huns paraos , que nunca pude faber 
quantos eram 5 nem o que paíTou , fomen- 
te abordarem , e tomarem os navios com 
morte de todos , fem efcapar quem diífeífe 
o como foi o negocio , perecendo aqui a- 
quelles dous esforçados Fidalgos > que de- 
viam de fazer tudo quanto tinham por obri- 
gação de feu fangue* 

E porque a defaventura não paíTaífe por 
alli y fuccedeo no mefmo tempo partir de 
Baçaim D- Luiz Lobo ,. que acabara de fer 
Capitão daquella Fortaleza , e vinha em 
huma galeota com a maior parte da fazen- 
da 






Década VIIL Cap. XIX. ní 

da que tinha , e aos dous dias de viagem 
encontrou com huns paraos deMalavares, 
que cuido iam os mefmos da defaventura 
paliada ; e inveítindo-a , foi axorado , e mor- 
to com todos : magoa bem grande , e cafo 
pêra fe fentir. Fidalgos tão honrados pe- 
recerem aíHm ás mãos de Malavares bru- 
tos , e cruéis : e eíte foi o primeiro dano 
que oscoíTairos fizeram nefta coita do Nor- 
te 3 aonde coílumavam paliar defde o tem- 
po do Conde do Redondo , que foi a def- 
truiçao da índia , porque não tem conto os 
roubos que tem feito , nem conto as cubi- 
cas , e peccados que de então pêra cá cres- 
ceram em a índia , pelos quaes Deos nof- 
fo Senhor nos tem dado a todos graviífí- 
mos caltigos. 

CAPITULO XX. 

Chega o Vtfo-Key a Mangalor , e commette 
a terra : e o ajfalto que os Mouros de- 
ram nos nojfos y em que houve mortos , 
e feridos 5 e gr nde confusão. 

CHegando o Vifo-Rey a Mangalor , e 
entrando dentro com toda a Armada 
de remos , e galés , começou a pôr em or- 
dem o modo que teria na defembarcação, 
e commettimento da Cidade y e do lugar, 

em 



i 



112 ÁSIA de Diogo de Couto 

em que havia de fazer a Fortaleza , pêra 
enfrear aquella Rainha , e aflentou que feu 
cunhado D. António Pereira com quinhen* 
tos homens ( porque o Vifo-Rey levava três 
mil ) defembarcafle ao quarto da Lua pela 
banda do mar , e commetteíTe a Cidade > 
que por aquella parte não eítava fortifica- 
da , e que os galeões furgiíTem daquella 
banda o mais perto da terra que pudeíTem , 
e bateííem a Cidade rijamente. 

A Cidade de Mangalor, ou de Olaia , 
eftá pelo rio dentro hum tiro de falcão , a 
^ual na entrada da barra da banda do Sul 
az huma lingua de terra toda de areia f 
que muitas vezes entra ornar por ella hum 
bom efpaço. Vai fubindo eíta lingua , ott 
eíle rio pela terra dentro , e na parte que 
chega a Cidade , até ao mar de fora , ha- 
verá diílancia de tiro de mofquete , de ma- 
neira , que de ambas as ilhargas he cingi- 
da de agua ; e pela face que fica pêra # 
barra f tinha a Rainha feito huma parede 
de dez , ou doze palmos , que eílava do rio 
até o mar , com alguns cubellos , em que 
tinha algumas peças pequenas ; e de guar- 
da deita parede tinha quinhentos Mouros 
Malavares , e outros natura es,- gente efco- 
lhida ; e de longo do mar , e do rio na 
Cidade tinha ao redor de dez, ou doze mil 
homens de efpingardas 3 arcos > efpadas, 

ro- 



Década VIII. Cap. XX. it$ 

fôdelas , e outras muitas munições , e afti* 
ficios de guerra , com o, que eítava muito 
confiada, pela confiança que os Mouros, e 
Malavares lhe tinham dado* 

O Vifo-Rey affentou de fazer a de£ 
embarcação na língua de terra que faz fo- 
bre a barra , e ofdenou a gente ^ que eram 
três mil homens , e féis bandeiras i e de 
que fez Capitão D. Fraiicifco Mafcãrenhas 
Capitão Mor do Malavar , cuja dianteira 
era por razão do cargo, e D.João Pereira 
feu cunhado , D. António Pereira feu ir- 
mão, que havia de defembarcar pela ban- 
da do mar ; D. Fernando de Monroy , D» 
Pedro de Caftro , D. Jorge Baroche, com 
D. Francifco Mafcãrenhas , foram todos os 
Capitães de fua Armada , e muitos Fidalgos 
feus parentes , e amigos , como foram ou- 
tros com os mais Capitães. Com o Viíb- 
Rey havia de ir Álvaro Paes Sõutomaior i 
João de Souza , que foi Capitão de Damão y 
Ruy Gonfalves da Camera , Fernão Telles , 
Pedro Leitão , que tinha vindo do Reyno 
por Capitão da náo , provido dehuma via- 
gem de Japão pêra logo > D* Luiz de Al* 
meida, António Botelho , Heitor de Mel* 
lo o velho de Baçaim , e outros Fidalgos 
velhos, de cujo Confelho , e esforço fequiz 
o Vifo-Rey ajudar. 

Ordenada a defembarcaçao , que havia 
Couto. Tom. V. P. L H de 



. í 



ii4 ÁSIA de Diogo de Couto 

de fer aos 4. de Janeiro de^óS. fe poz D. 
Francifco Mafcarenhas em terra a tarde de 
antes , e aíTentou fua eítencia na face da 
parede dos inimigos , por onde o Vifo-Rey 
determinava entrar na Cidade , e aílim dei- 
embarcaram outros Capitães , e tomaram 
fuás eftancias na parte que lhes pareceo : 
e mandou o Vifo-Rey recado a D. Antó- 
nio Pereira , que como lhe fizeile no quar- 
to da alva final com tantas bombardadas , 
commettefle aterra, como elle também ha- 
via de fazer } mas como nos falta aos Por- 
tuguezes ordem militar , porque nunca cur- 
fámos 3 fenão por aíTaltos repentinos , a 
quem mais depreíTa chega , e a quem com 
menos ordem fe recolhe : allim fuccedeo 
aqui, porque D. Francifco Mafcarenhas na 
parte em que eftava , e tinha fua tenda ar- 
mada , tanto que anoiteceo , que foi huma 
das mais efcuras noites que eu vi , depois 
de cearem , fe puzeram a jogar com mui- 
tas tochas , e velas accezas. Os Mouros que 
eftavam nas eftancias , que eram Cavallei- 
ros , e determinados , vendo a noífa confian- 
ça , e entendendo que fe poderia fazer hum 
muito bom feito , porque os noífos haviam 
de eftar cegos com a claridade das lumi- 
nárias , fendo já perto das dez horas , fa- 
Jiíram quinhentos eícolhidos , e com muito 
grande determinarão commettêram aeitan- 

çia 



Década VIII. Cap. XX. ítf 

cia do Capitão Mor , que eítaria pouco maia 
decempalfos das paredes } e tanto íbbrèfal- 
to deram nos noííos , que náo tiveram tem- 
po de tomar as armas 5 porque eílavam to- 
dos com o defcuiclo , e deíbrdem dos Por-* 
tuguezes , como fe eíliveram em fua cafa j 
porque como anoiteceo , accendêram velas , 
e tochas, a cujo lume fe puzeram a cear, 
e a jogar. Os Mouros vendo aquelle des- 
cuido , bem entenderam que poderiam fa- 
zer algum feito honrofo perâ elles > e af- 
frontoíb pêra nós : e pêra iílb fe ordena- 
ram dous mil delles , mil e quinhentos pê- 
ra ficarem nas tranqueiras j e os quinhen- 
tos pêra fahirem pela banda da praia aos 
noífos , como fizeram. Hiam preftes 5 e com 
tanta determinação , que primeiro que to- 
maflem armas y os efcaláram bem. Os nof* 
fos á revolta lançaram mão ás efpadas , e 
rodelas , que ás mais armas não foi poíli- 
vel , e fe puzeram em defensão. As pef- 
foas que eílavam com D. Francifco , foram 
D. Miguel de Caílro i João Dornellas de 
Gufmão , Gomes Eannes de Freitas , dous 
irmãos os Mondragoes , e outros 1 que to- 
dos pelejaram valerofamente. D. Frarícifca 
Mafcarenhas quiz fua ventura que eíliveííe 
com huma faia de malha , que o livrou da 
morte 7 e com tudo levou finco cutiladas f 
os mais outras muitas , tendo já mortos 
H ii mais 



ti6 ÁSIA de Diogo de Couro 

mais deíincoenta dos noíTos , tendo já mor-* 
tos eftes , antes de chegarem á tenda. Aqui 
fuccedeo hum cafo muito graciofo a hum 
pagem de D. Miguel de Caílro , que leria 
de treze annos , o qual alguns Mouros a- 
chárani fora da tenda com as armas de feu 
amo , e que não as havia de dar , nome- 
ando o amo : os Mouros lhe deram deze-* 
fete cutiladas , de que o derrubaram , e 
lhas tomaram. 

Eítava o Viíb-Rey com tenda inteira, 
e ao reboliço acudiram a elle quali todos 
os Capitães , e já o acharam fora da tenda 
armado : e elle deípedio logo D. Luiz de 
Almeida, com quem hia Mathias de Albu- 
querque , D. Fernando de Monroy , D. Pe- 
dro de Caftro , e outros. D. Luiz de Al- 
meida apreíTou-fe , e foi ao rumor da vol- 
ta com íeíTen ta homens que o acompanha- 
ram por aquelle caminho. Vinha a gente 
daquella parte , em que D. Francifco Mas- 
carenhas andava ás voltas com os Mouros , 
recolhendo-fe de muito má feição ; e de feif- 
centos homens que tinha D. Francifco , lhe 
ficaram muito poucos ; e não foi o ferro , 
e a multidão dos inimigos o que fez tan- 
to dano , fenão a pouca difciplina dos nof- 
fos , e a grande cerração , e efcuridão da 
noite , que não deixava ver os homens , cora 
quem haviam de pelejar, nem havia quem 

íô 



Década VIII. Cap.XX. 117 

íe* entendeffe , porque tudo eram gritos , 
confusão , e efpingardadas de todas as par- 
tes , porque aífim como hiam defembarcan- 
do os foldados 5 aífim hiam difparando as 
efpingardas 5 fem faberem pêra onde atira- 
vam , e pode fer que elles mataflem os mais 
dos noííbs que morreram. Fernão Telles , 
com quem eu hia embarcado , faltou em ter- 
ra com íinccenta foldados , que com elle 
hiamos ; e chegando ao Vifo-Rey 5 lhe per- 
guntou o que queria que fizeííe : ao que 
lhe refpondeo , que fe não apartaíTe dalli y 
que eltava com pouca gente. 

A eíte tempo chegou hum homem bem 
honrado , que não nomeio por fua honra > 
c diíle ao Vifo-Rey que fe embarcaífe , por- 
que tudo era perdido , e que os Mouros 
vinham de tropel viétoriofos. O Vifo-Rey 
lhe refpondeo : Primeiro os Mouros pajfa- 
rám pela ponta ãefta alabarãa , abaixando 
huma que tinha na mão. 

Ao mefmo tempo chegou D. Jorge Ba- 
roche, ou que ouviííe o que o outro diíTe y 
ou que lho diíferam , e gritou alto , que déf- 
fe Sant-Iago : e que a quem quizefle embai - 
car-fe , mandaífe dar pandeiros pêra folia- 
rem. O Vifo-Rey chamou a íi a bandeira 
de Chriílo , e mandou tocar as trombetas 
e começou a marchar. 

Dom Luiz de Almeida chegou aonde 

era 



fi8 ÁSIA de Diogo de Couto 

era a revolta , e junto da tenda do Capi* 
tão Mor achou os inimigos tão encarniça- 
dos , que tintam mortos alguns, e feridos 
todos ; e dando D, Luiz Sant-Iago , fer- 
rou com os inimigos , e começou huma bra- 
va batalha. Os feus com aquella revolta 
foranvfe efcoando muitos , e chegou a fi- 
car fó com nove homens , que foram e£ 
tes : Mathias de Albuquerque , Ignacio de 
Lima , D* Lourenço de Almeida , Antão 
de Faria do Porto , homem Fidalgo , Pe-< 
dro Machado natural de Tanger , Luiz 
Dias Colaço , D, Mathias , Francifco Pi- 
quei cunhado do Panafco 3 e outros dous. 
D. Luiz de Almeida vendo-fe fó y e que os 
Mouros tanto que ouviram as trombetas 
do Vifo-Rey , fe hiam acolhendo pêra hum 
medro de areia alto, que alli citava perto, 
pedio ao Pedro Machado que foíTe dar re- 
cado ao Vifo-Rey , pêra que lhe mandaífc 
feccorro pêra dar naquelles Mouros $ ao 
que lhe elle refpondeo , que não era tem- 
po de o elle deíamparar , nem homem que 
deixava o feu Capitão em tamanho rifeo. 

A iílo lhe diííe D, Luiz , que porque 
febia delle que havia de ir, e tornar , lhe 
pedio aquillo : que como feu Capitão o man- 
dava que o fizeffe logo : Dejfa maneira o 
farei , e tornarei , como fez com bom fo&« 
corro , cem o qual deo nos Mouros furio-* 

fá-* 



Década VIIL Cap. XX. 119 

jfamente ; mas elles como eítavam encarni- 
çados , defcêram-fe abaixo , e deram nos 
noífos , que ainda eram poucos pêra con- 
tenderem contra quinhentos , mas eíles pou- 
cos fizeram maravilhas ; e o D. Luiz pe- 
lejou tão accezo , que fe lhe delencabou a 
efpada, e lhe faltou da mão; mas hum pa- 
gem feu, bom moço, que hia junto delle , 
lhe deo huma alabarda : ao lançar mão del- 
U , lhe deo hum Mouro huma grande cu- 
tlada pela cabeça, com a qual foi ajoelha- 
do , mas tornou-fe logo a levantar. 

A D. Lourenço de Almeida , que pele- 
jara com huma lança, deram huma cutila- 
da pela mão direita 5 com que ficou inha- 
bilitado : Mathias de Albuquerque , que com 
huma efpada , e rodela pelejou valerofa- 
mente , vindo-lhe dando hum Mouro , tro- 
peçou em humas hervas , e cahio-lhe aos 
pés , onde o Mathias o matou. A'quelle tem- 
po chegou Antão de Faria , e lhe bradou 
alto: A'vante , Senhor , que já ejje fica ar- 
recadado y e paliando o Mathias adiante, 
lhe deram huma zagunchada pela ilharga 
direita , e huma boa cutilada na cabeça , e 
outra na perna direita , e outras deram no 
Faria, porque os inimigos os cercaram, e 
eftiveram de todo perdidos , porque des- 
carregaram fobre elles infinitos golpes , de 
que le elles repararam o melhor que po- 
diam» 



120 ÁSIA de Diogo de Coirro 

diam. O Mathias trazia huma efpada cur- 
ta de cabos de cangrejo ; e correndo a ef- 
pada de hum Mouro por elles , lhe cortou 
o dedo demoftrador da mão direita , e a- 
metade do pollegar , como fempre lhe vi- 
ram em quanto viveo , ecom a dor das fe- 
ridas lhe cahio a efpada da mão ; e vendo- 
fe perdido , tomou por remédio liar-fe com 
o Mouro que o ferio 3 e a braços andaram 
lutando bom efpaço. 

Neíie tempo vinham já os noífos Capi- 
tães chegando 5 e os Mouros em fentindo 
as trombetas do Vifc-Rey já perto 5 foram- 
fe recolhendo ; e paliando alguns por on- 
de o Mathias andava abraços com o Mou- 
ro , o tiraram delle , elhe deram ainda duis 
feridas na mão efquerda , e de induílria fe 
deixou çahir como morto ? e os Mouros lie 
tomaram hum barrete vermelho , e hum dd- 
]es lhe deo mais huma grande cutilada pe- 
la cabeça 5 e outro em hum hombro lhe deo 
outra: de maneira que todos os quep.uTa- 
vam , faziam nelle agazua , e já o deixaram 
por morto ; mas como o feu termo nao ef- 
tava alli findo , e Deos noífo Senhor o ti- 
nha guardado pêra outras coufas , efcapou 
de tudo, Eílando elle daquella maneira , de- 
pois dos Mouros recolhidos chegaram alli 
Francifco Pique > e Luiz Dias feu collaço , 
que andavam em bufca delle ; e achando-o 

da- 



DÉCADA VIII. CAP. XX. 121 

daquella maneira , o levaram nos braços , e 
o recolheram na tenda de D. Pedro de Gaí- 
tro , onde o curaram. Mortos não averi- 
guo quantos foram ; fò os de nome direi : 
foi Chriítovão de Souza morto , filho de An- 
tónio de Souza , que foi Capitão de Ba- 
çaim , Chriílovão de Mello morto , e feri- 
do feu irmão Jorge de Moura , que pele- 
jou valerofamente , foi ferido emhuma per- 
na, aquelle Lemos deBaçaim levou muitas 
cutiladas , e outros que me não lembram. 
D. Paulo de Lima 5 que hia embarcado com 
o Vifo-Rey , acudio naquella confusão , e 
foi muita parte pêra o defarranjo não fer 
maior. 

O Vifo-Rey chegou áquella eftancia j e 
mandou recolher , e curar os feridos ; e lo- 
go com muita preíla mandou vir todas as 
chufmas das galés , e marinheiros das fuf- 
tas , e trazer muitas enxadas , codilós , e 
ceítos , e mandou abrir huma cava diante 
das tranqueiras dos Mouros , pêra que não 
pudeffem dar outro aíTalto , o que ie hou- 
vera de fazer primeiro : e D. Francifco Maf- 
carenhas armou alli a fua tenda , e deo a 
dianteira , e officio de Meílre de Campo a 
feu cunhado D. João Pereira , por eftar D. 
Francifco mal ferido ; e antes que foíie hu- 
ma hora depois da meia noite , fe acabou 
a cava , e valo da mefma terra que delia 

fe 



122 ÁSIA de Diogo de Couto 

fe tirou ; e ordenando o Vifo-Rey os quar- 
tos de vigia , fe recolheo bem triíle do 
íucceííb. 

Certo que foi efta noite huma da maior 
confusão que vi no mundo i por caufa da 
efcuridão delia \ que pareciam as trevas do 
Egypto , e além diífo era o terreno tão frio , 
que nos não podíamos valer. Ao outro dia 
pela manhã , que foi vefpera de Reys , em 
que o Vifo-Rey determinava commetter a 
Cidade , ordenou toda a gente pêra aquelle 
eífeito , levando a dianteira D. João Perei- 
ra , D. Pedro de Caftro , D, Fernando de 
Monroy 5 e D. Jorge Baroche : e deo or- 
dem ás fuftas , e galés , pêra que varejaf- 
fem a Cidade por todas as partes , pêra di- 
vertirem os inimigos , e terem os noíTos 
tempo de cavalgarem as paredes. Eftando 
já o Vifo-Rey armado , com a bandeira de 
Chrifto apar delle , e Álvaro Paes Soto- 
maior , Heitor de Mello , Jorge da Silva 
Pereira, e outros Fidalgos velhos, e todos 
os mais Capitães , fe repartiram pelas ban- 
deiras ; e D. António Pereira , que eftava 
pela banda do mar com os dous galeões, 
e feíe , ou oito fuftas , em que entrava D. 
Nuno Alvares Pereira feu fobrinho , eftan- 
do todos a ponto , tornou o Vifo-Rey com 
o parecer dos que eftavam com elle , e af- 
fentáram que melhor feria commetter a Ci* 

da- 



Década VIII. Cap. XX. 123 

dade ao outro dia , que era o de Reys tão 
aífinalado , de que defpedio lego recado a 
D. António Pereira, e a D. João Pereira, 
que citavam na dianteira, pêra que fobreíti- 
veíTem aquelle dia. 

Eíte recado correo logo por todos os 
que eítavam na dianteira de D.João Perei- 
ra , que era a melhor foldadefca da Arma- 
da , que fe eítavam já desfazendo pêra fe 
vingarem da affronta da noite paííada ; e 
por não refecerem daquelle brio , fallando- 
íe todos , fem terem dever com o Capi- 
tão , remettêram com as tranqueiras com 
grande determinação ; e ajudados huns dos 
outros , fe puzeram em lima com morte de 
muitos inimigos , que largando tudo , fe a- 
colhéram pêra a Cidade. Os noíTos , que 
eram mais de duzentos , os foram feguin- 
do , engroífando-fe o poder , porque logo 
acudiram mais de quinhentos , e o Viío- 
Rey , a quem deram as novas , começou a 
abalar pêra lá com a bandeira de Chriíto , 
e pela banda da praia entrou na Cidade, 
levando a dianteira D. João Pereira , e lo- 
go todos os mais Capitães das bandeiras : 
e mandou fazer íinal a D. António Perei- 
ra , que eítava da banda do mar, pêra que 
deíembarcaííe, o qual faltou em terra com 
mais de quinhentos homens , e foi comet- 
tendp a entrada , onde achou mais de du* 

zen* 



124 ÁSIA de Diogo de Couto 

zentos Mouros em lua defensão , levando 
a dianteira D. Nuno Alvares Pereira , que 
achou aquelle cardume de inimigos com 
tanta determinação , que o tiveram desba- 
ratado 5 e lhe mataram mais de vinte Tolda- 
dos ; e chegando o poder de D. António > 
carregando fobre os inimigos , os arranca- 
ram do campo, e foram mettendo pela Ci- 
dade com grande dano feu. 

O Vifo-Rey entrou a Cidade , indo D. 
João Pereira com a fua bandeira pela rua 
principal pelejando com os inimigos vale- 
rofamente. D. Pedro de Caibro , D. Fer- 
nando de Monroy , e D. Jorge Baroche, 
entrando cada hum por lua 5 levando os ini- 
migos diante em desbarato , até fe irem 
tçdos ajuntar no terreiro do Bazar , onde 
fizeram alto, por verem já os inimigos jun- 
tos em tropel defordenado , que eram mais 
de féis mil demandando os nofíos , contra 
os quaes jogou a noiía arcabuzaria em ro- 
da viva , derrubando-lhes muitos ; e pegan- 
do os da dianteira de D, João Pereira com 
elles , travaram huma batalha arrazoada á 
lança , e efpada ; mas durou pouco , por- 
que os inimigos logo fe puzeram em def- 
barato , feguindo-os os noflbs até ás cafas 
da Rainha 5 ás quaes puzeram fogo , como 
também em outras partes da Cidade. Os 
inimigos j, como foram arrancados do cam- 

P°> 



Década VIII. Cap. XX. 12? 

po , foram-fe mettendo por entre as her- 
vas leiteiras, por cafas , e becos eftreitôs y 
donde com a ília arcabuzaria fizeram algum 
dano nos noflbs. O Vifo-Rey chegou até 
á praça, e fe fentou em hum tabernáculo, 
donde defpedio recados pêra todas as par- 
tes 3 e alli lhe acudiram todos os avifos* 
D. António Pereira foi entrando a Cidade, 
até fe ir ajuntar ao corpo da noíTa gente , 
que andava pelo meio delia fazendo gran- 
des eftragos , de maneira que ficaram os 
noflbs fenhores delia , e lhe começaram a 
pôr o fogo , e cortar fermofos palmares , e 
arvoredos \ e fendo já mais de meio dia 
que os inimigos defapparecêram , mandou 
o Vifo-Rey recolher toda a gente pêra fo- 
ra , e nefte recolhimento ficou D. João Pe- 
reira na retaguarda ; e fazendo a volta pêra 
huma rua larga, aonde vinham fahir outras 
eítreitas , depois de paííar por todas , ap- 
pareceo hum magote de Mouros, que pe- 
las coitas dos noflbs deram algumas cargas 
de arcabuzeria , que não foram de muito 
dano. A 5 voz que fe levantou de Mouros y 
Mouros , voltou D. João Pereira atrás , e 
a lua foldadefca , em que entravam muitos 
bizonhos*, e ouvindo aquclle alvoroço , não 
faziam mais que virar , e difparar a mon- 
tão a efpingardaria ; e foi efta defaventura 
tal > que cahio de huma efpingardada D. 

Di- 



ii6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Diogo Lobo o grande , eílando eu bem per-* 
to delle , da qual logo morreo : perda que 
foi bem pêra fentir , por fer hum Fidalgo 
velho muito honrado y e muito bom cavai- 
leiro. Os que eílavamos mais perto 5 o le- 
vámos nos braços até á praia , onde eítava 
o Viíb-Rey , que o fentio em extremo : e 
cuido que o mandou em hum navio ligei- 
ro a enterrar a Cananor , mas não me 
certifico niílo. 

Neíla entrada deita Cidade vi as mais 
disformes cutiladas , que nunca vi com meus 
olhos 5 porque houve golpe , que cortou 
hum Alouro pelo hombro até á cinta , c 
outros, que cortaram pernas cerceas , eque 
abriram as entranhas a muitos. Em fim a 
Cidade ganhou-fe , e aíTolou-fe com pouca 
perda dos noflbs ; porque a D. António Pe- 
reira 5 que defembarcou na praia , mataram 
vinte homens no aíTalto daquella noite ; a 
D. Francifco Mafcarenhas quinze, oudez- 
efeis , afora alguns feridos. Dos inimigos 
morreram mais de trezentos , afora muitos 
feridos de efpingardadas , de que depois 
deviam de morrer muitos. 

Concluído o negocio , embarcou-fe o 
Vifo-Rey com toda agente pêra defcança- 
rem ; e ao outro dia , vendo a língua de 
terra que faz alli fobre a barra , onde eile 
pertendia fazer a Fortaleza > vio que nem 



Década VIII. Cap. XX. 127 

o lítio era pêra iífo , por fer naqíiella pon- 
ta , que logo o mar havia de comer , como 
por nao haver agua ; pelo que determinou 
de afazer da outra banda do Norte defron- 
te da Cidade de Olaia , onde eítavâ hum 
pagode de fua gentilidade , aílim porque 
alli ficava mais fenhora da barra 5 e do rio 
todo , e da Cidade da outra banda , como 
porque ficava aquella Fortaleza vizinha ao 
Rey de Banguel , que era amigo do Efta- 
do , e fe tinha vifto com o Vifo-Rey no 
mar , que lhe offereceo toda a fabrica , c 
ferviço neceífario pêra a Fortaleza , com 
pagarem aos trabalhadores y e ainda fe fez 
jangada daquella Fortaleza , e irmão em 
armas com ella, pêra que tendo neceílida- 
de , lhe acudir com fua peíToa , e poder, 
de que fe fizeram papeis , que eu tenho na 
Torre do Tombo , em que todos fe aíH- 
náram , e juraram de cumprir : as quaes 
condições de contrato , e pazes nao trago 
aqui , porque o epilogo nao fofFre tanto. 

Aílentado iíto , paffou-fe o Vifo-Rey á 
outra parte , onde lançou fuás bandeiras em 
terra , com toda a Armada eftendida ao lon- 
go da praia com fua artilheria leites ; e 
vindo o Rey de Banguel alli ter com elíe, 
andaram efcolhendo o fitio , em que fe ha- 
via de fortificar , que foi em hum tezo al- 
to > por ficarem os navios que alli foíTem, 

abri- 



128 ASIÀ de Díógo de Cotrro 

abrigados a ella: elogo começou a pôr asf 
mãos á obra 5 da qual fe não efcufáram ve- 
lhos , nem moços , fendo o Vifo-Rey o pri- 
meiro que ferrou a enxada pêra abrir os 
alicerces y e com elle todos os Fidalgos , e 
Capitães , o que fe fez com muito alvoro- 
ço , e falvas de artilheria , e de inftrumen- 
tos bellicoíòs j e de alegria i e em menos 
de quinze dias fe abriram os alicerces á ro- 
da , e logo o dia do Bemaventurado Mar- 
tyr 5 e Soldado S. Sebaftião lançou o Vifo- 
Rey a primeira pedra , que foi fantificada 
pelo Bifpo , levando-a elle com os Fidal- 
gos principaes em paviolas ás coitas , com 
a maior pompa y e apparato que o tempo 
permittia , e lhe poz nome S. Sebaftião f af~ 
iim peio dia em que fe começou , como 
por o noílb Rey D. Sebaftião : e aílim foi 
continuando a obra 5 acarretando ás coftas 
pedra , cal , e outros materiaes y que em 
breves dias fe poz toda em roda em altu- 
ra de mais de braça craveira. 

Vendo o Vifo-Rey a Fortaleza já em 
eftado defenfavel , efcreveo a EIRey todo 
o fucceílb de fua jornada, e do eftado da 
índia , e defpedio pêra Cochim D. Antó- 
nio Pereira feu cunhado com huma Arma- 
da de vinte navios, pêra ir dar calor á car- 
ga das náos do Reyno 5 de que João Go- 
mes da Silva era Capitão Mor > levando to- 
dos 



Década VIII. Cav. XX, Í29 

dos os poderes doViíb-Rey; e porque che- 
garam novas do Norte daquelles três Fidal- 
gos João da Silva , João Deça , e D. Luiz; 
Lobo , defpedio o Vifo-Rey D. Jorge Ba-» 
roche com a fua galé , e dez navios , de 
que eram Capitães Fernão de Mendoça, 
António Botelho , João Rodrigues de Beja , 
Francifco de Souza Tavares , Pedro Juzar- 
te Tição , Gomes Freire de Andrade , Fran* 
cifco Louzada , Gomes da Rocha , Vafco 
Barboza. D.Jorge correo o mar fem achar 
coufa alguma, porque os coffairos eram já 
recolhidos com as prezas. 

Ficou o Vifo-Rey continuando na obra 
da -Fortaleza, não deixando de ter rebates 
dos inimigos, a que mandou acudir D.João 
Pereira feu cunhado com quinhentos ho- 
mens , que entrou pela terra dentro apôs: 
os inimigos , com quem teve alguns encon-* 
tros , de que fe fahíram bem eícalavrados ; 
e tanto andou pela terra , que os affugen- 
tou de todo ; e porque o tempo fe hia gafí 
tando , e era neceíiario ao Vifo-Rcy acu- 
dir a outras coufas , deo tal preíla á For- 
taleza , que a acabou de todo , com apo- 
fentos pêra o Capitão , cafas da feitoria i e 
armazéns , e hum Templo , conforme ao lu^ 
gar , e brevidade do tempo 5 e tudo feito , 
deixou por Capitão D. António Pereira feu 
cunhado com trezentos homens debaixo de 
Couto. Tom. V. P. L I três 



130 ÁSIA de Diogo de Couto 

três Capitães de Bandeiras: eproveo os ar- 
mazéns de mantimentos pêra féis mezes , e 
ordenou dez , ou doze navios pêra anda- 
rem naquella coita ; e fendo 20. de Mar- 
ço y fe recolheo a Goa. 

CAPITULO XXL 

Do grande , e memorável cerco que poz Jb- 
bre a Fortaleza de Malaca Sultão Ala- 
h ar adi Rey do Achem 5 e da potencia com 
que appareceo fobre aquella Cidade , e re- 
cados que houve entre elle , e D. Leoniz 
Pereira Capitão daquella Fortaleza. 

FOi tão grande , e antigo fempre o ódio , 
que os Reys do Achem tiveram aos 
Portuguezes , e á noífa Fortaleza de Mala- 
ca 3 que não quietavam , nem davam volta 
na cama 5 que não trataííem da fua deítrui- 
çao ; porque depois que António de Al- 
buquerque a tomou y fempre ficou fendo 
hum freio intolerável a todos aquelles vizi- 
nhos : e acere ícentou-fe a eíle ódio o direito 
que efte Rey Sultão Alaharadi ficava tendo 
no Reyno , de que Jantanza 5 cujos Reys 
foram fenhores de Malaca ? pela viéloria 
que houve de EIRey Sultão Salaudi deVi- 
anta filho de Sultão Mahamed , a quem 
António de Albuquerque tomou o Reyno % 

no 



Década VIII. Gap. XXI. 131 

110 qual o matou , e lhe tomou fua Cidade , 
e com iíTo ver-fê fenhor dos Reynos de Pe- 
dirpacé, e Arú , com que ficava fenhor da 
grande Ilha Samatra , com o que ficou o 
mais rico de thelouros , e poderofo de gen- 
te , e Armadas que todos ; e que pêra fer 
Imperador de todo o Malayo lhe faltava a 
Cidade Malaca pêra fenhorear , determinou 
de levar lua fortuna ao cabo , pêra o que 
fe fez preftes muito de ante mão : e man- 
dou convocar ainda gente , munições , e ar- 
tilheria ao Grão Turco , a quem mandou 
riquiííimos prefentes , e lhe offereceo o com- 
mercio , e trato de todas as drogas > e ef- 
pecearias de Maluco , Banda , Jaoa y e de 
todas as mais partes daquelles arcepelagos y 
fegurando-lhe diílb innumeraveis riquezas y 
o que o Turco eítimou muito : e logo lhe 
mandou quinhentos Turcos , e muitas bom- 
bardas groflas y e grande copia de munições , 
muitos Engenheiros y e Meílres de artiihe- 
ria. Pela mefma maneira defpedio outros 
Embaixadores ao Chinquifchao Senhor de 
Baroche ? com outros prefentes , dadivas , 
e oíferecimentos , períuadindo-os a deita- 
rem os Portuguezes daquella Fortaleza de 
Malaca, porque perdida ella, não fe podia 
fuílentar a índia , e ficavam outra vez fe- 
nhores de todo o Oriente dentro y e fora 
do Ganges : o qual lhe mandou também 

I ii gran- 



ipí ÁSIA db Diogo de Couto 

grande íbccorro de gente , e artilheria : e 
até o Rey de Dama , Imperador de Jaoa , 
e o Camorim , e Senhores da coita de Ma- 
fulapatao convocou pêra eíta jornada , em 
que todos entraram com grande cabedal; 
ió o Rey de Dama não quiz entrar na li- 
ga , porque receou que ? fazendo-fe o de 
Achem fenhor de Malaca , ficava mor Se- 
nhor que elle , e que eftava certo conquif- 
tar4he logo feus Reynos , por fer hum Ty- 
ranno infaciavel; e não íb lhe não failou a 
propoíito , mas ainda lhe mandou matar feus- 
Embaixadores : o que pareceo obra Divi- 
na , porque fe fe ajuntara com elle y não 
podia Malaca defender-íe. 

Deites apercebimentos foi avifado oVi- 
fo-Rey D. Antão em principio de feu go- 
verno : e quando deípedio D. Diogo de 
Menezes pêra Capitão de Malaca , mandou 
pdr elle muitos provimentos 5 artilheria, 
[Bombardeiros , e Officiaes pêra profeguirem 
na fortificação daquella Cidade : o que D. 
Diogo de Menezes fez com grande diligen- 
cia ; e quando Gonfalo Pereira Marrama- 
que foi pêra Maluco , levou por regimen- 
to , que fe achafle aquella Fortaleza com 
trabalho , não paílaíTe delia ; mas como não 
achou coufa que lheimpediíTe fua viagem, 
paíTou adiante, como já diífe. 

CA- 



Década VIII. Cap. XXII. 133 

CAPITULO XXII. 

Da poderofa Armada com que o Achem 
appareceo fobre Malaca. 

DOus annos eíteve o Achem fazendo 
feus apercebimentos pêra ir fobre Ma- 
laca em peííba , porque determinava de fe 
apofentar naquella Fortaleza 3 e fazer nella 
cabeça do Reyno ; e como teve tudo pref- 
tes , e lhe chegaram os foccorros de fora, 
logo fe embarcou com fuás mulheres y e três 
filhos homens , e todos os feus Cavalleiros 
da guarda , a que chamam Hurobaloes : e 
logo deo á vela pêra Malaca em Janeiro 
de 568. e quando foi aos 20. de Janeiro á 
tarde , appareceo fobre aquelle porto aquel- 
la multidão de embarcações , que cubriam 
o mar. Andava naquelle tempo D. Leoniz 
Pereira jogando as canas com os moradores 
muito louçaos , e cuftofos , aífim por fer o 
dia , em que EIRey D. Sebaítiao nafceo , 
como porque nelle tinha oannopafíado to- 
mado poífe do governo de feus Reynos , 
ao que fe tinha junto todo o povo , pêra 
verem celebrar aquellas feitas , que fe fa- 
ziam o melhor que a terra podia dar de íl ; 
e vendo todos aquella foberba Armada , co- 
meçando a haver grandes movimentos em 

to- 



134 ÁSIA de Diogo de Couto 

todos , acudio o Capitão D* Leoniz Perei- 
ra muito rifonho , e alegre , e lhes difie , 
que fe aquietai! em , e folFem com as feitas 
por diante , porque agora as faziam com 
mor goílo , pois o Achem as vinha também 
feítejar , e que aquillo tomava a bom final 
da viétoria , que lhe noflb Senhor havia de 
dar delle : e aílim com muita fegurança foi 
continuando as canas , e depois fe foi com 
toda a gente ao Campo de Ilher defronte 
donde a Armada furgio , e alli efcaramu- 
çou com muito ar , e galanteria , e corre- 
ram as carreiras muito airofas , pêra que 
viílem os inimigos o alvoroço com que os 
efperavam. Acabada a feita ? poz-fe o Ca- 
pitão com toda a gente ligeira, erepartio 
as eítancias , como melhor lhe deo lugar a 
brevidade do tempo , e proveo com muita 
diligencia, e cuidado as coufas que lhe pa- 
receram ; porque fe os inimigos quizeílem 
commetter a defembarcaçao , achaflem a to- 
dos preítes pêra os receberem. A eítas cou- 
fas acudio o Patriarca da Abbaífia D. Bel- 
chior Carneiro da Companhia de Jefus , que 
hia pêra Bifpo da China , e aílim o Padre 
Fr. Jorge de Santa Luzia , Frade Domini- 
co , varão Apoítolíco , e ambos homens ha- 
vidos por fantos , que naquelle cerco acu- 
diram a todas as neceífidades com grande 
fervor. 

Sur- 



Década VIII. Cap. XXIL 135: 

Surta a Armada defronte da Cidade 
muito perto, eftiveram os noflbs notando, 
e viram que as vaíillias eram as feguintes : 
três galeotas grandes de Malavares , qua- 
tro gaiés baftardas , feíTenta fuílas , e gale- 
otas , mais de duzentas lancharas , oitenta 
balões, duas champanas grandes de muni- 
ções , na qual Armada hiam quinze mil ho- 
mens de peleja eícolhidos , e quatrocentos 
Turcos , e muita gente de ferviço , e mais 
de duzentas peças de artilheria de bronze 
entre groíías , e miúdas. 

O Capitão D. Leoniz Pereira andou to- 
da aquella noite com os cafados , e os mo- 
ços derrubando as cafas de madeira da ban- 
da de* Ilher ; e o taboado , e traves man- 
dou recolher pêra os andares da Fortaleza. 
Ao outro dia , que foram 21. do mez , fe 
chegou a Armada a terra , onde furgio , e 
íalvou a Cidade com toda a artilheria fem 
pelouros , ao que o Capitão lhe mandou 
refponder pela mefma maneira ; e tanto que 
anoiteceo , deram recado ao Capitão que 
vinha hum balão com os Embaixadores do 
Achem, os quaes mandou receber, e aga- 
zalhar fora da Fortaleza ; e tanto que foi 
bem de noite , fez o Capitão huma bem or- 
denada , e luftrofa fahida , em que fe acha- 
ram os Portuguezes , e Chriílãos da terra , 
C moços cativos, e forros 7 que faziam hum 

cor- 



i$6 ÁSIA de Diogo dê Couro 

corpo de mais de mil e quinhentos homens , 
não fendo mais de duzentos os Portugue- 
ses , e o Capitão a cavalío muito gentil- 
homem , cem huma fcbreveíle de brocado 

))or fima das armas 3 e foi ordenando a fa- 
lida pelas portas dos Embaixadores , dif- 
parando ao fechar , e abrir do caracol hu- 
ma fermofiílima nuvem de arcabuzaria , que 
fez grande temor, e medo aos de Achem. 
Acabado ifto , fe recoiheo o Capitão pê- 
ra a Fortaleza , e na porta delia pafleu o 
reílo da noite fentado em huma cadeira , 
ordenando hum lugar da banda de fora pê- 
ra ouvir os Embaixadores , porque a For- 
taleza eflava tão desbaratada , que não era 
bem que a vifiem. Ao outro dia pela ma- 
nhã mandou vir os Embaixadores diante de 
íi , e os recebeo fentado em huma cadeira 
de veludo com o lugar todo alcatifado, elle 
loucamente veftido ; e o Patriarca , e Bifpo 
em cadeiras de veludo pêra maior appara- 
to , e os cafados todos muito loucaos. 

O Capitão efteve fempre fentado ; e 
iquando foi a lhe elies darem o recado de 
ÊiRey , e huma carta , fe levantou em pé , 
e tomou a carta com grande cortezia , a 
qual era eferita em lingua Arábia com hum 
grande felio de ouro pendente , e a leo hum 
meítiço renegado , que elle trazia por lin-* 
gua i e porque as cartas deites Reys fam 

mui- 



Década VIII. Cap. XXII. 137 

muito prolixas , fem eftilo , nem ordem, 
porei fomente a fubítancia delia. 

Carta do Achem pêra o Capitão. 

MUi notório he ferem meus antecefTo- 
res mui amigos dos Reys de Portu- 
gal 5 e dos Capitães deita Fortaleza , como 
eu pudera provar pelos foccorros que de- 
ram aos navios de EIRey de Portugal , quan- 
do por aqui paliaram o trabalho : pelo que 
folgarei muito que os Portuguezes vamconl 
as fuás náos ao porto da minha Cidade y 
que eu os favorecerei em tudo , e por eíla 
amizade fui muitas vezes reprehendido de 
Turcos , porque não fazia guerra aos Por- 
tuguezes, tendo-me tantas vezes efcandali- 
zado : poriflb fe quer que vá por diante efta 
amizade , avife-me : e lhe peço que tome 
bom confelho , porque eu trago neíta Ar- 
mada muita gente , muita artilheria 5 e mui- 
tos Turcos pêra a jornada que faço contra 
o Rey de Jaoa , que matou meus Embai- 
xadores , folgariamos que não vieíTemos a 
rompimento. 

Acabada de ler a carta , aprefentou o 
Embaixador ao Capitão huma cabaia de bro- 
cado , e hum cris. O Capitão , viíla a for- 
ma da carta , e o prefente , diííimulou a ten- 
§ao delle , e de tudo fez pouco cafo , per- 

gun- 



138 ÁSIA de Diogo de Couto 

guntando ao Embaixador pela faude de El- 
Rey , e de feus filhos 3 ao que o Embaixa- 
dor lhe refpondeo com cumprimentos : e 
lhe difíe mais , que ahi nas Ilhas das Nãos 
mandara lançar hum Cavalleiro como de- 
gradado , porque fora fazer a aguada fem 
lua licença : que lhe pedia que o mandaf- 
fe bufcar, e o fervifle de alimpar feus ca- 
vallos. 

O Capitão mandou agazalhar os Em- 
baixadores aquella noite, dizendo-lhes que 
ao outro dia mes refponderia ; e porque en- 
tcndeo que o homem que lhe mandara di- 
zer que lançara na ilha das Nãos , era ef- 
pia , o mandou bufcar , e poz a bom reca- 
do , e toda aquella noite eíleve com gran- 
de vigia : e ao outro dia fe foi pêra o lu- 
gar onde recebeo os Embaixadores , e os 
mandou ir diante delle , e lhes deo a ref- 
poíta da carta > que já trazia feita , e lhes 
mandou dar outro prefente em retorno do 
que lhe EiRey mandou , que foi huma al- 
catifa rica com hum coxim de veludo , e 
dous nores de banda , que fam peças que 
fe dam ás mulheres , por lhe pagar man- 
dar-lhe cabaia , e cris como a vaííallo ; e o 
theor da carta em refpofta da fua he efte , 
que direi , abbreviando palavras , e cortan- 
do eílilos ao modo do Achem. 

Car« 



Década VIII. Cap. XXIL 139 

Carta do Capitão D. Leoniz Pereira. 

MUito me alegrei com a carta de V. 
Alteza , e com faber de ília faude , e 
que eílava tão perto deíla Fortaleza , on- 
de lhe farei todos os ferviços que puder , 
pêra o fervir como fempre delejei 5 por- 
que os Portuguezes 5 e Achéns quaíi to- 
dos fomos hum no amor ; e fe quer que ef- 
ta amizade antiga vá por diante , mande- 
me huma peífoa grande de fua cafa 5 pêra 
tratar comigo fobre iíTo , e juraremos eíla 
amizade , pêra aífim ficar mais fegura. Fol- 
go de V. Alteza vir tão bem provido con- 
tra feu inimigo , porque he razão que pa- 
gue tamanha traição como fez em lhe ma- 
tar feus Embaixadores , tanto contra o com- 
mum coítume das gentes : e fe a V. Alteza 
lhe faltar alguma coufa pêra eíla jornada y 
eu o fervirei com artilheria , e bombardei- 
ros do muito que tenho de fobejo. Nãodef- 
pachei hontem os Embaixadores de V. Al- 
teza , porque" andei bufcando algumas cu- 
rioíidades pêra lhe mandar por elles. 

Tornados os Embaixadores com eíla 
refpoíla , bem entendeo EIRey delia , que 
não era aquelle Capitão o homem que fe ha- 
via de enganar, antes elle fe teve por en- 
ganado no modo de como o tratou com o 

feu 



140 ÁSIA de Diogo de Couto 

feu prefente ; e porque o homem que lhe 
mandou offerecer pêra curar feus cavallos , 
era peflba grande diante delie 5 e cuidou 
que com aquelle ardil tivefle em Malaca 
quem o aviíáíle , quiz logo tornar a ha- 
vello ás mãos 5 e logo o tornou a mandar 
pedir ao Capitão , dizendo-lhe que já felhe 
fora a paixão , e que o havia por bem caf- 
tigado. 

O Capitão depois de defpedir os Em- 
baixadores , o mandou levar diante de íi y 
e lhe mandou fazer perguntas , e ainda met- 
tello a tratos . nos quaes confeílbu que elie 
fora ao Grão Turco por Embaixador fobre 
aquella jornada , e pela confiança que o A- 
chém delle tinha , o deitara como deshon- 
rado naquella Ilha , e que lhe promettêra 
de matar o Capitão , ou infeitiçallo , e pôr 
fogo á cafa da pólvora : com que o Capi- 
tão lhe mandou cortar os pés , e as mãos , 
e a cabeça, e tudo mettido em hum parao 
o mandou ao Achem em refpofta de lho 
mandar pedir 5 o que elle fentio em extre- 
mo ; mas como cuidava que tinha a vin- 
gança na mão , diílimulou \ e deipedio ou- 
tra carta pêra o Capitão , em que lhe dava 
os agradecimentos da vontade que lhemoí- 
trára , e que pêra moftra delia lhe pedia 
deixafle aos feus comprar algum arroz na 
Cidade , pêra o que mandou fete > ou oito 

em* 



Década VIII. Ca?. XXII. 141 

embarcações , que o Capitão nao deixou 
chegar aterra, dizendo que por eftorvar re- 
voltas o fazia , e defpedio os Embaixado- 
res j mas o meftiço renegado deixou ficar > 
dizendo que era Chriflão. 

Pela meia noite o Capitão poz fogo á 
povoação de Ilher , depois de recolhido tu- 
do o que fe podia aproveitar \ e tanto que 
EIRey vio o grande fogo , entendeo a ten- 
ção do Capitão , e difíe que aquelle homem 
nao era Reynol , e que tinha nelle grande 
contrario : e com eíle defengano botou lo- 
go gente em terra , e defembarcou a arti- 
Iheria , que he a feguinte. 

Hum leão de quarenta arráteis de pe- 
louro de ferro coado , huma águia de trin- 
ta arráteis de ferro , huma efpera de qua- 
torze arráteis de ferro , dous camellos de 
marca maior , dous camelletes , hum gran- 
de , e quantidade de falcões , e berços , dous 
quartos de finco palmos. Efta artilheria to- 
da prantou em huma eflancia que fez a fe- 
tecentos pálios do muro , e logo fizeram 
outra entre a arvore de Ilher, e a Cidade, 
as quaes fortificaram ao redor de larga ca- 
va com muitos eftrepes. Na obra deita trin- 
cheira andavam os inimigos tão defmanda- 
dos , como fe foífem fenhores da terra ; e 
parecendo ao Capitão que fe poderia fazer 
hum bom feito , mandou a Francifco Paes 

fo- 



142 AS I A de Diogo de Couto 

lòbre roída com vinte homens , pêra ir to-» 
mar o caminho que vai ter á porta de S. Se- 
baíliao , pêra darem coílas aos trabalhado- 
res , que hião cortar o palmar de Pedro de 
Lemos , pêra metterem as palmeiras dentro 
pêra a fortificação : e alli tiveram hum en- 
contro com os Mouros 5 de que fe foram 
efcalavrados - y e o mefino fuecedeo a Sebas- 
tião de Brito da banda de Ilher , eftando 
derrubando algumas cafas no caminho da 
boca da China , a duzentos e quarenta pát- 
ios do baluarte da Madre de Deos , de que 
era Capitão Fernão Peres de Andrade, da 
qual batiam aquelle baluarte , e todo o lan- 
ço do muro que vai até o cubelo das on- 
ze mil Virgens , na qual eftancia tinham 
três efperas , que jogavam pelouro de fer- 
ro de doze arráteis , os quaes houve o A- 
chém na náo S. Paulo , que na era 1560. 
fe perdeo na contra-coíía deíTa barra. Ti- 
nha mais hum faivagem , e três camellos , e 
muitos falcões , e berços. Alevan taram mais 
outra trincheira pegada com o rio a tre- 
zentos paífos do baluarte de S. Domingos , 
donde batiam a elles , e a torre 3 e terrado 
da Fortaleza com hum leão de quarenta e 
dous arráteis de pelouro > três efperas de 
quatorze arráteis cada huma , três camellos 
de marca maior , dous camelletes , e mui- 
tos falcões, e berços. 

A- 



Década VIII. Cap. XXIL 145 

Alem do rio da banda de Malaca af- 
fentáram outra eílancia y donde jogavam còm 
hum camellete , huma meia efpera , e al- 
guns falcões. Aííim ficou a Cidade toda cer- 
cada á roda ; fomente a banda do mar , por 
não haver bateria , ficou affim. 

Tem eíta Fortaleza á roda mil braças 
craveiras > em que não havia mais que três 
baluartes , e hum cubelo , a qual eílancia ti- 
nha o Capitão provido deíla maneira. Na 
ponte eílava Balthazar de Barros , que foi 
Feitor 5 e Alcaide Mor, e Diogo Pires de 
Araújo com dez Portuguezes , e eferavos : 
na ribeira eftava Ruy Carvalho fobrinho de 
Pedro Carvalho , Feitor , e Alcaide Mor 
que então era , com finco Portuguezes , e 
léus eferavos : em outra eílancia eílava Nu- 
no Leite filho de Balthazar Leite com al- 
guns companheiros : em outra eílancia eíla- 
va António Durão homem da terra com ou- 
tros Chriílãos. Em huma eílancia , que guar- 
dava a porta , e ferventia do rio , eílava Gaf- 
par de Souza Chriílao da terra* Os Cléri- 
gos pediram huma eílancia , que o Capitão 
lhes deo fobre o muro da banda do mar; 
e o próprio dia que entraram nella , foi a 
tempo que os inimigos combatiam o balu- 
arte Sant-Iago ; evindo-lhes os pelouros af- 
fobiando pelas orelhas , fé tornaram a aco- 
lher á Igreja: o que o Capitão diífimulou, 

por- 



144 ÁSIA de Diogo de Coutoé 

porque vio que mais haviam de eftorvaf ^ 
que aproveitar* 

No oiteiro de noíía Senhora do Mon- 
te poz Diogo Fernandes da Calçada , e man* 
dou. lá levar huma águia , e hum camello 
de marca maior , afora huma efpera que já 
lá eílava , e hum camellete , com que vare- 
javam as eftancias dos Mouros ; e porque 
lhe tinha mandado dizer o Achem , que elle 
hia com aquella Armada caltigar o Impera- 
dor de Jaoa , por lhe matar íeus Embaixa- 
dores, epera tomar oReynoJantana , que 
era feu , fe quiz o Capitão aproveitar neí- 
ta occafião , e defpedio logo Diogo Lopes 7 
hum Cavalleiro mui efperto , em hum ba- 
lão ,. pera fe ir a Jantana com huma carta 
pêra aquelle Rey , em que lhe dava conta 
do poder , com que o Achem ficava fobre 
aquella Fortaleza , e poílo em terra com 
toda a gente , e que a Armada ficava fó : 
e que alli tinha huma occafião pera fe vin- 
gar delle , e tomar fatisfação da morte de 
leu irmão : que fe embarcaíTe em qualquer 
Armada que tiveífe , e déífe de fobreíalto 
na Armada , e que com muita facilidade o 
haveria ás mãos, porque eítavam fem gen- 
te , e fem vigia , dando por regimento aa 
Diogo Lopes i que tanto que déíle a carta 
aquelle Rey, fe folie pôr no eílreito de Sin- 
capura , ou no cabo da Romania > pera dar 

avi- 



Decàda VIII. Cap. XXII. *4f 

aviíb ás náos de Maluco, e China, porque 
não foíTem cahir nas mãos dos inimigos : e 
pelo modo referido eícreveo a EIRey de 
Queda da Armada do Achem , e defcuido 
com que ficava , que com qualquer Arma-* 
da a podia desbaratar : e eícreveo aos Por- 
tuguezes , que eftavam naquelle porto , que 
tiveííem vigia nas náos de Bengala , e Pe- 
gú , pêra que as não deixaflem paílar : e 
por aquetía via eícreveo cartas dobradas ao 
Vifo-Rey , do eílado em que ficava , e to- 
das as mais prevenções que lhe pareceram 
necefíarias , fez com muita diligencia , e 
cuidado. 

E tentou muitas coufas contra o inimi* 
go , que não vieram a eíFeito , como foram 
mandar certas peííbas em balões mui bem 
petrechados , pêra darem fogo á galé dê 
EIRey , aonde elle hia dormir todas as noi- 
tes , e queimarem as champanas , que ti- 
nha carregadas de munições , que nao veio 
a effeito pela muita vigia que tinham , e em. 
fim nada lhe ficou por tentar contra o ini- 
migo , e em dano feu. O Rey do Achem 
vendo-fe enganado com o Capitão , que elle 
cuidou que tinha hazido , e afFrontado do 

Í>refente que lhe mandou , e do Mouro que 
he matou com tanta crueldade , eortando- 
Ihe pés , e mãos , andava pafmado , e dek 
confiado , e tratou mil eítratagemas , pêra ver 
Couto. Tom.F. P.L K fe 






146 ÁSIA de Diogo de Couto 

fe podia tomar aquella Fortaleza , porque 
cuido que fe não fiava tanto no poder , e 
o primeiro ardil que tentou , foi efte. Ef» 
tava no porto entre a Ilha das Náos , e a 
Fortaleza huma náo do Capitão carregada 
pêra ir a Bengala , a qual não fe começou 
a defcarregar : o que vifto pelo Achem , 
mandou dizer ao Capitão , que elle não vi- 
nha com aquelle poder tomar huma náo : 
que podia ir feguramente fazer fua viagem > 
porque lha não impediria , e lhe dava dif- 
fo íua palavra. Ifto tentou efte Rey ; por- 
que fe acceitaífe o cumprimento , e a náo 
íe folie ? forçado havia de levar mercado- 
res 3 e que quantos mais foliem , menos de- 
feníbres lhe ficavam. 

O Capitão entendeo logo a malícia que 
hia debaixo daquelle oíFerecimento , e lho 
mandou agradecer, dizendo que já não era 
tempo de fazer viagem : e logo a mandou 
acabar de defcarregar , e tirar todos os ap- 
parelhos , e artilheria , e lhe mandou dar 
•furos , com que fe aífentou no fundo : o 
que fez , aííim por desfazer o eftratagema 
do Rey , como pêra que os homens não eí- 
tiveílem com o olho naquella náo , e lhe 
fugiííem alguns : e ao outro dia que o Rey 
vio a náo no fundo 5 pafnou , e entendeo 
-quão entendidos eram feus ardis. 

Não defcançava D, Leoniz Pereira hum 

mo- 



Década VIII. Cap. XXII. 147 

momento : vigiava-fe de todas as partes, 
porque o inimigo era manhofo , e intenta- 
va todas as maldades que podia , e aílim 
corria todas as eílancias muitas vezes ; e á 
boca da noite fe hia pêra a porta da For- 
taleza 5 e alli dormia num pouco encoítado 
iia cadeira , acompanhado fempre de D* Ma* 
ncel Pereira feu fobrinho , D. Fernando de 
Menezes que foi cafado em Cocliim 5 e foi 
Capitão de Damão , Eítevão Leite Pereira i 
João Vieira., Pedro de Gouvea , Manoel de 
Moura , Francifco de Abreu i Simão Fer- 
reira 5 Diogo Mendes ; e o Patriarca j e Bifc 
po , Religiofos i e Clérigos também tinham 
teus quartos dobrados i porque huns eram 
nas Igrejas em oração , e outros em cor- 
rer as eíbncias , animar os homens , e con- 
folallosi 

Os inimigos hiam correndo com fua ba- 
teria de todas as eílancias com muita fú- 
ria , e aõ fom delia adiantando-fe com os 
valos , e trincheiras tão perto do baluarte 
de Fernão Peres de Andrade , que fe não 
mettia em meio , mais que humas cafas der- 
rubadas , e hum pequeno ribeiro ; e por- 
aue aquella vizinhança era muito ruim , man- 
dou o Capitão a D. Francifco de Menezes 
com quarenta Portuguezes , e cem homens 
da terra , pêra que áfoíTem defmanchar; e 
no quarto da alva deram os noffos nos ini* 

K ii mi- 



148 ÁSIA de Diogo de Couto 

migos com tanto impeto , que entraram nas 
trincheiras , e andaram dentro nellas ás cu- 
tiladas com os Mouros , de que mataram 
mais de cento , e os mais fe recolheram a 
outra trincheira que lhes ficava detrás. Aqui 
foi ferido de huma efpingardada o filho mais 
velho de EIRey , da qual depois morreo , 
o qual fe intitulava por Rey de Arué , e 
foi tomada huma peça de metal , que Fran- 
cifco Paes , que depois foi Provedor Mor 
dos Contos , e que aqui era Sobre-rolda, 
mandou levar pêra a Cidade pelos feus ef- 
cravos , e a trincheira foi deímanchada , e 
desfeita até os alicerces ; e com iílo feito , 
fe recolheram os noííbs carregados de ca- 
beças de Turcos , e de outras nações , e de 
efpadas , efpingardas , e de outros defpo- 
jos , fem cuftar da noífa parte mais que hum 
Portuguez , e féis homens da terra : e a trin- 
cheira não fe tornou mais a bulir nelia , que 
tão efcaldados ficaram. 

Com eíte bom fucceífo crefceo o defe- 
jo a todos de fe acharem em algum bom 
feito , que pêra lhes o Capitão dar licen- 
ça 5 mettêram por terceiro o Patriarca , e 
o Bifpo , porque determinava elle de fe de- 
fender, fem arrifcar os homens, que tinha 
poucos ; mas em fim concedeo a Francifco 
de Moura , que também era Sobre-rolda, 
que fizeífe humaTahida no quarto da alva 

com 



Década VIII. Cap. XXII. 149 

cóm quarenta Portuguezes , e. muitos efcra- 
vos, eque fe foliem metter entre a Alfan- 
dega , e os Gudoes , que fam cafas de fa- 
zendas , porque eítava certo cahirem-lhe os 
inimigos nas mãos , porque naquella parte 
não tinham ainda feito trincheira , e fabia 
o Capitão que de noite vinham até á ponte, 
e ao longo do rio dar gritos , e que cahiriam 
nas mãos dos noflbs ; os quaes com levarem 
ordem de não paflarem do pelourinho , tan- 
to que fe viram da outra parte da ponte y 
tendo recado por huma efpia que os inimi- 
gos eílavam com vigia , foram-fe fahindo , e 
os noffos após elles até ás trincheiras anti- 
gas da banda da praia , onde carregaram 
tantos Mouros fobreos noíTos, que logo os 
puzeram em desbarato , ficando mortos Ruy 
Leitão de Brito , João Nunes do Rego , Gas- 
par de Sá , que foi criado de D. Conftan- 
tino , João Ferreira Efcrivão da Feitoria y 
e três efcravos , e quaíi todos os que efca- 
páram , foram feridos , fem morrerem dos 
inimigos mais que vinte e tantos , em que 
entrou hum Rume de cabaia de veludo ver- 
de, e outros homens brancos. 

A bateria foi-fe continuando por todas 
as partes , os dous quartos' faziam feu of- 
ício ; mas poílo que os pelouros , e mui- 
tos dos outros cahíram dentro na Fortale- 
za, quizDeos que nãoízeíTem dano, nem 

rui- 



(ffi ÁSIA de Diogo de Couto 

ruina de importância. Não fe contentando 
jEIRey com a bateria de fora , também quiz 
batelia da banda de dentro com novos ar- 
dis , que puderam fer mais perigofos que 
ós da artilheria 5 e foi com mandar dizer 
de noite do pé do muro por hum renega- 
do aos noíTos , como que os avifava , por 
fer hum renegado que lá andava , que El- 
Rey não dera logo em chegando na povo- 
ação dosQuelís, porque eltava concertado 
com elles , que ao dia que começaíle a dar 
bateria 5 huns deíTem fogo á povoação da 
Cidade , por ferem as caías cubertas de pa- 
lhas feccas de palmeira , que fam peiores 
que pólvora , e outros deífem nos Porta- 
guezes 5 e os mataflem , e fe fenhoreaílem 
dos baluartes : e o Tumugão lhe efcrevêra 
o mefmo por huma negra fua , que fizera 
fugidiíTa , como de effeito era verdade que 
fugira a noite de antes pêra o arraial. Tan- 
to que iílo fe ouvio de íima dos baluartes , 
foi tamanho o alvoroço dos noíTos , queef- 
tiveram levados a darem nos Quelís , e ma- 
tarem-nos , não tendo elles culpa alguma, 
antes fendo tão leaes como os Portuguezes. 
O Patriarca 5 Bifpo , e Prelados das Reli- 
giões , e Cabido da Sé , tanto que aquillo 
ouviram , havendo-fe por perdidos , foram- 
fe ao terreiro da Fortaleza , e diíferam ao 
Capitão que aquellàs coufas eram de muita 

çon- 



Década VIII. Cap. XXII. 171 

coníideração : e que feria bem fegurarem 
os Quelís , e o Tamugão , até fe faber a 
verdade ; fenao quando houve alguns Re- 
ligiofos que lhe requereram que logo juí- 
tiçaífe as peííoas principaes , íem mais pro- 
cefíb , nem ordem de juizo. O Capitão que 
era prudente, e entendia os ardis dos ini- 
migos , quietou a todos com muita bran- 
dura , affirmando-lhes com razões muito cla- 
ras que os Quelís fe não haviam de fiar do 
Achem; eque por íima de entender, e fa- 
ber ifto, elle tinha tanta vigilância em tu- 
do, que entre os mefmos Quelís trazia ou- 
tros fideliífimos por efpias , e que nenhum 
movimento tinha achado ; e que antes elle 
Capitão pelos haver por homens de pri- 
mor , e fieis , fe fiava delles em muitas cou- 
fas , de que fempre lhe davam boa conta > 
e razão : que elle naquelles perigos não fi- 
cava de fora , antes todos carregavam fo- 
bre elle : e que fe quietaífem em quanto o 
viam eftar aíliit fem fobre faltos : e que af- 
firmava que huma fó demonítração que fi- 
zeífe de querer prender hum , que tudo fe 
perderia fem lhe poder dar remédio. Com 
eftas razões , e outras os quietou , e fez re- 
colher, pedindo-lhes foflem pelejar comas 
armas efpirituaes , e com orações , que com 
as temporaes elle correria de feição , que 
não houveífe falta, 

Ven- 



ffí ÁSIA de Diogo de Couto 

Vendo o tyranno do Achem o pouco 
que lhe íuccediam fuás traças , e que as ba- 
terias que dava á Cidade em roda lhe náo 
faziam dano , pela ter o Capitão muito for- 
tificada , e provida o melhor que podia fer 
de munições , fendo ellas bem poucas ; por* 
que aos Vifo-Reys da índia he já muito 
antigo efte coftume , de fe defcuidarem de 
feus provimentos , aílím por não gaitarem, 
( como fe o dinheiro lhes fahilfe da boifa ) 
como porque fazem conta , que quando fe 
perder qualquer Fortaleza , que ja fera em 
tempo de outro , a quem EIRey peça con- 
ta diífo , não fe havendo de pedir fenão ao 
que acabou antes delle , ou' a ambos , por- 
que ambos deviam ter cuidado de feus pro- 
vimentos. Deixemos iílo em que ha tanta 
miferia, que he melhor calar , porque tam- 
bém o fali ar não remedea. E tornando á 
ordem que levava , foi o Achem batendo 
as noffas eílancias com aquella fúria da fua 
artilheria , e de feus ardis liabolicos , que 
puderam caufar huma grande defaventura, 
fe não deram em hum Capitão tão pruden- 
te , e precatado. Ao outro dia que o rene- 
gado fez aquella pratica fobre os Qiielís y 
foltou hum moço de hum Portuguez que lá 
andava fugido , que hia bem en faiado do 
que havia de fazer , e lhe deo huma carta 
per4 fe tenta Jáos ^ que eftevam em hum 

jua- 



Década VIII. Cap. XXII. 15-3 

junco junto da ponte , mercadores que alli 
tinham vindo com íua fazenda. Elte moço 
foi tomado dos nolíbs , e levado ao Capi- 
tão ; e achando-lhe a carta , a mandou ler , 
e nella dizia , que como viffem tempo , fi- 
zeíTem aquillo que lhe tinham promettido : 
que elles como viífem o final , dariam o 
aífalto , e entrariam a Cidade : e que lhes 
promettia de repartir com elles todo o def- 
pojo de fazendas , peças , e cativos igual- 
mente com os Achéns. Todas eílas coufas 
urdia o Achem , pêra pôr aos da Fortale- 
za em fofpeitas , e defconfianças ; mas co- 
mo o Capitão ouvio o moço , e leo a car- 
ta ío com o lingua , ficou-fe tendo tanto 
fegredo , que nunca fe foube. 

Por outro moço feito fugidiflb efcreveo 
o Tyranno huma carta aos calados , na qual 
os louvava de bons cavalleiros ; e pelo que 
lhes vira fazer naquelle cçrco , deíejava de 
lhes fazer a todos mercês , e não tratallos 
mal, e com eílarem alli arrifcados aos pe- 
louros , e fomes : que viflem a potencia , 
com que eítava fobre aquella Fortaleza , a 
fraqueza delia, e os poucos defenfores que 
tinha : que lhes rogava fe lhe entregarem , 
e lhe deffem ordem pêra entrar na Forta- 
leza , e que a todos daria as vidas , fuás 
mulheres , filhos , e fazendas , e que fobre 
iífo lhes faria groífas mercês ; fenão , que 

fcu- 



i<r4 A S I A de Diogo de Couto 

fcubelfem que não fazendo o que lhes ofc 
ferecia , aue os havia de haver ás mãos , e 
efpedaçalíos , porque fe não havia de le- 
vantar de fobre aquella Fortaleza fem a to-* 
mar , ainda que foubeíTe eítar três , e qua- 
tro annos , porque eílava em fuás terras , 
onde lhe não havia de faltar tudo o de que 
tiveíle neceffidade , e que elles não tinham 
provimento pêra três mezes , como delia o 
avifavam os mefmos Quelís. 

O Achem andava tão defconfiado de 
fuás traças lhe fahirem vans , e fem effei- 
to nenhum, que quafi não fabia os termos , 
por que levaria aquella guerra ; e pondo 
em confelho de feus Capitães aquelle ne- 
gocio , aífentáram que fe commetteífe a Ci- 
dade á efcala viíla com todo o poder , e 
puzeíTem muitas efcadas á roda , por onde 
fe commetteífe ; porque como na Fortale- 
za havia pouca gente , e fe viífem commet- 
tidos por todas as partes , forçado era al- 
guma havia de ficar defamparada , pela qual 
poderia entrar a Cidade. Efte commettimen- 
to quiílo também fazer com eíle ardil. 

Sendo 14. de Fevereiro , mandou paí- 
far da banda de liher pêra a outra de Ma- 
laca muitas embarcações carregadas de gen- 
te toda em pé pêra moítrar o feu poder: 
o que fez por cuidarem os noífos que que* 
riam dar o aífalto pela bancía de Malaca 

pe- 



Década VIII. Cap. XXII. 15? 

pela ponte , e ao longo do rio , porque acu- 
diíTem áquella parte, e elles commetterem 
pela banda de Ilher , onde tinham grande 
copia de efcadas feitas , e todos os mais 
petrechos de guerra. O Capitão , como lhe 
differani deitas embarcações, e que agen- 
te toda hia em pé dando moítra do poder , 
logo entendeo o defenho do inimigo ; e 
pêra fe certificar melhor , foi-fe por íbbre 
o oiteiro de nofla Senhora , donde deícu- 
bria tudo , e vio que tornavam as embar- 
cações com a gente alaílrada , e ainda en- 
xergou defembarcar toda no arraial , pelo 
que fe fortificou daquella parte o melhor 

ãuepode, que pela outra, e rio eílava tu- 
o ieguro , e aífim com lhe entender os 
ardis , e lhos desfazer , lhe desfazia toda 
a guerra. 

Ao outro dia que foram 15. de Feve- 
reiro , mandou EIRey fahir toda a gente 
de fuás trincheiras, e mandou bater a For- 
taleza em roda com a maior fúria que nun- 
ca fez , a qual bateria durou todo aquelle 
dia , e noite feguinte , com hum eítron- 
do , e terror que foi hum efpanto : e neíle 
conflito fe acharam todos os Prelados , Pa- 
triarca , Bifpo , e das Religiões ; e o Ca- 
pitão não defeançou em todo eíle tempo , 
trazendo homens por todas as eítancias, e 
baluartes , que por momentos o avifavam 

de 



15*6 A SI A de Diogo de Couto 

de tildo o que fuccedia; e fendo neceííariò 
mandar prover em alguma coufa , o fazia 
com muita preíleza. 

Sendo entre a huma hora , e as duas 
depois da meia noite , ao tempo que a alva 
fe levantava, e começava a defcubrir o cam- 

Í>o , viram os noííos de improvifo eftender- 
e huma névoa fobre a Cidade , e de redor 
dos muros tão efpeíla , que náo fe enxerga- 
va coufa alguma , fem os noífos poderem 
differençar o que aquilio feria. Alguns ti- 
veram pêra íl íer fumo de algum fogo gran- 
de que fe accendeo no oiteiro de Bocachi- 
na ; mas enganáram-fe , porque o oiteiro ef- 
tá a longo da Cidade , e he alto , e o ven- 
to , e fumo fam elementos que fobem , e 
não d-efcem : pêra ferem vapores que fe le- 
vantavam da terra, -também pêra iflb havia 
contradição , porque eíles vapores fó eram , 
e eílavam ao redor dos muros , e dahi a ti- 
ro de efpingarda já os não havia: por on- 
de todos prefumíram que fe levantara aquel- 
la névoa por virtude de algumas palavras, 
e feitiçarias , ou de alguns pós que fe em- 
palharam. Eftendida a névoa , foi-fe levan- 
tando pouco a pouco ; e pondo-fe entre os 
nolfos , e os inimigos \ pêra os não pode- 
rem ver quando puzeflem as efcadas aos 
muros , o que elles fizeram em grande lilen- 
cio, e muitos fe puzeram em íima fem fe- 
rem 



Década VIII. Cap. XXII. 157 

rem viftos , nem os noflbs os verem , nem 
íentirem. 

Nefte commettimento vieram os inimi- 
gos á parte de Malaca com grandes gritos, 
e defordenados inftrumentos , como que que- 
riam commetter por alli o aíTalto , dilpa- 
rando toda a artilheria com grande terror, 
e fizeram querena de arremetterem , pêra 
com aquelle eílrondo chamarem alli os nof- 
fos, e ficar a banda deliher defamparada, 
pêra darem por lá o aíTalto ;" mas como o 
Capitão tinha mandado expreflamente que 
nenhuma peflba fe buliíTe de feu lugar íem 
feu efpecial mandado , não houve quem fe 
abaiafle , antes fe fizeram preíles pêra rece- 
berem os inimigos por qualquer parte que 
commetteíTem : e com eltas demonílrações 
commettêram pela banda de Iher 3 onde ti- 
nham determinado de dar o aíTalto , e acoi- 
tarem as efcadas , pelas quaes fubíram com 
grande determinação ; e no baluarte de Sant- 
iago foi o poder maior 3 onde também a- 
cháram maior defensão , porque os agaza- 
Ihavam os noíTos com infinito fogo de pa- 
nelas , e lanças j e como era de madrugada , 
parecia que fe abrazava a Cidade, e aífim 
foram dizer ao Capitão que aquelle baluar- 
te ardia todo em lavaredas , ao que fenão 
inquietou, antes com muita fegurança man- 
dou logo a D. Fernando de Menezes , e a 

D. 



iç% ÁSIA de Diogo de Couto» 

D. Manoel Pereira que foflem acudir lá por 
huma parte ; e por outra a Eílevao Leite, 
e a João Vieira : e de todos eítes fó Eíle- 
vao Leite chegou ao baluarte, que pela rua 
debaixo fe foi metter nelle , e fe aprefen- 
tou no mor perigo , e pelejou valerofamen- 
te ; os mais indo por fíma do muro novo , 
acharam de hum canto que faz defronte da 
Mifericordia até ao baluarte , mais de mil 
Mouros , que fubíram por efcadas que ar- 
rimaram naquella parte , porque acharam 
maré vazia , e eítavam fobre a entrada da 
baluarte em grande batalha com Manoel 
Henriques , e feus foldados , que lho defen- 
deram valerofamente. O que vifto por D. 
Manoel Pereira , D. Fernando de Menezes , 
João Vieira com mais gente que levavam, 
deram pelas coitas dos inimigos com tanto 
impeto , que os fizeram lançar do muro a- 
baixo , fem verem os noflbs quão poucos 
eram ; mas cuftou muitas feridas a todos , 
porque D. Manoel Pereira levou huma fre- 
chada , que paíTou ao longo do olho , e lhe 
atravefíbu a orelha, de que ficou com hum 
geito no olho até morrer ha íinco , ou leis 
annos. D, Fernando levou outras feridas , 
Manoel Henriques duas 3 João Vieira hu- 
ma, Francifco Dias finco, de que raorreo , 
e outros muitos. 

Ao tempo que o Capitão mandou foo- 

cor- 



Década VIII. Cap. XXII, 15-9 

corro ao baluarte Sant-Iago , lhe vieram di- 
zer que o de S. Domingos eítava emgrarn 
de aperto com o Capitão queimado, ecom 
os Portuguezes mortos , pelo que o mandou 
foccorrer por Francifco Paes , e Franciíco 
de Moura Sobre-roldas com a gente de fua 
obrigação , os quaes fe mettêram naquelle 
baluarte, onde fizeram coulas tão notáveis, 
que pafmavam os Mouros , que fe viram 
íenhores daquelle baluarte. 

Mas pêra que he tratar particularidades y 
quando a Fortaleza eítava cercada em roda 
de duzentas peças de artilheria, e mais de 
dez mil homens • que trabalhavam por fe 
fazerem fenhores da Fortaleza , e de pare- 
cer bem a feu Rey , o qual eítava comfeu 
filho vendo o combate de fima do monte 
de Bocachina a cavallo , donde mandava foc- 
corros aprelíados aos feus , o que não ti- 
nham os noífos , porque fó dos Ceos lhes 
podiam vir. Em fim quanto fe via á roda , 
eram lavaredas de fogo , quanto fe ouvia 
de todas as partes , eram eftrondos , terre- 
motos , e trovões de artilheria : de dentro , 
e de fora gritos , e vozerias , e ais dos que 
pelejavam, e cahi^m mortos : huns appei- 
lidando Sant-Iago , o nome de Jefus ; e ou- 
tros por Mafamede \ mas como a parte de, 
no (To Senhor fempre vence , e ha de per- 
manecer contra o inferno , poz nos peitos 

dos 



i6o ÁSIA de Diogo de Couto 

dos no fios tal furor , e nos braços tanta for- 
ça , que eífes poucos que eram , aíTim tra- 
taram a multidão dos inimigos , que deram 
com todos dos muros , e das efcadas abai-* 
xo com tamanho eílrago , e crueza y que dei- 
tou EIRey as toucas no chão , e começou 
a blasfemar contra Mafamede ; e vendo-ft) 
de todo perdido , aflim fe recolheo ás fuás 
tendas tão trifte , e melancolizado , que nem 
o próprio feu filho oufava fallar com elle; 
e porque fe receou que deífem os noífos 
nelles , e lhe tomaífem a artilheria , a man- 
dou embarcar tão caladamente y que nunca 
fe foube , nem fentio. Elle aos z$. de Fe- 
vereiro fe embarcou fua peíToa , ficando tnor- 
tos de redor daquelles muros em todos os 
combates mais de três mil Mouros ; e le- 
vou na Armada tantos feridos , que de Ma- 
laca até Rua , que he caminho de finco dias % 
bo.táram. ao mar mais de quinhentos ho- 
mens - y e porque lhe ficou parte da Armada 
vazia , mandou queimar muitas embarcações 
pequenas , e outras deixou por eífe mar. 

Fez EIRey eíla embarcação com tanta 
preíla , que fe não foube fenão depois de 
elle embarcado ; e vendo a mercê que nof- 
ío Senhor lhe fizera , foi o Capitão á Igre- 
ja dar-lhe muitas graças , e louvores ; e o Pa- 
triarca , e o Bifpo de Malaca fizeram Procif- 
soes folemnes y e deitaram fobre o povo que 

acu- 



Década VIII. Caf. XXII. i6i 

acudio , muitas benções pontificaes , corri 
muitas lagrimas de alegria de todos , não 
merecendo elles menos , antes mais que to- 
dos os que pelejavam valerofamente ; por- 
que além de andarem continuadamente pe- 
los muros , e baluartes entre pelouros , e fo- 
go animando a todos , também tinham fuás 
horas de recolhimento em oração diante dó 
Santiílimò Sacramento , onde como Moy- 
fés com as mãos levantadas aos Ceos mo- 
viam aquelle peito Divino a feapiadar dos 
noílbs , e a lhes dar as vistorias que alcan- 
çaram , porque éftes Varões verdadeiramen- 
te eram Apofíòlicos \ e obrou nòílb Senhor 
por elles alguns milagres , que afias de gran- 
des foram não morrerem neíte cruel $ e et 
pantolb afíalto, mais que três Pòrtuguezes, 
Simão de Sampayo , que êra Provedor da 
Mifericordia., Belchior de Carvalhaes , Juiz 
ordinário > e Francifco Dias. 

Sahido o Capitão com o Patriarca \ Bif- 
po , ePreladoá da Igreja, aonde foram dar 
graças a Deos i foram logo correr ôs mu- 
ros , e baluartes , é aos Capitães, ê folda- 
dos abraçava hum c hum , dando-íhes pú- 
blicos louvores de feu esforço $ e valentia , 
e de fua parte os agradecimentos do mui-* 
to que trabalharam ; e até os. eícravos que 
achou por todas as êfíaricias , de que teve 
boá informação ^ forrou logo, e os pagou 
Couto. Tom, K P* L L a 



1 62 A S I À de Diogo de Couto 

a feus donos ; e aos Portuguezes , e Chri- 
ílaos pobres deo alli mefmo a trinta , a qua- 
renta , e a íincoenta cruzados a cada hum , 
porque pêra iíTo mandou trazer fuás boce- 
tas 3 de que os contou .., e não quiz que as 
promeífas fícafiem fó em palavras ; e a ou- 
tras peííbas deo fuás peças de ouro , me- 
dalhas , cadeas , efpadas , e tudo o mais que 
tinha , que não queria que lhe ficaíTe mais 
que a honra , com a qual ficava muito rico ; 
e fe contentava de maneira , que me affir- 
máram muitos homens que fe alli acharam, 
principalmente Francifco Paes , que o fabía 
melhor que todos , que defpendêra alli mais 
de íinco mil cruzados , afora mais de dez 
mil que lhe culto u a lua náo que mandou 
metter no fundo : e tudo ifto era pouco pê- 
ra pagar aos homens o que fizeram naquel- 
le cerco , que foi hum dos mais perigofos 
da índia. Defapreífado o Capitão daquelle 
trabalho , vendo que era obrigação avifar 
ao Viío-Rey , porque havia de eítar com 
fobreííaltos , e na fortaleza não havia em- 
barcação alguma em que o pudeíle fazer, 
deípedio três Portuguezes com dinheiro , e 
hum Piloto , e marinheiros , pêra que fof- 
fem a Queda comprar huma fuíla que alli 
eítava, na qual fe paflaffem aCoromandel, 
q que ellus fizeram com muita diligencia ; 
ijias como era já tarde, fendo nas Ilhas de 

Ni- 



Década VIII. Cap. XXlí. 16$ 

Nicubar , lhes deo hum tempo groíío , que 
os fez arribar , e depois tornaram a com- 
metter o caminho por via de Tamazais , e 
no cabo de Tuzalão andaram ás voltas mui- 
tos dias com tempos contrários i e grandes 
correntes ^ fem o poderem dobrar , e por 
fim tornaram pêra Malaca logo. 

CAPITULO XXÍIL 

Das novas que chegaram ao Vifo-Rey dos 

apercebimentos que o Achem fazia contra 

Malaca , e dosfoccorros que defpedio. 

POr navios de Mouros que foram de Ma- 
laca a Coromandel , foube o Vifo-Rey 
como o Achem fe ficava fazendo preftes com 
aquella potencia pêra ir fobre Malaca , por- 
que lho efcreveo o Capitão de S* Thomé i 
pelo que logo com muita prefla fe foi pôr 
na ribeira das Armadas 5 e negociou hum 
galeão , e quatro galeotas 5 e elegeo pêra 
-aquella jornada João da Silva Pereira ^ que 
partio em 24. de Abril 5 elle no galeão ; é 
nas galeotas Álvaro Lopes da Coíla , Gafe 
par Marrecos, Ambroíio Davila Betancor,* 
e António Dias , levando João da Silva Pe- 
reira Provisão de Capitão Mor do mar de 
Malaca: e fem defcançar negociou dous ga- 
leões y e os encheo de provimentos , e mu- 

L ii ai- 



íÓ4 ÁSIA ds Diogo de Couto 

nições , e nomeou a D. Fernando de Mon- 
roy Fidalgo Caítelhano , que eítava pêra ir 
por Capitão de Ceilão , pêra ir a efte foc- 
corro , com regimento , e provisões pêra 
fe ajuntar a João da Silva , que havia de 
ficar debaixo da fua bandeira , pêra darem 
no inimigo , e defcercarem Malaca : e ef- 
creveo huma carta a João da Silva muito 
honrada , em que lhe pedia obedeceííe a D. 
Fernando de Monroy , por fer hum Fidal- 
go velho , e muito experimentado : e D. Fer- 
nando partio de Goa a 4. do mez de Maio 
de i^óB. e tanta preíla fe deo , e aflim o 
favoreceo noílb Senhor , que alcançou João 
da Silva nas Ilhas de Nicubar , c aflim huns 5 
como outros cuidaram ferem náos de Me- 
ca , pêra as quaes fe fizeram preiles. João 
da Silva defpedio hum navio de remo a re- 1 
conhecer que náos eram aquellas - y e che- 
gando perto , vio ferem náos noífas ; pelo 
que o Capitão do navio foi ao galeão , em 
que' vio bandeira , e conheceo fer D. Fer- 
nando de Monroy, com o que fe alegrou; ' 
e D. Fernando mandou por elle a carta do 
Vifo-Rey a João da Silva , o qual em a len- 
do , mandou logo enrolar a bandeira de Chri- , 
ílo que levava na gavia, e cubrir o feu fa- 
rol ; o que viílo por D. Fernando de Mon- ■■ 
roy , fez o mefmo. João da Silva fe met- 
teo em huma galeòta 3 e fe foi ao galeão 

de 



Década VIII. Cap. XXIII. 165 

de D. Fernando , que o recebeo a bordo , 
e tiveram muitos cumprimentos íòbre as ban- 
deiras ; em fim venceo a cortezia a razão , 
edalli foram ambos fem bandeiras , nemfa- 
roes ; e todavia porque entrava por entre 
baixos , a rogo de João da Silva , accendeo 
D. Fernando o feu farol ; e chegando a Ma- 
laca , onde cuidaram achar ainda a Arma- 
da inimiga, pêra o que hiam alvoroçados, 
fabendo logo da vitoria que Deos dera aos 
nolfos , e de como os inimigos foram defí 
baratados , foi tamanha afua inveja, que a 
não puderam encubrir por parte da honra ; 
mas pela da Chriftandade , e razão foi igual 
a alegria , e alvoroço , e aílim falváram a 
Cidade muitas vezes ; e deíembarcando to- 
dos poftos em armas , pêra moftrarem as 
louçainhas , com que hiam buícar os ini- 
migos , acharam o Capitão , e povo na 
praia , onde íe receberam com grande amor, 
e alegria , e D. Leoniz Pereira levou pêra 
cafa D. Fernando , e quiz que João da Sil- 
va fe tornaíle pêra o galeão , e dahi a pou- 
cos dias o defpedio pêra o eílreito de Sa- 
bão , affim pêra recolher os navios que hiam 
pêra Malaca com muitos mantimentos , co- 
mo pêra efperar huns Embaixadores que El- 
Rey do Achem tinha mandado á Rainha de 
Japará a pedir-lhe ajuda: e foi João da Sil- 
va tão ditofo , que o junco em que elles 

vi- 



i66 ÁSIA de Diogo de Couto 

vinham , veio dar com elle naquella para-» 

fjem 5 onde levava por regimento efperal- 
os , e o mandou commetter pelas galeo-» 
tas ; e poílo , que fe puzeram em defensão , 
foram entrados , e mortos á efpada quantos 
Achéns vinham nelle , e a fazenda rouba- 
da pelos foldados , que ainda acharam bom 
quinhão: e com eíla vitoria, e com juncos 
de mantimentos fe recolheo João da Silva , 
o que tudo o Capitão eílimou muito ; e D, 
• Fernando de Monroy fe tornou pêra a ín- 
dia como foi tempo, 

CAPITULO XXIV. 

De como fe apercebe o EIRey de Vi antana pê- 
ra ir contra o Achem } que já acha reco- 
lhido , e vifta o Capitão D. Leoniz. 

ASÍím aífombrou a todos aquelles Reys 
daquelle Archipelago a potencia com 
que o Achem ficava fobre Malaca ., que fe 
houveram por perdidos ; porque entenderam 
que fe efte tomaífe Malaca , a que não tinham 
duvida , que logo havia de voltar fua ira 
contra elles , e tomar-lhes feus Reynos , pê- 
ra ficar fendo Imperador de todo aquelle 
Oriente - y pelo que os mais delles defampa- 
ráram as povoações que tinham aborda do 
íxjar y e fe mettêram peio certao , até ve- 
rem 



Década VIII. Cap. XXIV. 167 

rcm o em que parava aquelle negocio ; fo- 
mente o Rey de Viantana , que era o ver- 
dadeiro Imperador de rodo oMalayo, Re^ 
legitimo por linha fucceíliva dos antigos Reys 
de Malaca , no qual , poíco que desfaleceò 
o Eftado , não desfez o animo , antes fe 
apercebeo pêra contraítar o inimigo , pelo 
que lhe veio a leu propolito a carta que lhe 
efcreveo o Capitão D. Leoniz Pereira por 
Diogo Lopes (como já diífe) em que o 
perfuadia ir com fua Armada dar no Achem y 
que eílava naqueíla barra de Malaca , quê 
por ter toda agente em terra, muito facil- 
mente a poderia tomar , e darem ambos no 
Àchém em terra , e deítruirem-no de todo , 
por não ter pêra onde fe acolher ; pelo que 
com muito alvoroço fez preíles fua Arma- 
da , que feria de feífenta velas , e partio-fe 
muito apreíladamente , mandando diante re- 
cado ao Capitão pêra que eftiveífe preftes. 
Quando chegou a Malaca , era o Achem 
fahido do dia de antes , pelo que com mui- 
ta prefia o foi feguindo , porque efperava 
de o desbaratar , e foi mais de trinta lé- 
guas fem o encontrar , e por todo o cami- 
nho foi achando corpos mortos , que hiam 
alojando ao mar, aflím dos feridos, como 
de doenças, que lhe deram na Armada; £ 
entendendo que era trabalho em vão paliar 
avante, fe recolheo a Malaca. 

E 



ió8 ÁSIA de Diogo de Cotjto 

E dando conta a feus Capitães como 
determinava defembarcar em terra a ver o 
Capitão , foi-lhe contrariado de todos , di- 
zendo que não era licito defembarcar na- 
quella Cidade , que os Portuguezes toma- 
ram a feus Avós 9 da qual elle era Rey na- 
tural : que todas as demais demonítrações 
de cortezias poderia ufar com o Capitão : 
ao que elle replicou , que não hia a Mala- 
ca , mais que a ver hum Capitão , que def- 
baratára hum tão poderoío Tyranno , e o 
vingara de todas quantas aíFrontas lhe tinha 
feitas , e lhe fegurava o feu Eítado , que fi- 
cara mui arrifeado , fe o Achem tomara a- 
quella Fortaleza : e antes de chegar a Ma- 
laca mandou viíitar o Capitão , e a dar-lhe 
os parabéns da vitoria, e apedir-lhe licen- 
ça pêra o vifitar. 

A eftes Embaixadores recebeo o Capi- 
tão com muitas honras , e por elles man- 
dou a EIRey muitos agradecimentos da hon- 
ra que lhe queria fazer : e que aquella For- 
taleza era de Sua Alteza , e que bem po- 
dia entrar nella como em fua cafa, EIRey 
chegou logo á vifta da Fortaleza com trinta 
navios fermofamente embandeirados , fal- 
vando-a com muita artiiheria , e inftrumen- 
tos beilicos ? e alegres 5 e furgio entre a 
Ilha das Náos , e a Cidade , onde foi logo 
yiíjtado de parte do Capitão , e fignificai> 

Ihe 



Década VIII. Cap. XXIV. i6 9 

lhe que mais honra recebia em Sua Alteza 
o ver , que na vitoria que tinha alcançado 
do Achem : e que todos aquelles morado- 
res, que eram íeus vaílallos , citavam mui- 
to alvoroçados pêra o fervirem. Aquella 
noite toda Te fizeram por todas as partes da 
Cidade , e por Uma dos muros , e baluar- 
tes , e oiteiros.de. noíTa Senhora do Monte 
muitos foges , e fe lançaram muitas bombas , 
e foguetes, e fizeram demonítraçoes de ale- 
gria , e toda a noite andaram officiaes fazen- 
do a cem paííos da Fortaleza da banda de 
Ilher hum fermofo cães de madeira pêra a 
defembarcaçao de EIRey , que lecubrio de 
alcatifas ricas , e pannos de ouro , e feda , e 
dalli até á porta da Fortaleza muitos ar- 
cos feitos de ramos verdes , e peças de fe- 
da : e mandou alimpar as ruas , e que os 
cafados armaílem fuás portas, e janellas o 
mais loucamente que pudeíTem, e que por 
ellas tiveílem fuás mulheres, e filhos, pê- 
ra aquelle Rey fer mais feílejado. 

Ao outro dia pela manhã mandou o Ca- 
pitão os Vereadores com todos os cafados, 
e Chilis ricos que foífem em balões bufear 
EIRey , e acompanhallo : o que elle efti- 
mou muito , e na companhia de todos foi 
remando devagar , porque goftava muito de 
ver a fúria da artilheria , que não ceifava 
de ofalvarj e antes de chegar ao cães, def- 

pe- 



170 A S I À de Diogo de Couto 

})edio diante hum recado ao Capitão , què 
he mandaífe dizer com quanta gente. des- 
embarcaria ; ao que lhe mandou refponder, 
que com toda quanta Sua Alteza quizefle, 
pois entrava em fua cafa ; e chegado ao 
cães, achou o Capitão na borda delle, que 
ao defembarcar o levou nos braços com 
muito acatamento ; e pofto fora , fe torna- 
ram a abraçar , e depois fe afaítou EIRey 
hum pouco , e tirou a touca , e o Capitão 
a gorra ; e tomando da mão de hum feu 
pagem dous crifes muito ricos com os pu- 
nhos de ouro , e pedraria , deo hum ao Ca- 
pitão , ficando-lhe outro , porque eíte he o 
maior final de amor que fe ufa entre elles : 
e aífim foram andando > o Capitão hum pou- 
co atrás ; da mão efquerda de EIRey , até 
o cabo do cães , onde eílavam dous cavai- 
los ricamente ajaezados ? em que cavalga- 
ram. EIRey era magro , comprido do cor- 
po , olhos grandes , rofto varonil , de idade 
de quarenta annos : nos meneios , e falias 
moítrava gravidade de Rey : hia veílido ao 
modo Malayo com feus pannos de ouro , 
huma fobrevefte de brocado rico , e huma 
gorra de veludo guarnecida de ouro , e pé- 
rolas \ na cinta efpada , adaga , e talabarte 
de ouro. Deita maneira foram no meio de 
hum luzido efquadrão de foldados luílrofos , 
que foram fempre difparando com fua efpin- 
gardaria com muita ordem. Che- 



Década VIII. Cap. XXIV. 171 

Chegando á porta da Fortaleza , parou 
EIRey , e tornou a perguntar ao Capitão > 
quantos queria que entraíTem com elle den- 
tro ; ao que refpondeo , que com todos 
quantos trazia , e todos os mais que fica- 
vam em feu Reyno , porque naquelle dia 
não tinham chaves as portas. Entrando den- 
tro , fubíram até o terceiro fobrado da tor- 
re que Affoníb de Albuquerque fez , e em 
huma varanda alcatifada de pannos de ou- 
ro , e fedas fe affentáram em duas cadei- 
ras , em que eftiveram praticando hum pe- 
daço , eftando em outras duas o Patriarca , 
e Bifpo , que fe acharam no recebimento y 
com que EIRey também teve muitos cum- 
primentos , e fatisfações. Depois de prati- 
carem hum efpaço , lhe foi o Capitão mof- 
trar o muro, e baluartes, que eílavam bem 
danificados das baterias , e depois lhe foi 
moílrar a eftancia dos inimigos , que EIRey 
andou vendo com grande admiração , por 
fer huma maquina infinita. 

Vifto tudo por EIRey , foi-fe embar- 
car : o Capitão o acompanhou até fe met- 
ter na fua embarcação , defpedindo-fe com 
muitas cortezias , e moftras de amor. Re- 
colhido o Capitão, mandou logo a EIRey 
alguns balões carregados de confervas , e 
frutas doces , e outras curioíidades , e mi- 
ixíqs pêra elle, e pêra os feus Paidares , e 

o 



ijz ÁSIA de Diogo de Couto 

o mefmo fizeram todos os cafados 3 de ma- 
neira que EIRey foi muito fatisfeito do a- 
mor com que todos o trataram. Tanto que 
as novas daquella grande viéloria fe efpa- 
lháram por todas aquellas partes > foram 
tão feltejadas de todos os Reys como de 
nós , pelo mortal ódio que tinham áquel- 
le Tyranno : logo defpedíram feus Embai- 
xadores a viíitar o Capitão , e dar-lhe 
os parabéns , e fazer-lhe grandes oífereci- 
mentos , pêra que fe quizeíTe ir fobre a- 
quelle inimigo , o acompanharem todos , o 
que lhes elle agradeceo com palavras fàti& 
radio rias : e affim ficaram quietos por al- 
guns tempos. 

CAPITULO XXV. 

Do que aconteceo a Gonfalo Pereira Mar- 
rama que depois que par tio de Malaca. 

PArtido Gonfalo Pereira com fua Arma- 
da junta > foi feguindo fua derrota , pe- 
la via de Borneo 5 por onde então fe fa- 
ziam as viagens , que depois fe mudaram 
pela via de Amboino ? pelos baixos que ha- 
via pela outra derrota ; e chegando á bar- 
ra de Borneo , pêra fe prover de algumas 
coufas , foi logo avifado como na Ilha de 
Cebu eílava huma Armada de Hefpanha, 

de 



Década VIII. Cap. XXV- 173 

de que era Capitão Mor Miguel Lopes de 
Lagos Bifcainho , homem eíperto , e dili- 
gente , com as quaes novas íe alvoroçaram 
todos , e fizeram requerimentos a Gonfalo 
Pereira , que foíTe contra os Caítelhanos , 
por entrarem do limite de EIRey de Por- 
tugal pêra dentro; e pofto que elle não le- 
vava regimento pêra iiTo , parecendo-lhe que 
importava alTim pêra o bem daquellas Ilhas , 
negociou-fe pêra a jornada, tomando Pilo- 
tos , e coufas neceífarias , e foi feguindo a 
derrota de Cebu ; e como era já fora de 
tempo , e os Pilotos pouco correntes , an- 
dou ás apalpadelas , como lá dizem , mais 
de quatro mez.es por entre aquelles canaes , 
e Ilhas , em que lhe morreo infinita gente 
de fome , e fede , pelo que deíiítindo da 
jornada , voltou pêra Maluco. 

Aquelie Rey eftava já avifado da ida 
de Gonfalo Pereira por hum navio que foi 
diante , de que era Capitão Pedro da Cu- 
nha , o qual não quiz feguir o Capitão Mor 
de Cebu , e foi direito a Maluco , e lá def- 
cubrio a Henrique de Lima , de como Gon- 
falo Pereira trazia regimento pêra prender 
EIRey Ahiro , e o mandar caminho de Goa 9 
o que Henrique de Lima não teve em fe- 
gredo, antes o defcubrio logo a EIRey, de 
t m era muito amigo : e o dia que Gon- 
hlo Pereira Marramaque furgio no porto 

de 



174 A S I A de Diogo de Couto 

de Talangame , logo fe embarcou ElRéy 
em algumas corocoras com feus filhos , e 
ainda mulheres , e foi demandar o galeão 
do Capitão Mor , que o efperou a bordo , 
e o recebeo com muita veneração. EÍRey 
aprefentou os filhos , dizendo que alli efta- 
va elle , e elles pêra tudo o que íbíle do 
ferviço de EIRey de Portugal : e que fe tra- 
zia alguma ordem fua , fe não cançaííe , que 
elle fe mettia alli em feu poder logo : e 
que fizeííe delle o que entendeífe que foíTe 
ferviço de EIRey; mas que também lhe pe- 
dia fe informafle da verdade, porque fabia 
muito bem que o Vifo-Rev eílava muito 
mal informado de fuás couías. Gonfalo Pe- 
reira o abraçou , e fez muitos gazalhados , 
ediffe que o informaram mal: que elle não 
vinha alli fenão pêra o fervir , como faria 
com muito goíto. 

Com ifto fe recolheo EIRey mais leve, 
e o Capitão fe foi apofentar na Fortaleza ; 
e porque o lugar era eílreito , quiz mandar 
fazer numas cafas na praia , cuja obra EI- 
Rey tomou á fua conta , e andou em pef- 
foa neilacom fua mulher, e duas filhas, e 
fuás criadas , que acarretavam os materiaes : 
e Gabriel Rebello , em que já fallei , que 
fe achou prefente , me diííe muitas vezes , 
que elle fora alli viíitar a Rainha, erepre- 
hendelia de andar alli com as fiiiias ; eque 

lhe 



Década VIII. Ca*. XXV. 175^ 

lhe refpondêra , que andava affim , porque 
fe fe prendeíle EIRey feu marido > como 
diziam , ir-fe metter com elle na prizão, 
pêra neila o fervir com fuás filhas ; e co- 
mo não faltam mechedores , parece que al- 
guns que queriam ganhar terra com ElFvey > 
o avifaram algumas vezes que o haviam de 
prender , ao que fempre refpondeo , que iria 
a Goa comer bom pão , evaca, e beber muito 
bom vinho 5 porque elle não fabia viver nos 
matos. Receando os vaíTallos iílo , por duas 
vezes defpejáram a povoação , e fe acolhe- 
ram aos Gunos. EIRey com muita ira os 
mandou tornar , e os queria caftigar , por 
fazerem novidades , e poz-lhes penas de fa- 
zendas perdidas , fe mais fe afaílalTem da 
Cidade , nem nzeflem aquellas demonítra- 
çoes, deque elle fe havia por defcontente* 
Depois de o Capitão Mór prover em 
algumas coufas , ordenou de tornar contra 
os Caítelhanos , pêra o que fe fez preftes , 
edefpedio diante hum António Rombo de 
fua obrigação em duas corocoras , pêra ir 
a Cebu a vifitar o Miguel Lopes de Lagos ; 
e á volta diífo fe inteirar do poder que ti- 
nha j e fe lhe viera da nova Hefpanha mais 
foccorro , e fe tinha defcuberto o caminho 
da volta pêra lá. Porém como eíle homem 
era ( fegundo diz Gabriel Rebello , que o 
tratou) mais rombo do engenho f nemfou^ 

be 



tj6 AS IA de Diogo de Cot/to 

be apalpar ascoufas, como convinha, nerri 
perguntar com a diífimulação devida por al- 
gumas , antes em vez de aproveitar , per- 
judicou , porque inconííderadamente mo Ir 
trou aos Pilotos Caítelhanos huma carta de 
marear , que elles eítimáram muito , por- 
que por ella alcançaram o caminho da Chi- 
na , e Japão , e de todo aqueile archipela- 
go , coufa que elles não fabiam , e compra- 
riam por muito , o que tudo lhes o Rom- 
bo deo por tão pouco , como foi o de fua 
ignorância : e por aqui fe verá quanto defc 
via bufcarem os Vifo-Reys , e Capitães ho- 
mens feus validos , e fem as partes que con- 
vém , pêra tratar os negócios a que os man- 
dam , ió a fim de os honrarem , e elles fi- 
cam os deshonrados , e o Rey defacredita- 
do. Em fim efte homem negociou tão rom- 
bamente tudo , que fe tornou pêra Maluco , 
e não informou Gonfalo Pereira do que foi 
buícar nem de nada: e aíEm fe partio eíte 
Fidalgo fem informação nenhuma outra vez 
pêra Cebu ; e como era já tarde , tornou a 
arribar a Bachão. ■ 

Tinha Gonfalo Pereira Marramaque e£ 
cri to a D. Leoniz Pereira do íucceíTo de 
Cebu , e como cumpria ao. fervi ço de El- 
Rey tornar lá, pêra o que pedio ajuda de 
foccorro pêra aquella jornada ; e como D. 
Leoniz eílava viítoriofo com a mãò fclga*- 

da 



Degáda VÍII. Cap. XXV. iyf 

da do íucceiTo do Achem ? negociou logo 
com muita prefla os provimentos , e muni* 
ções que havia de mandar ; e porque em 
Malaca eítaVa Simão de Mendo ca , que ti- 
nha vindo de fazer a viagem de Sampaio do 
Governador João de Mendoça, da que ti- 
nha com a Fortaleza de Malaca > e viera 
rico y lhe pedio quizeíle ir áquelle foccor- 
ro , por fer muito ferviçò de EIRey : e fe 
começou a fazer preftes , e o Capitão a ajun- 
tar gente , e ainda achou duzentos e lin- 
coenta foldados , que embarcou no galeão 
de Simão de Mendoça , e hulh fuítarão do 
Capitão de Chaul , e hum junco , de qu£ 
foi por Capitão Gonfaló de Souza $ e do 
furtarão Pantaleao de Freitas j e o Simão de 
Mendoça deo de fua cafa a fetenta , ou 
oitenta foldados , que levava no galeão 3 a 
vinte , e a trinta pardaõs à cada hum ; e 
embarcados os provimentos í levou Simão 
de Mendoça comílgo hum Ffartcifco Gar- 
cez j Feitor de D. Diogo de Menezes > e 
hum filho feu \ e feguindo fua derrota , fo- 
ram ter a Térnate , onde fouberam que o 
Capitão Mor eílava em Bachão 5 perá onde 
logo foram , e o Capitão Mor eftimou mui- 
to o foccorro ; e conto foi tempo de par- 
tirem pêra Amboino , deo á vela pêra lá, 
por fer avifado eftarem lá féis Juncos de Jáos, 
em que havia feífeentos delies mui deter- 
Couto. Tom. V. P. 2. M mi- 



178 ÁSIA de Diogo de Couto 

minados , e eílavam com fortes na praia 7 
pêra defenderem a defembarcação ao Ca- 
pitão Mór , os quaes Jáos tinham trazido o 
Governador daquellas Ilhas , que fe chama- 
va Ogemiro , que com os naturaes defen- 
deriam a praia: e que os Jáos commetteííem 
o Capitão Mór pela parte por onde defem- 
barcaíTe : e aílim os naturaes tinham orde- 
nado três embofcadas , a que elles chamao 
Garós , da copia de dous mil homens , que 
todos efperavam por momentos pelo Capi- 
tão Mór. 

Gonfalo Pereira com'toda a Armada jun- 
ta foi furgir em Amboino : e no mefmo dia fe 
foi pêra eíle hum Amboino , que era cabeça 
de hum daquelles lugares, e avifou Gonfalo 
Pereira de muitas coufas muito importan- 
tes , e do modo de como os Jáos eílavam 
fortificados , e das embofcadas que lhe ti- 
nham armado. Gonfalo Pereira honrou eíle 
homem , e o acolheo pêra fi , e com fua 
ordem , e confelho ordenou o defembarcar , 
que foi por eíta maneira. A dianteira deo 
a Manoel de Brito com cem homens , a Si- 
mão de Mendoça com a gente de feu ga- 
leão , e no meio o Capitão Mór com a ban- 
deira de Chriílo , e D. Duarte de Menezes 
na retaguarda com outros cem homens. 

Manoel de Brito levava ordem pêra com- 
metter as tranqueiras j e Simão de Mendo- 



. Décíadá VÍIL Cáp. XXV, i 7 $ 

£ã i o Capitão Mór , e D. Duarte pêra em 
três batalhões commetterem os embeiça*" 
dos , que eítavao defeuidados do Capitão 
Mór faber o modo de como o efperavao. 
Manoel de Brito com o feu efquadrão re- 
metteo as tranqueiras dos Jáos com muito 
Valor 3 e determinação , e trabalhou pelas 
entrar; mas os Jáos, queeftavam amoucos,- 
fe defenderam tão valerofamente , que da 
primeira pancada lhe mataram íete, ou oi- 
to homens , e feriram muitos ; todavia os 
íioíTos apertaram tanto com elíes r que ca- 
valgaram as tranqueiras , e defeidos abai- 
xo ," deram em outra tranqueira pêra a par- 
te onde havia duas portas , efpaço huma da 
outra , com hum terreiro entre e!las , no 
qual Manoel de Brito foi rebatido muitas 
vezes , e o tiveram encoftado ás tranquei- 
ras quaíí perdido. 

Eftando nefte conflidto , rebèntárarií os 
das.^ciladas , que commettêram Simão de 
Mendoça , e o Capitão Mór a quem cerca- 
ram , porque determinavam havello ás mãos, 
porque tinham ordem de EIRey deTerna- 
te que áffim ô fizeíTem* Efte accommetti-* 
mento foi com tanta determinação / que eí- 
tiveram òs noílbs perdidos de todo , e o Ca-* 
pitão Mór fe vio em tal eílado, que pele- 
jou mais por falvar a vida, que por alcan- 
çar vitoria ', como fez Celar em Heípanha 

M ii na 



i8o ÁSIA de Diogo de Couto 

na batalha que teve com os filhos dePom- 
peo ; e aíTim foi animando os feus , que a 
poder de muitas feridas romperam os ini- 
migos , indo fempre Simão de Mendoça na 
dianteira pelejando com os de huma cila- 
da , porque a outra commetteo o Capitão 
Mór ; e a terceira D. Duarte de Mene- 
ses , que todos fizeram muito altas cavalla- 
rias ; e a Simão de Mendoça feriram trin- 
ta homens , e mataram finco , ou féis , em 
que entrou António de Paiva. Efte afiai to 
que os inimigos deram nos noífos , foi á 
defembarcaçao ; e os noííbs depois que os 
apertaram , os foram levando até ás tran- 
queiras , ficando-lhes ao redor de oitenta 
mortos , e mais de cem feridos. 

Simão de Mendo ça que lua na vanguar- 
da , chegou ás tranqueiras ao mefmo tem- 
po , em que Manoel de Brito eílava encur- 
ralado , e quafi perdido entre as portas , as 
quaes commetteo com muita determinação, 
e Balthazar Corrêa-, que ha pouco faleceo 
em Goa , que levava a bandeira de Simão 
de Mendoça , entrou primeiro com ella pela 
porta , appellidando Sant-Iago > e ajuntan- 
do-fe Simão de Mendoça , e Manoel de Bri- 
to , deram já com mais fôlego nos inimi- 
gos , e os levaram até os metterem pelos 
matos, por onde a noíTa efpingardaria lhes 
ioi matando alguns. 

Goiít 



Década VIII- Cap. XXV. 181 

Gonialo Pereira quando chegou ás tran- 
queiras , achou tudo concluído , e foi en- 
trando a povoação , onde alguns fe acolhe- 
ram ; e porque vio entrarem os íeus def- 
mandados a roubar as caias , onde os Jáos 
tinham muito cravo , mandou pôr fogo a 
tudo 5 que ardeo com muita braveza , e as 
chammas foram as que lançaram os noflbs 
pêra fora quaíi chamufcados , porque a cu- 
bica do laque lhes fazia não len tirem as 
labaredas : e da mefma maneira mandou o 
Capitão Mor por fogo aos juncos dos Jáos 
que eftavam varados , que foi huma medo- 
nha coufa ver luas chammas. 

Feito ifto , fe embarcou o Capitão Mor , 
e efteve no mar três , • ou quatro dias cu- 
rando os feridos , nos quaes foi aviiado y 
que os Jáos que efcapáram , eftavam aco- 
lhidos ás ferras , aonde aííentou hillos buf- 
car , pêra o que fe fez preíles , deixando 
boa guarda na Armada. Defembarcou com 
tcda a gente , e mandou levar muita agua , 
e muitos mantimentos , porque havia de gai- 
tar alguns dias j e pondo a gente em or- 
dem , foram marchando pêra as ferras , e 
logo fe puzeram em íima de huma delias , 
em que não eftavam os Jáos, porque eram 
duas ferras pegada huma á outra ; e toma- 
das por huma banda, parecia huma fó , e 
eftavam tão juntas, que fe ouvia agente de 
hwna á outra. O 



s82 ÁSIA de Diogo de Couto 

O Capitão Mor mandou D. Duarte , 
que com a íua companhia foíle bufcar a 
ferventia da outra ferra ; e indo em fua de- 
manda , encontraram huns poucos de fervia 
dores , que defcêram abaixo a bufcar man* 
timentos ; e indo os noífos feguindo-os , 
elles mefmos lhes foram moílrando o ca-» 
jrinho ; e poítos em ílma , começaram os 
Jáos a bradar por pazes ; e como fe ou- 
viam , eviam, mandou Gonfalo Pereira ca- 
}>ear com huma bandeira branca , e dizer- 
hes de cá alto 5 que fevieífem a elle, que 
lhes concederia as pazes 5 e lhes fegurava 
as vidas : com o que elles foram trazidos 
por D. Duarte , e o Capitão Mor lhes to^ 
mou as armas , e lhes concedeo que fe fo£ 
fem livremente pêra fuás terras 5 como eU 
íes logo fizeram em huma champana que 
alli houveram. 

Acabados de reduzir á obediência ai-? 
guns levantados ,/e quietar muitas coufas , 
fez-fe preftes o Capitão Mor pêra voltar 
pêra Maluco , e tornar a demandar os Cas- 
telhanos y pêra o que defpedio Baíthazar 
Corrêa na galeota de Simão de Mello com 
recado aos Reys de Bachão ? e Tidore , a 
pedir-lhes eítíveífem preíles pêra o acompa- 
nharem naqueíla jornada , pois eram ami- 
gos do Eftado : ao que elles deferiram lo^ 
go ^ porque prepararam fuás Armadas , pe* 

ra 



1 



-Década VIII. Caf. XXV. 183 

ra tanto que o Capitão Mor chegafle , o fe- 
guirem , o qual não tardou mais que vinte 
dias depois de defpedir Baithazar Corrêa , 
deixando Sanclio de Vafconcellos por Ca- 
pitão do mar. Chegando o Capitão Mor a 
T ernate com a fua Armada , fe começou ^ 
negociar pêra a jornada dos Caílelhanos , 
adiando já os Reys de Tidore , e Bachão 
refles , e pedio ao Rey de Ternate feu íi^ 
iio pêra ir com elle , o qual lhe elle con- 
cedeo , e lhe armou quinze corocoras y e 
tudo preíles , deo o Capitão Mor á vela com 
toda efta Armada , que era fantaítica , por- 
que não levava mais de trezentos homens ; 
eieguindo fua derrota, logo aos primeiros 
dias fe defviou o Babú filho de EIRey de 
Ternate , e foi-fe na volta de Malaca a rou- 
bar y porque todos eites Malucos fam gran- 
des ladrões ; mas não lhe fuccedeo bem na 
viagem , porque por lá lhe mataram mais 
de trezentos homens , com o que lhe foi 
forçado recolher-fe outra vez a Ternate. 

O Capitão Mor foi feguindo fua jorna- 
da com monção tendente, e em breves dias 
foi furgir com toda a Armada nabahia de 
Cebú , onde os Caílelhànos tinham hum ar- 
razoado Forte em forma/ triangular, mui bem 
ordenado com muito boa artilheria. Ao 
tempo que Gonfalo Pereira chegou alii , ti- 
nha o Bjfcainho cem foldados 5 porque os 

mais 



184 ÁSIA de Diogo de Couto 

mais andavam efpalhados pela terra ; e fe 
o Capitão Mor commettêra logo o Forte, 
fem duvida o ganhara, e houvera ás mãos 
o Capitão : o qual vendo-fe perdido , e fem 
remédio > valeo-fe de feu artifício , e man- 
dou viíitar o Capitão Mor , e fazer-lhe mui- 
tos offerecimentos , e fe lhe offerecer pêra 
tudo o que quizeííe , porque todos eram 
huns , e vaífallos de dous Reys tantas ve- 
zes primos y cunhados , fogros , e genros : 
e com eftes recados foi-o entretendo. 

Gonfalo Pereira , que era bom Fidalgo , 
cuidou que o Bifcainho tinha o coração tão 
limpo , e íingelo como o feu , dando4he a 
entender que faria quando quizeífe alguns 
banquetes , e mandando-lhe muitos mimos , 
e prefentes ; e deitas demonftraçoes tantas , 
que houve Gonfalo Pereira que tinha o ne- 
gocio concluido , e que o Bifcainho fe lhe 
entregaria com toda a Armada ; e em quan- 
to duraram viíltaçoes , fe foi ajuntando a 
gente que andava efpalhada ; e tanto que 
o Bifcainho fe vio com poder , fez-fe n 5 ou- 
tro bordo, e começou a galantear , e a mu- 
dar o propollto. O que viílo por Gonfalo 
Pereira , achou-fe enganado , e arrependido 
atempo que já lhe não aproveitava ; e que- 
rendo tomar conclusão no negocio , lhe man- 
dou hum requerimento por efcrito , o qual 
lhe foi notificar o Oi}vidoi da Armada , cuja 

fiith 



Década VIII. Cap, XXV. i8jr 

fubítancia era , que aquellas Ilhas , e as de 
Maluco eram da conquifta , e demarcação 
de EIRey de Portugal : e que fe fizeífe pre£ 
tes com todos os íeus pêra fe embarcarem 
na fua Armada pêra a índia . e que lá lhes 
dariam embarcações pêra paliarem ao Rey- 
no ; e que não o querendo fazer , faria el- 
le Capitão Mor o que foíTe fervico do feu 
Rey. 

O Bifcainho lhe mandou dizer , que ef~ 
tava enganado com elle : que não havia de 
largar aquellas Ilhas que eram de EIRey de 
Caltella , fenão depois que largafle a vida ; 
mas como vaíTallo que era de hum Rey tão 
conjunto em parentefco com o feu, lhe da- 
ria duzentos Hefpanhoes pêra o ajudarem 
nas coufas das Ilhas de Amboino , pêra on- 
de viera j com tanto que lhes havia de dar 
embarcações pêra irem feparados dos Por- 
tuguezes , por efcufarem defavenças , pela 
antiga emulação que eílas nações tem nuns 
com os outros. 

O Capitão Mor , vendo o defengano, 
e entendendo que debaixo daquelle cum- 
primento vinha a malícia encuberta , que 
era tratar de fe levantar com as embarca- 
ções que lhe déífe , e com ellas dar nos nof-* 
íbs , e desbaratallos , e ainda fazer-fe fe- 
nhor de todas as Ilhas de Maluco , cahio 
nçs erros que tinha feito em fe enganar dos; 

pri- 



iS6 AS IA de Diogo de Couto 

primeiros afagos , e cumprimentos do Bi£ 
cainho : couià mui eftranha nos Capitães , 
que devem de imaginar fempre malícia , e 
engano no peito do inimigo, e vencer mais 
com cautelas que com armas 5 foffreo fuà 
magoa , e começou a tratar do que con- 
vinha. 

Eítando aííim as coufas em diífimulaçao 
de ambas as partes , fuccedeo fugirem al- 
guns Heípanhoes pêra a noíía Armada ; pe- 
lo que receando-fe o Bifcainho que fe lhe 
foffem poucos , e poucos , quillos atemori- 
zar com mandar lançar pregoes , que tanto 
que fe achaííem dons Hefpanhoes aparta- 
dos fallando 5 logo lhes deíTem garrote : e 
aílim fe executou ifto em alguns Tem pieda- 
de alguma. 

O Meílre de Campo , que também era 
Bifcainho , e mal inclinado , determinou de 
armar aos noffos por eíla maneira. Os Caf- 
íéihanos , que fe queriam paliar pêra a Ar- 
mada , hiam diilimuladamente pela praia * 
até fe metterem em hum arvoredo , donde 
capeavam com huma toalha , pêra que os 
foífem tomar , como hiam os noífos nos 
bateis dos galeões ; e iíto foube o Meílre 
de Campo , e quiz armar aos noífos com a 
mefma negaça , e mandou metter cem ef- 
copeteiros entre aquelle arvoredo , donde 
os outros faziam o final ? e mandou a hum 

que 



Década VIII. Cap. XXV. 187 

que folie capear, pêra o irem tomar; e em 
o vendo da Armada, arrancou de hum .ga- 
leão hum batel , e chegando á praia , fo- 
ram falteados dos embeiçados , e com ar- 
cabuzaria mataram dous homens do mar Por- 
tuguezes , e alguns marinheiros Arábios. 
Os que eftavam no batel afaííáram-fe , e fe 
recolheram pêra a Armada ; e não fe con- 
tentando oBifcainho com ifto, quiz fegun- 
dar ; e pêra lhe ficar tudo favorável , fiic- 
cedeo dahi a poucos dias ir o batel do ga- 
leão de D. Duarte de Menezes a fazer agua- 
da , e a lavarem os marinheiros roupa em 
huma parte defviada ; e como os Hefpa- 
nhoes fam mais vigilantes que nós , deo o 
Meftre de Campo fobre elles j e matou a 
todos, e tomou o batel, clhe mandou pôr 
o fogo a vifta da Armada : iíto fentio Gon- 
falo Pereira em extremo pela perda da gen- 
te y e marinheiros. Succedeo dahi a poucos 
dias irem humas fragatas dos Caftelhanos 
da Ilha de Panei pêra outra ; e dando as 
noíTas fuílas nelles , os tomaram , e os Caf- 
telhanos foram levados vivos ao Capitão 
Mor. 

A noíía gente hia adoecendo da doen- 
ça que chamam Berebere , que he inchação 
da barriga , e pernas , de que em poucos 
dias morrem , como morreram muitos , e 
£Ji€gou dia de dez , e doze : o que vifto 



1S8 ÁSIA de Diogo de Couto 

pelo Capitão 3 aííentou de fe ir , mas quiz 
bater o Forte primeiro , como fez ; mas 
ídccedeo-lhe mal , porque mais damno rece- 
beram os noflbs galeões da ília arrilheria , 
do que elles receberam. E vendo o Capitão 
Mor o pouco que fizera naquella jornada , 
envergonhado , e arrependido fe fez á vela 
pêra Maluco com trezentos Portuguezes me- 
nos dos que levou ; e fegundo me contaram 
alguns homens bem práticos niíto , que fe 
acharam com Gonfalo Pereira em todas ef- 
tas jornadas 5 todas as três vezes que foi 
contra os Caílelhanos , errou o alvo , por- 
que fe entendeo que houvera de mandar fa- 
zer aquelles requerimentos por hum official 
que foíTe em duas , ou três corocoras ; e a 
peflba , que a iíío havia de ir , devia de fer 
mais agudo que o Rombo 5 que foubeííe no- 
tar o modo de como os Hefpanhoes efta- 
vam , e quantos eram , e fe lhes tinha vin- 
do foccorro ; e tendo-o já, diífimular com 
o negocio ; e fabendo que eltava em eítado 
de o poder commetter , ir lá em pefíba , e 
poderia fer que com a vifta daquella Ar- 
mada fe moveíTem os feus a aconfelharem 
ao Bifcainho a entrar em algum bom par- 
tido > mas fempre fora melhor não paílar 
lá 5 nem arrifcar a honra , a vida , e ainda 
a alma , porque pêra aquella jornada tomou 
muita fazenda a partes , que fempre pedi- 
ram 



Década VIII. Cap. XXV. t%$ 

ram juftiça a Deos , que pode fer que os 
otrviíFe , porque toda aqueíla Armada fe a- 
cabou íem fazer fruto , e o Capitão Mor 
faleceo miferavelmente , ficando devendo ás 
partes mais de íeifenta mil cruzados , que 
nunca fe lhes pagaram. 

Bem folgou EIRey de Ternate de ver 
o Capitão Mor tão inhabilitado como veio 
daquella jornada, porque fe receava delle, 
e todavia não deixou de o ir vifitar algu- 
mas vezes ; e o Capitão Mor não eílava com 
o penfamento fora de o prender , o que nun- 
ca pode fazer com fegurança : e com eíla 
diilimulação fe começou a fazer preíles pê- 
ra tornar pêra Amboino , e pedio áquelle 
Rey ajuda de gente 5 e corocoras ; o qual 
não lo lhe prpmetteo , mas ofFereceo-fe-lhe 
a fazer huma Fortaleza na Ilha de Ito de 

Í>edra , e cal á fua cuíta ; com condição que 
he haviam de ficar as Ilhas Varenullas , La- 
cide , e Cabelo , que fempre foram fuás , e 
tinha delias Provisão delRey de Portugal, 
e com ifto diífimulou o Capitão Mor ; e an~ 
dando-fe negociando pêra efta jornada,. de- 
terminou de prender EIRey , e foi-lhe for- 
çado communicar aquelle negocio com al- 
guns cafados antigos , que lhe louvaram a- 
quelle propofito. E como o Capitão Mór 
determinava prender EIRey , e os filhos jun- 
tos , ordenou de lhes dar hum banquete antes 

de 



190 ASÍ A de Diogo de Couto 

de fe partir % no qual fe faria aquella exe- 
cução ; e encontrando-fe com EIRey hum 
dia , lhe diífe , que deíejava de antes que 
fe embarcaíTe feítejar fua ida com hum re- 
gozijo de laranjadas no mar emcorocoras, 
e que dalli iriam merendar: o que lhe EI- 
Rey louvou , e agradeceo ; e ao dia apra- 
zado pêra a feita. , eítando o Capitão Mor 
eíperando por EIRey , fe lhe mandou des- 
culpar , que fe achara aquella noite mui mal- 
tratado , que lhe perdoaífe : ao que eile lhe 
mandou dizer , que lhe pezava muito ; £ 
que pois não podia ir , e a feita eítava apa- 
relhada , mandaífe feus filhos em feu nome ; 
e entendendo EIRey a tenção do Capitão' 
Mor , porque de CoíTairo a Coflairo não fe 
perdem mais que os bares , (como lá di- 
zem ) lhe mandou dizer que todos eram fo- 
ra defde o dia atrás , com o que o Capi- 
tão Mor ficou atalhado , e trifte" , porque 
entendeo que EIRey o entendia ; mas foi- 
lhe neceíTario diífimular , e lhe mandou pe- 
dir o foccorro , porque fe queria partir , e 
já EIRey de Bachão era chegado com fuás 
corocoras pêra o acompanhar : ao que lhe 
tornou a mandar dizer ,. que lhe daria o foc- 
corro que lhe promettéra ,-. com tanto que 
lhe havia de deixar aquellas três Ilhas que 
lhe pedira. Enfadado o Capitão Mor, lhe- 
mandou dizer > que aquellas haviam de ler* 

as 



Década VIII. Cap. XXV. 191 

as primeiras que fubjugafíe pêra a Coroa 
de Portugal : e afllm ficaram de todo def- 
avindos ; e o Capitão Mor fe fez a vela pê- 
ra Amboino ? acompanhado delRey de Ti- 
dore , e do Bachão , que era Chriftão. 

E porque não dei atégora razão deita 
Ilha de Amboino , e da perfeguição deita 
Chriítandade , o farei agora aqui , porque 
de propoíito o guardei pêra eíte lugar ; e 
poíto que na minha quarta Década já tenho 
dado relação de todos eíles archipelagos y 
o farei agora particular deíla Ilha de Am- 
boino , ou de Ito , que he o feu verdadeiro 
nome ; e chama-fe aílím > porque o princi- 
pal lugar delia fe chama Ito, mas o nome 
mais ordinário he Amboino. Eíta Ilha he 
a maior das de todo aquelle archipelago , 
dalli até Maluco : terá trinta léguas em cir- 
cuito: he toda cheia de muito frefco arvo- 
redo 5 e retalhada dos mais fermofos , e fe- 
renos ribeiros que ha no mundo : o maior 
pego delles dará pelos peitos a hum ho- 
mem , e correntes brandas , fuaves , e gra- 
ciofas por debaixo daquelles arvoredos , que 
não ha mais que ver , nem que defejar : to- 
do o mato he de arvores de frutas excel- 
lentes, e muito goítofas , de doriões os me- 
lhores do mundo , por ferem fermofiífimos y 
grandes , e faboroios } infinidade de frutas 
►de eipinlao 2 até cravo 2 noz , maca y muito 



192 ÁSIA dê Diogo de Couto 

fagú, que he o mantimento ordinário , co* 
mo a nofla farinha de trigo , mui fádio , e 
que farta , e não enfaftia : tem arroz , e to- 
da a forte de legumes , gallinhas , porcos 
do mato , muito peixe excellente de muitas 
fortes , de maneira que he abaítadiílima de 
todas ascoufas deitas. He povoada de duas 
caftas de gentes : Mouros , a que chamam 
Ulilimas , que fam os naturaes ; e gentios > 
a que chamam UHJivas , e fempre entre el- 
les ha brigas , e diíFerenças. Os Ulifivas 
poífuem quatro lugares , Rofetelo , Ative > 
Tavire , e Bagoela 5 que todos ficam na con- 
tracoíla da Ilha em huma grande enfeada 
que aíli faz , que fe chama a Cova , por fer 
muito penetrante ; os outros três lugares poi- 
iuem os Ulilimas. 

Os Itos foram os primeiros que reco- 
lheram os Portuguezes naquellas Ilhas , e 
que lhes deram vaífallagem. Pela amizade 
que os nofibs acharam nelles f puzeram em 
lua povoação hum padrão de pedra com as 
Armas Reaes ; e como aos navios que vi- 
nham de Maluco , lhes era neceííario inver- 
narem emAmboino até á monção, que era 
três mezes , e em toda a praia de Ito não 
havia furgidouro , e acolheita fegura pêra 
os galeões , por fer toda a coita brava , que- 
rendo os Itos moftrar-lhes o amor que lhes 
tinham , e juntamente com iílb pelos pro- 
vei- 



Dbcáda VIII. Cav.XIV. 195 

veiros que lhes vinham daquella invernada * 
porque lhes compravam muito bem feus 
mantimentos , e fazendas , lhes moílráram 
hum porto da outra banda j chamado a Co- 
va, muito feguro de todos os ventos, por 
fer huma enleada muito penetrante ) como 
dizermos o circulo que fazem os dous de-* 
dos da nofía mão , o grande , e o demoní- 
trador , e dentro fe encòftam os galeões 
tanto á terra , que eftam com pranchas nel-» 
la tad feguros ? como em hunía cafa , e ca- 
berám dentro dez galeões juntos. 

Neíta enfeada tinham os Itos Mouros 
alguns lugares , dos quaes fizeram os Itos 
doação aos Portuguezes que alli foram , pê- 
ra o ferviço , e meneio dos galeões : e aí- 
fim fe lhes aíFeiçoáram 5 que vieram a to-» 
mar noífa fanta Fé ; e quando alli foi ter o 
Padre Meftre Francifco Xavier 5 profeguio 
naquella boa obra , efez huma grande quan- 
tidade de Chriftãos j e não fó iiaquellas Ilhas , 
mas ainda nas de Maluco , morou aquelle 
fervor de ferem Chriftãos í levantaram a bo- 
lada os Itos , e vúo os quizeram mais re- 
conhecer por fuperiores como dantes. Pelo 
grande favor , e amizade que os noíTos a- 
cháram naquellés moradores , fe vieram mui- 
tos a cafar com fuás filhas , e multiplica- 
rem em geração , vivendo com muita quie- 
tação , e amor. 
Couto. Tom. V. P. L N Eft 



ir>4 ÁSIA de Diogo de Couto 

Eftand.o affim , fuccedeo virem á praia 
de Ito duas corocoras de Ceirões , que iam 
moradores de huma Ilha chamada aífirn , os 
quaes deram alguns affaltos aos Itos P em 
que mataram alguns , e fizeram alguns rou- 
bos ; e todavia tornando os Itos iòbre fi, 
deram nelles 5 e mataram todos ? e lhes to- 
maram as corocoras : o que fabido na íiia 
Ilha | lhes fizeram huma grande Armada de 
corocoras tamanhas como galés , pêra fe 
irem fatisfazer dos Itos , que logo foram 
avifados ; e como fabiam que os Ceirôes 
comiam carne humana y querendo-fe também 
preparar pêra os efperar, mandaram pedir 
ioccorro ao Capitão de Maluco 5 que então 
era António de Brito > o fegundo que foi 
daquelia Fortaleza , quaíi nos annos de vin- 
te e féis , o qual lhes mandou em huma co- 
rocora vinte Portuguezes , os quaes em Ito 
foram bem recebidos , e logo ordenaram 
com os naturaes huma Armada , em que fo- 
ram bufcar os Ceirões 5 que já andavam fo- 
ra j e encontrando-fe huns com outros , fou- 
beram os Ceirões que allí vinham Portu- 
guezes 5 que então eram temidos , como hoje 
vituperados , e mandaram pedir pazes aos 
Itos-, que lhes eiles concederam ; mas os 
noiTos não quizeram vir nifib , fem lhes da- 
rem duas mil caixas de ouro : em fim vie- 
ram os Ceirões a lhes conceder mil caixas, 

que 



Década VIII. Cap. XXV. í# 

que tudo feriam quinhentos pardaos í corri 
o que os Ceiróes fe recolheram , depois de 
contribuírem com o dinheiro ; e em quanto 
os noílbs fe não tornaram pêra Maluco , a- 
quelles lugares os fuftentavam 5 e ílies da* 
Vam todo o neceflario , e os banqueteavam 
a feu modo ; e eftando aquelles Portugue- 
zes pêra fe partirem pêra Maluco , lhes de- 
ram os Itos hum banquete, em que fe acha- 
ram ao redor de trezentas peílbas dos prin- 
cipaes , em que entravam Ginulió i Coraço- 
ne j e Babachar ; e eftando na força do ban- 
quete , foram vello todas as mulheres , e fi- 
lhas dos que fe achavam prefentes , e en- 
tre todas era a mais fermofa , e galharda 
huma filha de Ginulio ; e parece que hum 
daquelles Portuguezes , que havia de fer gen- 
te baixa , e devia ter bebido mais do ne* 
ceifario , vendo chegar a moça , levantou- 
fe da meza ? e foi-fe a ella , e começou de 
a abraçar : o pai muito quieto lhe diífe que 
fe aífentaífe , que aquella moça tinha alli 
pai , e parentes , e o me fino lhe diíleram 
todos j e não dando o pobre homem por 
nada , tornou a pegar delia de má feição y 
a que acudio o pai , e lhe diífe que fe aquie-* 
taffe 5 e fe folTe aflentar ; ao que eíle fem 
coníideração levantou a mão, elhe deo hu- 
ma grande bofetada. 

O que vifto pelos Itos , levantáram-fe 
N ii pê- 



196 ÁSIA de Diogo de Couto 

pêra o matarem , e a todos os Portugue- 
zes \ ao que Ginulio acudio , e os aquie- 
tou ? dizendo que a culpa de hum fó não 
era juíto a pagalíem todos : e logo nego- 
ciaram huma corocora \ em que mandaram 
embarcar todos os Portuguezes , e que fe 
foffem pêra Maluco : e efcrevêram ao Ca- 
pitão 5 que alli lhe mandavam aquelles ho- 
mens , porque lhos mandara de foccorro : 
que dalli por diante tiveíTem os Portugue- 
zes aos Itos por inimigos capitães : e que 
negavam a vailallagem a EIRey de Portu- 
gal , em íinal do que mandaram logo á vif- 
ía dos Portuguezes derrubar o padrão das 
Armas Reaes, e fazello em pedaços: e que 
os avifava que nenhum Portuguez aportafíe 
naquellas Ilhas , porque todos haviam de 
matar: e mandaram logo offerecer vailalla- 
gem á Rainha dejapará, pêra que lhesdéí- 
je íempre favor contra os noííos : e aíílm 
dalli em diante lhes começaram a fazer crue- 
liífima guerra ; e não ficou aos noííos ga- 
leões , que ao depois alli foram ter , ou- 
tro refugio , que o favor dos Atives , e Ta- 
vires , que eram Chriftãos , e ainda trabalha- 
ram por lho tirar , porque lhes mandaram 
notificar muitas vezes que os não provef- 
fem , nem os agazalhaííem , fenão que os 
deftruiriam : ao que lhes mandaram refpon- 
der P que elles eram ChriíUos , e muito ami- 
gos 



Década VIII. Cap. XXV. i 97 

gos dos Portuguezes : que os haviam de íuf- 
tentar , e prover até perderem as vidas. 

Efta reípofta fentíram os Itos tanto , que 
logo fe prepararam pêra irem fobre elles , 
porque lhes tinha chegado hum grande foc- 
corro de Jáos ; e ajuntando hum grande ex- 
ercito ,- foram caminhando por terra , e em 
muito filencio deram fobre os dous luga- 
res , e os abrazáram , mataram 5 e cativaram 
muita gente : e quiz Deos que dous Padres 
da Companhia , que alli eítavam fuílentan- 
do aquella Cliriftandade , com alguns Por- 
tuguezes que alli ficaram de dous galeões 
de Maluco , que alli invernáram 5 tiveram 
tempo de fefalvarem do meio daquellasla- 
varedas com alguns Atives , que os feguí- 
ram , e fe embarcaram em duas corocorías , 
que fe paliaram pêra as Ilhas de Liacer , que 
eram dalli doze léguas , onde ha muitos lu- 
gares todos Chriftaos , que agazalháram os 
Padres , e a todos com muita caridade , e 
os proveram fempre de todo o neceífario^ 
e não fe contentando os Itos com a deílrui- 
çao que fizeram, ajuntaram liia Armada, e 
foram correr os lugares que eftavam á obe- 
diencia de Portugal, e os fujeitáram áfua; 
e aos que não quizeram, fizeram cruel guer- 
ra , cativando , e matando a todos os que. 
acharam. Entre os cativos foi hum Regulo 
deCleate Chriítao, o qual porque não quiz 

re- 



T5?8 ÁSIA de Diogo de Couto 

retroceder , nem renegar , foi amarrado a 
hum efteio, e alli lhe foram cortando a car- 
ne pouco a pouco , e a hiam afiando em 
brazeiros , comendo-a diante delle , e ainda 
lha mettiam na boca , e faziam maftigar, 
perguntando-lhe fe lhe fabia bem , ao que 
refpondeo que muito bem , pois era fua car- 
ne : e aílim efteve efte Martyr de Chriito 
com o coração lempre nelle muito firme , e 
conílante em meio daquelles novos tormen- 
tos ; e antes que efpiraffe , parece inípirou 
Deos nelle 3 porque quiz que viiTem quão 
acceito lhe fora aquelle martyrio , e difle 
aos que o marty rizaram eftas palavras : »Já 
» que me marty rizais por não querer rene- 
>>gar a Fé deChrifto, e comeis minha ca r- 
)>ne ? tomai hum pedaço delia, em que não 
» entre oíío , e mettei-a em huma panella 
» nova , e dahi a vinte e quatro horas tor- 
>>nai-a a ver* e fe achardes a carne desfeita 
» em óleo , fabei que a Lei de Chrilto , em 
>) que morro , he boa , e que ha Deos de 
a permittir que os Portuguezes vinguem ain- 
>> da efta crueza , que comigo ufaítes » e com 
ifto efpirou. Os algozes cruéis depois del- 
le acabar, fizeram o que elle diíTe ; e indo 
ao outro dia depois das vinte e quatro ho- 
ras paliadas , acharam a panella cheia de 
óleo fuaviffimo , de que todos ficaram eA 
pantados. Iíto me affirmáram alguns Portu* 

gue* 



Década VIII. Cap. XXV. 199 

guezes que fe acharam alli , e o certificaram 
os Embaixadores Chriítãos , que vieram ao 
Viíb-Rey D. Antão , e o achei eícrito de máo 
em hum Tratado daquelias Ilhas feito por 
hum curioío que a dias foi com Gonfalo 
Pereira Marramaque : e eftes milagres , e 
outros muitos obrou Deos noílb Senhor por 
aquellas partes , que ficaram em efqueci- 
mento por falta de efcritores , o qual eu 
também fenti muito nefte tempo , porque 
não achei memoriaes , e fó me vali de in- 
formações de homens que fe acharam nas 
coufas que efcrevo , que eu tenho por ver- 
dadeiras , porque conferiram com outras 
que eu tinha , e nunca achei encontrarem-fe 
huns com os outros. 

Chegado o Capitão Mor a Amboino , 
logo os Itos fe fortificaram , e convocaram 
ajuda dos vizinhos , e da Rainha de J apa- 
ra, que já os tinha debaixo de fua protec- 
ção. O Capitão , primeiro que lhes fizeffe 
guerra , os mandou convidar com a paz , e 
com promeífas de muitas mercês , e amiza- 
des muito avantajadas das que até então tive- 
ram ; mas elles como eílavam foberbos , re£ 
ponderam , que nenhuma amizade queriam 
com os Portuguezes , mas que lhe mandavam 
dizer , que fempre elles teriam os Itos por 
inimigos mortaes , e que haviam todos de 
morrer por fuílentarem fua liberdade. . 

Ven- 



4oo ÁSIA de Diogo de Couto 

Vendo o Capitão Mor aquelle deíenga- 
no , deixou os galeões na Cova , e embar- 
cou-fe na fuíta com toda a íbldadefca j in- 
do em fua companhia os Reys de Tidore , 
e Bachão , e com toda efta frota chegou á 
praia dos Itos hum dia pela manha , e os 
achou em fuás tranqueiras mui fortificados , 
e foberbos. Aquella noite gaftou o Capitão 
Mor em ordenar o que lhe era neceífario 
pêra commetter os inimigos , dando , e re- 
partindo os lugares que os Capitães haviam 
de ter , por efta maneira. D. Duarte de Me- 
nezes na dianteira com Ayres Gomes de 
Brito 5 e Sancho de Vafconcellos com a me- 
lhor gente da Armada j e no corpo da ba- 
talha João Rodrigues de Beja com huma' 
companhia de foldados ; e Gonfalo Pereira 
Marramaque havia de levar a retaguarda 
com trezentos foldados > e em fua compa- 
nhia os Reys que já diííe ; e ao outro dia 
ordenando fuás coufas , commettêram os da 
dianteira as tranqueiras com grande deter- 
minação , a que os Itos fe oppuzeram va- 
lerofamente , fuccedendo aqui coufas gran- 
des fobre a entrada 5 e defensão , que eu 
não particularizo. 

Os Itos vendo eftar os noíTos embebi- 
dos nas tranqueiras , defpedíram hum Ca- 
pitão Jáo com trezentos foldados efcolhi- 
dos , pêra que. foliem pelos matos dar fo- 
bre 



Década VIII. Cap. XXV. a» 

bre o Capitão Mor que vinha na retaguar- 
da 5 aífim por não chegar a ajudar os mais 
que commettêram as tranqueiras , como por 
verem fe o tomavam defcuidado , porque 
podiam fazer algum bom feito ; e indo o 
Capitão Mor bem defcuidado de tal fobre- 
falto 5 deram os Itos por detrás nelle tão 
íiibitamente , que fe vio embaraçado , e os 
Reys de Tidore, e Bachão o largaram lo- 
go , e fe acolheram á praia , onde tinham 
a Armada. Os Itos com aquelle impeto fo- 
ram entrando pelos noíTos , derrubando al- 
guns , e chegou a coufa a darem duas cuti- 
ladas na bandeira de Chriílo. O Capitão 
Mor vio alguma defordem nos feus ; e ap- 
pellidando Sant-Iago , fe poz diante de to- 
dos com huma efpada , e rodella , e fez tan- 
tas cavallarias , que com os que o feguíram 
rompeo os Jáos , e lhes foi derrubando mui- 
tos , e entre elles foi o feu Capitão Mor 
chamado Patalima , que quer dizer Senhor 
de finco lugares 5 e os que efcapáram fe a- 
colhèram ás tranqueiras com grande deftro- 
ço dos inimigos , que fe acolheram ás fer- 
ras 5 ficando os nofibs fenhores delias , e da 
povoação , onde acharam glande defpojo. 
Ayres Gomes de Brito ficou com huma lan- 
çada por huma coxa , de que efteve mal : 
perdèram-fe fó finco Portuguezes , e fica- 
ram finco feridos. 

Ven- 



202 ASIÀ de Diogo de Couto 

Vendo Gonfalo Pereira concluídas as 
coufas dos Itos , que eram principaes , de- 
terminou de acudir ás coufas de Amboino, 
e concertar os lugares dos Chriítãos , que 
todos com as guerras eftavam quali defei- 
tos, e desbaratados > e a mor parte dos mo- 
radores aufentes ; e como os Itos fempre 
foram fenhores de todas aquellas Ilhas , e 
eram Mouros , que nunca foram amigos de 
Chriftãos fenao por grande neceffidade , ou 
intereífe , parece que fe arrependeram da 
vaíiallagem que deram ; e confultando feu 
penfamento com outros , defapparecêram 
íiurn dia , e paíTáram-fe a huma ferra for- 
tiíHma , e tão alia , que não viam os palia- 
res fenao pelas cofias , a qual tem huma fó 
ferventia pêra a banda do mar , até huma 
povoação forte chamada Atufile , que eiles 
povoaram de lua gente , pêra por elles fe 
proverem do neceííario , e por via delles fe 
carteavam com todos os levantados. 

Eílas novas teve o Capitão Mor por via 
dos Atives > pelo que logo foi com a Ar- 
mada fobre a povoação de Atufile , e lá fe 
fortificou dafortaieza da ferra, edefembar- 
cou na parte que melhor lhe pareceo por 
ordem dos práticos da terra , e fortificou 
feu arraial o melhor que pode , e alli fe dei- 
xou eftar , deitando efpias fobre a ferven- 
tia da ferra. Os Itos tanto que fouberam a 

par* 



Década VIII. Cap. XXV. 203 

parte , em que o Capitão Mor eftava , logo 
o começaram a commetter com feus gar- 
ros , 011 ciladas ', em que fam tão deftros , 
que he efpanto. O Capitão Mor vendo que 
por aqueile modo lhe hiao matando os íòl- 
dados , e que os outros fe quebrantavam , 
mandou trazer gente dos lugares amigos y 
de que ajuntou huma quantidade , e com 
huns , e outros quiz também fazer a guer- 
ra aos Itos com as meíinas ciladas , e as 
encommendou a Lourenço Furtado, a João 
Rodrigues de Beja , a Sancho de Vafcon- 
cellos , a Luiz Carvalho , e a outros. Eílas 
ciladas faziam duas vezes ao dia, huns en- 
travam 5 e outros fahiam ao fom de tambo- 
res que peraiíTo traziam; e andavam já os 
Itos tão enfaiados neíla ordem dos noffos , 
que deo o Capitão Mor por ordem , que 
por nenhum cafo os que iahiílem da cilada 
tocaííem a recolher , íenãp depois da outra 
companhia ter já chegado , e com eíle ar- 
dil lhes mataram os noíios muitos , porque 
em ouvindo tocar a recolher 3 fahiam logo ; 
e cuidando que os noífos fe hiam recolhen- 
do , davam com a outra companhia , que 
fazia nelles grande matança. 

E o quarto que Sancho de Vafconcellos 
havia^de entrar no feu quarto 3 fahia delle 
João Rodrigues , ao qual diífe o Sancho : 
» Parente, eu determino paliar hoje olimi- 

»te 



ac>4 ÁSIA de Diogo de Couto 

y> te que nos eílá poíto , pelo que vos peço 
» que não toqueis o tambor fenão mui lon- 
» ge daqui , porque quero experimentar a va- 
alentia deites Itos. » Era já fobre a tarde, 
Sancho levava comíigo os Rozanives , e fe 
foi metter pelo mato ; e como fentio os Itos 
ao tocar do tambor de João Rodrigues de 
Beja, deo-lhes nas coitas, e lhes matou al- 
guns ; e tomando hum ás mãos , lhe pedio 
elle que o não mataffe > que lhe moítraria 
o caminho que hia ter á ferra ; e levando-o 
ao Capitão Mor , fe lhe offereceo ao pôr 
em íima da ferra com muita facilidade , o 
que o Capitão Mor eítimou muito , e lhe 
prometteo muito o fatisfaria \ e fazendo-fe 
preftes pêra aquelle negocio , mandou levar 
o Ito a bom recado , e foi por onde elle 
o levou por efpaço de três dias , e três noi- 
tes , fempre por entre os matos ; e porque 
havia dous caminhos já perto do cume, dif- 
fe o Capitão Mor a Simão de Mendoça, 
que com a fua foldadefca commetteife hum , 
e elle foi demandar o outro. Simão de Men- 
doça appareceo por aquelle caminho aos 
Itos, osquaes cuidando que por aquelle ca- 
minho hia todo o poder , acudiram áquel- 
la parte. O Capitão Mor foi pelo outro ca- 
minho, que era huma eítrada muito larga, 
pela qual foi até fe pôr em íima da ferra, 
e todavia foram os noííos logo fentidos ; e 

dan- 



Década VIII. Cap. XXV. 20? 

dando fuás gritas , acudiram os mais áquel- 
las partes , e entre elles , e os noífos fe tra^- 
vou huma aipera batalha , que durou mais 
de duas horas \ em que todos fizeram ma- 
ravilhas com as armas > e houve mortos , e 
feridos de parte a parte , e hum delles foi 
João Rodrigues de Beja , a quem deram hu- 
ma lançada pelo buxo do braço que lho va- 
rou ; e todavia apertaram os noílbs tanto 
com os Itos , que os foram levando de ar- 
rancada : neíte conflito houve grandes caval- 
larias. Hum Belchior Vieira derrubou mui- 
tos dos inimigos á efpingarda , por fer mui- 
to defiro nella. 

Os Itos vendo-fe tão desbaratados, fo- 
ram demandar o lugar que defcia á praia, 
pelo qual fe foram acolhendo y e os noífos 
apôs elles derrubando muitos : os Itos prin- 
cipaes fe mettêram em huma mefquita , on- 
de os noífos os cercaram ; e vendo-fe per- 
didos , arvoraram huma bandeira branca ; e 
vindo á falia j fe entregaram , e os- Tolda- 
dos deram bufca ás povoações da ferra , on- 
de acharam hum arrazoado faço. 

Paífado ifto , fe foi o Capitão Mór pê- 
ra a Cova , onde eílavam os galeões , e dei- 
xou na Fortaleza D, Duarte de Menezes j 
e da Cova defpedio Simão deMendoça pê- 
ra ir a Maluco tomar carga pêra feir pêra 
a índia > porque ficara alli muito cravo dos 



zo6 ÁSIA de Diogo de Couto 

galeões de Jo^o de Andrade , e Lopo de 
Noronha , que foi fazer a viagem a Jorge 
de Moura pelo meímo contrato que eile fez 
com oVifc-Rey, que era dar o galeão ap- 
parelhado , e Lopo de Noronha fazer to- 
dos os gaílos á liia cufta , e dar em Goa 
1 :M e eem q fintaes de cravo de cabeça , que 
er&ai le ímcoenta mil pardaos, 

CAPITULO XXVL 

Da morte que Diogo de Mef quita fez a 

EIRey de Maluco , e a caufa 

de fua morte. 

HE necefTario primeiro que trate dain- 
jufta morte deite Rey , dizer as cul- 
pas que lhe puzeram, pelas quaes o Vifo- 
Rey o mandava prender por Gonfalo Perei- 
ra Marramaque , e as poucas que teve pê- 
ra huma coula , e pêra outra , no que me 
hei de deter mais do que foffre o epilo- 
go 5 porque famcoufas que importam iabe- 
rem-le. 

Pelo difcurfo das minhas Décadas tenho 
efcrito as vezes que os Reys de Maluco 
foram prezos > e vexados dos Capitães in- 
juíiamente > e como efte Rey , de que hei 
de tratar , o foi por duas , ou três vezes , 
e de lmina mandado ao Reyno 3 onde fe li- 
vrou 



Década VIII. Cap. XXVL 207 

vrou das culpas que lhe puzeram; e de to- 
das as vezes que foi prezo , elle mefmo fe 
oíFereceo á prizão , fó a de D. Duarte De- 
ça foi violenta , e fempre teve mão em feus 
filhos , e vaíTallos , pêra que não moveíTem 
novidades por íua prizão j e depois que o 
foltáram ninguém acudia ao ferviço de Por- 
tugal , e ás neceíTidades da Fortaleza pri- 
meiro que elle , nem favoreceo mais a Chri- 
ftandade, como largamente o prova Gabriel 
Rebello no feu livro que compoz 5 intitula- 
do Retrato dos bens 5 e males do Eftado da 
índia , que eu tenho em meu poder , como 
já difle aosdezefeis Capitulos , onde como 
homem que efteve treze annos em Ternate , 
e vio eftas coufas com feus olhos , prova 
largamente eftas quatro coufas daquelle Rey : 
Primeiro , que lhe tem EIRey mais obrigação 
que ao deCochim: fegundo, que não teve 
vaflallo mais leal : terceiro , que ninguém o 
fervio melhor : quarto 5 que elle foi caufa de 
haver, e fuftentar a Chriftandade em Ternate, 
e em luas Ilhas , onde havia mais de duzentas 
mil almas ; e em fatisfação difto , deixando 
as prizóes que difle, e as afFrontas quepa- 
deceo toda fua vida dos Capitães daqueila 
Fortaleza , lhe tomaram todos lua fazenda 
por força , porque de todas as Ilhas de fua 
jurifdiccao , fó a de Maquiem tinha pêra 
feus gaitas, edefpezas, de que tinha largas 

Pro- 



2,o8 ÁSIA de Diogo de Coufô 

Provisões de ElRey, a qual lhe dava cada 
anno perto de dous mil bates de cravo , que 
nao tinha outra renda, e ainda efta não era 
cada anno , fenão de dous em dous , ou de 
três em três, com o que fe fuftentava pie- 
dofamente ; e como a tyrannia dos Capi-^ 
taes das Fortalezas da índia he exceííiva , 
e nunca até hoje foi caftigada , nem aquella 
pouquidade queriam queaquelle pobre Rey 
comeífe, cafo digno de Deos noíFo Sei.hof 
caftigar , como fez com a perda daquella 
Fortaleza j porque o Mouro que nos reco- 
lheo em ília terra por fua livre vontade: que 
nos agazalhou de graça : que fe fez vaífal- 
lo de EIRey de Portugal , fem ver o cute- 
lo na garganta : que eíTe mefmo que nos a- 
gazalhou , e matou a fome , a efle defaga- 
zalhaífemos nós , a eíTe tiraiTemos o pão da 
boca 5 cafo de grande crueldade ,. e muita 
pêra fer aborrecido de todos, 

A eíle Rey começou o Capitão Diogo 
Lopes de Mefquita a tratar mal por efta 
caufa j e pofto que outros tomaram alguma 
mafcara pêra fe disfarçarem i efte fem re- 
buço f nem antolhos começou a tomar o era- 
vo^defta Ilha poreík maneira. Obrigava a- 
quelle Rey a lhe tomar tanta fazenda , que 
vieífe a montar a copia de cravo, que aquel- 
la Ilha dava ; e como o tinha azido , por 
aqui poz eítanque na Ilha, pêra que nenhu- 
ma 



Década VIII. Cap. XXVI. 209 

ma peflba lá paífaíTe, e mandava feus cria- 
dos a recolher o cravo , e lho tomava pelo 
preço de Ternate $ e pelo pezo de Ma^ 
quiem , que he hum quarto mais em cada 
bar , e fobre iflb efpancavam feus criados 
que EIRey latinha, e faziam outras forças 
exorbitantes; e fe fe queixava deitas forças, 
mandava-lhe fazer outras peiores ; e fe algum 
Religiofo o reprehendia em algum cafo , ou 
lho eftranhava , não refpondia mais , fenao , 
que não fallaííe niíío , que o Rey era hum 
máo perro ; e com o Viío-Rey reprehender 
ifto por Provisões, nada bailou, porque lá 
he tão longe , que huma fó vez em três annos 
chega áquella terra a refpoíla das cartas. 

Succedeo , andando as coufas deíle mo- 
do , ir hum Padre da Companhia pedir a 
EIRey huma carta pêra hum Regedor feu 
vaíTallo junto do Morro fazer pagar huma 
divida a huns Chriftãos de huma Ilha fua 
vizinha , a qual foi logo bem paga , e os 
devedores houveram licença do Padre pêra 
irem a outro lugar de Chriítaos arrecadar 
outra fua divida , e foram lá a tempo que 
não eftava lá o Padre , e não acharam fenão 
hum Irmão, ou Coadjutor, o qual lhes deo 
licença pêra levarem prezos os devedores, 
fem faber do cafo mais , do que as partes 
lhe diíferam, na qual prizao houve tal dei- 
arranjo, que ficaram alguns mortos. 
Couto. Ttm.F. P.L Q A- 



aio ÁSIA de Diogo de Gotjtg 

Aconteceo depois que reíidindo certos 
Portugueses em outro lugar de Chriílaos , 
foram dar hum alíaito em outro feu vizinho 
vaflallo do Rey de Ternate 5 com quem ti- 
nham antiga reixa 3 o qual Rey de Tidore 
houve huma carta do Capitão Diogo Lopes 
de Mefquita pêra os Chriílaos fe aquieta- 
rem com os inimigos ; e fegurandc-íe com 
ella os inimigos , deram os Chriílaos , e al- 
guns Portuguezes nelles 5 e fizeram o que 
quizeram , e fem o Capitão fazer cafo de 
fe fazer aquelle defarranjo á conta da fua 
carta. Vendo hum Regedor do Rey de Ter- 
nate que lá refidia, aquelle defarranjo 5 ou 
foííe com licença de ElRey , ou de fua pró- 
pria vontade , foi com fua Armada fobre 
eftes culpados , e caítigou-os muito bem , e 
ajuntou a eítas queixas outra peior , que foi 
efpancar hum Portuguez na Fortaleza a hum 
fobrinho de ElRey ; e hum natural que fe 
fezChriftao, e fervia o Capitão, matar ou- 
tro criado do Rey j e fendo efte delinquen- 
te prezo , efcapou com huns leves tratos , 
que por aquellas Fortalezas não ha mais 
lei que as vontades dos Capitães. 

Em fim outros muitos aggravos que o 
Rey fofFreo , e diífimulou calando-fe ; e por 
não ver tantas coufas y a que fó com má- 
gua, e fentinento podia acudir , fe paflbu 
á Ilha de Maquiem , onde o Capitão Diogo 

Lo- 



Decjada VIII. Cap. XXVI. ai í 

Lopes o mandava matar por Luiz de Car- 
valho j de que logo foi avifado , o qual foi 
lá em huma fufta , que em eftando furta , 
lhe quebrou a amarra , e a corrente a hia 
levando pêra baixo 5 a quem o Rey man- 
dou acudir por fuás corocoras , que lhe trou- 
xeram a fufta , e lhe mandou dar outra a- 
marra ; e embarcando-fe o Kty em liuma 
corocora , foi paliando pela fufta , e pergun- 
tou ao Luiz de Carvalho , que fe queria al- 
guma coufa pêra Ternate , ao que lhe reft 
pondeo , que lhe relevava fallar com Sua 
Alteza ; e mettendo4e em hum parao , che- 
gou á cqrocora do Rey , e poz a mão na 
adaga \ ô que EIRey vio - e lhe diíTe : Con~ 
certai^a bem > que tudo fe fabe , e mandou 
remar pêra Ternate, onde defembarcou , e 
fe foi pêra fua cafa. Era a efte tempo já 
chegado Simão de Mendoça de Amboino* 
e eítava elle , e João Gago de Andrade car- 
regando pêra partirem pêra a índia ; e fa- 
bendo fer chegado o Rey ? o foram viíitar , 
e elle lhes pedio que o fizeífem amigo com 
o Capitão , que com elle fer o aggravado , 
fe fazia o delinquente , porque entendia que 
era aflim ferviço de EIRey de Portugal : o 
que elles trataram com Diogo Lopes , e le- 
varam o Rey á Fortaleza ; e preíentes to- 
dos os cafados , fe abraçaram , e alli jura- 
ram as pazes á vontade de todos em publi- 

O ii ca 



^ 



ai2 AS IA de Diogo de Couto 

ca forma; e ao tempo de o Capitão jurar, 
lhe trouxeram hum livro profano peraiífo^ 
o qual EIRey conheceo , e diíTe que trou-* 
xeílem o livro , por onde o Padre dizia Mif» 
fa : em fim foi-íe bufcar o Miífal , e jurou 
o Capitão nelle o que teria na tenção , que 
•eíla he fó de Deos. Feito eíle afto , em que 
fe acharam os Officiaes , e affignados todos , 
recolheo-fe EIRey muito contente, e ao ou- 
tro dia deram os galeões á vela pêra Am- 
boino. 

Não fe paliaram mais que féis dias de- 
pois delias pazes feitas com tão folemnes 
juramentos , que EIRey não foíle vifitar o 
Capitão á Fortaleza ; e como o ódio lhe 
nãofahia do coração, tinha praticado com 
hum fobrinho feu mancebo , chamado Mar- 
tim Affonfo Pimentel , pêra matar EIRey , 
affirmando-lhe faria o maior ferviço aonof- 
íb de Portugal , que fe lhe tomara dez ga- 
lés de Turcos , e com iífo lhe paífou hum 
afíignado \ e ainda me diíTeram peífoas de 
credito , e muita authoridade , que também 
lhe paliara hum certo Religiofo outro , em 
que dizia que por aquelle ferviço lhe daria 
EIRey a Fortaleza de Ormuz. A peífoa que 
mo diíTe he grave, e o cafo he duvidofo, 
porque o Religiofo não podia perfuadir nin- 
guém que mataífe , porque ficaria irregu- 
lar, em fim euefcrevo o que me afirmaram 
muitos* Ef- 



Década VIII. Cap. XXVI. 213 

Eftando EÍRey com o Capitão Mor de 
vagar, Martim Affonfo Pimentel eftava em 
baixo fazendo-fe p refles pêra matar o inno- 
centeRev, e parece que foi avifado doca- 
10, e eftaria preparado. Tanto que íe hl- 
Rey levantou pêra fe ir , foi com elle até 
á porta do pateo ; e EÍRey fahindo-fe peia 
fora , f^ fechou o poftigo , e houve alguns 
que viram o Capitão com huma cellada na 
cabeça , e hum montante nas mãos. Mar- 
tim Affonfo chegou-fe bem a EÍRey , e lhe 
difle : Pqfto que os galeões fe foram pêra a 
índia , ainda cá ficaram rortuguezes ; e 
levando da adaga, lhe foi dando huma , e 
outra. O pobre Rey vendo-fe daquella ma- 
neira , abraçou-fe com huma peça de arti- 
lheria , que tinha âs Armas Reaes , e diífe al- 
to que todos ouviram : Ah Fidalgos , por 
que matais o mais leal vajfallo que tem El- 
Key de Portugal meu Senhor ? E aílim fem 
lhe valerem as Armas Reaes nem o lugar , 
que era o adro da Igreja, foi morto cruel- 
mente y e não bailando ifto , o defpíram , 
e eíleve hum grande efpaço afocinhado dos 
porcos. 

O Capitão , tanto que o Rey efpirou , 
fahio da Fortaleza com os caiados , e cria- 
dos que o feguiam na maldade , e foi ca- 
minhando pêra a Cidade a ver fe podia to- 
mar humas peças de artilheria que lá efta- 

vam j 



H4 ÁSIA de Diogo de Couto 

vam j e antes de chegar ás primeiras cafas , 
lhe atiraram algumas efpingardadas , com 
que fe recolheo ; e mandando tomar o cor^ 
po de EIRey morto, o mandou efpoftejar, 
e metter falgado em huma caixa , e lançai- 
lo no pego do mar , fem o querer entregar 
a feus filhos , e mulher pêra lhe darem fe- 
pultura; os quaes depois de prantearem feu 
Key Juraram feu filho Sultão Babú por Rey , 
que logo com todos os Grandes fez íbíe^ 
mnes yotos de fazerem guerra á Fortaleza, 
até a tomarem 5 e deitarem os Portuguezes 
fora daquellas Ilhas, 

Depois do Vifo-Rey D. Antão de No- 
ronha defpedir os fpccorros , que atrás dif- 
fe , pêra Malaca , defpachou D. Luiz de 
Almeida irmão de D. Pedro de Almeida , 
que eifava por Capitão em Damão, pêra ir 
invernar naquella Fortaleza com féis navios > 
pêra em Agofto ir a Surra te defender as náos 
que fahem pêra o Achem fem cartazes , e 
as que haviam de ir de Meca pêra aqueiie 
rio , que fempre vem carregadas de prata , 
e fazendas ricas , o qual D. Luiz deo a vela 
em fim de Abril de 1568. e os Capitães que 
nefta jornada o acompanharam , foram Fer- 
não Telles , que depois foi Governador da 
índia , D. Lourenço de Almeida , António 
de Mello Coutinho, Antão de Faria , eLuiz 
Ferreira. Nefta companhia foi também Ma- 

thias 



Década VIII. Ca?. XXVI. 21? 

thias de Albuquerque invernar naquella For- 
taleza , que tinha vindo do Reyno muito 
moço , mas com tal brio , que logo o Viíb- 
Rey D. Antão , que tinha muito bom olho 
pêra conhecer o preílimo dos homens , dif- 
fe por elle , que naquelle mancebo fe crea- 
va num muito honrado , e valente Vifo-Rey 
pêra a índia , como com effeito aflim foi. 

CAPITULO XXVII. 

Do que fucceâeo a D. Luiz de Almeida no 
rio de Surrate com duas nãos de Meca. 

DOm Luiz de Almeida > tanto que che- 
gou a Damão 5 logo preparou a Arma- 
da , que havia de levar a Surrate , porque 
era neceífario partir em Agoílo pêra fazer 
algum bom feito ; e tanta preífa fe deo , que 
na entrada de Agoílo íahio pela barra.fora 
com vinte navios 5 de que não achei os no- 
mes de feus Capitães mais que a dous , que 
foram António Mexia , e António Macha- 
do , ambos Africanos ; e paííando por Na- 
zaurim entre Damão , e Surrate , deixou na- 
quelle rio eíles dous Capitães que nomeei , 
pêra fahirem dalli a vigiar as náos , por fer 
aquella paragem a que ellas ordinariamente 
vam demandar ; e o Capitão Mor com os 
mais navios fe foi metter em Surrate; eef- 

tan- 



zi6 ÁSIA de Diogo de Couto 

tando naquelle rio com grandes vigias , nas 
primeiras aguas vivas em conjunção de Lua 
viram huma fermofa náo vir de mar em fó~ 
ra com tempo muito rijo , e foram deman- 
dar os canaes de Surra te ; e defcubrindo bem 
o rio ? viram a noíla Armada furta nelle ; 
e não podendo voltar , aífim por caufa do 
vento , como da maré que enchia , ficando 
indeterminados , foram aífim á vela varar no 
c^nal dos Abexins , e logo. nos bateis que já 
levavam preftes com o dinheiro dentro , fe 
p uzeram em terra ; porque como os mares , 
e ventos eram groílbs , não fe atreveram as 
noífas fuftas a chegar a ella , porque fe fa- 
ziam em pedaços , como fe fez hum dos 
noílbs navios , de que era Capitão hum Bal- 
thazar tal , o qual fe deípedaçou , e a maior 
parte dos foldados fe affogáram , e o Capi- 
tão efcapou com grande trabalho. A maré 
tanto que vafou , ficaram as náos todas em 
fecco , e o mar tão brando , que puderam 
chegar os noííos navios , e ainda acharam 
bem que roubar , e dons cavallos Arábios. 

Os dons navios que eftavam em Nazau- 
rim, fahíram a vigiar o mar pouco depois 
difto , e viram ir duas náos muito fermofas 
á vela na derrota pêra Surrate , e as foram 
feguindo até entrarem nos canaes 5 fem el- 
las faberem da noíla Armada ; e em fur- 
gindo , as foi D. Luiz de Almeida commet- 

ter, 



Década VIII. Cap. XXVII. 217 

ter , e pelejou valerofamente com ellas , e 
por fim ellas fe entregaram , e as tiraram 
dos poços , e as levaram a Damão : vinham 
muito ricas , porque eram da índia , e a fa- 
zenda fe receitou pêra EIRey , e os folda- 
dos também houveram fuás prezas. 

CAPITULO XXVIII. 

Entra o tempo do Vifo-Rey D. Luiz de Ataí- 
de ^ que he da minha oitava Década. 

JA havia quatro annos que D. Antão de 
Noronha governava a índia ; e como nef- 
te anno de 1568 tomou EIRey D. Sebaf- 
tião poífe do governo do Reyno , quiz pro- 
ver a índia de Vifo-Rey , e fez pêra illo 
eleição de D. Luiz de Ataíde , Senhor da 
Cafa de Atouguia, Fidalgo em quem con- 
corriam as partes neceílarias pêra aquelle 
cargo , o qual partio do Reyno com a Ar- 
mada que em feu titulo fe verá , e chegou 
á barra de Goa em 10. de Setembro , e foi 
mui bem recebido geralmente de todos 5 e 
D. Antão lhe entregou o governo 5 no qual 
começou a entender , e a primeira coufa que 
defpedio pêra fora , foi Aífonfo Pereira de 
Lacerda pêra Capitão Mor do Norte com 
huma galé , e leis navios , de que foram por 
Capitães Pedro Juzarte Tição , FrancifcoPe- 

rei- 



ai8 ÁSIA de Diogo de Couto 

reira Coutinho , Francifco de Louzada , Ál- 
varo Monteiro de Barros , Domingos Fer- 
reira Esforcio , e Gomes Freire , e com ef- 
ta Armada deo á vela a 18. de Outubro , 
e do feu fucceflb adiante darei razão. 

Partido Affonfo Pereira pêra o Norte, 
logo oVifo-Pvey defpedio Martim AfFonfo 
de Miranda pêra Capitão Mor de Malavar 
com vinte navios , elle na galé S. João Ba- 
ptifta , Mathias de Albuquerque em huma 
galeota Latina , D, Duarte de Lima em ga- 
lé , João de Mendoça em galeota Latina, 
D. Luiz de Caítello-b ranço em outra. Fuf- 
tas , Fernão Telles , Ruy Dias Cabral , Fran- 
cifco de Souza Tavares , D. Lourenço de 
Almeida , Francifco de Miranda cafado em 
Cocliim , Ignacio de Lima , Henrique de 
Betancor , Jorge Pimentel , Manoel Simões , 
Pedro Ribeiro, Simão Reinei, António Lo- 
bo de Brito , Álvaro Monteiro , Luiz de 
Aguiar, e Apollinario de Vai de Rama. 

E porque foi o Vifo-Rey avifado que 
em Banda féis léguas de Goa eftavam reco- 
lhidos alguns paráos , defpedio com muita 
preífa a Ayres Telles de Menezes com al- 
guns navios que fe puderam negociar , o 
qual chegou á barra de Banda ; e fabendo 
eítarem dentro finco paráos , os mandou pe- 
dir ao Tanadar , como levava por regimen- 
to 3 por não fe quebrarem as pazes pornof- 

fa 



Década VIII. Cap. XXVIII. 219 

fa parte , e de recado em recado veio o 
Tanadar a lhe conceder os cafcos dos na- 
vios , conforme ao contrato das pazes , man- 
dando-lhe dizer que os Malavares logo fe 
efpalháram pela terra dentro , e que não fa- 
bia delles , com o que Ayres Telles fe re- 
colheo a Goa fem os navios Malavares , de 
<Jue fe o Vifo-Rey não contentou. 

Antes defpedio logo Vicente Paes por 
terra com recado ao Tanadar , mandando- 
Ihe requerer , que entregaífe a gente dos 
paráos , armas , e artilheria , fenao que iria 
em peífoa bufcar tudo ; e porque Martim 
AfFonfo de Miranda, eítava ainda na barra 
com a fua Armada , lhe mandou que fe fof- 
f e lançar fobre o rio de Banda J até o Ta- 
nadar entregar as coufas que lhe mandava 
pedir. O Tanadar depois de muitos dares, 
e tomares entregou os aparelhos dos navios , 
e artilheria , e algumas efpingardas , e arcos > 
mandando dizer ao Vifo-Rey , que os Ma- 
lavares eram fugidos pela terra dentro , que 
c que lhes pudera tomar , alli o mandava , 
com o que o Vifo-Rey fe houve por fatis- 
feito , e Martim AfFonfo fe partio pêra o 
Malavar. 

Defpedidas eítas Armadas , entendeo o 
Vifo-Rey logo no defpacho das náos que 
haviam de ir carregar a Cochim pêra o Rey- 
110 , dando ordem a muitas coufas , e cor- 

ren- 



220 ÁSIA de Diogo de Couto 

rendo com o Vifo-Rey D. Antão com mui- 
ta pontualidade na íua embarcação , porque 
ainda naquelle tempo havia honra , e Chri- 
ftandade , e começou a dar á execução as 
Provisões 5 e regimentos de EIRey ; e en- 
tre as ordens que trazia , foi , que défle ca- 
deiras rafas aos Fidalgos , porque até en- 
tão lhas davam de efpaldas , e que lhe fal- 
laílem os Fidalgos deícubertos : e o primei- 
ro Fidalgo a que mandou dar cadeira rafa, 
foi a D.João Pereira irmão gémeo do Con- 
de D. Diogo Pereira , e filhos do fegundo 
Conde da Feira D. Manoel Pereira , o qual 
D. João Pereira era hum Fidalgo velho , 
que acabara de fer Capitão de Malaca ; e 
vindo a cadeira rafa pêra elle , diífe ao Vifo- 
Rey y que elle trazia negocio de pé , e de 
pouca detença. O Vifo-Rey vendo-o peja- 
do com a cadeira , lhe diífe , que a tomaf- 
fe , que EIRey lha mandava dar a elle , e 
aos Fidalgos como elle , e fem embargo 
dilfo fallou-lhe de pé , e não fe quiz fen- 
tar ; e dando elle conta do cafo a D. An- 
tão de Noronha feu cunhado , lhe diífe elle , 
que andara mal em não acceitar a cadeira , 
tanto que diífe ra que EIRey lha mandara 
dar. 

E porque nos rios de Canará havia mui- 
ta pimenta pêra a carga das náos , por fe 
ellas não deterem em a tomar , indo pêra 

Co^ 



£>ECADA VIII. CaP. XXVIII. 221 

Cochim, defpachou a náo Santa Maria, que 
veio na companhia do mefmo Vifo-Rey, 
de que era Capitão Damião de Souza Fal- 
cão , pêra ir carregar de pimenta áquelles 
rios , e le valia a Cochim como fez , por- 
que eíta náo havia de ficar na índia , por 
haver miíler muito concerto. 

Agora continuaremos com as Armadas 
que fahíram fora no principio do verão, e 
a primeira era a de ÃíFonío Pereira de La- 
cerda , que foi correndo a coita do Norte 
em bufca dos paráos que lá eram pafiados ; 
e fendo avifado que alguns eram idos pêra 
a coita de Dio , fez vela pêra lá ; e indo 
atraveilando o golfo , houveram viíta de clous 
paráos , aos quaes os noífos navios foram 
dando caca , e o primeiro que chegou a hum 
delles , foi Álvaro Monteiro , o qual fem 
ordem lhe po.z a proa muito íbfrego ; e os 
Malavares que eítavam preparados , lançá- 
ram-lhe logo tanto fogo , que abrazáram o 
noíTo navio, e queimaram muitos dos no£ 
fos ; e logo chegou Vicente Paes , poz a 
proa no paráo, e com a mefma preíteza os 
Malavares o abrazáram , e deram com Vi- 
cente Paes , £ com os outros no mar , que 
fe tornaram a recolher no navio ; porque o 
paráo como vio os noífas abrazados , deo á 
vela , e foi-fe acolhendo. 

Gomes Freire foi feguindo o outro pa- 
ráo 



1^^ ÁSIA de Diogo de Couf ò 

ráo que hia fugindo; e alcançando-o , poz- 
lhe a proa , e logo fe lançaram todos os 
noííos de bordo dentro no paráo , matan- 
do , e derribando alguns. Os Mouros como 
viram o noíTo navio íb , lançáram-fe ao mar 
com muitos por melhor remédio; emetten- 
do-fe no noíio navio , deram logo á vela , 
e foram-fe acolhendo , ficando Gomes Frei- 
re no navio dos Mouros , o qual também 
mandou preparar pêra feguir ofeu, mas já 
hia muito alongado. Em tanto chegou a mais 
Armada > e achou feito aquelle defarranjo , 
que foi tanto aprefíado , que pafmáram , e 
ainda andaram á pefcaria dos Mouros que 
andavam a nado , e os mataram á efpada , 
ficando Gomes Freire com a troca , que não 
foi de vantagem pelo modo delia. Affonfo 
Pereira fez todas as diligencias que pode 
por achar eftes paráos , mas foi em vão y 

Í)orque elles fe fizeram na volta do Ma- 
avar. 

Vamos com Martim Affonfo de Miran- 
da , que foi correndo a coíta , e provenda 
as Fortalezas do Canará , de Cananor , e de 
Chalé ; e paliando tanto avante como a pon- 
ta de Tiracole , viram alguns navios noflos , 
que hiam adiante j três y ou quatro paráos , 
que hiam cozidos com a terra , pêra fe reco- 
lherem nos rios : os noflos navios , de que 
■eram Capitães João de Mendoça, e Madiias 

de 



Década VIII. Cap. XXVIII. 223 

de Albuquerque , Fernão Telles , com quem 
eu hia embarcado , e Luiz de Aguiar foram 
feguindo os pardos , que eram ligeiriffimos ; 
pofto que os nolíos lhes ficavam a balra- 
vento 5 não puderam chegar tanto depref- 
fa , que primeiro o não fizeíTem elles apon- 
ta de Tiracole , e com huma preíleza não ima- 
ginada puzeram as popas na terra com ro- 
queiras , ficando-lhes as proas pêra o mar , 
furtos com as armas. Os noflbs navios que 
já nomeei , foram remando com tenção de 
lhes porem as proas , e dar-lhes cabo , e os 
tirarem pêra fora ; mas elles deitaram de íí 
tanta fomma de pelouros de falcões , e af- 
fim dos mefmos paráos , como de huma ef- 
tancia que tinham em terra com muita ar- 
tilheria , que embaraçaram os noilbs mari- 
nheiros , pêra não paliarem adiante , traba- 
lhando os Capitães dos navios com promet- 
ias j e ameaços tudo o que puderam pelos 
fazer chegar : e fegundo a preíteza , com que 
a artilheria laborou , cuido eu que eftava alli 
de propoíito pêra ifíb , e que deitaram a- 
quelles navios fora pêra negociarem , e le- 
varem a noíTa Armada alli, pêra acontecer 
o defaítre que aconteceo. 

Martim AfFonfo de Miranda vendo ef- 
tar os noflbs á bateria, foi arribando fobre 
elles , e chegou ao de Fernão Telles , on- 
de eu eltava ; e pondo hum pé fobre a poí- 

ti- 



224 ÁSIA de Diogo de Couto 

tiça da galé pêra dizer a Fernão Telles que 
fe recollieffe , foi em hora tão aziaga y que 
em pondo o pé , veio hum pelouro de hu- 
ma roqueira , e deo-lhe por huma coxa , 
que toda lha quebrou , e dalli foi recolhi- 
do pêra dentro pêra o curarem. João de 
Mehdoça, e Matinas de Albuquerque , que 
tinham galeotas Latinas grandes , ficaram 
atravefTados á bateria , e aíTim lhes feriram 
alguns marinheiros , e foldados ; e hum cha- 
mado Diogo Palmeiro o acharam morto fem 
ferida , nem pizadura alguma , e não mor- 
reo de medo , porque era mui bom caval- 
leiro. NanoíTa fiifta aconteceo eíle cafo di- 
gno de fe contar pêra exemplo da miferi- 
cordia Divina. 

Ao tempo que fe deo viíta dos paráos , 
hiamos jogando quatro foldados , entre os 
quaes entrava hum Caftelhano , e rico , o 
qual lançou o filho pêra a índia por ma- 
liíílmo , e elle veio em peflba a Lisboa , e 
achou as náos de verga d^alto , e entrou na 
em que vinha por Capitão D. Diogo Lobo > 
o que mataram em Mangalor , e lho entre- 
gou com hum grilhão, e oitocentos cruza- 
dos pêra lhe dar de comer. Eíle D. Diogo , 
que era moço de .vinte annos , tinha efpan- 
tofas habilidades , e grande Latino ,: e me- 
lhor efcrivão de todas as letras que vi , e 
com ellas tinha grandes maldades ,, e entre 



Decaiu VIIL Gâíi XXVÍIL isf 

cilas de jurador, e arrenegadcr , ehumdoâ 
quatro que jogávamos , perdéo Jiuma mão 
grande , peio qual fez hum grande arrene- 
go , porque também niíto era muito perju* 
dicial ; e foi o negocio tal , que lancei as 
cartas no mar, e me levantei. O Caítelha- 
no com fer o maior arrenegador da vida ^ 
eftranhou o que o outro dilTe tanto , que fe le* 
vantou j dizendo : Valgan-te los diahlos : nó 
sé como nó viene una bala , que te quiebre 
ejfa boca , y lengua. Coufa maravilhofa ! que 
neíta conjunção apparecêním os pafáos , e 
lhes fomos dando caca: e como Fernão Tel^ 
les trazia o mais ligeiro navio de todos * 
chegámos mais perto dos navios , que nos 
fervíram bem de bombafdadas , é a primei- 5 * 
ra que deo , tomou aquelle foldado que re^ 
negou , pelas coitas atraveflado $ e lhe foi 
cortando huma faia de malha > e os fios dei-* 
la lhe entraram pelas coitas , íicando4he en- 
fanguentados como os de hum diciplinarite* 
de que logo farou : e foi eíte foldado pou^ 
cos annos depois cafado eiíi Goa i e muito 
rico y e tão emendado , que lhe não vi nun-* 
ca huma defcompoíiçao naqueila matéria , e 
tão caridofo , que me affirmáram que dava 
mais de oitocentos cruzados de efmola ca- 
da anno. Em fim os paráos fuítigáram-nos 
arrazoadamente 5 e deram dentro no noífo 
navio mais de dez bombardadas y e huma 
Couto. Tom. V, P. L P foi 



ii6 AS TA de Diogo de Couto 

foi tão venturofa , que eftando Fernão Tel* 
les em lima. do paiol armado com huma ca- 
na de Bengala , mandando remar os mari- 
nheiros , lhe deo hum pelouro por entre as 
pernas nas cadeas , e cadeado , com que. o 
paiol fe fechava , e ao mefmo tempo fe a- 
baixou Fernão Telles pêra dar com a cana 
Hos marinheiros ; e eu que citava em fima 
do baileo com outros i vendo-o abaixar, 
cuidei que cahia da bombardada , e faltei 
de fima fobre elle, dizendo-ihe : Que foi , 
Senhor ? EJlais ferido ? E como eu eítava 
armado, houvera-me de tratar peior do que 
fez o pelouro , que paífou fem receber dano. 
Afaftado o Capitão Mor , ferido fem 
nos o fabermos, o fizemos nós também, e 
fomos á galeota bufcar o Cirurgião pêra cu- 
rar o foldado ferido , e então nos diíleram 
de como o Capitão Mór o eftava. Todos o 
fentíram muito , por fer hum Fidalgo dos 
principaes da índia: e toda a Armada jun- 
ta fomos a Cochim, onde Martim Affonfo 
de Miranda fe recolheo a curar em S. Do- 
mingos ; mas ao feteno faleceo com gran- 
des fentimentos, de toda a Cidade , e Ar- 
mada \ e acudindo alli o Vifo-Rey D. An- 
tão de Noronha que eftava pêra fe embar- 
car pêra o Reyno , e D. Diogo de Mene- 
zes filho do Craveiro , que viera áquelle mef- 
mo tempo de fervir a Capitania de Mala- 
ca, 



Decádà VIII. Cap. XXVÍÍl 227 

ca, e todos os Capitães, c Fidalgos da Ar* 
mada , a Cidade , e Religiões , com grande 
mágoa de todos foi enterrado no me imo 
Moíteiro. Era cfte Fidalgo cafado com Do- 
na Maria filha de hum Mercador rico de 
Goa , da qual lhe ficaram dous filhos ma- 
chos , chamados Diogo de Miranda , que 
foi Capitão Mor do Malavar, que he mor- 
to , e Francifco de Miranda ^ que também 
foi Capitão Mor daquella coita, e hoje he 
ido de foccorro a Maluco com quatro ga** 
leóes potentes , e cafado com Dona Mari- 
anna Continha filha de Peno de Andrade 
de Caminha, que foi cafado com Dona Paf- 
coela Coutinha filha de Vafco Coutinho, 
irmã de D. Luiz Coutinho , que veio á ín- 
dia por Capitão Mor 5 da qual tem o dito 
Francifco de Miranda dous filhos , e duas 
filhas* 

Vendo D. Antão de Noronha que por 
morte de Martim Affonfo de Miranda fica- 
va aquella Armada fem Capitão Mor , e a 
rifco de fe defarmar, foi em feíToa á For- 
taleza , onde pouzava D. Diogo de Mene- 
zes hofpede de Vafco Lourenço de Barbu- 
da , Capitão , e Védúr da fazenda , e pedia 
a D. Diogo , que por ferviço de EIRev qui- 
'/eííe acceitar aquella Armada , que lhe fa- 
ria niífo hum dos maiores ferviços que po- 
dia fer, ajudando-o a iífo Vafco Lourenço 
Pii de 



£28 ÁSIA de Diogo de Couto 

de Barbuda, e a Cidade, que também acu* 
dio ; e como eíle Fidalgo nunca fc negou 
pêra o ferviço de EIRey , acceitou a Ar- 
mada , com a qual logo começou a correr , , 
e a proveo de novo de fua fazenda , dan- 
do a cada Capitão cem pardáos pêra feu 
aviamento , em fim fez o que fempre fez, 
que foi gaitar o feu em ferviço do feu Rey : 
c logo fe embarcou , e foi correr a coita do 
Malavar , onde fez huma cruel guerra ao 
Çamorim , dando-lhe , e queimando-lhc feus 
portos, e povoações, e tomando muitos pa- 
rdos que fahíram a roubar , no que gaitou 
todo o verão. 

D. Antão de Noronha ficou-fe negoci- 
ando pêra o Pveyno , cfperando pelas vias 
de EIRey , e provimentos pêra as náos , o 
que lhe chegou dia de noífa Senhora das 
Candeas a 2. de Fevereiro , indo já á ve- 
la , e aílím o foi tomando , embarcando-fe 
com elle na fua náo eítes Fidalgos , e Ca- 
valleiros , D. João Pereira feu cunhado , que 
acabara de ler Capitão de Malaca , D. Pe- 
dro da Guerra, Ayres de Souza de Santa- 
rém , Manoel de Mello filho de Ruy de 
Mello o da Mina , Heitor da Silveira o Dra- 
go , Gafpar de Brito do Rio , Fernão Go- 
mes da Grã , que depois foi Guarda Mor 
das náos doReyno, Lourenço Vas Pegado > 
e outros Cavalleiros honrados , em que eu 

en- 



Década VIU. Cap. XXVIII. 229 

entrei , que todos comíamos com o Vifo- 
Rey á meza , que a deo muito abaítada em 
quanto viveo ; e por partirmos tarde , arri- 
bámos todas as náos a Moçambique ; fó a 
Santa Catharina , Capitão António Rodri- 
gues de Gamboa , paliou ao Rcyno , e do- 
brou o Cabo no mcfmo tempo que nós ar- 
ribámos , porque fc achou tão pegado com 
a terra , que lhe não alcançou , e foi ter a 
Lisboa na força da peite grande , e nós fo- 
mos á nofla revolta correndo tormenta pê- 
ra Moçambique ; e antes de chegarmos ás 
Ilhas de Angoxa , faleceo o Viíb-Rey , e a- 
chou-fe em feu teítamento , que lhe cortaf- 
fem o braço direito pelo cotovelo , e ole- 
vailem a Ceita , e o puzeífem na fepultura 
de feu tio D. Nuno Alvares , e que leu cor- 
po foíTe lançado ao mar , o que fe fez com 
grande mágoa de todos. 

Foi efte Fidalgo filho natural de D. João 
de Noronha , o que os Mouros mataram, 
fendo Capitão de Ceita , filho de D. Fer- 
nando de Menezes , fegundo Marquez de 
Villa Real , o qual D. Antão foi cafado com 
D. Ignez de Caftro , Dama da Rainha , fi- 
lha de D. Manoel Pereira , fegundo Conde 
da Feira , de que não teve filhos. Foi na 
índia muito bom Capitão, teve a Fortaleza 
de Ormuz ; e Vifo-Rey , renovou todos os 
Regimentos da fazenda , como trazia por 



230 ÁSIA de Diogo de Couto 

regimento ; fó nos que tinha feito Vicente 
Pegado, fendo Veador da fazenda de Mo^ 
çambique , não bulio , por ferem mui bons , 
pelos quaes ainda hoje £e governa a fazen* 
da da índia nas matérias de Moçambique. 

Começou a cercar a Ilha de Goa, efez 
o muro que corre de S. Braz pera Sant-Ia- 
go , onde poz hum Padrão com hum letrei- 
ro , que moftra fer elle o author daquella 
obra , que foi tal , que quando fuecedeo a 
guerra grande de Goa , de que logo falta- 
remos , andando o Vifo-Rey D. Luiz cor- 
rendo o muro , vendo a potencia do Idal- 
xá da outra banda , diíTc que aqucllc muro 
não o fizera D. Antão , fenão Santo Antão ., 
porque fe nío eftivera feito , tivera o Vifo- 
Rey muito trabalho cm defender a entrada 
da Ilha : em fim foi eftc Vifo-Rey D. An- 
tão de Noronha bom Fidalgo , grande avi^ 
fado , e de maduro confelho , e póde-fe con- 
tar entre os bons Vifo-Rcys da índia. 

Eítando nós de arribada em Moçambi- 
que , chegou em Julho Vafco Fernandes Ho- 
mem em huma não com muito boa gente, 
a qual tinha partido do Reyno em compa- 
nhia de Francifco Barreto , que já fora Go- 
vernador da índia , que EIRey D. ScbaíHão 
mandava por Conquiilador das minas de Ma- 
rnmotapa, e Capitão geral defdo Cabo das 
Correntes até o de Guardafú : e diziam que 

ef- 



Década VIII. Cap. XXVIII. 231 

efte Fidalgo foliei tara eíta jornada por fe 
ver muito pobre , porque era muito vão , e 
gaftador grande ; porque tendo fido Gover- 
nador da índia , acecitou aqueíla empreza 
mui inferior, Eftava por Capitão em Mo- 
çambique Pedro Barreto feu parente, o qual 
íabendo daquellc cafo , houve-fe por tão af- 
frontado , que logo largou a Fortaleza , ten- 
do humanno porfervir, e fe embarcou pê- 
ra o Reyno ; e Vafco Fernandes Homem y 
que era hum Fidalgo velho , e de muitos 
merecimentos , foi eleito pêra aquella jor- 
nada por Meítre de Campo , e pêra fuece- 
der a Francifco Barreto naquella empreza , 
fe faleceífe : e chegou , como dito lie , fem 
íaber novas de Francifco Barreto , que lo- 
go fe prefumio que arribara ao Brazil , e 
deixou-fe cííar em Moçambique fem tratar 
de coufa alguma até chegar Francifco Bar- 
reto, como ao diante diremos. 

Ás náos , como foi tempo , que era em 
Novembro , fízeram-fe todas juntas a vela 
pêra o Reyno, eíiiccedeo por Capitão Lou- 
renço Vas Pegado , que levava Provisão dif- 
fo , e nella fe embarcou Pedro Barreto , que 
largou a Fortaleza pelo aggravo que lhe fi- 
zeram ; e fahindo as náos de Moçambique 
todas juntas , encoílou-fe a Chagas , que era 
a Capitania , á Ilha de S. Jorge , e ficou 
<quaíí em fecco > a que acudiram as outras 

com 



132 ÁSIA de Diogo de Couto 

com feus bateis : fó a náo Santa Clara ? de 
que era Capitão Gafpar Pereira > em que cu 
hia embarcado , que foi a primeira que fa- 
hio , Ília tão adiantada , que com as corren- 
tes não pode tornar , e fomos noífo cami- 
nho. 

A náo Chagas alijou muito ao mar , e 
encheo a maré , com o que fe fahio traba- 
lhofamente , e na detença de fó eílc dia 
chegámos á Ilha de Santa Elena , tanto , 
que primeiro efti vemos vinte dias fem ne- 
nhuma das outras chegar , pelo quç demos 
á vela , e chegámos a Cafcaes em Abril , c 
ahi furgimos , por eílar a Cidade de peite : 
e tinha EIRcy all-i regimento , que chegan- 
do as náos , furgiíTem fora , e lhe mandai 
fem hum criado feu com cartas , pêra faber 
novas da índia , a que acudio Fernão Peres 
de Andrade , e D. Francifco de Menezes 
o furdo, irmão de D.João Tello, que ahi 
eítava por Capitão de huma Armada , que 
era de alto bordo , pêra ir efperar as náos 
ás Ilhas; e pelo regimento que tinha à^EU 
Rey , me defembarcáram çom as carias , pê- 
ra lhe ir dar novas. Em Almeirim o efpe- 
rci , aonde yeio ter dahi a dous dias , e de 
mim foube tudo o que quiz : e por os Fy- 
íicos aífentarem eftaria a Cidade fora do mal 
grande que teve , mandou EIRey que en- 
trarem as náos dentro. Vinham os matalo^ 

tes ' 



Década VIII. Cap. XXVIII. 23? 

tes, c camaradas Heitor da Silveira o Dra- 
go , Fernão Gomes da Grã, e cu; e o dia 
que vimos a roca de Cintra , faleceo Hei- 
tor da Silveira , por vir já muito mal; e as 
náos chegaram cm fim de Maio , ou já em 
Junho : por onde fe verá que em huma jor- 
nada de íeis mil léguas como çfta , hum dia 
mais ou menos, leva tanta vantagem, como 
fe vio neftas náos , foi mais de mez e meio. 
Em Moçambique achámos aquelle Príncipe 
dos Poetas de feu tempo , meu matalote , e 
amigo Luiz de Camões , tão pobre , que co- 
mia de amigos , e pêra fe embarcar pêra o 
Reyno lhe ajuntámos os amigos toda a rou- 
pa que houve miíter , e não faltou quem lhe 
défíe de comer , e aquelle inverno que es- 
teve em Moçambique , acabou de aperfei- 
çoar as fuás Luíiadas pêra as imprimir , e 
foi eferevendo muito em hum livro quehia 
fazendo , que intitulava Pamafo de Luiz, de 
Camões , livro de muita erudição , doutri- 
na, e íilofofia, o qual lhe furtaram, e nun- 
ca pude faber no Reyno dellc , por muito 
que o inquiri , e foi furto notável : e em 
Portugal morreo efte exceliente Poeta em 
pura pobreza. 

Neíte tempo chegaram Embaixadores da 
Rainha Abuca de Vichantar Rainha dos Rey- 
nos de Potri , Olalá , e do porto de Alan- 
gaior, a pedirem pazes ao Vifo-Rey , por 

fe 



^34 ÁSIA de Diogo de Couto 

fe temerem de outro caíligo como o de D. 
Antão de Noronha , as quaes o Vifo-Rey 
lheconcedeo com condição , que ferião fem- 
pre elia, efeus fucccflbres amigos doEíla- 
do: eque dariam toda a ajuda, e favor aos 
Capitães daquella Fortaleza : e que pagaria 
de parcas a EIRey de Portugal dous mil far- 
dos- de arroz cada anno, entrando nelles os 
quinhentos que de antes pagava de páreas, 
os quaes daria por todo mez de Dezembro, 
e que lhe quitariam tedas as páreas que até 
então devia : e que daria oito mil pagodes , 
que então feriam doze mil pardaos , pêra 
ajuda dos gaftos que o Vifo-Rey D. Antão 
fez na Armada , em que foi a Mangalor : 
e que daria cada anno quatrocentos bares 
de pimenta pêra a carga das náos doRey- 
no; e que o dinheiro delles lhe dariam de 
antemão pêra os poder comprar a tempo, 
a qual pimenta daria por todo o mez de No- 
vembro , pera fe poder levar a Cochim ás 
náos : com outros Capitulos a bem do Eíla- 
do , e favor da Rainha > que deixo , os quaes 
fe veram 110 livro dos Contratos , que eftá 
em meu poder na Torre do Tombo foi. 8i# 



CA- 



Década VIII. Cap. XXIX. 23? 

CAPITULO XXIX. , 

Das duvidas que fe moveram em Goa fo^ 
bre fe venderem cavallos a Mouros. 

HAvia mais de fefTenta annos que os 
Portugiiczes corriam com efte Contra- 
to dos cavallos pêra o Pveyno de Nizamo- 
xá , Idalxá , Bifnagá , Maíiilipatao , e outros , 
fendo coufa tão defeza pela Bulia da Cea > 
em cuja defeza parece que caliiam todos os 
moradores de Goa , e Chaul , fem fe dar re- 
médio a iífo , nem fe tratar d cite efcrupu- 
lo. Eíte verão em que andamos , fendo Ve- 
readores de Goa D. João Lobo 5 Pedro da 
Silva de Menezes , e outro que me efque- 
ce , querendo atalhar tamanho efcrupulo , 
fizeram huns apontamentos 3 e moítráram as 
razoes muito licitas que havia pêra fe po- 
derem vender cavallos aos Mouros , pêra 
que fe propuzeífem emeonfelho deTheolo- 
gos , e Letrados , pêra que fobre fuás ra- 
zões determinaífem , fe era licita cita ven- 
da de cavallos. O Vifo-Rey ajuntou pêra 
iífo a confelho o Arcebifpo de Goa D. Gaf- 
par Meítre emTheologia , Aleixo Dias Fal- 
cão Inquilidor Apoftolico , grande Canonif- 
ta, o Padre André Fernandes Deão de Goa, 
António de Quadros Provincial de S. Pau- 
Jo > homenj muito douto y Francifco Pvodri*. 

guês 



■236 ÁSIA de Diogo de Couto 

guês o Manquinho da Companhia , que tam- 
bém era muito douto, e tinha fido Provin- 
cial , o Padre Fr. António Pegado Vigário 
geral dos Dominicos , também muito dou- 
to em Theologia , e grande Efcriturario , 
Fr. Paulino Cuftodio de S. Francifco , Fr. 
Aleixo de Setuval Prior de S. Domingos, 
e outros Doutores em ambos os Direitos ; 
e difputada a matéria entre elles , de com- 
mum acordo affentáram o que fe verá pe- 
los itens de fuás refpoítas , pelas quaes fe 
entenderam as duvidas que os Vereadores 
apontaram , que por efcufar proiuxidade , 
deixo de referir , e de huma coufa , e ou- 
tra tenho em meu poder os próprios afli- 
gnados por todos eftes Letrados , que eu 
communiquei , e conheço muito bem feus 
íinaes , com as propoítas ; e a refpofta he 
efta : em as mefmas razões dizem os Verea- 
dores que EÍRey D. Sebaftião tinha man- 
dado pedir Breve ao Papa pêra feus vaífal- 
los tratarem em cavallos , o qual eu não vi ; 
e veriíimel he que o concederia , pois o tra- 
to dos cavallos foi por diante , e não cef- 
fou. 

Viftas as razoes oíFerecidas , e mais in- 
formações que do cafo fe tem, parece que 
eftando as coufas deite Eílado no que hora 
eftam , fe podem deixar paíTar , e vender ca- 
vallos peraosReynos doldalcao^ Nizama- 

lu- 



Década VIII. Cap. XXIX. 237 

luco , Cotamaluco 3 Madre Maluco , Verido , 
Nizamoxá, eBifnagá, comoatégora fefez, 
dado que feja revogada por S. Santidade 
em a revogação geral a Bulia Apoftolica, 
por que era concedido aos Officiaes de Sua 
Alteza , e feus vaífallos poderem-os vender, 
e deixar paliar 5 e outras coufas defezas por 
direito , e Bulia da Cea aos Infiéis , com li- 
cença de S. Alteza. 

Porque não ha guerra contra os ditos 
Reys infiéis, nem provável efperança de a 
haver ; e ainda que a haja , não fe faz a ca- 
vallo , por não haver difpoíição pêra iffo, 
e alguma que fe pode fazer, he tão pouca, 
de maneira que pouco dano , ou nenhum 
podem fazer com elles ; e não lhos deixan- 
do paffar , feguir-fe-ham muitos danos ao 
Eílado na falta dos rendimentos dos direi- 
tos , que pêra fua fuftentação fam neceíla- 
rios por fua muita pobreza , e neceffidade ; 
e tirando-lhos , ficará mais fraco , e pêra me- 
nos fe poder defender dos inimigos , e of- 
fendellos ; e porque não fe vendendo , e dei- 
xando paífar , como fempre fe fez , antes de 
efte Eitado ler de Chriftãos , e depois de 
o fer , efcandalizar-fe-ham diílb pela poííe 
antiga em que eftão , e pela neceffidade que 
deUes tem pêra fuás guerras , que huns con- 
tra os outros trazem , e daram veriíímelrnen- 
Cc tantos trabalhos ^ eíle Eílado por guer- 
ra. 



238 A S I A de Diogo de Couto 

ra , ou negando-llie o commercio , e coufas 
jiecefTarias de feus Reynos , de que fe efte 
Eftado fuftenta , que íerá fem comparação 
maior o dano que ie feguirá diíto ao Eftado, 
do que pudera fer , ainda que com elles lhe 
façam muita guerra , quanto mais não a po- 
dendo fazer : pelo que convém á natural , 
c neceflaria defensão do Eftado não fe im- 
pedir a paífagem, e venda de cavallos aos 
ditos iníieis. 

Porque des que efte Eftado he de Chri- 
ílãos ategora , fempre fe venderam aos in- 
íieis, como de antes fe vendiam , e nunca 
diífo recebeo o Eftado perda, e fempre pro- 
veito. 

E porque muitos mercadores Chriftaos , 
e iníieis , amigos do Eftado , os tem com- 
prado por virtude da dita Bulia, efeguran- 
ça delia , não fabendo da revogação , os quaes 
receberam grandiílima perda , não lhos po- 
dendo vender , porque não ha outrem , a 
quem fe vendam , e o perjuizo de fe ven- 
derem a eftes infiéis he pouco , ou nenhum , 
e o cabedal que fe nifto mette , he muito 
grande. 

E porque Sua Alteza tem mandado pe- 
dir a Sua Santidade a confirmação da dita 
Bulia , que já agora lhe deve fer concedi- 
da , pelas caufas pêra iílb apontadas ferem 
urgentes , e neceflarias y e fufpendendo-fe ef r 

te 



Década VIIL Cap. XXIX. 239 

te trato, pôde perder-fe de todo, o que fe- 
ra graviíumo , e irreparável dano do Efta- 
do ; e não tendo os cavallos , perde a pof- 
fibilidade de conquiftar os Reynos , e terras 
firmes , vizinhas deite Eftado , o que fem 
elles não pode fazer. 

E porque os cavallos duram muito pou- 
co entre os infiéis pelo máo tratamento , e 
continua guerra que tem ; e quando o Efta- 
do eftiver de maneira pêra conquiftar os di- 
tos Reynos , em poucos annos que lhos ne- 
gue , os não teram. 

E fe lhos hora negarem , poderam os 
ditos infiéis bufcar outros meios de lhes po- 
derem vir, o que atégora não intentaram, 
mas negando-lhos , a neceffidade lhes fará 
bufcar outro caminho ; e abrindo-lho fua in- 
duftria, prover-fe-ham delles , e o Eftado per- 
derá virem-lhe por fua mão , e os rendimen- 
tos , e proveito do commercio , e o trato del- 
les , os quaes aífim parece, eftando as coufas 
defte Eftado no que hora eftam, e até vir 
recado de S. Santidade do que nifto manda. 
E em as mais coufas prohibidas em a 
Bulia da Cea , e aífim em fe não paífarem 
cavallos pêra outras partes , a que por di- 
reito fe não podem levar, fe deve cumprir 
direitamente a dita Bulia , porque neftas cou- 
fas não ha as razões aílima apontadas. Em 
Gòa aos 20, de Novembro de 1568. 

Em 



240 AS I A de Diogo dé Couto 

Em 15*. de Janeiro de 1569. partio D; 
Jorge de Menezes Baroche por Capitão Mor 
pêra a coita do Norte , por ferem paliados 
pêra lá alguns parios , e levou huma galé 
nova tão ligeira , que neíla jornada tomou 
hum paráo a remo : levou mais fete fuílas i 
de que foram por Capitães D, Miguel de 
Caftro filho do Vifo-Rey D. João de Ca£* 
tro 5 Francifco de Souza Tavares , Fernão 
deMendoça, Manoel de Mello filho de Si- 
mão de Mello , que foi Capitão de Mala- 
ca , João Dornellas de Vafconcellos , e Lo- 
po Pereira. Não fuccedeo a eíla Armada, 
mais que tomar aquelle paráo , e recolheo- 
fe em 11. de Fevereiro, 

Logo defpedio oVifo-Rey a Ayres Tel- 
les por Capitão Mor da mefma coíla com 
outros féis navios, cujos Capitães foram D* 
Francifco de Almeida filho do Contador 
Mor , Manoel de Saldanha , D. Henrique 
de Menezes , D. António de Caftello-bran- 
co , que em moço chamávamos o Frade, 
Francifco de Toar , e Eftevão Gomes ; e 
eíla Armada também não fez mais que guar- 
dar a coíba, e recolheo-fe em 18. de Abril. 

Entregue D. Diogo de Menezes da Ar- 
mada por morte deMartim Aífonfo de Mi- 
randa , foi-fe logo a correr a cofta do Ma- 
lavar , na qual fez toda a guerra poífivel, 
queimando muitas povoações y e tomando 

mui- 



Década VIII. Gap. XXIX. 24* 

muitos navios , tudo por ordem de Anto-í 
nio Fernandes Malavar, grande cavalleiro, 
e da maior pratica daqueila coíla que to- 
dos os de feu tempo , do qual D. Diogo de 
Menezes fiava grandes coufas , que por elle 
mandou commetter , fazendo-^o Capitão Mor 
dos mais honrados Fidalgos , e Capitães da 
fua Armada , que todos folgavam de o fe- 
guir , e ainda lhe mettiam pedreiras pêra 
iílo ; porque ainda neíTe tempo havia curió- 
fos do ferviço de EIRey ^ e de ganharem 
honra , o que não fei fe depois veio a fal- 
tar. Em fim D. Diogo de Menezes deo tan- 
tos aílaltos nos portos do Çamorim , e ma- 
tou-lhe tanta gente , que o poz em defef- 
peração > e fendo tempo de recolher as náos 
da China, Malaca, e outras partes, foi-fe 
a Cochim , onde ajuntou huma fermofiffima 
cáfila de náos, e navios, com que fe partio 
pêra Goa , onde foi muito bem recebido do 
Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde. 

Eftavam as coufas do Çamòrim de tão 
má feição, que receando o Vifo-Rey haver 
alguns moviííientos contra Cranganòr , or- 
denou de mandar invernar em Cochim ao 
mefmo D. Diogo coiíi huma boa Armada 
pêra fegurar as coufas de que fe temia , e 
pêra lá fahir em principio de verão pêra a 
Malavar , pêra continuar naquella guerra, 
e-por trabalhar impedir a fahida dosparáos 
Couto. TonuF. P*L (\, pe- 



i\i ASIÀ de Diogo deCoWo 

pêra a coita do Norte , onde faziam gran- 
des roubos \ e tanta preffa deo á Afinada 
que havia de levar , que defpedio D* Dio- 
go em o primeiro de Maio com finco ga- 
lés j e três galeotas Latinas , e vinte navios , 
Capitães das galés foram , afóra o Capitão 
Mor , D. Gonfalo de Menezes , Fernão Tel- 
les , Manoel de Siqueira ,. D. Duarte de Li- 
ma. Galeotas Latinas Diogo deAzambuJ3, 
Chriftovão Juzarte Tição , e Vicente de Sal- 
danha. Das fuftas Mathias de Albuquer- 
que , Manoel de Miranda , Ignacio de Li- 
ma , Gripar de Mello da Cunha , Martim 
Affonfo de Mello Pombeiro 9 Jorge Pimen- 
tel de Mefquita , D. Pedro Coutinho , D. 
Luiz de Caltello-branco , D. Manoel Perei- 
ra filho de D. António Pereira , D. António 
de Caftello-branco , António Lobo de Bri- 
to, Eftevão de Valadares, Ambroíio Peres , 
Apollinario de Vai de Rama , Chriftovão 
de Araújo Evangelho, Brás Fragofo, Luiz 
dê Aguiar , e Diogo Martins Pedrofo. Com 
efta Armada chegou D. Diogo a Cochim a 
10. do mefmo mez , e logo mandou tirar a 
eftaleiro as fuftas ; e as galés > e as galeo- 
tas ficaram no rio mui bem amarradas , por 
ferem alli as correntes mui grandes ; e to- 
da a gente da Armada , que feriam qui- 
nhentos homens , repartio por quatro ban- 
deiras, que todas as noites vigiavam a Ar- 
ma? 



Década VIII. Cáv. XXIX, 243 

mada todo o inverno aos quartos com mui* 
to cuidado ; e o Capitão Mor não ficou de 
fora , porque todas as noites rondava a Ci-» 
dade , pêra fe nella não commetterem dif- 
íoluções i coufa mui ordinária entre Tolda- 
dos , e não houve entre elles brigas ao me- 
nos de importância , pelo grande cuidado 
que o Capitão Mor teve fempre de os apa- 
ziguar , e caftigar quando era neceílario. No 
mefmo tempo que D. Diogo partio pêra o 
Malavar , o fez João Gago de Andrade pe^ 
ra Maluco com muitos provimentos , e foi 
^m fúa companhia Manoel Lopes Carrafco 
em huma não fua pefa ir a Sunda pòí contrac- 
to que fez com o Vifo^Rey , de cuja via- 
gem ao diante darei razão. 

Tanto que entrou o mez de Agoílo* 
Jogo o Capitão Mor D. Diogo poz a fua 
Armada no mar mui bem reformada ; e co- 
mo foram 20. daquelle mez, fe embarcou , 
e foi correndo a coíía do Malavar com tem- 
po ainda invernofò , e muitas ? e defcom- 
paíTadas chuvas , que por toda aquella cof- 
ta ha : até todo o mez de Outubro fe dei- 
xou andar ; e a principal coufa em que en- 
tendeo , foi em lhe tomar as barras , perá 
não poderem fahir as náos pêra Meca , que 
eífa foi a principal caufa de fahir tão cedd 
de Cochim , e em lhe impedir os manti- 
mentos que lheyão da cofia doGanari, de 

QJi que 



244 ÁSIA dê Diogo de Couto 

<jue fe elles provem 5 por em toda a terra 
do Malavar os não haver, porque nem el- 
les fam lavradores , nem a terra he. capaz 
-de. mais , que de alguns legumes poucos, 
•com o que poz todos aquelles povos em gran- 
de opprefsâo ; e porque foi avifado que em 
Nillachirão eítavam alguns paráos pêra fa- 
hirem a roubar, foi fobre aquelíe rio, eos 
mandou pedir ao* Governador da terra. 

E como osdaquelle rio fam bellicofos, 
efoberbos, refpondêram-lhe deípropoíitos , 
de que o Capitão Mor defconfiado mandou 
entrar huma madrugada duzentos foldados 
«m oito fuítas , que com grande valor en- 
traram a Cidade, ainda que acharam gran- 
de refiftencia ; e como toda he cuberta de 
pias , que ardem como eílopas , foi logo en- 
tregue ao fogo , e no meio delle fizeram os 
•noífos grande eftrago na gente da terra , e 
.nos palmares , e fazendas que lhes corta- 
ram , e puzeram por terra , o que fizeram 
por finco dias contínuos , em que defem- 
barcáram todas as madrugadas , deixando 
tudo arrazado , e deftruido , e trouxeram 
comfigo os paráos. E porque o Senhor do 
rio de Pedá mais aííima do Nillachirão ti- 
nha tomado o dinheiro, com que ^fe foi fa- 
zer a pimenta pêra a carga das náos fobre 
•fegura , foi fobre, elle , e lhe mandou dar 
em terra > ao que pile acudio com mandar 

en- 



Década VIII. Cap. XXIX. 24? 

entregar todo o dinheiro : e por outra vez 
mandou defembarcar na povoação de Peri- 
angale huma légua de Calecut, grande af- 
fronta pêra o Çamorim , e dentro no rio 
lhe queimaram huma náo de Meca , e par- 
te da povoação , e lhe mataram muita gen- 
te ? que fedefendeo valerofamente , per ha- 
ver alli muita efpingardaria , é Uiq queima- 
ram muitas embarcações , e trouxeram algu- 
mas á toa. Paliado ifto , mandou o Capitão 
dar em outro lugar mais perto de Calecut , 
onde os noílbs queimaram outra náo de Me- 
ca , fobre o que houve grande reíiftencia i 
e muitas bombardadas , por ferem aquelles 
Mouros homens bellicofos , e citarem tão 
vizinhos ao feu Rey : e aífim lhe queima- 
ram os noflbs outra povoação entre Capo- 
cate , e Coulete , onde os foldados houve- 
ram algumas prezas ; e fendo avifado que 
em Coulete havia duas náos de Meca , man- 
dou o Capitão Mor entrar o rio pelos na- 
vios de remo, que a pezar de muitas bom- 
bardadas, e efpingardadas que acharam , def- 
amarráram as náos , e dous paráos que ef- 
tavam com as rigeiras em terra , e as tira- 
ram á toa pêra fora com morte de muitos 
Mouros, e algum dano noífo, porque ma- 
taram dous foldados , e feriram dez , ou do- 
ze. Em quanto D. Diogo de Menezes an- 
dava fazendo eftas coufas; e outras que adi- 

an- 



246 ÁSIA de Diogo de Couto 

ante aon tarei , fera bem darmos razão de 
algumas coufas que no mefmo tempo íuo 
cederam. 

CAPITULO XXX, 

J)a grande, efamofa vzãoria que Mem Lo* 

pes Çarrafco alcançou de huma pode- 

roja Armada do Achem* 

DEixámos partido de Goa João Gago de 
Andrade pêra Maluco, e Mem Lopes 
Carrafço pêra a índia; e indo fazendo fua 
viagem 5 fuceedeo apartarem-rfe , e o Mem 
Lopes adiantar-fe .até haver vifta da barra 
do Achem , na qual encontrou huma Arma^ 
da de mais de duzentas velas , em que en- 
travam vinte galés, e outros tantos juncos , 
a qual tinha fahido do dia de antes , e neU 
la hia a peíToa do Rey com toda a fua po^ 
tencia pêra tornar fpbre a Fortaleza de Ma- 
laca , por ver fe fe podia defaffrontar do 
ruim fucceíTo paífado com tomar aquella For- 
taleza, com que elle fonhava todas as ho^ 
ras. 

Tanto que Mem Lopes vio a Armada , 
de que fe não podia defviar , preparou-fe 
pêra fe defender delia , porque bem fabia 
que lhe era aílim neceffario pêra remédio, 
e vida de todos , porque aquelles inimigos 
não havia poder-fe pleitear com elles , por-. 

que 



Década VIII. Cap. XXX, 247 

que não dam a vida a Portuguez algum pe- 
lo mortaliffimo ódio que lhe tem : e aííim 
mandou tirar as monetas , e encher tinas 
de agua, e preparar fua artilheria, de que 
levava fete , ou oito peças , camellos , efpe- 
ras , e falcões ; e a gente que levava , que 
eram quarenta homens , repartio pelos lu- 
gares mais arrifeados , pondo na proa Mar- 
tim Lopes Carrafco feu filho com dez ho- 
mens ; e Franciíco da Cofta , aquelie em 
quem fallei na minha fetima Década no li- 
vro nono, capitulo fegundo, de efpia com 
hum feu irmão, aquém naofoube o nome, 

Íoz na popa com outros dez foldados ; ea 
um Martim Daço primo de Mem Lopes 
encarregou a artilheria ; e elle ficou no con- 
véz com os mais , e com elles o Padre Fran- 
cifeo Cabral da Companhia de Jefus , que 
depois foi Provincial daquellas partes , e hum 
Frade de S. Francifco , que ambos com hum 
Crucifixo nas mãos andavam animando a to- 
dos a fe defenderem daquella Armada, que 
já tinha cercada a náo , e a começou a ba- 
ter com grande terror , e brabofidade , e lo- 
go a começaram a deftroçar , e defenxarfear , 
e abrir-lhe muitas arrombadas com os pe- 
louros que varavam a náo ; mas também os 
nofibs fizeram valerofamente feu officio, def- 
troçando-lhes com fua artilheria muitas das 
fuás embarcações x ematando-lhes muita gen- 
te; 



24S AS IA de Diogo de Couto 

te ; porque corno o mar eftava cuberto de 
embarcações , não tinham as balas da nof- 
fa artiiheria , por perdidas que foffem , on- 
de dar , fenao nelias. Durou efta referia to- 
do o dia , porque era já vefpera , quando 
a batalha fe começou , que a Armada do 
Achem íe apartou 9 e furgio ; e os nolíos , 
de que havia já alguns feridos , fe curaram , 
c mandaram remediar > e tapar as abertu- 
ras que as bombardadas lhe fizeram , e pre- 
parando-fe pêra outras que efperavam , por- 
que a Armada do inimigo também furgio 
afaftada pêra lançar os mortos ao mar , ç 
curar os feridos , que eram muitos. 

Ao outro dia tanto que amanheceo , tor- 
nou a Armada a rodear a náo , e a batei- 
la ., e deftroçalla com nova fúria; mas tam* 
bem os noffos lhe refpondêram y como fe e£ 
tiveram muito defcançados , e inteiros , o- 
brando todos altas cavallarias : os inimigos 
apertaram tanto 5 que chegaram três galés 
muito poderofas a abordar anáo 5 andando 
nefte conflifto os Padres ambos no meio de 
todos com Crucifixos levantados , animan- 
do os noíTbs a pelejarem pela Fé de Chri- 
flo 5 que fe lhes aprefentava diante por Ca- 
pitão ; e de tal modo accendeo efta exhor- 
tação a fúria 5 e valor aos noííos , que de* 
ram com os inimigos ao mar , ecomaqueí- 
le ímpeto ; e furor fe lançou apôs elles em 



Década VIII. Cap.XXX. 249 

huma das galés o Martim Daço com huma 
eipada , e rodella , fazendo grande eftrago 
nos Mouros 5 fendo de íima ajudado coma 
efpingardaria ; e chamando Mem Lopes Car- 
rafco por eile que fe recolheífe , lhe refpon- 
deo , que o não havia de fazer até render 
aquella galé, porque a havia de tomar em 
lugar do batel da náo que os Mouros lhe 
tinham já tomado ; e fendo a galé foccor- 
rida de outras , foi forçado ao Martim Daço 
recolher-fe com algumas feridas bem gran- 
des. 

O Mem Lopes Capitão, e Senhorio, da 
náo andou todo aquelle tempo como hum 
alarve encarniçado na briga , e tinto da pól- 
vora , e de feu fangue , de feição que o não 
conheciam peio rofto , fenão pelas armas ; 
e andando iòccorrendo pelas partes todas , 
em que os noífos pelejavam valerofamente , 
lhe deram huma bombardada por huma per- 
na , e logo correo fama pela náo que eile 
era morto : chegou ao caííello de proa , on- 
de feu filho Martim Lopes Carrafco tinha 
feito maravilhas em fua defensão ; e dizen- 
Ihe hum foldado que feu pai era morto : Se 
ãjjim he y morre o hum fá homem , e aqui Jí* 
camos muitos , que defenderemos a náo. O 
Mem Lopes , como aferida não foi mortal , 
e não lhe impedio o andar , fez feu oííicio 
com grande valor > andando fempre a par 

dei- 



ajro ÁSIA de Diogo de Couto 

delle o Padre Francifco Cabral da Compa- 
nhia muito inteiro , e com grande animo, 
e prudência animando , e confolando a to- 
dos , como aquelle que fendo foldado , fe 
tinha achado em outro confli&o não menor , 
que foi com Gonfalo Pereira Marramaque 
no eitreito de Ormuz, quando quinze galés 
lhe bateram o feu galeão 5 e o deixaram ra- 
fo com o mar , fem lhe deixarem coufa , em 
que fe pudeíTem pôr olhos , como tenho con- 
tado na minha fexta Década , livro decimo , 
capitulo treze. O Padre de S. Francifco fem- 
pre andou também com o Crucifixo alen- 
tando os foldados , e chamando pelo Bem- 
aventurado Sant-Iago r animando os homens 
com palavras muito honradas ; e por não 
cançar aos leitores , e mais aos deite tem- 
po, a quem eftas coufas juntamente enver- 
gonham , e enfaftiam , baila dizermos que 
três dias continuos foram os nolfos batidos 
de toda aquella Armada , até os deixarem 
arrafados de todos os caííellos , e maítros , 
e a mor parte da gente morta , e os mais 
feridos , e no fim dos ditos três dias os ini- 
migos fe afaftáram, por apparecer o galeão 
de João Gago de Andrade ; e foi o dano 
tanto que os noífos fizeram nelles , que fe 
tornaram pêra o Achem com mais de qua- 
renta embarcações menos , e as mais tãodef- 
troçadas , que fe não atreveram aprofeguir 

na 



Década VIII. Cap. XXX. 25- r 

lia começada viagem , ficando o Rey tão af- 
frontado , e colérico , que hia bradando con- 
tra Mafamede , e contra os feus , dos quaes 
mandou defpedaçar muitos , por tomar nel- 
les a vingança que nos Portuguezes não pode. 
João Gago de Andrade chegou á náo, 
c pafmou de ver aquelle deftroço , porque 
não havia em que pôr olhos ; e porque não 
eílava pêra navegar , lhe deo alguns peda- 
ços de entenas com algumas cordas , do que 
armarão huma cruzeta com hum pedaço de 
vela , com que foi feguindo fua viagem ; e 
João Gago de Andrade , tanto que a vio ir 
aviada , velejou , e chegou a Malaca , onde 
dco novas do que paliara : o que fabido pe- 
lo Capitão D. Leoniz Pereira , o tornou a 
mandar bufcar á náo , o que elle logo fez , 
e a encontrou no cabo Rachado , e a acom- 
panhou até Malaca ; e Mem Lopes com os 
Padres , e mais companheiros , da mefma 
maneira que efcapáram da batalha , defem- 
barcáram em terra , onde o Capitão , Cida- 
de, Cabido, e Padres das Religiões os. es- 
peravam ; e os receberam com triunfo , e 
os levaram em procifsão á Matriz , onde 
deram graças ao Altiffímo Deos da mercê 
que lhes fizera : e por efte fucceílb não fi- 
cou a náo capaz de ir fazer a viagem do 
contrato, e na monção da índia fe foi em 
companhia das outras , porque a negocia- 
ram 



%$z ÁSIA de Diogo de Couto 

ram demaftros , velas > vergas , emais obras 
que fe lhe puderam fazer das que lhe falta- 
vam» Eftas novas chegaram ao Reyno , que 
as efcrevêram ao Vifo-Rey o Capitão , Ci- 
dade y e o Bifpo de Malaca ; e como ain- 
da naquelle tempo eram os merecimentos a 
maior valia 9 vendo EIRey que aquelle ca- 
fo era digno, de remuneração , pelo credito 
que deo ao Eílado, mandou a Mem Lopes 
Alvará de Fidalgo com boa moradia , e o 
Habito de Chrifto com boa tença , e ficou 
fem^re honrado , e eílimado de todos os 
Vifo-Reys , porque feu valor era digno de 
toda a eíiimação que delle fe fizefle. 

Nefte inverno proveo o Vifo-Rey em 
muitas coufas neceífarias ao bom governo ; 
e porque foi avifado que osChatins deBar- 
cellor não queriam pagar as páreas, e que 
no rio Sanguifel fe armavam alguns coítai- 
ros pêra fahirem a roubar , ordenou huma 
Armada pêra caftigar eítes infultos, que conf- 
iava de dez navios , de que foi Capitão Mor 
Pedro da Silva de Menezes , que naquella 
coita do Canará tinha alcançado a grande 
vicio ria , de que já atrás fizemos menção, 
qqual fahio de Goa em Agofto com os Ca- 
pitães feguintes , Diogo Pinto , António, da 
Silva , Heitor da Silveira , João de Siqueira , 
António Vas Corrêa , Vicente Paes , Jorge 
Cabral , Vicen te Carvalho ^ e António .DeJt* 



Década VIII. Cap. XXX, 25-3 

gado j e fazendo fiia viagem , foi até o rio 
deSanguifel, o qual entrou com Pilotos que 
o guiaram , e foi por elle aílima íinco lé- 
guas até á povoação do Naique , que era 
vaííallo do Idalxá , e eftava levantado , e 
achou na fua praia finco navios varados , efr 
quipados já pêra fe lanharem ao mar ; e 
defembarcando em terra pelo meio de mui- 
tas bombardadas que lhe atiraram , mandou 
pôr fogo aos navios , que todos arderam 
breviilimamente ,- e mandou fazer o mefmo 
á povoação que era grande ; e deixando tu- 
do feito em carvão , e cinza , fe embarcou 
com grande trabalho , por carregarem mui- 
tos dos inimigos fobre os noifos , e pofto 
<jue houve alguns feridos 5 fe recolheram 
lem mais dano. 

Acabado aquelle negocio , foi Pedro da 
Silva pela coita do Canará adiante , pêra 
ver fe achava alguns navios dosMalavares, 
que alli hiam naquelle tempo bufcar arroz ; 
e chegando ao rio de Barcellor , foube por 
efpias que eftava com pouca gente , pelo 
<jue determinou dar nella , de que aviíbu 
aos Capitães , pêra que fe preparaílem pê- 
ra entrarem de noite , e darem na Cidade 
no quarto da alva, como fizeram; e com- 
ine ttendo a Fortaleza com muita determi- 
nação, a entraram pela acharem com pou- 
ca gente , e deícuidada de tal fobrefaltoj 

e 



2^4 ÁSIA de- Diogo de Couto 

e todavia teria dentro duzentos homens , que 
fe defenderam muito bem, dosquaes foram 
mortos iincoenta , e cativaram feflenta , e 
mandou o Capitão Mor embarcar quatorze 
peças de artiiheria que achou na Fortale- 
za , e muitas efpingardas , e armas , e hu- 
ma bandeira ; e os Toldados faqueáram as 
cafas , em que acharam boa preza , e den- 
tro na Fortaleza eítiveram dous dias , nos 
quaes acudiram os Chatins com ajuda dos 
vizinhos, trazendo íinco mil homens, com* 
os quaes cómmettêram entrar a Fortaleza , 
que os noíTos lhe defenderam todo aquel- 
le dia com muito valor , e tanto eftrago 
dos inimigos y que lhes mataram duzen- 
tos e fincoenta, af ora muitos feridos, com 
o que fe recolheram já fobre a tarde , fi- 
cando dos noííbs mortos íinco , e ferjdos 
quinze ; e tanto que a noite fe cerrou , fe 
fahíram os noíTos da Fortaleza com as armas 
nas mãos em milito boa ordem , e fe em- 
barcaram nos navios , fem terem opprefsão , 
nem reíiílencia ; e poftos na^barra , ajunta- 
ram as embarcações de mercadores > que e£ 
tavam carregadas de arroz , e fe partiram 
pêra Goa, aonde chegaram a íinco de Ou- 
tubro. 

Poucos dias depois de Pedro da Silva 
partir pêra o Canará , defpedio o Vifo-Rey 
as náos dos mercadores , que eílayam já car- 

re- 



Década VIII. C$p. XXX. ' 257 

regadas pêra Malaca , nas quaes mandou 
embarcar André da Fonfeca pêra Veador 
da fazenda daquella Fortaleza : e pelas car- 
tas que achou de D. Leoniz Pereira , do 
grande cerco que o Achem lhe poz , e a vi- 
éloria que lhe Deos dera delle , mandou em- 
barcar nas náos dos mercadores officiaes de 
obras , e Pedreiros , pêra reformarem aquel- 
la Fortaleza , que ficou deílruida do cerco 
paflado : e deo ordem a André da Fonfe- 
ca , que do rendimento da Alfandega com- 
praíTe em Malaca mil candís de arroz , por 
eftar lá muito barato , e o mandaíTe a Cei- 
lão , repartidos pelas náos que haviam de 
partir em Janeiro , ou que compraíTe pêra 
líTo hum junco : e que do mefmo modo com- 
praíTe , e mandaíTe pêra os armazéns de Goa 
dous mil candís de arroz. Eílas prevenções 
fe£, porque aquelleanno não paíTou nenhu- 
ma náo a Bengala, e parece que lhe adivi- 
nhava o coração que o havia de haver mis- 
ter pêra alguma nçceíTidade , como logo fe 
lhe offereceo dos grandes , e memoráveis 
cercos de Goa , e Chaul : e aíHm efcreveo 
ar André da Fonfeca, que lhe mandaíTe mui- 
to breu , entenas , e vergas pêra galés , e 
galeões , porque os ha lá excellentes de pu- 
na grandes , leves , e forres : e partiram ef- 
tas náos até 20. de Setembro. Neíta mon- 
ção partio pêra a China Trilião Vas da Vei- 
ga, 



%ç6 ÁSIA DÊJ3I0G0 de Couto 

ga f pêra fazer huma de duas viagens , de 
que tinha provimento pêra Japão. Foi tam- 
bém Álvaro Paes de Távora entrar na For- 
taleza de Damão , por acabar feu tempo 
D. Pedro de Almeida que nella eftava. 

Dei pedidas ellas Armadas , o fez o Vi-- 
fo-Rey também a quatro navios , pêra fe 
irem ajuntar com a Armada de D. Diogo 
de Menezes , que andava no Malavar , dos 
quaes foram por Capitães Ruy Dias Cabral y 
D. Manoel Pereira, João da Silva Barreto r 
filho baila rdo do Governador Francifco Bar- 
reto , e D. Henrique de Menezes , dos quaes 
navios nomeou D. Luiz de Ataíde por Ca- 
bo a Ruy Dias Cabral , affim por fer mais 
velho que os outros, e caiado, como pela 
aífeição que EIRey D. Sebaftião fempre Uiq 
moftrou, pela qual, porque não foíle mais 
por diante , o quizeram os Governadores ti- 
rar daprefençadeElRey , e ordenaram com 
que o mandaífe pêra a índia, e lhe deo hu- 
ma viagem da China pêra Japão ,. que era 
coufa de muita importância : e dizem que 
lhe prometteo EIRey a Fortaleza de Ormuz 
por. huma carta que aquelle anno tivera y 
toda da letra de EIRey , muito mimofa , a 
qual elle trazia de continuo.no feio. . 

Partidos eftes navios pela cofta doMa^ 
lavar , encontraram finco , ou féis paráos:,. 
que logo commettêranv com grande 'deter- 

mi- 



Década VIII. Cap. XXX, 15-7 

minaçao , e entre todos fe travou huma mui- 
to arrazoada batalha , na qual não fei que 
Capitão no mor confliÁo delia deixou a Ruy 
Dias Cabral , e aos outros , que depois de 
fazerem maravilhas 3 foi o malogrado man- 
cebo Ruy Dias Cabral morto cem os feus 
foldados , e D. Henrique de Menezes ficou 
cativo com muitas feridas , e depois foi re£ 
gatado por via de Cananor. Efta defgraça 
fentio muito o Vifo-Rey ; e D. Diogo de 
Menezes , que andava na coíla fazendo guer- 
ra ao Çamorim , em lhe dando eftas novas y 
deitou íogo inculcas fobre eítes pardos , pê- 
ra faber o rio em que fe recolheram ; po- 
rém nunca pode delcubrir nada diíto , por- 
que logo fe acolheram com a preza : e te- 
ve dalii em diante grande vigia fobre os 
paníos que tomou aos Malavares pelo dif- 
curfo do verão, em que lhes matou muita 
gente , e tomou mil Mouros vivos , que re- 
partio a banco nas galés y e galeotas. 

Tinha o Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde 
defpedido pêra o Norte D. Paulo de Lima 
com huma galé , e féis navios > pêra fe ir 
ajuntar com Martim Aífonfo de Mello Ca- 
pitão de Baçaim , e com elle Jorge de Mou- 
ra , que havia de ficar invernando naquella 
Fortaleza , que todos haviam de ir dar hum 
grande caftigo ao Rey de Cole , que com 
o de Sarzeta andaram infeíiando as terras 
Couto. Tom. V. P. L R de 



25§ ÁSIA de Diogo de Couto 

de Baçaim , e quaíi como fenhores delias, 
comiam fuás Aldeãs r e arrecadavam feus 
rendimentos : o qual D. Paulo partio na en- 
trada defte anno de 1569. comhuma galé, 
em que elle hia , e os mais navios , de que 
foram por Capitães António de Azevedo, 
Manoel Ferreira de Figueiredo , Gafpar de 
Mello , Martim AíFonlb de Mello Pombei- 
ro , Gomes da Rocha , e Nuno Ferrão da 
Cunha , e em fua companhia foi Jorge de 
Moura , collaço do Principe D. João , em 
humagaleota comílncoenta homens, o qual 
havia de ficar invernando em Baçaim por 
Capitão da foldadefca : e levou D. Paulo 
huma cáfila que deixou pelas Fortalezas. E 
chegando a Baçaim , puzeram em ordem a 
jornada contra o Cole; e o Capitão da For- 
taleza Martim Affonfo de Mello ajuntou a 
gente de cavallo que havia, que feriam oi- 
tenta homens pouco mais ou menos , em ca- 
valíos Arábios , e mandou chamar os PaíTa- 
gís , que fam dous ou três irmãos gentios 
vaíTallos do Eílado , que cornem muito grof- 
fas Aldeãs nas terras de Baçaim , que fe cha- 
mam Sabajú \ que lhe Francifco Barreto dei- 
xou com obrigação de acudirem logo todas 
as vezes que os chamaíTem , com duzentos 
peães , e íincoenta cavallos ; e das tranquei- 
ras mandou o Capitão chamar outros du- 
zentos peães , e com todo o poder junto fe 

3P* 



Década VIIL Cap. XXX. 25-9 

puzeram em campo , onde fe fez refenha da 
gente , e acháram-fe oitocentos Portugiiezes 
com mais de quatrocentas efpirigardas , afo- 
ra a gente de cavallo , e aí li ordenaram o 
modo que haviam de ter em commetterem 
os inimigos , que foi efte. D, Paulo de Li- 
ma com a gente de fua Armada 5 que fe* 
riam quatrocentos homens na vanguarda com 
os PaíTagís , e fua gente : Jorge de Moura 
na retaguarda com duzentos homens ; e o 
Capitão da Cidade no corpo da batalha com 
outros , e toda a peonagem das terras de Ba- 
çaim, e a gente de cavallo pelas ilhargas. 
Com efte cabedal fe panaram a Mano- 
rá 5 e dalli fe foram marchando em bufca 
dos inimigos , que eftavam na Aldeã Palé. 
Teriao o Cole 5 e Sarzeta mais de dous 
mil de pé , e quatrocentos de cavallo , em 
que entravam alguns Magores , e Dalarís , 
gente alva , e limpa ] os quaes eftavam já 
iòbre avifo , e efperavam os noíTos em cam- 
po. D.Paulo de Lima, que hia na diantei- 
ra com os PaíTagís , rompeo logo nos ini- 
migos com muita determinação j appellidan- 
do Sant-Iago , e entre elles fe travou huma 
afpera batalha , de que nas primeiras pan- 
cadas derrubaram os noflbs mais de cento 
dos inimigos ; e chegando todo o refto do 
exercito i rompendo nelies - os desbarataram , 
e puzeram em fugida, deixando em. poder 

R ii dos 



a6o ÁSIA de Diogo de Couto 

dos noííbs o feu arraial, em que os Tolda- 
dos acharam ainda algumas prezas. E pêra 
que eíta viétoria não íòfle de todo perfei- 
ta 5 a quiz a fortuna aguar com hum def- 
goíto j como faz a todas as coufas da vida. 
Succedeo que ficando atrás hum dos Capi- 
tães da companhia de D. Paulo de Lima , 
que foi Manoel Ferreira de Figueiredo , com 
íeus foldados , e vindo feguindo o caminho 
dos noílos , encontraram com elles os ini- 
migos que hiam fugindo desbaratados ; e 
i*emettendo a elles , pofto que fe defenderam 
muito bem fobre hum tezo que tomaram, 
foram todos mortos , mas não fem dano feu , 
porque primeiro que perdeílem as vidas , as 
tiraram a muitos dos inimigos. 

Desbaratados os Mouros , foram os no£ 
fos entrando por fuás terras , e deítruindo- 
Ihes fuás Aldeãs , até chegarem a huma ar- 
razoada Cidade do Cole chamada Darila, 
de cafas grandes de pedra , e telha , a qual 
entraram , e cativaram , è mataram muitos 
dos moradores , e mercadores da Cidade > 
a qual foi entregue ao fogo , em que toda 
fe confumio. Daqui paliaram a outra Cida- 
de também grande , chamada Vazem , a 
que fizeram o mefmo , e lhe deftruíram feus 
campos , cortaram feus arvoredos de fruto > 
e fizeram todos os mais danos que pude- 
ram. Com iíto feito fe foram os noíTos re- 
co- 



Década VIII. Cap. XXX. 261 

colhendo pêra Baçaim, paíTando por entre 
caminhos muito eítreitos , e por entre fer- 
ras , e matos de bambuaes mui efpeílbs , 
por meio dos quaes era neceflario irem a 
pé, elevarem qs cavallos pelas rédeas , co- 
mo eu fiz algumas vezes , lendo Capitão de 
Tarapor , que entrei por eílas terras , e por 
entre matos , donde fahimos todos efcala- 
vrados pelas mãos , roítos , e pernas dos bam- 
buaes , que cortam como navalhas. Por ef- 
tes caminhos paliaram eíles Capitães gran- 
des trabalhos ; porque como eíles Coles fam 
como bogios 5 que faltam de ramo em ra- 
mo , affim por eíles matos , fem os ninguém 
ver, foram perfeguindo os noflbs , frechan- 
do-os á fua vontade, porque ficavam deíi- 
ma , e os noífos hiam pelo caminho debai- 
xo hum e hum , por não fer elle capaz de 
mais. Em fim com infinito trabalho , rifco , 
e dano chegaram todos a falvamento á nof- 
fa tranqueira de Saibana , onde defcançá- 
ram , e fe foram pêra Baçaim , ficando os 
inimigos tão quebrantados , que muitos tem- 
pos não buliram comíigo. 

Feito efte negocio , partio-fe D. Paulo 
pêra Goa com huma cáfila , e Jorge de Alou- 
ra ficou invernando em Baçaim \ e indo D. 
Paulo feu caminho, tanto avante como Ca- 
rapatao , encontrou huma efquadra de dez 
paráos , que o foram commetter , e entre 



1&2 ÁSIA de Diogo de Couto 

elles fe travou liuma afpera batalha , em 
que houve muito dano de ambas as partes, 
faltando a D. Paulo hum ou dous navios dos 
feus , que fe lhe foram efcoando ; e por fim 
da referta cuido que tomou D. Paulo dous 
paráos , e os outros fe foram desbaratados : 
e com eíta vióloria fe foi pêra Goa ; porque 
foi tão venturofo eíle Fidalgo , que nunca 
fahio pela barra fora por Capitão de Arma- 
da, que foram muitas vezes 5 que não en- 
contraífe parios , e que não pelejaífe com 
elles, e os não venceííe. Chegando a Goa, 
foi muito bem recebido do Vifo-Pvey ; e quan- 
do o vio entrar tão gentil-homem com duas 
viftorias tão honradas , lhe difíe abracan- 
do-o : Que he i/lo , Senhor D. Paulo ? Que- 
reis que vos dcm peçonha ? querendo remo- 
quear aos outros que eftavam prefentes , por 
lhes nlo ztrem acontecido aquellas boas ven- 
turas ^ efallando oVifo-Rey a todos os Ca- 
pitães da Armada de D. Paulo , e louvan- 
do-os de cavalleiros , chegou hum dos que 
fe defviáram da briga , que era filho de Goa , 
e abaixando-fe pêra lhe beijar a mão , o 
Vifc-Rey lhe dilfe muito fevero : Andai da- 
hi : ide beijar a mão a vojfa mãi. 



CA- 



Década VIII. Cap. XXXI. 263 

CAPITULO XXXI. 

Das coufas quefuccedêram efte anno em Ma- 
luco a Gonfalo Pereira Marramaque. 

DEixámos as coufas de Gonfalo Perei- 
ra Marramaque em Amboino naquella 
grande vivíloria que houve contra os Itos na 
grande ferra do Atuciie , com a qual fe re- 
colheo pêra Amboino , levando os Itos com- 
íigo já amigos pelas pazes que fizeram ; e 
eftando naquella bahia chamada a Cova , de- 
pois de defpedir os galeões pêra Maluco > 
foi avifado que vinha liuma Armada do Sol- 
tão Babú Rey de Ternate 5 a qual elle lan- 
çou no mar depois de fer jurado por Rey, 
pêra ir em bufca de Gonfalo Pereira a Am- 
boino ? e fatisfazer-fe em tudo o que pudef- 
fe nos Portuguezes , e em todas as fuás cou- 
fas , da morte de íeu pai : na qual Arma- 
da foi por Capitão hum irmão do Rey mor- 
to , homem já velho 3 chamado Calafineo > 
grande cavaíleiro , o qual levava linco co- 
rocoras tamanhas como galés 5 das quaes a 
mais pequena remava noventa remos ; e os 
Capitães das outras eram feus parentes , que 
todos vinham ajuramentados de deílruirem 
todos os lugares de Chriílãos : e a primei- 
ra Ilha que tomaram , foi a de Burro po- 
voada de Mouros vaífalios do Rey deler- 

na- 



2,64 ÁSIA de Diogo de Couto 

nate , e alli armou mais fere corocoras : e 
mandou recado aos moradores de Varenu- 
la , Calecedes , e Cabelos , pêra que eftivek 
fem preftes pêra fazerem guerra aos Portu- 
gueses , porque elle determinava de lhes to- 
mar a Fortaleza , e deitallos fora daquellas 
Ilhas , agora que a Fortaleza eltava fó , e o 
Capitão Mor na Cova : o que todos eítimá* 
ram muito , pelo ódio que nos tinham , e fe 
negociaram pêra aquella jornada. 

D. Duarte de Menezes , que ficou por 
Capitão da Fortaleza , como já diflemos , 
foiavifado daquella conjuração, e efcreveo 
ao Capitão Mor , que logo o foccorreíle y 
porque eftava fó , e o poder era grande : ao 
que elle lhe mandou dizer, que logo feria 
com elle : ao que D. Duarte lhe mandou re- 
plicar , que fe dentro em vinte e quatro ho- 
ras o não foccorria , que lhe havia a For- 
taleza por encampada : e que logo fe havia 
de ir pêra onde elle eftava ; e porque lhe 
não deferio a efte protefto , entregou a For- 
taleza a Balthazar de Soufa com alguns pou- 
cos Portuguezes , e foi-fe por terra a ver 
com Goníalo Pereira Marramaque ; porque 
dizia elle que efta preíTa lhe não fazia te- 
mer a Armada , que a não temia , fenão os 
Itos que tinha das portas a dentro , que lo- 
go fe haviam de alevantar : e também lhe 
não pareceo que a Armada cliegaífe tão de~ 

prej&i 



Década VIII. Cap.XXXI. 265- 

{)reffa , a qual appareceo ao outro dia , e 
ogo deitaram gente defronte da Fortaleza, 
que accommettêram com tanta determina- 
ção , que chegaram a abalar os paos da cer- 
ca com as mãos. Os foldados , que eram 
bem poucos , e eíles quaíi todos doentes, 
acudiram com as armas nas mãos a defen- 
der as tranqueiras , e fizeram afeitar os ini- 
migos delias. OBalthazar de Soufa , que fi- 
cou por Capitão, vendo que os Mouros pu- 
nham fogo a huma galeota que eftava em 
eílaleiro , abrio a porta da tranqueira , e fa- 
hio fora fó com huma alabarda nas mãos y 
e remetteo a humTernate, que acertou fer 
hum Caciz , e lhe atirou hum bote , que lhe 
elle tomou em huma rodela ; e querendo-a 
tirar , não pode ; antes o Caciz chegou a 
elle , e lhe deo hum golpe com hum traça- 
do pelo pefcoço , que lho cortou , e cahio. 
Eftava áquelle tempo Balthazar Vieira , que 
depois fe chamou o Ternate j em huma gua- 
rita , muito doente ; e vendo o cafo , enca- 
rou a efpingarda no Caciz ; e tomando-o pe- 
los peitos , o derrubou morto. Era eíle Ca- 
ciz irmão de Reboange , e tio do Capitão 
Mór daquella Frota. Os Ternates em o ven- 
do cahir morto , e que a artilheria lhes der- 
ribava muitos , fe recolheram , e embarca- 
ram, e foram commetter duas fuftas nofTas, 
que eítavam no mar com dezefeis foldados 

Por- 



i66 ÁSIA de Diogo de Couto 

Portuguezes, e as entraram, e os mataram 3 
depois de elles fazerem grandes cavallarias 
em fua defensão \ e dando toas ás fuftas , as 
levaram comíigo y e fe foram pêra a Ilha 
de Varenula. 

Eílas novas chegaram logo ao Capitão 
Mor , e quem as levou por terra , encontrou 
no caminho a D. Duarte de Menezes , que 
fe tornava pêra a Fortaleza , depois de ter 
fallado com Gonfalo Pereira : o que ambos 
fentíram em extremo : e o Capitão Mor ne- 
gociou logo féis corocoras , e as mandou 
pêra eíTe effeito ; e elle fe partio por terra 
com toda a gente 9 indo muito refentido de 
nao mandar metter á efpada os Itos que to- 
mou em Atucile \ de que todos o culpavam , 
e com muita razão , porque nunca elles po- 
diam fer noífos amigos. 

Chegando o Capitão Mor á Fortaleza, 
mandou lançar ao mar a galeota, a que os 
Ternates queriam pôr fogo , e que cuftou a 
vida a Balthazar de Soufa. Ao outro dia ap- 
pareceo a Armada inimiga , que tornava fo- 
brê a Fortaleza com tenção de a levarem 
nas mãos : o que elles puderam fazer da ou- 
tra vez , fe quizeram. O Capitão Mor não 
os quiz efperar em terra , e logo fe embar- 
cou nas corocoras , e mandou diante a D. 
Duarte de Menezes na galeota. Nas coroco- 
ras hiam Lourenço Furtado > João Rodri- 
gues 



Década VIII. Cap. XXXI. 267 

guês de Beja , João Pvebello , e Filippe Lo- 
bo. A bandeira de Chrifto mandou o Capi- 
tão Mor pôr na corccora de Lourenço Fur- 
tado , e lhe encommendcu que trabalhalfe 
por abalroar a corccora do Capitão Mor dos 
Ternates. Elles, parecendo-lhes que o Ca- 
pitão Mor eítava ainda na Cova , e antes de 
chegarem á Fortaleza, vendo fahir a nofla 
Armada , logo fe fizeram na volta do mar , 
e os nofíbs os foram feguindo , e entrando ; 
e vendo os Ternates que não podiam fugir, 
e quão pouca Armada era a noíía , volta- 
ram com muita determinação ; e vendo a 
bandeira de Chrifto na galeota de Lourenço 
Furtado, cuidando que era o Capitão Mor, 
indireitcu a fua Capitania com ella , e a in- 
veftio , ficando a corocora inimiga com a 
proa cavalgada fobre a de Lourenço Furta- 
do , que tão grande era ; e da primeira 
forriada ficaram todos os noflbs feridos. Lou- 
renço Furtado fe lançou na corocora inimi- 
ga , e com elle hum Aleixo Borges filho de 
Cochim , cada hum com fua meia chuça nas 
mãos , e com muito valor foram derruban- 
do nos inimigos até chegar o Capitão Mor, 
com quem indireitou o Lourenço Furtado , 
e lhe ençopou a chuça na barriga, e derru- 
bou a feus pés. 

Gonfalo Pereira vendo-o andar na galeo- 
ta inimiga , o foccorreo , como também o 

fo- 



168 ÁSIA de Diogo de Couto 

foram fazer as corocoras inimigas ao feu 
Capitão Mor : e o primeiro que chegou a 
elie , foi hum tio feu , o qual fe baldeou lo- 
go na corocora ; e chegou a tempo que a 
corocora do tio do Capitão Mor de Terna- 
te chegava a elle ; e pondo-lhe a proa, fe 
baldeou dentro , e a força de braço matou 
a todos os que achou , e a rendeo. João Re- 
bello fez o rnefmo á outra corocora. Gon- 
falo Pereira podemos dizer que pelejou com 
todas , porque andava de fora mandando , e 
guardando ; e como paíTava por qualquer co- 
rocora dos inimigos , lhes dava fua falva, 
de que derrubava muitos. 

Vendo os inimigos feu Capitão Mor mor- 
to, e aquellas três corocoras, que eram as 
principaes , rendidas , fugiram , e fe foram 
pêra outras Ilhas , não fe tendo porfeguros 
em Varenula. Gonfalo Pereira com eíta vi- 
âoria fe recolheo á Fortaleza muito triíle , 
porque ficou da bulha muito mal ferido Lou- 
renço Furtado , que aos dez dias veio a fa- 
lecer com grande magoa , e dor de todos , 
principalmente do Capitão Mor , porque era 
muito feu amigo pelas partes que tinha. Foi 
eíte Fidalgo irmão baílardo de Triftão de 
Mendoça , Capitão que foi de Chaul , pai 
de Pedro de Mendoça , que eíteve no Tri- 
bunal de Portugal. Era homem nas forças 
agigantado , manliofo > e ardilofo na guerra , 

e 



Década VIII. Cap. XXXI. 26? 

e de grandes penfamentos , hum dos gran- 
des amigos que tive, por cuja caufa ao es- 
crever deite íucceflb também me coube par- 
te da trifteza de fua morte. Morreram mais 
neíla briga dez , ou doze foldados , afora 
muitos que ficaram feridos. 

Goníàlo Pereira Marramaque , tanto que 
os feridos faráram , foi logo a Ilha Vare- 
nula em bufca dos inimigos j e chegando ao 
lugar , o achou defpovoado , e as fuflas que 
levaram , queimadas , pelo que mandou dar 
fogo ao lugar 5 e tornou-fe á Cova a defpe- 
dir os galeões pêra Malaca , e depois fe foi 
pêra a Fortaleza de Ito : e não deixou de 
entender os trabalhos que a morte de El- 
Rey de Ternate havia de dar á nofia For- 
taleza , que eílava em grande aperto de fo- 
me y que foi de feição , que chegaram a co- 
mer cães , gatos , e outras fevandijas , e her- 
vas que confumiam os noflbs : e chegou hu- 
ma coita de fagú bií coutado , que parecia 
hum ladrilho de tijolo, a valer huma caixa 
de ouro , que era mais de meio cruzado ; 
porque o Babú Rey de Ternate tratou de 
fazer guerra á Fortaleza por fomes , porque 
bem íabia que as não podiam os noflbs atu- 
rar , e que logo fe lhe entregariam j toda- 
via , vendo quanto os noflbs aturavam o a- 
perto , concertou-fe com EIRey de Tidore , 
pêra ambos aíTaltarem a noíla Fortaleza ; e 



ijo ÁSIA de Diogo de Couto 

pêra fe fegurar delle , o cafou o Ternate com 
huma fua irmã , que era o que o Tidore de-* 
fejava havia muitos dias : e pêra efta guer- 
ra nomeou por Capitão Mor feu irmão Ca- 
chil Tidore Honge , e lhe deo mil homens 
pêra fe ir ajuntar com ElRey de Ternate ; 
e juntos ambos \ commettêram a povoação. 

Succedeo fer eíte aíTalto hum Domingo 
depois de acabada a MilTa j e ouvindo os 
noííos a revolta 5 fahíram como defatinados 
á defensão das tranqueiras de fora, que fo- 
ram commettidas com tanto valor 3 que lo- 
go as entraram , e mataram vinte dos noí- 
fos i que fe defenderam valerofamente , e 
também fizeram grande eítrago nos inimi- 
gos , e todos os mais dos noflbs ficaram fe- 
ridos , e até o Padre Vigário que fahio com 
hum montante , com que fez maravilhas 3 fa- 
hio com três feridas na cabeça. 

Foram nefte tempo os inimigos avifa- 
dos que o Capitão Mor Gonfalo Pereira fe 
fazia preftes pêra ir foccorrer a .Fortaleza , 
com o que determinaram de a levar nas mãos 
primeiro que elle chegaífe : e aflím huma 
noite efcura commettêram a cerca y e com 
muitos picões a derribaram , e entraram ,- e 
mataram os Portuguezes , que nella havia , 
commettendo outro baluarte , de que era 
Capitão hum Luiz da Mó , valente Caval- 
leiro que o defendeo valerofamente. Eítava 



Década VIII. Cap. XXXI. 27Í 

a efte tempo com elle Belchior Vieira ^ a- 
quelle que em Amboi.no matou o Caciz, o 
qual era hum dos melhores efpingardeiros 
da índia , e com fua efpingarda derrubou 
tintos dos inimigos, cjue ficou o muro cheio 
de corpos mortos. O Capitão que commet- 
teo efte baluarte , foi o Benavia 9 Geral da 
gente de Tidore , o qual andava capitanean- 
do os feus , e fazendo-os chegar ; e foi tal 
a ventura de Belchior Vieira , que encaran- 
do nelle a efpingarda , o tomou pelos pei- 
tos , e o derrubou morto : o que vifto pe- 
los feus , fe foram recolhendo , não fendo 
os que defenderam efte baluarte mais que 
o Capitão Luiz da Mó , que eftava caliido 
morto ? e Belchior Vieira , que daqui ganhou 
o fobrenome de Ternate , pelas maravilhas 
que obrou em defensão daquella Fortaleza; 
que fe elle não fora , fem duvida fe perde- 
ra: pelo qual feito EIRey D. João o tomou 
cuido que por Fidalgo , e lhe deo o habito 
de Chrifto com boa tença , e lhe paliou hum 
brazão de armas muito honrado , cujo traf- 
lado eu tenho em meu poder , ficando fem- 
pre com o fobrenome de Belchior Vieira o 
Ternate , tão bem merecido , como o de 
Manlio Capitoiino. Os inimigos contentá- 
ram-fe com laquearem a povoação 7 com cu- 
jo defpojo fe recolheram. Succedeo ifto o 
verão de K69, até entrada de 1570. 

CÁ* 



ijz A S I À de Diogo de Cotrro 

CAPITULO XXXII. 

Da ida do Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde 
a Barcelor. 

Vindas as náos de Portugal 5 de que veio 
por Capitão Mor Filippe Carneiro 5 lo- 
go o Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde fe pre- 
parou pêra ir fobre Barcelor, porque fe en* 
tendeo que era neceíTario pêra fazer guerra 
ao Malavar , fechar-lhe aquelles portos to- 
dos do Canará > donde fe elles proviam ; e 
vendo que D. Antão de Noronha fizera a 
eíle refpeito a Fortaleza de Mangalor , quiz 
fazer nos dous portos de Barcelor , eOnor 
outras duas , pêra alfun ficar aquella cofta 
fechada , tendo elíe eílranhado ao Vifo-Rey 
D. Antão de Noronha abalar-fe com o po 
der da índia por huma empreza de tão pou- 
co porte , como era aquella de ir fó fobre 
Barcelor; porque eílando-lhe eu pedindo li- 
cença pêra me ir pêra o Reyno o verão que 
elle chegou 5 lhe pedio hum foldado algu- 
ma mercê , allegando que fe achara na to- 
mada de Mangalor ; ao que o Vifo-Rey rei* 
pondeo : NeJ/a Pamplona vos achajies , fol~ 
dado ? Hora ide-vos embora. Coufa mui or- 
dinária nos Vifo-Reys eftranharem o que fi- 
zeram os a quem elles fuccedêram, e elles 
fazerem-no depois muito peioiv 

Em 



Década VIII. Cap.XXXIL 273 

Em fim alTentado pelo Vifo-Rey de fa* 
zer eíta jornada, efcreveo ás fortalezas do 
Norte , e Cóchim fua tenção , pêra que o 
ajudaíTem com o que pudefíem i e aos Fi- 
dalgos pêra que o fofíem acompanhar ; e 
tanta preíla deo á Armada , que em No- 
vembro a poz no mar > e logo lhe chegá^ 
ram os foccorros de fora de Damão , Ba- 
çaim , e Chaul , que foram vinte e finco 
navios mui luzidos , e de boa foldadefca, 
cujos Capitães foram Gomes Ferreira de 
Sampayo , Jorge da Silva de Mendoça , 
Francifco Paim de Mello , Capitão de Si 
Gens y Pedro Homem da Silva , filho de 
Vafco Fernandes Homem , que foi por Go- 
vernador das Minas de Cuama , João de 
Ataíde , João Corrêa de Brito, Ruy Pires 
de Távora > que tinha invernado em Damão 
com leu irmão Álvaro Pires , D. António 
Lobo , Julião Tiborio > Gafpar Velho en- 
teado de D. Pedro de Menezes o Ruivo , 
Francifco de Avelar , Jorge de Moura, 
que tinha invernado em Baçaim : por Ca- 
pitão da gente de guerra , Francifco de 
Barros , Pafcoal Machado , Diogo Pires 
Machado feu irmão , João de Mello filho 
de Heitor de Mello 3 Leonel de Soufa, 
Simão de Azevedo , Francifco Preto filho 
de Pedro Preto o rico de Chaul , António 
Fernandes o Soldado > Gafpar Lopes Cha- 
Couto. TonuF.P.L S mor- 



274 ÁSIA de Diogo de Couto 

morro , Ruy Mendes , e Gafpar Fernandes , 
todos os navios feus , e á fua cufta. Gorn 
eíle foccorro fe poz o Vifo-Rey no mar, e 
com mais onze galés , fete galeotas , e com 
de redor de fetenta navios , na qual Ar- 
mada foram de vantagem de três mil íbl^ 
dados. Os Capitães das galés , a fora o Vi^ 
fo-Rey , que hia na baftarda , foram os fe- 
guintes : D, Francifco Mafcarenhas > que 
depois foi Vifo-Rey , D. Jorge de Mene- 
zes Baroche , D. Fernando de Vafconcellos 
neto do Arcebifpo , D. Fernando de Me- 
nezes filho de D. Luiz Fernandes de Vaf- 
concellos y feu filho Fernão Telles , D. Ma- 
noel Rolim , Ruy Gonçalves da Camera , 
D. Pedro de Menezes , D. Nuno Alvares 
Pereira. Os das galiotas foram Luiz de 
Mello da Silva, que tinha vindo de fervir 
a Capitania de Ormuz, Chriftovão de Bo- 
badilha , D. Francifco de Almeida o Tor- 
to , D. Paulo de Lima Pereira , D. Fran- 
cifco da Coita, Manoel de. Mello de Sam- 
payo 5 e António de Azevedo Feitor da 
Armada. Os das fuítas eram D. Fernando 
de Monroy } D. Diogo de Ataíde , D. Mar- 
tinho de Caílello-b ranço , Jorge da Silva 
Pereira ,. Pedro da Silva de Menezes , 
Henrique de Betancor, D. Álvaro de Ataí- 
de , Pedro Lopes Rabello ,. Aleixo Dias 
Falcão , Inquifidor Apoftolico ^ António de 

An- 



Década VIII. Cap. XXXII. 27? 

Andrade de Vaíconcellos , João da Fonfe- 
ca , Ayres Gomes de Miranda, Nuno Al- 
vares Carneiro Secretario , Affonfo Pereira 
de Lacerda , João de Mendoça, Franciícd 
de Soufa Tavares , Ambroílo Valente , 
Fernão Ortiz de Távora , António Fernan- 
des , Diogo Fernandes, Gonçalo Guedes de 
Reboredo , Álvaro Monteiro , D. LuizTel- 
lo de Menezes, irmão de D. Diogo de Me- 
nezes , Nuno Pinto , Duarte do Soveral , Vi- 
cente Dias de Villalobos, no galeão S. Pe- 
dro , e S. Paulo , António do Soveral homem 
da terra em fufta fua , outra António Fer-» 
nandes , António Rabelio outra , António 
Mendes outra , António Fernandes outra, 
Manoel Dias Picote , Capitão de huma ban- 
deira da gente da terra outra , Pedro Fer- 
nandes do habito de Sant-Iago outra , Dio- 
go Dias de Preíles outra , fufta da enferma- 
ria , fufta da defpenfa , fufta com o Meirinha 
da Corte , fufta com a guarda do Vifo-Rey , 
António Dias Meiinde em hum navio de 
alto bordo feu ; hum Tauri com cavouquei- 
ros, Manoel Rodrigues outro navio de alto 
bordo , João Cordeiro Capitão de huma 
barcaça , Baftião Gonçalves outra. 

Depois de dada ordem á carga das 
náos do Reino , e outras coufas , deixando 
alguns navios de guarda na barra de Goa., 
s cm Murmugao , deo á vela na entrada 

S ii de 



ij6 ÁSIA de Diogo de Coxjto 

■de Dezembro ; e como levava bom vento y 
chegou em poucos dias ao rio de Onor, 
onde determinava fazer também fortaleza, 
como eftava aflentado , e quiz fazella logo 
de paífagem, pêra o que fc foi paliando a 
gente ás fuftas , e foi entrando o rio. Era 
eíle porto de Onor mui frequentado T e de 
muito trato ; foi efte , e os mais daquella 
cofta de EIRey de Bifnagá , e forão-íe alli 
apofentar os Mouros Arábios, que logo fe 
fizeram fenhores daquelle porto , e dalli tra- 
ravam com fuás náos pêra Meca , em que 
faziam muitos proveitos. Succedco por fuás 
grandes tyrannias levantarem-fe os natu- 
raes , que eram Gentios Canarás , contra el- 
les , e perfeguiram-nos de feição , que em- 
barcaram em fuás náos , e fe paliaram a Goa. 
Foi ifto mais de cem annos antes que nós 
entraíTemos na índia, no qual tempo era Se- 
nhor da Ilha de Goa hum Gentio chamado 
Sabayo , vaífallo também de EIRey de Bif- 
nagá; e vendo-fe os Mouros que foram de 
Onor , com elle, lhe pediram o porto de 
Goa pêra fazerem fua povoação , ofFerecen- 
do-lhe grandes proveitos dos direitos- de 
fuás fazendas; e concertando-fe niífo, fize- 
ram fua povoação naquella parte , onde 
hoje eítá a Cidade de Goa , e ribeira das 
Armadas , que tudo era defpovoado , por- 
que a Cidade dos Canarás era onúo em 

Goa 



Década VIII. Cap. XXXII. 277 

Goa velha, porfcr oíítio mais fádio. Dal- 
li do porto de Onor trataram eíles Mou- 
ros com íiias náos pêra os Eftreitos de 
Meca , e Ormuz , com que engroííliram , o 
que durou até o grande Affoníb de Albu- 
querque tomar a Cidade de Goa , que os 
deitou fora delia. AíTim que entrando o 
Vifo-Rey pela barra de Onor , foi furgir 
abaixo hum pouco da fortaleza , que eílava 
da banda do Norte fobre hum tezo ro- 
deado de muros , e alguns baluartes , e 
logo mandou o Vifo-Rey defembarcar a 
gente, pêra que afoflem commetter, como 
fizeram; epoito que houve algumas roquei- 
radas , em os nolTos chegando a ella , lha 
defpejáram , e fe foram , e entraram nelía 
fem outra alguma refiílencia. Alguns cui- 
daram , e prefumíram que o Vifo-Rey ef- 
tava já concertado com o Capitão delia, 
que íe chamava Lavarná , que alli eílava 
da mão da Rainha de Chantar , o qual fe 
foi pela terra dentro ; e fe era certo que 
eílava concertado com o Vifo-Rey , devia 
de ter toda a fua fazenda fora da forta- 
leza. O Vifo-Rey entrou logo nella , e a 
mandou benzer , e lhe poz nome Santa 
Catharina , e logo ordenou por Capitão 
Jorge de Moura , e lhe deixou duzentos 
foldados com muitos provimentos de mu- 
nições 3 mantimentos ? e dinheiro >, e lha 

man* 



■378 ÁSIA de Diogo de Couto 

mandou fazer algumas obras , que lhe pa- 
receram neceííarias. 

Feito iílo , partio-fe o Vifo-Rey pêra 
Barcellor ; e chegando á lua barra , com- 
metteo logo a entrada com todos os na- 
vios de remo , indo elle diante de todos 
na íua manchua fentado em huma cadeira 
de brocado , armado de plumas , e perto 
dellc o Veiga tangendo em huma arpa , 
e cantando aquelle Romance velho , que 
diz : Entran los Gregos en Troya , três 
a três , y quatro a quatro. E chegando 
perto da fortaleza , começaram a vir zu- 
nindo por lima das embarcações algumas 
bombardadas , com que o Veiga , que 
hia cantando , fe embaraçou ; ao que o 
Vifo-Rey muito fegiiro lhe diííe : Oh ide 
por diante , não vos eítorve nada. Luiz 
de Mello da Silva hia junto do Vifo-Rey, 
e alguns outros Fidalgos [ e Capitães per- 
to de Luiz da Silva , os quaes vendo as 
bombardadas 5 difíeram a Luiz de Mello da 
Silva , que o Vifo-Rey não hia bem , que 
aquillo era muito arrifear ; ao que lhe re- 
fpondeo : Deixai-o , fenhores , ir; e fe o 
matarem, aqui vou eu que governarei a 
índia ; e fe me matarem a mi , ahi vam 
voífas mercês. O Vifo-Rey ouvindo fallar 
fem perceber o que , perguntou a Luiz de 
o que era , e elle lhe diífe tudo o 

que 



Década VIII. Cap. XXXII. 279 

que refpondêra , o que élle feítejou, e ce- 
lebrou muito. 

Eítava efta fortaleza lium quarto de lé- 
gua pelo rio aflima da banda do Sul , af- 
ientada fobre hum tezo também cercada 
de muros , e de baluartes , com algumas 
peças de artilheria, a qual fortaleza fuften- 
taram os Chatins de Barcellor , que tem a 
fua Cidade mais pelo rio alfima > os quaes 
fe governavam como Republica > e paga- 
vam alguns tributos ao Rajú ; e havia en- 
tre elles antigamente homens t$o ricos , 
que muitos fallavam por bares de pago- 
des , que são quatro quintaes o bar. Em 
fim chegando o Vifo-Rey perto da forta- 
leza , mandou defembarcar a Luiz de Mel- 
lo , a quem deo a dianteira com toda a 
gente , pondo-fe o Vifo-Rey também em 
terra com a bandeira de Chriíto. Luiz de 
Mello foi marchando pêra a fortaleza por 
entre as bombardadas que lhe atiravam ; e 
chegando a elia , fe lhe defpejou , e a 
gente fe vafou pela outra parte ; e met- 
tendo-fe elle dentro , mandou recado ao Vi- 
fo-Rey j que logo chegou, e foi nella re- 
cebido de Luiz de Mello com grandes fal- 
vas de artilheria , e nomeou por Capi- 
tão a feu primo António Botelho com 
trezentos homens , que fe metteo logo 
nella 5 e a mandou fortificar muito bem, 

por- 



a8o A S I A de Diogo de Couto 

porque levava pêra iílb o Viíb-Rey Mes- 
tres , e matéria es ; e feito ifto em que o 
ViíbrRey gaftou mais de hum mez , fe par- 
tio pêra Goa. 

Como Deos noíTo Senhor teve fempre 
os olhos nefte Eftado , fem lhe lembrarem 
os peccados delle , que fempre foram gran- 
des , infpirou muitas vezes no peito dos 
Vifo-Reys coufas que pareciam profecias , 
como fuccedeo efte inverno no do Vifo- 
Rey D. Luiz de Ataíde , que fem haver 
pccafiao nova , fe moveo a mandar huma 
Armada a Malaca ? que pelo fucceífo delia 
fe entendeo que Deos noílb Senhor lhe 
infpirára a necellidade que delia naquellas 
partes haviam de ter ; e allim tanto que 
entrou o mez de Agofto, mandou pôr féis 
galeões de verga d 'ai to, e oito navios, em 
que entravam huma galé , e as mais galeo- 
tas , e fuftas , c elegeo por Capitão mor 
pêra efta empreza a Luiz de Mello da Sil- 
va , que fe fez a vela em 24. de Agoílo 
deite anno de 1570. elle no galeão S, Ma- 
thias , fermoíiíTima peça , e muito bem ef- 
cançado em fuás viagens : D. Pedro de 
Menezes 5 filho de D. Manoel de Menezes , 
que depois foi Capitão de Dio , no galeão 
8. Paulo : D. Nuno da Cunha Commendador 
da Mofcotela , filho de António da Cu- 
riha > que depois fe chamou D. António, 

que 



Década VIII. Cap. XXXIL 281 

que veio com o meímo D. Luiz de Ataíde 
do Reino provido com a Capitania de Dio 
que não logrou , em outro galeão : Diogo 
da Azambuja ? no galeão Trindade : Ma- 
noel Lopes Carrafco , no galeão Reys Ma- 
gos : Sebaftião de Rezende, filho baftardo 
de Garcia de Rezende o noílb Chronifta, 
na galé D. Fernando de Menezes cafado 
em Cóchim. Galeota Simão Reinei , das 
fuftas foram por Capitães , Pedro Ribeiro , 
Ruy Mendes de Figueiredo , Álvaro Lopes 
da Coita , António Antunes , e António Car- 
reiro Feitor da Armada, 

Nefta companhia foi D. Francifco da 
Cofta entrar na Capitania de Malaca , de 
que era provido. No mefmo tempo foi 
Diogo de Mello Coutinho entrar na Capi- 
tania de Columbo , e Ceilão. Também nef- 
te Setembro foi Ayres Telles de Menezes 
entrar em Dio, de cuja Capitania era pro- 
vido por íinco annos. Defpachados eftes 
Capitães pêra fora , logo em treze de Se- 
tembro chegaram as náos do Reino , de 
que veio por Capitão mor Jorge de Men- 
doça , e logo o Vifo-Rey ordenou a Ar- 
mada do Malavar , de que foi por Capitão 
mor D. Diogo de Menezes , que par tio em 
vinte e oito de Setembro com três galés , 
e dezefete fuftas , de que foram por Capi- 
tães das galés , a fora elle y Fernão de 

Meu- 



282 ÁSIA de Diogo de Couto 

Mendoça , Manoel de Sampayo de Mello , 
Diogo de Mello de Sampayo , filho de Si- 
mão de Mello. Das fuítas D. Pedro Couti- 
nho , Mathias de Albuquerque , Thome de 
Mello de Caftro , D. João de Lima , irmão 
de D.Duarte de Lima, e filhos de D. Antó- 
nio de Lima , o Alfaiate de alcunha, 
Ignacio de Lima , Manoel de Miranda , 
filho de Diogo de Miranda Camereiro mor 
do Cardeal D. Henrique , António Lobo 
de Brito , Martim de Valconcellos , Lopo 
Pereira > Affonfo Vaz Viegas , Lourenço de 
Brito , que depois foi Capitão de Çofala 
em Moçambique, Vafco Fernandes de La- 
cerda , D. Luiz de Menezes , que foi Ca- 
pitão de Damão , filho de D. Fernando 
de Menezes , Domingos Ferreira Elcorcio , 
Francifco Mendes , Martim Affonfo de 
Mello Pombeiro , e António Mafcarenhas , 
o Manco , filho de Fernão Mafcarenhas , e 
irmão de Simão Mafcarenhas Clérigo, 
Cónego da Sé de Évora , e do que lhe 
fuecedeo adiante daremos razão. 



CA- 



Década VIII. Gap. XXXIII. 283 

CAPITULO XXXIII. 

Da conjuração dos Reys todos da índia 
contra o Eftado. 

HOuveram fcmpre os Mouros todos 
defde Conílantinopla , Perfia até Ma- 
laca por tão pezado efte jugo , que cui- 
davam lhes tinham pofto os Portuguezes 
depois que entraram na conquifta da índia , 
que em todo o tempo, que a poílibilidade 
os ajudou, fempre confpiráram contra nós 
pêra verem fe por algum modo nos po- 
diam lançar fora do Eftado da índia ; ora 
com grandes Armadas de Turcos , que fi- 
zeram paliar á índia por muitas vezes , 
como largamente tenho eícrito nas minhas 
Décadas ; ora com outras poderofas do 
Achem, e principaes de Jaoa, que fe mo- 
veram contra Malaca ; ora com exércitos 
de Cambaya , que fe ajuntaram contra as 
noífas fortalezas de Dio , e Damão \ ora 
com fe moverem os Reys de Deeane tantas 
vezes contra as fortalezas de Chaul , Ba- 
çaim , e Goa , de modo, que não aquie- 
taram nunca , porque lhes era intolerável 
de .fcffrer verem que os defapoíFámos do 
rico commercio da pimenta , drogas , e 
mais fazendas , com que entravam com 
grolTas náos pelos Eílreitos da Perfia y e 

da 



284 ÁSIA de Diogo de Couto 

da Arábia , donde paflavam á Europa por 
mãos de Venezianos , Genovezes , e outras 
nações , e fobre tudo a honra de fua Rel> 
giao , que lhes era de tudo o peior de fof- 
frer , porque tínhamos totalmente impedi- 
do a todos elles a navegação da cafa do 
feu Profeta Mafamede , fobre que os feus 
Cacizes , e doutores na fua nefanda lei 
lhes faziam todas as horas grandes , e 
exhortatorias admoeitações 5 como os nof- 
fos Santos Pontifices as fazem aos Prínci- 
pes Chriítãos contra o nome Mahometi- 
co ; de maneira que quafi todos os dias 
eram admoeítados , e requeridos dos Ca- 
cizes , que olhaffem pela honra do feu Ma- 
famede 5 que viam cada hora ir em di- 
minuição , ameaçando-os com grandiílimos 
caítigos : e ainda quando aquelles Reys do 
Decane , Nizamoxá , e Idalxá fe conjura- 
ram contra o Rajú de Bifnagá , que o def- 
baratáram , mataram, e ganharam feus ri- 
quiílimos defpojos , levando-lhe feusthefou- 
ros , como o tenho contado em feu lugar , 
indo todos a hum pagode dar graças a 
Mafamede de tamanha mercê como aquel- 
la , fe levantou o feu Caciz maior, como 
o Califa de Arábia , e de hum lugar alto 
lhes fez efta breve falia : 

Muito poderofos , e vitoriofos Reys , 
honra , e gloria da nação Mahometica de 

to- 



Década VIII. Cap. XXXIII. 2^ 

todo efte Oriente j bem fabeis a grande 
affronta , que a todos vos tem feito os 
Portuguezes em vos tomarem voflas Cida- 
des , íenhorearem voífas terras , ufurparem- 
vos voílò commercio , defenderem- vos , e 
impedirem-vos a vofla navegação á cafa do 
noffo grande Profeta , o qual eu vejo ef- 
tar como corrido , e envergonhado do voflb 
foífrimento , havendo que ou fazeis pouca 
conta da fua lei , pois não acudis por fua 
honra 5 ou que de covardes , e pufillanimes 
vos não atreveis com potencia tamanha , 
como tendes junta neffe campo , com que 
podeis conquiftar o mundo 5 a lançar fora 
de voflas cafas quatro homens , que affim 
são em comparação de voflbs innumeraveis 
exércitos , e de libertardes a cafa de voííb 
Profeta , tendo voíTos irmãos , que affim 
poilo chamar os Turcos , cativo em feu 
poder o Santo Templo de Jerufalem com 
todos os Santuários ? Reliquias 5 e mais lu- 
gares de fuás peregrinações , fem ferem 
poderofos todos os Reys Chriílãos pêra 
refga tarem os thefouros de fua fé. Eu tive 
por muitas vezes cartas , e admoeítações 
dos Prelados do Império de Conílantino- 
pla , dos da Perfia, e Arábia, em que me 
eftranhao muito o pouco que comvofcOj 
ó poderofos Reys > tenho acabado , faben- 
do vós que toda a ajuda que vos for ne- 

cef- 



286 ÁSIA de Diogo de Couto 

ceifaria ília , vos mandaráó , como já fize- 
ram outras vezes ; e também lei que fe vos 
moverdes a ifto , que vos admoefto , que 
em vos vendo refolutos , e abalados , logo 
os Rçys da Ilha Çamatra , de Jaoa , e de 
Maluco fe hão de mover contra os Portu- 
guezes 5 que lá vivem por aquellas fortale- 
zas tão rotas , e mal providas 5 a quem fe- 
ra impoífivel chegar foccorro , fe por to- 
das as partes do Eftado fe virem opprimi- 
dos de volTos exércitos ; e não eftá em 
mais o acabar de os extinguir , que em vosr 
refolverdes a vos abalar pêra iífo. Pelo 
que vos requeiro, e admoefto da parte do 
noífo grande Profeta , que pois eftais em 
campo , abaleis voífos exércitos pêra efta 
empreza , que he de mais honra , e provei- 
to , que a de Bifnagá , que tão facilmente 
acabaíres contra o mais poderofo Rey def- 
te Oriente ; e eu fico que tenhais grande 
ajuda , e favor do noífo Profeta , quando 
vir que vos refolveis a pordes-vos em cam- 
po por fua honra. 

Muito a tento eílavam aquelles Reys , 
e Capitães ao que o feu Prelado lhes dif- 
fe ; e movidos de fuás admoeftaçóes , co- 
mo eftavam com as mãos folgadas daquella 
grande vitoria , e viram que os gaftos da- 
quella empreza podiam fahir dos thefouros 
de Biíhagá , logo alli na mefma Mefquita 



Década VIII. Cap. XXXIII. 287 

juraram todos fobre os livros de feu Al- 
corão de fe ajuntarem todos contra nós ; e 
que o que fe efcufaíTe defta conjuração, 
foííem os outros fobre elle , e lhe tomaf- 
fem o Reiao , e o repartiíTem entre os 
conjurados. Eíía liga , e juramento fizeram 
com grandes ceremonias , com as efpadas 
nuas nas mãos ? e lançando as toucas diante 
do Altar de Mafamede. Feito ifto , logo que 
fe recolheram , como já diíTe, fe começa- 
ram a preparar , e mandaram embaixadas 
ao Achem pêra o perfuadirem a ir contra 
Malaca , e o mefmo fizeram ao Çamori, 
pêra fe abalar contra Chalé , e aos Régu- 
los da coita Canará contra aquellas forta- 
lezas , pêra o que logo fe prepararão com 
muita preífa , e fegredo , que não pode fer 
tamanho , que os Portuguezes , que anda- 
vam em Madaneguer , e Viça , Cortes da- 
quelles Reys , não vieíTem a faber do cafo , 
de que avifáram logo aspeífoas fuás amigas , 
como logo direi. 

Não deixaram de foar eftas novas em 
Goa , e Chaul y ainda que confufamente , 
porque andavam nas Cortes daquelles Reys 
mercadores Portuguezes com cavallos , em 
que faziam grandes proveitos , os quaes 
avifavão de lá alguns amigos que o dizião 
aoVifo-Rey , o que elle communicava com 
os Cidadãos velhos que todos lhe affirmár 

ram* 



288 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram , que fe não poderia refolver o Idalxá 
a nos fazer guerra , pelos proveitos que 
tinha de nofíb commercio > e porque eftes 
Reys não fe fiavam huns dos outros ; e as 
mefmas razões davam os mercadores de 
Chaul a Luiz Freire de Andrade feu Capi- 
tão , a quem hum Lopo Soares alli mora- 
dor certificou que o que fe dizia era ver- 
dade , porque havia pouco viera da Corte 
de Nizamoxá , e já lá fe fallava nefte mo- 
vimento : e lhe diífe mais ainda , que fe 
o que dizia não folie verdade , que lhe 
mandaíTe cortar a cabeça. Em fim aífim o 
Vifo-Rey, como o Capitão de Chaul efta- 
vam confufos , e tinham mandado efpias 
verdadeiras , e de grandes intelligencias 
pêra os avifar da verdade , e certeza do 
que fe palfava. 

Luiz Freire de Andrade Capitão de 
Chaul , que era Fidalgo precatado , e ti- 
nha dado homenagem daquella fortaleza , 
com fegurança de Lopo Soares , e cartas 
que teve dos homens que andavam em 
Madaneguer , poz-fe em ordem , e mandou 
logo derrubar todas as cafas , e hortas, 
que havia defde a Cidade até o campo de 
S. Sebaftião , e toda a madeira, taboado, 
pedras , c mais coufas mandou metter den- 
tro na fortaleza , e Cidade ? e começou a 
abrir alicerfes pêra fe fortificar > recolhen- 
do 



Decaída VÍII. Gap; XXXIIL 289. 

do a cerca , que começava a fazer muito 
pêra dentro da povoação , porque não tinha 
muros , nem baluartes , do que foi muito 
murmurado dos moradores , que fe queixa- 
ram, e ainda proteíláram do Capitão lhes 
tomar fuás madeiras , e lhes derrubar fuás 
cafas , e hortas , e de tudo avifou ao Vifo- 
Rey por recados apreíTados i certificando- 
lhe a defcida dos Reys contra aquella Ci- 
dade, e contra a de Goa , de que também 
o Vifo-Rey já tinha certeza , e com muita 
prefTa deípedio pêra Chaul D. Francifco 
Mafcarenhas , que depois foi Vifo-Rey da 
índia, por Gapitao geral daquella guerra, 
e de todas as fortalezas , com feus poderes 
na fazenda , e na guerra , o qual partio de 
Goa no fim de Outubro defte anno de 1570. 
com três galés , e dez navios , de que eram 
Capitães , a fora elle que hia na galé S. 
Francifco, Fernão Telles, D. Henrique de 
Menezes , D, Duarte de Lima , e dás fuftas 
Henrique de Betançor, Jorge da Silva Pe- 
reira , neto do Regedor , Diogo Soares da 
Albergaria, Chriftovão de Bobadilha, Ma- 
noel Pereira , João de Mendoça , Francifco 
de Tovar > D. Nuno Alvares Pereira , Nuno 
Velho Pereira, e Gafpar Velho, nos quaes 
navios iriam feiscentos foldados que fe of- 
ferecêram pêra iífo > e não forçados, nem 
pendidos a poder de dinheiro, como hoje 
Couto. Tom.F.P.I. T fa- 



290 ÁSIA de Díogo de Couto 

fazem : na qual companhia foram muitos i 
e mui honrados foldados Fidalgos , efcon- 
didos de feu Vifo-Rey ; e depois chegou 
o tempo a tanta miferia , que alguns fe es- 
condiam pêra não irem a outras occafiões. 
Os Fidalgos que aqui foram , de que pude 
faber os nomes , são os feguintes , e os 
mais delles com embarcações que fretaram 
á fua cufta, e outros com amigos embarca- 
dos ; Ruy Gonçalves da Camera , D. Gon- 
çalo de Menezes com Fernão Telles , Ruy 
Rodrigues de Távora com navios feus 5 e 
com elle D* Rodrigo de Soufa , Pedro da 
Silva de Menezes , e outros muitos caval- 
leiros y e foldados de nome y que adiante 
apontaremos. 

Eaílim como chegavam novas de qual- 
quer fucceíTo , aflím fe embarcavam outros , 
iem o Vifo-Rey os poder ter, porque tam- 
bém fe receava de outras neceílidades. Che- 
gado D. Francifco Mafcarenhas a Chaul, 
achou a certeza da guerra , e o Capitão 
Luiz Freire de Andrade oceupado com fe 
fortificar conforme a brevidade do tempo; 
porque os inimigos hiam já defeendo ? e não 
pode mais fazer que tapar as bocas das 
ruas que fahiam ao campo y ao que o Ca- 
pitão mor ajudou logo com todas as chuf- 
mas das galés, e marinheiros , fendo os Fi- 
dalgos , e Capitães fempre os primeiros 

que 



Década VIII. Cap. XXXIII. 291 

que pegavam nos páos das portas , e mais 
materiaes pêra os tapigos , e que carre- 
gavam , ou arrolavam as balas de algodão 
pêra porem por fima dos andaimes das tran- 
queiras , que fe não levantavam mais de 
huma braça , e em muitas partes fe fizeram 
paredes de pedra, e barro guarnecidas de 
páos groflbs de teca ; e das traves das ca- 
ías de fora que fe derrubaram , taboas , ar- 
cas , e. tildo o mais que podia fazer alto á 
vifta dos inimigos , porque não tinham outros 
muros , nem baluartes com que fe defende- 
rem da groífiífima artilJieria que o inimigo 
vinha arrojando pelo Gate abaixo contra 
aquelles pobres entulhos , que tinham a 
maior reílítencia nos fortiífímos peitos dos 
valerofos Portuguezes , que eram os verda- 
deiros muros daquella Cidade. 

E porque pareceo ao Capitão mór que 
era obrigação do feu cargo ir prover as 
tranqueiras de Baçaim, e íegurar a Ilha de 
Salfete , contra as quaes o inimigo poderia 
virar as armas , por ferem as de mor im- 
portância , e rendimento do Eftado , em- 
barcou-fe na fua Armada, e as foi viíltar* 
prover , e dar ordem á guarda dos paífos 
da terra , e dos rios , no que fe não deteve 
muito, porque foi logo chamado do Capi- 
tão Luiz Freire de Andrade , pôr virem já 
apparecendo os inimigos , e o poder eftar 
T ii em 



292 ÁSIA de Diogo" bE Couto 

aém.Palé , huma jornada de Chaulye. no 
-fim de Novembro começaram a apparecer 
oito mil de cavallo , e vinte, mil de pé de 
Sevadaria de Fratecão , Abexi , que viflha 
por Geral daquella guerra 5 o qual fe tinha 
já achado nos dous foberbos cercos deDio, 
fendo Capitães António da Silveira, e D. 
João Mafcarenhas , nos quaes vio fazer 
taes coufas aos Portuguezes , que mais vi- 
nha a efta guerra por acompanhar o feu 
Rey , que por lhe parecer que na empreza 
poderia ganhar honra alguma. 

O primeiro dia que os Mouros deram 
vifta deita gente , foi dia de Santo André, 
que appareceo pelo campo de S. Sebaftião, 
aonde acudio D. Francifco Mafcarenhas 
com toda a íbldadefca, a qual fendo vifta 
dos inimigos , fe foram logo recolhendo , e 
o Capitão mor fez o mefmo pêra a Cida- 
de; e porque ficava ainda alguma gente da 
terra pêra recolher dos arrebaldes , e pal- 
mares y tornaram os Mouros a rebentar nô 
campo pelos apanharem ás mãos, ao que 
Capitão mor voltou , e fez recolher os 
Mouros , atraveífando-fe de todo o corpo 
do exercito, 

5 Defte dia por diante fe começaram a 
travar as efcaramuças entre os noíTos , e 
.elles , dos quaçs Deos nolfo Senhor logo 
ao principio nos começou a mpftrar havia- 
ma niòs 



Década VIII. Càp. XXXIIÍ. 293 

mos de ter felice vitoria , porque fempre 
fahíram efcalavrados. O Capitão Luiz Frei-. 
rú como tinha dado homenagem da forta- 
leza, e carregavam fobre elle muitas cou^ 
fas r acompanhado de todos os cafados , e 
moradores, fempre fe aprefentava nôcam- 
po aos trabalhos , pelejando com liuma 
mão , e fortificando-fe com a outra o rríe- 
jhor que podia ; e porque nos palmares 
adiante de S. Sebaílião appareciam compa- 
nhias de cavallo , e faziam os Mouros al- 
gumas embofcadas , mandou Luiz Freire 
de Andrade alguns poucos de cavallo to-: 
mar viíta delles , com ordem pêra que fe* 
foíTem recolhendo até os metterem em hu-r 
ma embofcada de foldados de efpingardas , 
que mandou lançar pêra efte effeito em cer- 
ta paragem ; e eílando os noflbs , que fe-: 
riam fete , ou oito de cavallo , pelos paJk 
mares 5 deram com hum tropel de gente 
de cavallo , que remetteo com osnoíFos, ' é. 
dò primeiro encontro derrubaram dous r 
hum cafado rico , e bom cavalleiro , que. 
fe chamava Fernão de Ayres , que logo 
morreo *, e hum Caftelhano , que de muitas) 
feridas foi derrubado , e os Mouros fe def-i 
ceram ao esbulharem das armas, e dehun* 
annel que levava no dedo ; e havendo-^ 
por morto , o deixaram .: com ituma •cadeâl 
de ouro muito g*oiTa ao peícoço^ eni quáb 
- : não 



294 ÁSIA de Diogo de Couto 

não attentáram com a preíTa ; x>s outros 
noflbs de cavallo fe recolheram muito bem , 
e os Mouros também o fizeram : o Cafte- 
Ihano 5 que eftava ainda vivo feito rapofo , 
tanto que vio os Mouros recolhidos , fe 
levantou , e fe foi recolhendo pêra a Cida- 
de 3 onde foi muito feftejado, e curado; e 
pouco depois viram vir hum cavallo foi to 
pelo campo fellado , e enfreado , o qual fe 
veio metter nas tranqueiras , e conheceram 
que era do Caftelhano. 

Paliado ifto 5 e correndo entre os nof- 
fos y e os Mouros algumas efcaramuças , 
em que fempre havia feridos , quiz o Ca- 
pitão Luiz Freire de Andrade tentar outra 
vez a ventura , e armou outra cillada de 
fincoenta foldados embofcados , e mandou 
feu irmão Alexandre de Soufa com quinze 
de cavallo , pêra que foífe até os mefmos 
palmares 5 e provocalfe os Mouros a fe 
fahirem delles 5 pêra a parte onde a em- 
bofcada eftava. Alexandre de Soufa metteo- 
fe tanto pelos palmares , que chegou até o 
alojamento dos inimigos , os quaes em vendo 
os noífos , lhes fahíram mais de cento de 
ginetes mui fèrmofos ; mas Alexandre de 
Soufa , que era gentil cavalleiro , veio ef- 
caramuçando com elles , etrazendo-os apô? 
íi pêra os metter na embofcada ; e vieiao- 
fe a baralhar de feição > que foi neceífario 

aos 



Década VIII. Cap. XXXIII. 29? 

aos noífos virarem a elles , e encontrarem* 
fe das landas , e cavallos tezamente ,,em 
que os noílos derrubaram alguns ; e todavia 
Alexandre de Soufa veio ao chão por falta 
do feu cavallo , levando-lhe fempre as ré- 
deas na mão ; ao que acudio Francifco de 
Soufa Tavares , que era feu fobrinho , e o 
ajudou a cavalgar com muito rifco feu ; c 
aíTim cahio outro noílo , que também cavai* 
goíi logo ajudado de Nuno Pinto, que poz 
a lança em hum Mouro , e o derrubou 
morto , e com ifto fe recolheram os noífos 
fem poderem provocar os Mouros a que 
fahiífem ao campo , aonde a embofcada 
eftava. Eftas novas chegaram ao Capitão 
geral , que acudio com toda a foldadefca 
a recolher os noífos que vieram muito gen- 
til-homens , fem lhes acontecer mais defaf- 
tre algum. 

Aos quinze de Dezembro feguinte che- 
gou a Chaul o Fratecão com oito mil de 
cavallo, e mais vinte elefantes , e muita 
gente de pé , e foi dando pelo campo de 
S. Sebaftião vifta de feu poder, atraveífan- 
do-o de parte a parte , e foi tomar feu apo- 
fento nas caías da Madre de Deos, e poz 
em S. Sebaftião outro Capitão * e logo man- 
dou outro a metter-fe no muro de fobre a 
barra , no qual mandou prantar algumas 
peças de artilheria pêra defender os foc- 

co- 



296 A S I À de Diogo de Couto 

eorros que haviam de vir pela barra , don- 
de também podiam bater a Cidade , e va- 
rejalla, porque fe defcubria toda ; e aílim 
na Armada que eílava no mar, e no paíTo 
das Almadias , que vem de Chaul de Uma 
pêra a noffa povoação , mandou pôr outras 
peças groíTas , aflim pêra defenderem aquelle 
paílb , como pêra baterem o baluarte da 
fortaleza velha , que fica fobre a Vafa , e 
daquelle dia por diante fahiam os mais dos 
dias ao campo com todo o poder , com 
grandes eftrondos de inítrumentos bellicos, 
rinchos de cavallos , e uivos de elefantes , 
pêra com iíTo atemorizarem os noíTos , que 
fe matavam , porque lhes não podiam fahir , 
e defenganarenvnos que os não temiam , fe 
os Capitães os não enfrearam. 

Aos vinte e hum de Dezembro fe poz 
o Fratecão no campo com todo o poder, 
e muitas bandeiras defenroladas , e appa- 
recêram pela praia da banda do mar nas 
coitas da Madre de Deos , e pêra onde 
eílá a forca , muitas tendas , e pelos palma- 
res já em defbuberto , o que até então não 
tinha feito ; e pelo mar que vai pela cor-> 
doaria por detrás de S. Francifco, e mais 
chegado ao Moíteiro , fe armou huma ten-> 
da de vermelho , bandada de azul , e bran-» 
co pêra o mefmo Fratecão. Os noíTos foi- 
dados vendo ^quçlla foberba de fe lhe? 

vi- 



Década- -VIII. Ca p. XXXIII. ■ 297 

virem avizinhar á Cidade , lhes fahíram 
algumas Companhias com íeus Capitães, 
que travaram huma fermola eícaramuça 
com os Mouros 5 em que os noííbs íe 
adiantaram bem 5 e os efcalavráram me- 
lhor ? até que o Capitão mor mandou ter 
mão nelles , e recolhellos. 

O Capitão mor com o da fortaleza íe 
puzeram em ordem de repartir as eílancias , 
como fizeram por efta maneira. D. Rodri- 
go de Soufa no baluarte Santa Catharina, 
que ficava fronteiro á Vafa , e dalli , por 
aquelle lanço que hia pêra o campo, cor- 
reram as eílancias de Henrique de Betan*r 
cor , e Fernão Pereira de Miranda. Era 
efte Fidalgo mancebo de muito boas partes , 
muito amado , e querido de todos ? foi filho 
de Franciíço Pereira de Miranda , que tinha 
lido havia annos Capitão de Chaul , e ir- 
mão de Chriftovão Pereira de Miranda, 
calado com huma filha de Pedro Preto de 
Chaul o rico v e muito conhecido , da qual 
teve duas filhas, huma que cafou com Ay- 
res Telles de Menezes , e outra com efie 
D.Rodrigo de Soufa: mais adiante Fernão 
Telles 5 e Ruy Pires de Távora > e hum 
lanço de cafas , que corria peíra o mar de 
S. Francifco, muitos quintaes, e roturas de 
paredes mandou o Capitão mor tapar por 
fe metterem nellas os Mourps^ e a guarda 

dos 



298 ÁSIA de Diogo de Couto 

dos que andavam neftaobra, éncommendóu 
a Nuno Velho Pereira, 'e a D.Gonçalo de 
Menezes; e na dita paragem nos três dias 
de Janeiro de 1571. ouvio Nuno Velho 
fallar Mouros , que andavam folgando pelas 
hortas ; e fahindo-lhes ambos eftes Fidalgos 
com feus foldados , os tomaram tão de fu- 
pito , que os não viram , fenão quando fe 
fen tiram cortar do feú ferro ; mas tornando 
fobre fi , levaram as armas , e travaram 
huma muito arrezoada briga , á qual acu- 
diram com foccorro de ambas as partes , 
o que foi caufa de fe accender a batalha 
muito , e durar até á noite , em que o Ca- 
pitão mor acudio aos recolher. Morreram 
nefte primeiro defenfado cento e oitenta 
Mouros , ficando feridos mais de quinhen- 
tos ; dos noflbs morreram dous , a que não 
achei os nomes , que pode fer o fizefTem 
melhor que os que os tinham mais illuftres \ 
e ficarão feridos trinta. 

Paliado eíle cafo , logo a féis do mez 
chegou a peílba de EIRey Nizamoxá á Ci- 
dade , onde foi recebido com grandes fei- 
tas , e regozijos , e toda aquella noite houve 
grandes luminárias , bailes , danças , e ou- 
tras recreações , e ao outro dia fe lhe ar- 
mou huma tenda fobre a ferra do Argao á 
vifta da noífa Cidade. Trouxe EIRey com- 
figo dous mil de cavallo , que juntos aos 

que 



Década VIII. Cap. XXXIII. 299 

que lá eftavam , faziam trinta e quatro mil, 
dos quaes mandou quatro mil fobre as ter- 
ras de Baçaim. Acompanhavao-no muitos 
Capitães , e foldados eftrangeiros , Mago- 
res , Rumes , Perfios , Coraçones , Larís , 
Abexis , e outras nações. Agente de pé paf- 
fava de cento e vinte mil, em que entravam 
doze mil bombardeiros , frecheiros , efpin- 
gardeiros , e quatro mil officiaes de campo ; 
e Condeftavel mor da artilheria era hum 
Turco chamado Rumecão , grande official , 
ao qual ajudava hum gentio Bragmane , 
chamado Rama , tamanho homem no offi- 
cio de artilheiro j que por muitas vezes 
derrubou os noíTos guiões nas eítancias , e 
cegou todas noflas peças , mofrrando-fe nifto 
abalizado , e por ordem de ambos fe orde- 
navam as eftancias , e prantavam a artilheria 
nos lugares que podiam fazer maior damnò. 
Trazia EIRey trezentos e feíTenta elefan- 
tes , trouxe muita artilheria, a principal 
foram nove peças groífas, em que entrava 
huma que os noílbs chamavam o Caçapo 
grande , e elles Samacafapo , que na lua 
Jingua quer dizer Cruel carniceiro, porque 
os carniceiros que cortam as vaccas lhes 
chamam Caçapos , tinha de comprido deze- 
féis palmos , e lançava pelouro de pedra 
de fete palmos e meio de roda, e de tre* 
centos e vinte arráteis de.pezo , e defpedia 

em 



300 A S I A ide Diogo de Cotrro' 

em cada tiro cento e íincoenta arráteis dè 
pezo de pólvora : trazia outra peça ,• a' 
que os noiTos chamavam o Caçapo peque- 
no ; era efta mais furiofa, e deitava pelou- 
ro de féis palmos em roda , a qual mui- 
tas vezes rompeo finco , e féis paredes de 
cafas , e hia varar a outra banda ; c de 
huma vez arrancou do entulho da tranquei- 
ra , onde tinham as eftancias Fernão Tel- 
les , Fernão Pereira , e Henrique de Betan- 
cor, hum vigamento grande , e por lima 
das eílancias , e andaimes das cafas o lan- 
çou na rua de Pedro Ferreira ; a efta peça 
chamavam os Mouros Marzaguai , que quer 
dizer engole tudo : trazia outra peça de 
ferro , porque eftoutras eram de bronze, 
de vinte e íinco palmos de comprido , e 

Ípe fenão ouvia, até quando fe difparava , 
enao depois de o pelouro dar na ponta- 
ria ; a efta chamavam os Mouros Ourata- 
mi, que quer dizer deftruição de tudo., e 
os noífos lhe puzeram nome refpâdilho , 
lançava pelouro de quatro palmos e meio 
em roda : trazia outra peça também, de 
ferro, a que os Mouros chamavam Aneli , 
que quer dizer Deos a deo , por dizerem 
que a fez hum Pagode , e os noífos lhe 
puzeram nome Orlando furiofo : outro ca- 
melo de marca maior., que lançava pelouro 
de tr.es palmos em roda \ vinha outra, que 

lan- 



Década. VIII. Cap, XXXIIL grçl 

lançava o mefmo pelouro , e tinha finco co* 
vados de comprimento, a que os Mouros 
chamavam Chagui ,• que quer dizer Fello 
EIRey , porque elle dera a forma delia: 
as mais peças eram efperas , camelos , e 
outras que depois vieram, que oMeftre de 
Campo mandou prantar da banda dalém 
fóbre o outeiro que defcubria toda a Cida- 
de y com as quaes faziam grandes damnos 
nella. 

Ao outro dia feguinte , depois de EI- 
Rey chegar, tomaram feus Capitães eftan- 
cias por eíla maneira : Faratéchão Capitão 
-General fe agázalhou nas cafas do Vigário 
junto a Ermida da Madre de Deos ■, que 
agora são dormitórios dos Padres Capu- 
chos, que tomaram a Ermida pêra fazerem 
feu Mofteirozinho , que he muito devoto : 
.tinha alli fete mil cavallos , e duzentos 
elefantes , donde logo começou a lançar 
Jiuma trincheira pelo campo de S. Sebaftião i 
ijue o atraveílbu todo até as cafas de Diogo 
de Guião , da outra banda ? que vai pêra 
o paíTo de Chaul de lima , no qual fe alo- 
jou o Calufchão , outro Capitão Abexim 
de grande authoridade, que tinha féis mil 
de cavallo , cuja gente fe eílendia até o 
alojamento de Faratéchão ; Germichão com 
dous mil cavallos ficou em Chaul de íima y 
íeguindo com fua gente. até a Vafa , e o 
• ef- 



302 ÁSIA de Diogo de Couto 

efteiro, que divide a noffa Cidade da fua, 
e toda a mais gente fe eftendia de longo 
do rio y e do mar , em torno ao redor de 

âuatro léguas \ e com iílo ficou a noffa Ci- 
ade cercada de mar amar, e de maneira, 
que havia fobre a noffa Cidade trinta e 
quatro mil de cavallo , trezentos e feflenta 
elefantes , cem mil homens de pé , dezoito 
mil gaíladores , infinidade de bois \ bufa- 
ras , e gente de trabalho pêra o meneio da 
artilheria , porque todas eram trinta eoito 
peças groíTas. Era o Nizamoxá de vinte e 
dous annos de idade , de meã eítatura, do- 
brado , e de membros robuftos , e cor ba- 
ça , e de grande viveza nos olhos , muito 
fragueiro , e bellicofo y e havia íinco annos 
que reinava. 

Contra efta potencia eftava a noíTa Ci- 
dade fem muros , fem cavas , fem fortifica- 
ção alguma , mais que huns entulhos , como 
já diíle, com páos de teca, traves, portas 
das janellas das cafas, palmeiras , balas de 
algodão , e outras couías( tão fracas como 
eftas. Cortaram os Capitães a Cidade, e a 
foram recolhendo no melhor modo que pu- 
deram , e a foram cercando defde a Vaía , que 
vai da fortaleza velha até o mar , e coita bra- 
va , que hia fahir a S. Domingos , ficando de 
fora algumas cafas fortes, que pòrconfelho 
dos Capitães fe aíTentou que fe defendei^ 

fem;, 



Década VIII. Cap. XXXIII. 303 

fem, por quebrarem nellas os inimigos fua 
fúria , por não começarem logo a bater 
nos entulhos , porque entenderam que ain- 
da que eítas caias fe perdeflem depois , 
feria já com muita perda dos inimigos, que 
ficaria fendo muito menos , quando come- 
çaífem a bater a Cidade , as quaes cafas 
eram de António Fernandes o foldado , que 
ficavam fobre a praia , nas coitas do Mof- 
teiro de S. Domingos , as quaes os Mou- 
ros chamavam das fete cameras , por terem 
outras tantas pelos telhados , que de fora 
viam y que eram de quatro aguas , e de 
telhados acoruchados muito fermofos , nas 
quaes fe metteo Nuno Alvares Pereira , 
pelas pedir de mercê , por entender que 
alli eftava mais arrifeado , porque defejava 
moftrar ao mundo -que precedia daquelle 
grande , e valerofo Capitão D. Nuno Al- 
vares , e que não degenerava daquelle il- 
luftre appellido nada , e comfigo metteo 
quarenta foldados , que também quizeram 
acompanhallo nos perigos a que fe offere- 
ciam y e em outras defronte da tranqueira , 
que corria da Mifericordia pêra S. Domin- 
gos, que ficavam bem fora , fe metteo D. 
Gonfalo de Menezes com trinta homens y 
os quaes lhe deram por grande mimo , e 
pela confiança que tinham delle as defen- 
der contra toda aquella potencia j e outras 

ca- 



304 A SI A de Diogo de Couto 

cafas que corriam da Mifericordia pêra S< 
Domingos, duas lanças affaftadas das tran-« 
queiras > e entulho , fe encarregaram a Nu- 
no Velho Pereira , que fempre pertendeo 
lugares perigoíòs , em que íe pudefle aíli- 
nalar, e em outras cafas puzeram Manoel 
Pereira de Sampayo , pêra as quaes fe mu- 
dou depois Heitor de Sampaio da Silva i 
grande cavalleiro , e que tinha dado diílb 
muito bons íinaes : em outras cafas pega- 
das aos entulhos fe pozFrancifco de Mello 
de Sampayo, filho de Trilião de Mello, a 
que na índia chamavam o roncador > mas 
fempre moftrou por obras , que o não era i 
nem dizia coufa que não fizeífe : e naquella 
parte dos entulhos eftava Lourenço de Bri- 
to , que depois foi Capitão de Moçambi- 
que: e outras duas cafas de fora affiítadas 
humas das outras fe entregaram, a Rodrigo 
Homem da Silva , filho de Vafco Fernan- 
des Homem, Governador que foi de Cua- 
ma , e daquellas Minas todas , mancebo 
valerofo, e que fempre» trabalhou de imitar 
aos valerofos , e antigos Capitães y porque 
nos trajes era bom foldado, e nos muitos 
que em fua cafa tinha , muito liberal , e 
bom Capitão , andando fempre entre elles 
a pé , e com efpada curta á ilharga : em 
outras cafas fe metteo Luiz Xira Lobo ; e 
porque o Moíteiro de S* Ffancifco ficava 
-j : af- 



Década VIII. Cap. XXXIII. 30? 

affaftadò das cercas mais de duzentos e 
lincoenta pálios > poz-fe muitas vezes em 
cpnfelho fe Te defenderia ; e em todos fe 
aífentou, que era neceílarió metter-fe nelle 
liuma boa guarnição de foldados com mui- 
tas munições , aílim por fe os inimigos não 
metterem dentro, que feria iíTo parte pêra 
fe perder a Cidade ,. por lhe ficar alli hum 
fermofo baluarte contra nós , como por 
quebrarem alli a fúria. Como fe teve res- 
peito á defensão das outras cafas , e por- 
que fempre pareceo aos Capitães que feria 
aquelle lugar ô mais arrifcado de todos, 
'-andavam os amigos em grandes contendas 
fobre qual delles feria o que lhe coubeífe 
aquella forte , quando achavam occafiões 
de maicr perigo pêra arrifcarem, e perde- 
rem as vidas. Peio que muitos requereram 
o lugar «, e mettêram niíío fuás valias ; mas 
como os merecimentos de Alexandre de 
Soufa eram taes ,' que pêra todas as coufas 
daquella forte , e outras ainda mais perigo- 
fas , fe as havia , pudera ler bufcado , e 
rogado , fem mais valia que fuás obras, 
quanto mais fendo eilas taes como todo o 
mundo fabia; e fendo irmão de Luiz Freire 
Capitão da Fortaleza , foi eleito pêra aquel- 
le lugar, fem feu irmão fe meíter niílb , e 
fó foi a eleição de D. Francifco Mafcare- 
jihas . que, bçm fabia de quem confiava 
Qquíq. "Tom. V. P. L V aquel- 



306 ÁSIA de Diogo de Couto 

aquelle negocio , em que eftava toda a de- 
fensão , e honra daquella Fortaleza. Entre- 
gue a cafa de S. Francifco a Alexandre de 
Soufa , não foi neceíTario rogarem-fe ho- 
mens pêra eftarem com elle , antes á por- 
fia fe hiam pêra lá , e dos primeiros foi 
Ruy Gonçalves da Camera , D. Luiz de 
Caftello-b ranço , filho de D. Francifco de 
Caftello-branco , Camereiro mor de EIRey 
D. João III. Manoel Pereira de Lacerda, 
Diogo Soares de Albergaria , Francifco de 
Soufa Tavares , Chriftovao Curvo de Si- 
queira y e outros muitos Fidalgos , e Caval- 
leiros y que por todos faziam numero de cen- 
to e ílncoenta. 

Pelas tranqueiras que cercavam a Cida- 
de que fe fechou toda , fe puzeram eftes 
Capitães, D. João de Soufa , fobrinho de 
D. Pedro de Soufa , que faleceo ha pouco , 
fendo Capitão de Ormuz , que tinha che- 
gado daquella Fortaleza em huma náo que 
mandou pêra Goa , que tomou á fua conta 
fazer hum lanço da tranqueira , que corria 
da Vafa até o rio junto de S. Domingos y 
por fe não metterem por alli os inimigos ? 
de que tomou hum quinhão João de Men- 
do ca y filho de Trifcao de Mendoça , D. 
Henrique de Menezes , D. Francifco de 
Soufa y D. Diogo de Almeida , filho do 
Contador mor > Jorge da Silva Pereira 3 filha 

de 



Década VIII. Cap. XXXIII. 307 

de Ruy Pereira da Silva , Gomes Freire , 
João Caiado de Gamboa, Manoel Dornel- 
las de Vafconcellos , Diogo Soares de Al- 
bergaria , Álvaro de Abreu Gomes , Fran- 
cifco de Sampayo , Pedro Ferreira \ feu 
irmão Luiz Trancofo , cafado naquella Ci* 
dade , Pedro Fernandes da Praia Cidadão 
rico , João de Soufa , Pedro da Silva dè 
Menezes, D. Sebaftiao de Teive, filho de 
António de Teive , Veador da fazenda que 
foi , João Ribeiro filho de Chaul \ Pedro 
Preto , João da Silva Barreto , filho baítardò 
do Governador Francifco Barreto , e outros 
que depois fe nomearam. Todos eíles ti- 
nham eílancias naquella face dos entulhoá 
que vai pêra o campo. Antes que o Niza- 
mòxá chegafle , quiz o Capitão mór def* 
pejar a Cidade de muitas mulheres, e me- 
ninos , e outra gente inútil, que não fazia 
mais que comer, a qual mandou embarcar 
em navios ; e porque havia coíTairos na 
coita , lhes mandou dar guarda pòr Fernão 
Telles , e D» Duarte de Lima em fuás ga- 
lés , que chegaram a Goa , e deram relação 
ao Vifo-Rey do eítado em que a guerra fi- 
cava , e o modo de como os Capitães fe 
entrincheiravam, e que por horas fe efpe- 
rava pelos inimigos ; e depois de eíles Fi- 
dalgos eílarem em Goa , chegou áquella 
Cidade o Padre Fr. Jeronymo TravaíTos 

Vii da 



308 ÁSIA de Diogo de Couto 

da Ordem de S. Franciíco , peffoa de autho* 
ridade , e que poderia reprefentar ao Vifo- 
Rey as neceífidades em que ficavam , pêra 
que os foccorreíTe : o que o Padre fez por 
taes termos , que com oVifo-Rey eftar tam- 
bém nas neceífidades que logo veremos 3 
tornou a mandar os mefmos Fernão Telles y 
e D. Diiarte de Lima com mais dous na- 
vios cheios de foldados 3 que tirou dos pa£ 
fos das Ilhas , em que os tinha, os quaes 
em breves dias chegaram áquella Fortaleza , 
e foram apofentados por grande mimo nos 
entulhos lobre a Vafa junto a Ruy Pires 
de Távora, e Fernão Pereira de Miranda; 
e poíto que tinha alojados eftes Capitães 
nos lugares que nomeei , não le pode ave- 
riguar o tempo que nelles eítiveram , por- 
que fizeram mudanças alguns de huns pêra 
outros • mas baila fabermos que naquelle 
circuito das tranqueiras fronteiras aos ini- 
migos eítiveram eítes , e outros , porque o 
aperto era tão geral, que em toda a parte 
eílavam huns tão arrifcados como os ou- 
tros , e não mereceram menos em huns lu*' 
gares que em outros. 



CA- 



Década' VIII. Cap. XXXIV. 309 

CAPITULO XXXIV. 

Do modo com que fe fortificou o Vifo-Rey 
D. Luiz de Ataíde em Goa : e de como 
proveo os pajfos contra o poder do IdaJ- 
xd : e do poder , e modo com que elle 
defceo o Gatte. 

DEixemos hum pouco as coufas de 
Chaul , e vamos ás de Goa , pois to- 
das fuccedêram em hum mefmo tempo , e 
aflim iremos continuando em noffa obri- 
gação , ora com humas , ora com outras 5 
porque affim ficará a hiítoria menos enfa- 
donha , e melhor ordenada , que feparar 
eítes cercos , como fez António Pinto. Di- 
go pois que certificado o Vifo-Rey da def- 
cida do Idalxá contra a Cidade de Goa , e 
que já começavam a apparecer feus Capi- 
tães , e defcer a artiíheria 5 poz em ordem 
de fe defender , e correo a Ilha toda em 
roda pêra notar os lugares , que era ne- 
cefiario prover de guarda , e achou ferem 
dczenove paragens , pêra os quaes não 
havia em Goa gente Portugueza que baf- 
taífe , e das primeiras coufas em que pror 
veo foi em encher os armazéns de todas 
as fortes de mantimentos , nos quaes re- 
colheo todos os que havia em Goa ; por- 
que como a eíta Cidade lhe vem todo o 

feu 



3 10 ÁSIA de Diogo de -Couto 

feu principal mantimento das terras do 
Idalxá , donde todos os dias correm á for- 
miga muitas embarcações carregadas de 
arroz , de trigo , de grãos 5 de tori , de 
nachari 5 e de outros legumes , que agora 
fe haviam de eítancar com a guerra , e o 
verão fe hia acabando , e não podia vir 
de fora , fenao fe folie da coita do Canará , 
que havia de fer pouco , recolheo todo o 
que havia , não deixando os mercadores de 
íe proverem do que puderam , e de o man- 
dar trazer de fora , porque bem entendiam 
todos os trabalhos que fe lhes apparelha- 
vam , e aílim proveo os armazéns de pól- 
vora , pelouros , e chumbo , e mandou fa- 
zer grande quantidade de repairos pêra a 
artilheria , que fe havia de levar pêra os 
paífos 5 preparar todas . as Armadas pêra 
rodear a Ilha , que ainda eítava a maior par- 
te por cercar , as quaes logo fe puzeram 
no mar , e ordenou quatro bandeiras de 
mil Chriílãos da terra , e outras de trezen- 
tos efcravos cativos dos moradores , pêra 
fe porem em parte alta, donde foíTem vif- 
tos dos inimigos , pêra lhes fazerem vulto 
com fitas lanças arvoradas , e arcabuzes , 
que feus amos lhes deram \ e ajuntou das 
terras de Salfete , e Bardes , e da Cidade 
de Goa mil e quinhentos Chriítãos peães 
pêra o.mefmo effeito, que ordenou debai- 
xo 



Década VIII. Cap. XXXIV. 311 

xo das bandeiras de Capitães Portuguezes 
de confiança , pêra guarda , e defensão dos 
paflbs , e fortalezas fora da Ilha , dos quaes 
repartio mil pêra Bardes , Rachol , e Na- 
roá j e os quinhentos em duas Companhias 
pêra guarda das cafas que os Padres da 
Companhia tem em Chorão , com vinte 
foldados Portuguezes 2 e algumas peças de 
artilheria , e com elles o Padre João Luiz 
da Companliia , que reíidia na Igreja de 
Chorão ; e pêra prover os paflbs , fe foi o 
Vifo-Rey pôr no de S. Braz , que he o mais 
fecco de todos , e dalli provia em tudo , e 
deitava fuás elpias no campo dos inimi- 
gos , efperando pelas Armadas de D. Dio- 
go de Menezes do Malavar 5 e de Luiz 
de Mello de Malaca , com as quaes he ne- 
ceííario continuar pêra levarmos toda efta 
hiíioria enfiada ; e porque efperavam todos 
grande trabalho naquelle cerco ? e em cada 
dia vinham atroando os ouvidos as novas 
do poder do Idalxá, fizeram requerimento 
ao Vifo-Rey os Vereadores , que pois viam 
o trabalho em que a índia eftava , e a pou- 
ca gente que tinha pêra fupportar tão te- 
meroíbs dous cercos dos mais potentes 
Reys da índia , que devia reter as náos do 
Reino , pêra fe ajudar de mais de quatro- 
centos homens 5 que nellas hiam, e tanta y 
ç tão groífa artilheria , tantas munições y 

bem- 



312 ÁSIA de Diogo de Couto 

bombardeiros , provimentos ] e mais coufas 
tão nece (Farias pêra os cercos ; e que fe 
lembraíFe , que fó pelo cerco de Dio não 
quiz o Vifo-Rey D. Garcia de Noronha 
mandar pêra o Reino as poderofas náos 
de fua Armada , fenao duas navetas velhas > 
e pobres ] e ainda elFas a reipeito do Go- 
vernador Nuno da Cunha fe haver de ir 
pêra o Reino. 

O Vifo-Rey lhes agradeceo aquellas 
lembranças ; mas diíTe-lhes que com a 
gente que tinha , e com a que havia de 
vir de fora \ çfperava em Deos de fuftentar 
aquelles cercos , e de desbaratar os inimi- 
gos ? a que não queria dar animo , com 
cuidaíem que com temor delles deixava 
de mandar ir as náos pêra o Reino , que 
era o remédio delle ; que fó o galeão , de 
que viera por Capitão Lourenço de Car- 
valho , havia de ficar , por quanto o havia 
miíter pêra outras coufas ; e pêra que o 
não importunaffem mais com aquelles re- 
querimentos , defpachou as náos Capitâ- 
nia \ e Annunciada , de que era Capitão 
D.João de Caftello-branco , e a náo S. Ga- 
briel , de que veio por Capitão Nuno de 
Mendoça , na qual tornou pêra o Reino 
António Gonçalves de Meza , Feitor que 
foi de Baçaim , infiílindo muito Jorge de 
Mendoça e os mais Capitães pêra ficarem 

na 



Década VIII. Cap. XXXIV. 313 

na índia , e ajudarem o Vifo-Rey naquel- 
les cercos , o que lhes elle agradeceo mui-' 
to ; mas diífe-lhes que tanto ierviço faziam 
a EIRey em levarem aquellas náos ao Rei- 
no , como em ficarem fendo feus compa- 
nheiros naquelles trabalhos ? de que Deos 
o livraria. 

Partidas as náos em Novembro , logo 
no fim de Dezembro chegou Norichao 
Capitão da vanguarda do Idalxá com trin- 
ta mil homens , e logo reconheceo os 
paílbs que hiam pêra a Ilha , e tomou pê- 
ra íi o fitio defronte de Beneftarim , que 
chamávamos o paífo de Sant-Iago , e a lua 
gente fe repartio pelas eítancias que lhe 
pareceram de maior importância, as quaes 
mandou fortificar muito bem , e lhe pran- 
tou muita, e muito groíla artilheria. Vin- 
do o Idalxá já defcendo com todo o mais 
poder , o Vifo-Rey vendo que o Nori- 
chao fe apofentava defronte do paífo de 
Sant-Iago , deixou o em que eftava , e 
paílbu-fe pêra lá , e deixou nelie Fernão 
de Soufa de Caftello-b ranço com cento e 
vinte foldados ; porque bem vio que alli 
havia de carregar o poder 5 e o trabalho , 
e foi-fe pelo de Sant-Iago , e repartio as 
eítancias , como melhor pode fer. 

Defpedidas as náos, o fez o Vifo-Rey 
a Lourenço de Carvalho no feu galeão 
'■■ ■ S. 



314 ÁSIA de Diogo de Couto 

S. Luiz , em que viera do Reino carregado 
das drogas de EIRey , que montavam 
muito pêra ir a Ormuz vendellas à e trazer 
de lá trigo pêra os armazéns , e lenha pê- 
ra pólvora que a ha lá excellente. Eíle ga- 
leão partio em. quinze de Janeiro deite 
anno de 1571. e tornou entrada de Abril 
com tudo o que levava por regimento. 

E porque eílavam na barra de Goa dez , 
ou doze náos pêra Ormuz de partes , car- 
regadas de fazendas , deo-lhes licença pê- 
ra fe irem , affim por não dar tanta perda 
aos mercadores , como pêra mottrar aos 
Mouros o pouco que os receava , pois 
deitava fora tamanho cabedal de náos - y e 
pêra que em Ormuz , aonde haviam de che- 
gar as novas de tamanhos cercos , viíTem 
o pouco que o Vifo-Rey os temia 5 por- 
que á conta de cuidarem que ficava o Ef- 
tado em trabalhos , não houveílem entre os 
Mouros algumas alterações 5 o que também 
fez o Vifo-Rey por tirar de Goa coufa 
de feiscentos Mouros Arábios , que anda- 
vam naquellas náos por marinheiros , af- 
íim por poupar os mantimentos que clles 
haviam de comer , come por ter das por- 
tas a dentro menos inimigos ; porque em 
fim eftes fe videm tempo opportuno , ha- 
viam de fer os primeiros que intentaííem 
nofía ruina. 

Pou- 



Década VIII. Cap. XXXIV: 31? 

Poucos dias depois chegou D. Manoel 
Baroche de Cochim com íeis navios de 
foccorro, cujos Capitães, a fora elle , fo- 
ram Manoel Fernandes de Beja , Affonfo 
Pereira o Gallego y Fernão de Soufa de 
Gufmao , Manoel Rodrigues , e André 
Lopes de Carvalho , o que o Vifo-Rey ef- 
timo li muito naquelle tempo , e logo o en-t 
carregou de Capitão mor de vinte e finco 
navios , pêra com elles rodear a Ilha , e 
os paíTos. 

Procedia o Vifo-Rey com tanta provi- 
dencia em todas as coufas , que tendo fobre 
fi o pezo de dous cercos tão grandes , e 
que lhe podiam occupar todos os cuida-! 
dos pêra os não ter em outra parte , não 
deixou de acudir a todos com o ordinário 
provimento , como fe eflivera no tempo 
da mor paz 5 focego 3 e fortuna que a ín- 
dia teve ; e aílim neíte Janeiro de 15*71. 
defpachou dous galeões pêra Moçambique , 
hum de que foi por Capitão Gafpar de 
Soufa , com muitas roupas , e outras cou- 
fas ; e outro de que foi por Capitão Lou- 
renço Borges , carregado de cavallos pêra 
a conquifta das Minas da Chicova, e Mo- 
nomotapa , que Francifco Barreto feu cu- 
nhado havia de começar a fazer neíte ve- 
rão ; nem quiz que Gonçalo Pereira Mar- 
ramaque y que eílava em Maluco , fentiííe 

fal- 



316 ÁSIA de Diogo de Couto 

falta em feu tempo pela neceffidade em 
que eftava , e pelo perigo em que ficava 
a fortaleza de Ternate em Maluco , pêra 
onde defpedio no Abril feguinte João da 
Fonfeca no galeão S. Rafael , carregado 
de roupas 5 e mantimentos de todas as for- 
tes , o que fazia palmar aos Mouros , que 
em tudo traziam os olhos , admirando-fe 
de verem qite em tempo que o Vifo-Rey 
, havia miíter não fó o feu , mas ainda tudo 
o de fora , defpedia tantas náos > e provi- 
mentos pêra outras Fortalezas. 

Paremos aqui hum pouco , e vamos a 
Luiz de Mello da Silva i que tinha partido 
de Goa em Agoíto paífado pêra o Achem , 
porque lie bem vamos continuando as cou- 
ias a feus tempos. Partido efte Capitão de 
Goa , levou fempre boa viagem até haver 
vifta da Ilha Çamatra : indo correndo a 
coita finco léguas da barra do Achem, 
tomaram feus navios de remo huma man- 
chua do Achem 5 e dos que nella hiam 
foube que andava fora huma Armada com 
cem velas , mentindo nas quarenta 3 por- 
que na verdade não eram mais de {cíXen- 
ta y e que era ida pêra Malaca ; com a 
qual nova Luiz de Mello fe apreífou , por 
recear que eftivefle Malaca de cerco , e em 
trabalho ^ e chegado áquella Cidade , fou- 
be ferem paliados os inimigos pêra Jor, e 

man- 



Década VIII. Cap, XXXIV* 317 

mandou logo efpalmar , e alimpar as galés , 
e navios de remo , porque fe achaíTe o ini- 
migo em algum rio , delias fe havia de fer- 
vir , e não dos galeões , armando alli íiiais 
huma fufta , duas lanchas, ehuma manchua 
pêra íua pefíba , e ordenou arrombadas nos 
batéis dos galeões , nos quaes poz algumas 
peças que pudeílem jogar , e os encarregou 
a peííbas de confiança. Alli chegaram no- 
vas que a Armada inimiga andava pelo 
rio Fermolb doze léguas de Malaca , quei- 
mando , e deítruindo os lugares do Rey de 
Viantana amigo do Eftado. D. Leoniz Pe- 
reira, Capitão da Fortaleza, lhedeotodoo 
aviamento neceirario , correndo com ellc 
em muita amizade , com cujo parecer Luiz 
de Mello fazia tudo ; e depois de ter pref- 
tes a Armada , que foi em breves dias , par- 
tio de Malaca com os galeões ao mar 
com os batéis por poppa , e elle com os 
navios de remo ao longo da coita , traba- 
lhando por chegar ao rio Fermofo de ma- 
drugada 5 pêra o que fe paífou do feu ga- 
leão á galeota de Álvaro Lopes da Coita. 
Os galeões foram amanhecer já bem de 
dia defronte do rio Fermofo , os quaes 
foram viítos dos inimigos , que cuidando 
terem grande preza nelles por lhes parece- 
rem náos de mercadores , lhes fahíram 
muito determinadamente ^ e foi a tempq 

que * 



318 ÁSIA de Diogo de Couto 



D 



que também chegava o Capitão mor ao 
rio com íua galeota ; e dando os Mouros 
com elle , o foram commetter duas galés , 
e elle também indireitou a ellas pofto em 
armas. Huma deitas duas galés era a Ca- 
pitânia daquella Armada , na qual hia por 
General o filho herdeiro doRey do Achem, 
que logo fe conheceo pela divifa , e fa- 
rol, com a qual Luiz de Mello indireitou; 
é chegando a tiro , lhe deo com hum ca- 
melete , que levava huma roca de feixos, 
dõ qual tiro lhe derrubou logo o maftro, 
e matou o Príncipe , e outra muita gente 
com as pedras que fe efpalháram ; porque 
como o tiro tomou a galé pela proa , foi 
o pelouro , e os feixos da roca correndo 
a coxia , e fazendo tal eftrago , que ficou 
a galé fem quem a governaííe ; e vendo-a 
daquelle modo , Luiz de Mello indireitou 
com a outra galé , e abordando-a 5 fe lan- 
çaram os noffos denrro , e á efpada a ren- 
deram também com morte da mor parte 
dos Mouros. Já aeíte tempo a nofla Arma- 
da tinha chegado poíla em armas , e os 
Capitães dos galeões fe tinham paliado aos 
batéis pêra fe ajuntarem á noíla Armada, 
porque já a dos inimigos chegava reparti- 
da em três efquadras de vinte cada huma , 
fias quaes havia nove galés , e galeotas, e 
as mais fuftas , e lancharas. Em efta or* 

dera 



Década VIII. Cap. XXXIV. 319 

dem foram commetter a nofla Armada, 
que com os bateis , e fuítas faziam nume- 
ro de quatorze ; e antes de fe inveítirem , 
tiveram hum muito grande jogo de bom- 
bardas , de que houve «algum damíio de 
parte a parte ; e chegando-fe mais perto, 
travaram outra feita de bombas , e artifí- 
cios de fogo 5 de maneira , que por mais 
de huma hora ficou toda a Armada ef- 
condida no meio do efpefíb fuíno deltas 
coufas , fem fe verem huns aos outros : 
mas tanto que as névoas fe efpalháram , 
viram os noílbs o damno , que tinham 
feito na Armada inimiga com as bom- 
bardadas ; ' abordando os noíTos , como 
puderam, cada hum com fua galé, as ren- 
deram > e tomaram ainda outras embarca- 
ções ; e os que fe puderam falvar, fe foram 
rugindo pêra terras de outros Reys , por 
não oufarem ir ao Achem , aonde chegou 
fò huma fuíta com a gente , que fe íalvou 
toda ferida. Ficaram em poder dos noíTos 
três galés , e féis fuítas , e arrombáram-fe y 
e mettêram-fe no fundo muitas ; tomaram 
os noífos muita artilheria , armas , e outras 
prezas ; morrerão dos Mouros mil e du- 
zentos com o feu Principe ; cativáram-fe 
trezentos ; dos noíTos não houve mais que 
feridos , que não paíTaram de íincoenta, 
ç nenhum morto y e eom eíta vi&oria gran* 

de, 



320 ÁSIA de Diogo de Couto 

de , e com os navios inimigos á toa che- 
garam os noííbs a Malaca 9 onde foram re- 
cebidos com prociísões , folias , feitas , e 
.grandes alegrias ; e depois de fararem os 
feridos , como entrou Janeiro deite anno 
de 1571. partioLuiz de Mello pêra a índia* 
Poucos dias depois de Norichão eítar 
aíTentado com feu campo 5 cJiegou o Idal- 
xi a Poda finco léguas de Goa., e logo ao 
outro dia fe armaram as fuás tendas nas 
ferras defronte de Beneítarim , que fe viam 
dos nofíbs ; e em lugar feparado fe armou 
liuma muito rica pêra lhe fervir de Mef- 
quita ' r e aífima deitas no mais alto foi ar* 
«mada outra mais rica que todas fobre duas 
columnas de páo fem cordoalha , nem pa~ 
.redes , aberta por todas as partes , que não 
tem mais o telhado de íima de duas aguas 
muito rica por extremo*, a qual tenda fe 
chamava Mundapá , que quer dizer tenda 
de determinação j porque quando fe arma 
he final de conclusão , porque não fe arma 
fenão pêra chegar ao cabo com a 'guerra-, 
a qual he fó pêra fer muito temida da par- 
te contraria ; e aífim houve- 'homens, que 
íabiam já da tenção daquelía tenda, que fe 
enfadaram tanto de a verem que diziam dis- 
parates , que o Vifo-Rey veio a faber j e 
Jhum dia que eftando diante delle alguns 
Refles defconfiadps , diíTe que efperava em 

Deos 



Década VIII. Cap. XXXÍV. 321 

Deos de dar hum grande banquete a todos 
debaixo daquella tenda. 

A gente 5 e o cabedal que o Idalxá 
trouxe pêra eíta empreza , foram cem mil 
homens , em que havia trinta e finco mil 
de cavallo, com muitos aventureiros que a 
fama das riquezas > e Damas fermofas de 
Goa os fazia vir com grandes efperanças , 
e muito louçaos ; mas quiz Deos que fof- 
fem defefperados , e cheios de dor 3 e trif- 
teza. Trazia mais de dous mil ^ e cem 
elefantes de guerra , e trinta e finco peças 
de artilheria , a maior parte groíTas , e de 
bronze , que todas fe aceitaram defronte 
dos noíTos paflbs da Ilha , defde o palfo 
Secco até Agaçaim. Gaftadores , e gente 
de ferviço havia no exercito innumeravel 
quantidade ; e aííim occupava pelo largo 
duas léguas de terra , e pelo comprido do 
paífo Secco até Agaçaim > que são outras 
duas. 

A primeira coufa em que o Idalxá en- 
tendeo , foi em mandar tomar as terras de 
Salfete , induzido pelos Bragmanes de Goa 
que com elle andavam , porque defejavam 
de verem tomar vingança de muitos pago- 
des de feus Ídolos , que os noíTos lhes der- 
rubaram naquellas terras os annos atrás 
de 64. 65*. e 66. fendo Vifo-Rey da índia 
D. Antão de Noronha. E aífim as gentes 
Couto. Tom. V. P. L X que 



3^2 ÁSIA de Diogo de Couto 

que entraram por eílas terras guiados de£ 
tes Bragmanes, Meftres de fua Religião 5 c 
de outras muitas maldades , pelas quaes o 
Governador Francifco Barreto os degradou 
de Goa com pena de galés , e de fazendas 
perdidas , a primeira coufa que fizeram, 
foi queimarem as noíTas Cruzes , que eíla- 
vam pelos caminhos em íima dos montes , 
eftragarem , e profanarem os Templos Di- 
vinos y que não foi poífivel defenderem- 
fe ; e as gentes daquellas aldeãs > parte fe 
recolheram a Salfete y onde eítava por Ca- 
pitão Damião de Soufa Falcão , irmão de 
Chriílovao Falcão , aquelle que fez aquellas 
antigas , e namoradas trovas de Crisfal, e 
parte fe recolheram a Goa. 

OVifo-Rey não eítava defcuidado , nem 
trazia tão poucas intelligencias no arraial 
dos Mouros , que não foubeífe tudo o que 
fe lá paliava ; e fabendo da potencia do 
Idalcão , e como eílava alojado contra os 
noíTos paíTos das Ilhas , e a pouca gente 
que havia , que eram feiscentos e íincoenta 
íoldados que já difTe, repartio porefta ma- 
neira a defensão dos meímos pálios. 

D. Pedro de Caftro com cem homens, 
a que dava meza no paíTo Secco 5 que era 
o mais perigofo 5 por fe poder palfar de 
maré vaíía o váo; D. Manoel Rolim com 
íincoenta homens no paífo de Caraboli , ou 

de 



i 



Década VIII. Cap. XXXIV. 325 

de S.João Baptifta; António Ferrão Cida- 
dão de Goa , rico, e honrado , no baluar- 
te que eftá entre o palio Secco , e o Sapal ; 
Gaípar de Brito do Rio com huma com- 
panhia de Toldados no Sapal entre o paflb 
Secco , e Beneítarim ; e logo affaftado hum 
pouco Vicente Dias de Villalobos com ou- 
tra companhia de foldados ; e em outra 
parte também do Sapal , por fer paragem 
de muito perigo , Francifco Marques Bo- 
telho, Ouvidor geral , com cento e vinte ho- 
mens , a que dava meza no paíTo de Be- 
neftarim , onde o Vif>Rey eftava , pêra 
onde fe mudou também Fernão de Soufa 
de Caílello-branco , pelo ter o Vifo-Rey 
apar de fi pêra coníelho , por fer Fidalgo 
velho , e de muita experiência ; Vafco Pi- 
res de Faria com huma companhia de fol- 
dados , pêra aíllítir em Reura o grande, 
que he no paíTo de S* João Evangeliíta ; 
D.Paulo de Lima Pereira com cem folda- 
dos , e muitos peães da terra por Capitão 
de todas as terras de Salfete pêra aífiíHr 
na fronteira de Rachol , e na Fortaleza 
delia com Damião de Soufa Falcão , Dio- 
go Barradas com huma companhia de fol- 
dados , a que dava meza; em hum outeiro, 
que vai pêra Beneítarim , Francifco Perei- 
ra Tanadar mór com huma boa compa- 
nhia de gente da terra ; e poílo que todas 

X ii ef- 



324 ÁSIA de Diogo de Couro 

eftas eftancias eílavam com pouca gente, 
depois que vieram as Armadas de D. Dio- 
go de Menezes , eLuiz de Mello, que tra- 
zia mais de mil e trezentos foldados , fe 
engrofsáram mais , e repartiram pelas náos , 
e navios , que eílavam em partes necefla- 
rias , e que andavam efpalhados pelo rio ; 
Francifco Rodrigues Capitão do campo de 
Sallete andava lá com quarenta homens ; 
António Lopes de Siqueira com huma 
companhia de foldados na Ilha de João 
Lopes ; Diogo de Mefquita ao paffo Sec- 
co , em hum batel grande , que trazia hum 
leão de metal , ao qual fe mudou a meia 
guerra Chriftovão do Amaral , e ainda no 
cabo fe mudou a elle Gafpar Dias de Re- 
boredo ; Francifco de Miranda Henriques, 
o cafado em Cochim , na gale S. Sebal- 
tião em huma paífagem do rio ; Roque 
de Miranda feu irmão em huma fufta ; 
Álvaro Pinto em huma não no cabo do 
rio Sacali ; André da Fonfeca em hum ba- 
tel ; António Rodrigues de Gamboa , que 
veio de fer Veador da fazenda do Nor- 
te , e foi dos primeiros que teve eftancia 
em Chaul i a qual deixou a feu filho João 
Caiado de Gamboa, tomou huma fufta com 
foldados feus , em que andou nos rios ; 
Francifco Barradas irmão de Diogo Barra- 
das em hum batel com huma peja groífa j 

Gil 



Década VIII. Cap. XXXIV. 32? 

Gil de Góes em huma galé ; Nuno Perei- 
ra de Lacerda em outra ; Vicente de Sal- 
danha em outra ; João de Quadros em 
huma galé no rio da Águia em differentes 
paragens ; todas as fuftas , e ajmadias 
que andavam no rio era hum grande nu- 
mero. E porque os que fervíram não per- 
cam feus merecimentos , nomearei os que 
achei, 

António Maícarenhas fuíta ; João Go- 
mes da Silva , que veio do íòccorro de Ne- 
gapatao em companhia de D.Jorge, fuíta; 
Gonçalo de Siqueira , D. António de Caf- 
tello-branco , Chriftovao Juzarte Tição, 
António de Faria , Diogo de Caftro em 
huma fuíla , na qual andou depois Vafco 
Fernandes Pimentel, Manoel Dias Picoto, 
Lançarote Picardo feu irmão , Gafpar Dias 
de Aguiar, António TravaíTos , Chriftovao 
Fernandes, Fabião da Rocha, Capitão do 
paíTo de Beneftarim , Diogo da Silveira, 
João de Ataíde , António de Azevedo, 
Diogo da Silva ? João Corrêa de Brito , 
Feliciano Cardoio de Almeida , Jeronymo 
Curado , Pedro Homem da Silva , Diogo 
Pinto , Vicente Paes , Vicente Carneiro , 
Gonçalo Guedes de Reboredo , André Gor- 
jão , Tanadar de Agaçaim com dous Pa- 
ráos. O Licenciado Luiz Borges , Jerony- 
mo Curado , D. António de Souía , Chri- 

ílo- 



326 ÁSIA de Diogo de Couto 

ftovao de Araújo Evangelho , Ruy Pereira, 
e outros muitos?. 

Com todos eíles trabalhos , fendo o 
Vifo-Rey avifado que em Dabul porto do 
Idalxá , eftavam duas náos á carga pêra 
Meca , determinou de as mandar queimar , 
pêra que vifíe o Idalxá , que não lo fe ha- 
via de defender em Goa de feu poder , mas 
que ainda lhe havia fazer guerra , e entrar 
em feus portos , pêra o que defpedio D. 
Fernando de Vafconcellos , filho de D. Luiz 
Fernandes de Vafconcellos , que mataram 
os Francezes , e Inglezes indo pêra o Bra- 
zil , com quatro galés , e duas fuftas ? o qual 
entrou naquelie rio ; e debaixo dos baluar- 
tes , e artilheria daquella Cidade queimou 
as duas náos , e outros muitos navios pe- 
quenos , que achou na fua ribeira , e no 
rio , e naquella cofta , e lhe abrazou al- 
gumas povoações com muito bom fucceifo y 
com o que fe recolheo a Goa, 



CA- 



Década VIII. Cap. XXXV, 327 

CAPITULO XXXV. 

Da refolução que o Idalxd tomou f obre a 

accommettimento da Cidade de Goa : e da 

pratica que Nortichão fez a EIRey 

fobre a guerra de Goa. 

MUito fentio o Idalxá a perda das 
duas náos de Meca , e dos mais na- 
vios que lhe queimou D, Fernando deVaf- 
conceílos , e o teve logo a ruim principio 
daquella guerra , que alguns Capitães íeus 
mancebos lhe fizeram muito fácil , ainda 
que outros velhos de melhor parecer , e 
grande experiência nas coufas de guerra 
lhe fizeram muito duvidofa ; e deites o 
que menos lhe approvou a guerra , que que- 
ria fazer aos Portuguezes , foi Norichão y 
que achando-fe em hum confelho , pêra o 
qual o Idalxá o chamou , fallou deíta ma- 
neira : 

» Duas partes ha , muito alto , e muito 
poderofo Rey , e Senhor noíTo , na obriga- 
ção dos vaffallos P as quaes são fervir , e 
obedecer , e com ambas cuido eu que te^- 
nho cumprido em todo o curfo da vida, 
e efpero cumprir em quanto ella durar; 
mas porque muitas vezes fe obedece aos 
Senhores em coufas em que fe não fervem , 
e os fubditos não podem fer juizes das 

cbras , 



'328 ÁSIA de Diogo de Couto 

obras , e determinações delles , em mais , 
que em lhes dizer fomente leu parecer , e 
com eftes cumprem com eiles , e comfigo , 
e fe lho engeiram , ficam todavia obriga- 
dos a feguillos pela ordem de feus man- 
dados , fem poderem fahir delles , fenão 
com grandiflíma culpa , falvo em coufas 
da lei, que são de maior, emais alta obri- 
gação , em que os fubditos fomente po- 
dem , e devem não feguir os erros de feus 
Príncipes , quando elles foíTem taes que fe 
fahiílem delias ; porque as obras de que 
pende a immortalidade da alma , não são 
do arbítrio, nem jurifdicção dos Reys da 
terra , cada hum he fenhor abfoluto da 
fua , com. própria , e livre vontade , que 
não pode fer conílrangida ; em todo o mais 
fomos obrigados a fervir , e obedecer , e 
feguir as peifoas , e Miniílros daquelles a 
que foi dado poder foberano na governan- 
ça , e adminiftração das coufas exteriores , 
como faremos todos neíla jornada , fe a 
vontade de Voíía Alteza todavia for a que 
tem moílrado ; e pois fe lhe não nega o 
fervi ço , nem no que fe lhe pôde dizer ^ 
fe lhe tolhe a execução , deve ouvir fem 
defprezar o que fe lhe nifíb lembrar; por- 
jue ouvir confelho , e pedillo (ainda que 
eja pêra o não tomar) fempre foi, e fera 
proveitofo , e muito mais aos que parece 

que 



1 



Década VIII. Cap. XXXV. 329 

'que o podem melhor efcufar ; porque feni 
dúvida os mais prudentes , e fabedores 
são fempre os que de fer aconfelhados ti- 
ram maiores proveitos , pelo que mais al- 
cançam das razoes alheias , cm que fe lhes 
defcobrem mais coufas que podem alu- 
miar , pêra fazer mais acertado juizo nas 
matérias de que fe trata ; porque nas cou- 
fas futuras , ou taes, que le não pode nel- 
las tomar refoluçao por fundamentos cer- 
tos > hao-fe de contrapezar as razões , e 
feguir a parte mais vereíimil 5 e que tiver 
as conjecturas mais poderofas ; porque na 
opinião dos homens pode haver diíferença , 
mas não na razão das coufas , que o curfo 
do tempo encaminha fempre por huma via 
pêra bem , e pêra mal \ e o tempo de as 
conjecturar bem todas , he antes de as ter 
começadas , porque os princípios em tudo 
são parte principal das coufas , e as mal 
principiadas he impoííivel terem bom fim , 
fenão contrario , eperdidofo. Não he guer- 
ra pêra emprerider levemente a que fe ha 
de fazer com Portuguezes , nação tão belli- 
cofiííima , que com clariflimas viítorias tem 
illuílrado o feu nome pêra fempre ; não 
tem fuccedido coufa nova, em que o rom- 
pimento fe polia fundar > nem nós temos 
razão , por que hajamos de fer principaes 
21a diíferença com elles y e movidos a iífo 

por 



330 ÁSIA de Diogo de Couto 

por a dmoeftações de Príncipes eítranhos, 
nã*o parece conielho pêra feguir , porque 
nunca deixou de fer imprudência entrar em 
trabalhos por parecer de peflbas , que fi- 
cam fora delles. Não ha coufa nefte mun- 
do tão boa y que ufando-fe mal delia , não 
mude a natureza , e fe torne má. O confe- 
lho 5 que tão pouco ha louvei tanto , mui- 
tas vezes foi mui damnofo , porque com 
coníelhos fe vingaram muitas peííoas de 
outras , a que por outra via não podiam 
empecer , e por iffo não he de obrigação 
tomallo , fenao ouvillo ; e aborrecer conie- 
lho de paz , he degenerar da natureza hu- 
mana ; porque os autos , e exercícios da 
guerra mais conformão com a fereza , e 
humanidade dos brutos animaes 5 que com a 
razão , e humanidade dos homens , entre 
os quaes não são approvadas outras guer- 
ras, fenão as juítas , e neceííarias pêra fuf- 
tentação dos povos , e fegurança dos Rei- 
nos ; e os de VoíTa Alteza eftam hora em 
tal quietação, e profperidade , que não fei 
couía mais pêra delejar , que podermos 
aífim viver no eftado em que nos achamos ; 
nem mais que pêra fentir, que fer por al- 
guma via combatidos , e tirados delle. E 
pois outrem não no-lo quer , nem pode 
perturbar, devíamos não fer nós os autho- 
res de entregar noffa felicidade ao poder 

da 



Década VIII. Cap. XXXV. 331 

5da fortuna , fobmettendo noflas coufas aos 
íeus contraftes com deíheceflarias conquis- 
tas , quando com iíTo nos fazemos a nós 
mefmos primeiros inquietadores do noíTo 
focego , e fegurança. Não fe pode negar 
aos Portuguezes ferem muito valerofos nas 
armas , e terem nellas muita ventura. O 
Vifo-Rey, que agora tem, he mais pêra 
temer , que pêra defp rezar , prudente : ca- 
valleiro , experimentado nas coufas da 
guerra , defobrigado de mulher, e filhos 5 
ambicioíiífimo de honra , e gloria , duas 
coufas de que os homens são tanto mais 
cubiçofos , quanto mais tem ganhado dei-* 
las. E pofto que agora tenha menos gente 
comligo , tanto que fe fouber que tem 
guerra em Goa , logo lhe acudirá quanta 
houver em todas as Fortalezas de arredor ; 
he cabeça de feu Eftado , eftá nella o feiv 
Vifo-Rey , hão-lhe de acudir huns por íima 
dos outros com grandiíTimo fervor. Eílam 
em huma Ilha com hum rio diante , cuja 
paífagem ha de fer defendida , e a entrada 
nella nunca fe poderá tolher aos que de 
fora virão , pois ha de vir por mar , no 
qual ninguém fe lhes pode oppòr 5 e a 
quem delia maneira eftá , bafta-lhe menor 
poder, e apercebimento pêra fe defender, 
do que íe ha de mifter pêra o ir bufcar , e 
ofFender } quanto mais que não fe ha de 

con- 



33^ ÁSIA de Diogo de Couto 

conliderar o numero > fenaò o valor dos 
homens, do qual ha muitos neftes , que fe 
imagina privar do Eftado , em que dirão 
ter o mefmo direito que tem os outros nos 
que poíluem , pois os ganharam por ar- 
mas , como fe ganham todos- Poucos titu- 
los mais juftos ha na terra , poucas partes 
delias são hoje pofluidas dos primeiros fun- 
dadores , ou feus defcendentes ; não tem os 
Eftados eífa firmeza , cada dia os mudam 
as contendas , e cubica dos homens , que 
da maior força tem feito melhor direito ; 
mas por muito que fe de iílo veja , não fe 
hão de commetter as guerras temeraria- 
mente por Ímpeto , nem leves fundamen- 
tos ? fenao com grande , e maduro confe- 
lho 5 fobre longa coníideração 3 ainda que 
fe não corra com outro rifeo , fenão fahir 
com qualquer quebra das coufas em que 
por próprio moto fe quiz entrar , e por 
iífo fe hão de confiderar bem os princípios 
delias , porque em muitas não he depois 
em mão dos homens fahir-fe das fuás con- 
íideraçoes , fenao com muito deferedito 3 e 
grande quebra da honra > e reputação , e 
são muitas vezes forçados a fahir-fe delias 
por difficuldades que fe lhes defcobrera 
tamanhas , e tão repugnantes fuás delibe- 
rações , que fe perderia muito mais , e feria 
maior erro quereilas levar avante \ e iílo 

não 



Década VIII. Cap. XXXV. 333 

não he impoffivel acontecer na guerra dos 
Portuguezes , que fendo grandiífimos con- 
quiltadores , são muito mais confiantes , e 
esforçados defenfores do que poífuem ; 
porque muitas vezes fe tem vifto fuílentar 
coulas de que não tiravam proveito , nem 
honra , fenão por pura opinião de fe não 
prefumir deiles 5 que as largavam por te- 
mor 5 ou defeonfiança de as poder defen- 
der. E quanto a mim muito bem fei que 
fe deíla guerra refultarem grandes honras y 
e interefíes , que não fera meu o peior 
quinhão ; porque Voífa Alteza por me fa- 
zer mercê , como coíluma 5 me terá ordena- 
do no governo das coufas lugar aífás hon- 
rado. Porém eu de nada me poílo fatisfa- 
zer 3 fenao de cuidar que cumprirei no que 
devo ao ferviço de VoíTa Alteza. E poílo 
que neíla parte lhe tenha feito as lembran- 
ças que me parecerão de minha obrigação, 
daqui por diante , pêra o que ordenar fua 
vontade , lhe oífereço tão diligente ferviço y 
como he razão que de mim efpere , não 
com as forças que promette hum corpo de 
tantos annos , fenão com as mefmas , que 
fe acharam em mim no melhor da idaae, 
quando Voífa Alteza em mais forte difpo- 
fiçâo foi de mim melhor fervido. » 

Não moítrou EIRev defeontentamento 
deíla falia de Norichao > nem fe moveo 

ai- 



334 ÁSIA de Diogo de Couto 

alguma coufa por ella , antes como acon- 
tece nas determinações , em que fe juntam 
poder , e vontade , começou logo a enten- 
der nas preparações do abalo , que tardou 
pouco ; porque além de todas as coufas 
neceffarias eiiarem juntas muito a ponto, 
punha-fe no aviamento delias tão ardente 
diligencia, como fe coítuma empregar na 
execução das coufas de maior alvoroço dos 
Reys y e no efpaço de três mezes que ha- 
veria do tempo , em que a determinação 
da guerra fe não pode mais encubrir aos 
feus , até aílentar cerco fobre Goa , man- 
dou o Idalcão ao Vifo-Rey , em forma de 
Embaixador, hum Capitão feu Períío, cha- 
mado Coração Cão , homem de fer, e en- 
tendimento , que fendo mais verdadeira- 
mente vindo a efpiar , fingio pedir carta-» 
7es ; dando a entender em praticas que o 
Idalcão havia cedo de mandar fobre o Ca- 
pitão, que dizia ter-fe-lhe levantado, e fo- 
bre as terras de Sanguife , pêra fe poder 
attríbuir a iílo qualquer coufa que foaífe 
de feus apercebimentos , e juntamente de 
gente. Todavia o Viíb-Rey o enlevou , e 
tomou em palavras de maneira , que lhe 
veio elle a dizer , que do feu entendimen- 
to ninguém fe podia valer; e alcançando-o 
em razões, chegou a confeífar-lhe tudo em 
fegredo* 

Os 



Década VIII. Cap. XXXV. 335: 

Os Mouros começaram a dar fuás ba- 
terias por todas as partes ; e onde mof- 
tráram maior força , foi no Caítello de Be- 
neílarim , que tem duas torres , huma dian- 
te da outra , de feição que faziam huma 
fó fronteria pêra as eftancias dos inimigos , 
e com muita forca bateram a torre dian- 
teira , que eftava quaíí fobre o rio , e lhe 
começaram a abrir algumas brechas que de 
noite refaziam os noifos , e elles derruba- 
vam de dia. Da noífa parte também fe lhes 
fazia bem dedamno, porque não fó a ar- 
tilhem das eftancias , que era groífiífima , lhes 
derrubava feus vallos , e trincheiras , mas 
a das noífas barcaças , e galés , que anda- 
vam no rio , lhes davam continuas baterias 
ora nefta, ora naquella parte , com que 
os Mouros defatinavam ; e ainda defem- 
barcavam em terra de noite da outra par- 
te , e lhes da\ r am nos trabalhadores , que 
andavam nas fortificações das eftancias em 
grande copia ; e a trabalhar nos entulhos 
que queriam fazer , affim no paífo Secco , 
como no de Sant-Iago , pêra paífarem á 
noífa banda a pé enxuto , que eram os que 
padeciam todo o damno \ e a tenção do 
Idalxá era mandar bater todos os noifos 
paífos com grande fúria, por ver fe o Vi- 
fo-Rey fe defeuidava de algum por acudir 
9L outros 7 pêra ver fe lhe ficava lugar pêra 



336 ÁSIA de Diogo de Couto 

poderem os feus por ellc entrar na Ilha ; e 
como o maior cabedal eftava mettido nas 
eftancias do paílo de Beneftarim , alli pre- 
tendiam os inimigos fazer paílagem , c 
plantaram íbbre hum tezo duas peças grof* 
ias , com que batiam a povoação toda de 
través , pêra ver fe a podiam fazer defpe- 
jar. Alli infiítíram tanto , que derrubaram 
a torre dianteira, ficando a outra também 
damnificada , e defcuberta mais á bateria , e 
o mefmo a Igreja de Sant-Iago, pelo que 
a mandou o Vifo-Rey entulhar ; e todavia 
a parte que deícubriarn da Igreja , puzeram 
os Mouros por terra , e o Vifo-Rey fe re- 
coiheo na Sacriftia , e mandou reparar, e 
fortificar aCapeiia, que também eftava da- 
mnificada. 

Vendo o Viíò-Rey a importunação dos 
inimigos, como era fagaz Capitão , manda- 
va de noite fazer grandes fogos , e luminá- 
rias de tochas em lugares efcuros , pêra 
que cuidaílem os inimigos que eftava elle 
alli ceando, pêra que lhe atiraífem, ede£ 
pendeíTem baldadamcnte muita pólvora „ 
como muitas vezes dcfpendêram fem damno 
noílb. Succedto huma noite ver Fernão de 
Soufa de Caftello-branco hum grande fogo 
na eftancia de hum Capitão , que ficava fron- 
teiro a elle , a cuja claridade fe hia forti- 
ikandoj e fazendo feus entulhos com huma 

fom- 



Decáda VííL CM XXXV. 337 

ibmma de trabalhadores, e pêra que elles 
trabailiaffem mais contentes , o faziam ao 
fom de muitos inílrumentos , bailes, edan* 
ças de muitas bailadeiras, de que no exer- 
cito havia grande quantidade , que fazem 
tudo com grande deftreza. Era o lume ta- 
manho que da eftancia de Fernão de Soufa 
fe enxergava a gente , que andava traba-, 
lhando ; pelo que mandou a hum bombar- 
deiro que apontafle naquelle cardume hum 
leão, o que eile fez tão deftramente* e tão 
certo , que matou o Capitão que andava 
fazendo chegar a gente ao trabalho , e le- 
vou quatro, ou finco das bailadeiras , cujos 
corpos foram feitos em pedaços pelos ares > 
fazendo bem diíferentes mudanças das que 
pouco dantes faziam* 

No meio deites trabalhos tinha o Vifo- 
Rey cada dous , e três dias novas do gran- 
de aperto em que Chaul eftava , donde lhe 
efcrevèram que houve fazerem-fe requeri- 
mentos aos Capitães , pêra que fe recolhe£- 
fe a artilheria das eítancias á Fortaleza 
velha , por quanto ella não laborava , por 
eítar a maior parte cega com os entulhos 
que as tapavam ; e que permittindo Deos 
pelos peccãdos de todos , que as tran- 
queiras fe perdeíTem , fe não perderia a 
artilheria , que na Fortaleza velha fe 
podiam fortificar , e defender muito bem ? 
Couto. Tom. V. P.L Y e 



33^ ÁSIA de Diogo de Couto 

€ que fe defpejaífe a Cidade de mulheres, 
^porque neíles cercos são de maior perda 
•que proveito. Mas os Capitães não quize* 
Tàm que aquella pratica foífe pôr diante, 
porque eftavam apodados a morrerem to-* 
dos fobre hum fó palmo daquellas tran- 
queiras ; mas o das mulheres pareceo bom 
•arbítrio , e logo fe fez preftes huma náo 
'de Lopo de Aguiar , na qual Luiz Freire 
embarcou fua mulher , fogra , e familia , e 
muitos cafados embarcaram às fuás , e affim 
a defpedíram fem mais guarda alguma ; e 
fe quatro Paráos davam com ella , levavam 
huma muito arrezoada preza ; mas quiz 
Deos que chegaífe a falvamento. Também 
Pedro Preto , fogro de Ayres Telles de 
Menezes , que eílava em Dio , homem de 
•quem fe certificava tinha hum milhão de 
ouro , pedio licença ao Capitão mór pêra 
ir pôr lua fazenda y e familia em Dio , e 
que lhe déífem pêra ííTò huma galé , na 
"qual mandaria muitas munições , o que o 
Capitão mor lhe concedeo , e affim ficou a 
Cidade defpejada de -mulheres, eeferavos, 
: em que fe poupou muito mantimento. 

No mefmo tempo chegou recado ao 
Vifo-Rey que havia em Chaul grandes dif- 
ferenças entre Luiz Freire de Andrade, Ca- 
pitão daquelía Fortaleza , e D. Francifco 
Mafcarenhas , Capitão mór daquelía em» 
È pre- 



Década VIIL Cap. XXXV. %$f 

preza , e de todo o Norte , fobre quem 
havia de tirar nas occafioes ao campo a 
bandeira de Chriílo ; e porque o tempç* 
não eftava pêra fe moverem eícandaíos , 
que feriam caufa de huma deíaventura , 
por meio de Capitães , e Religiofos íevie-* 
ram a comprometter no que o Vifo-Rey 
fobre o cafo ordenaífe , é cada hum delles 
lhe mandou feus apontamentos com as rar 
zoes de fua pertenção. O Vifo-Rey ajuntou 
a confelho Capitães , Letrados , Juriftas , e 
Religiofos doutos , e entre todos fe aífen- 
tou que o Capitão da Cidade, quando fo*ífe 
v neceflario fahir ao campo , tiraííe a ban- 
deira de Chriíto , e D. Francifco Mafcarer 
nhas trouxeífe fempre hum guião > e o Vi- 
fo-Rey efcreveo a ambos os agradecimen- 
tos do que tinham feito naquella guerra, e 
do bom modo que tiveram naquella diffe- 
rença, pêra não irem efcandalos por dian- 
te, n - ; 
. Tinha o Vifo-Rey hum cavallo fíiurzello 
muito fermofo , que por muitas vezes lhç 
mandou o Idalxá pedir por varias peífõas 
lho vendeiTe , offerecendo-lhe mil e qui^ 
nhentos pagodes por elle, que valem hoje 
dous mil e duzentos xerafins. Pelo que de- 
fejou o Vifo-Rey, quando logo chegou o 
Idalxá , de lhe mandar eíte cavallo , e aílim 
o fez, mandando-lho por António Mendes 
Y ii de 



340 ÂSIÀ DE Diòtío de Couto 

deCaílro, com feus telizes de veludo fran* 
jados de ouro , e lhe mandou dizer pof 
elle que foubera que Sua Alteza defejava 
muito aquelle cavallo pêra paflar nelle á 
Ilha de Goa : que alli lho mandava , e lhe 
-pedia de mercê , que fe quizeíle fervir dei- 
te, que o haveria por grande, e boa ven- 
tura , e que defejava muito de o ver em 
Goa pêra o fervir ; e defendeo a António 
Mendes de Caftro que não tomaíTe coufa 
alguma em retorno do cavallo. O Idalxá 
quando lho elle aprefentou, o eílimou mui- 
to , e não refpondeo mais que com agra- 
decimentos , fem deferir ao mais recado , 
e mandava dar a António Mendes hum tra- 
çado pêra o Vifo-Rey , com a guarnição 
de pedraria que valia muito dinheiro , o 
qual António Mendes não quiz tomar, di- 
zendo que por nenhum outro preço lhe 
mandara o Vifo-Rey aquelle cavallo , fe- 
nao pela honra que efperava de Sua Alteza 
paífar nelle á Ilha de Goa , onde defejava 
de o ver. AíTim fe tornou o António Men- 
des , e o Idalxá ficou mui contente com o 
cavallo , mas não lhe durou muito o gofto , 
porque dahi a poucos dias lho mataram 
com huma bombarda, da que fentío tanto, 
que fe igualou a dor ao goílo que teve de 
lho darem. 

CA* 



Década VIII. Cap. XXXVL 341 

CAPITULO XXXVL 

Dofucceffo que houve nejle tempo em Chà#h 
e de alguns grandes .feitos que os 
nojfos fizeram. 

ALexandre de Soufa tanto que fe met- 
teo na Igreja de S* Francifco , e via 
que os inimigos tinham alli o olho , por-? 
que as mais das viftas que davam eram 
pêra aquella parte , tratou de fe fortificar 
o melhor que pode fer , e fez logo entu- 
lhos , e repairos em partes , que lhe pare- 
ceram mais neceíTarias , e prantou três 
peças groflas em hum cavalleiro de madei- 
ra , que mandou levantar em meio do cor- 
po da Igreja , donde ficavam jogando por 
hum Rebelim , que apontavam pêra hum 
palmar fronteiro, em que os Mouros fe alo- 
javam ; e no coro fe alojavam dous fal* 
coes, que ficavam jogando pêra o campo de. 
S. Sebaitiao , pêra defenderem que fe não 
chegaífem tantas vezes a elles os inimigos.- 
Neltes repairos , e fortificações trabalha-* 
vam todos aquelles Fidalgos , acarretando 
ás coitas tudo o neceííario pêra a obra f 
trazendo a artilheria , e as traves pêra os* 
repairos ^ trabalhando todos tanto , que 
nao fei o que mais mereceo ; e fe houve 
^Jgum que fe .avantejaífe> foi Ruy Gonçal- 
ves 



34^ AS I A de Diogo de Ccnrrô 

ves da Camera, que não trabalhou pm to* 
do eíte cerco cómò Fidalgo da fua quali- 
dade > fenao como hum mariola muito va^ 
lente 5 e forçofo. Muito invejados foram 
todos os que eftavam alli , dos mais que 
havia pelas tranqueiras , como fe todos em 
qualquer parte que eftiveífem não correi* 
fem tanto rifco huns , como os outros ; e 
todayia parecendo a alguns que lá pode- 
riam ganhar mais honra 5 deixarão os lu- 
fares que tinham 5 e fe paífárao pêra S. 
rancifco , como foram D. Henrique de 
Menezes , D. Fernando de Menezes leu 
primo , Francifço de Sá de Sampayo , An^ 
tonio Pereira , Braz da Silva , Sebaítião 
Gonçalves de Alvellos , e outros muitos , 
aos quaes concedeo o Capitão mór aquela 
}a licença 3 por particular mimo , e mercê. 
Eítas novas do cerco de Ghaul , e do 
rifco ? e perigo em que eftava, moveram a 
alguns Fidalgos y e Cavalleiros a fe irem 
achar íiaquelles trabalhos , porque ainda 
naquelle tempo os peitos Portuguezes fu^ 
zilavam faífcas , e chammas de honra 5 e 
primor , que não fei fe já de todo fe apa4 
gáram , e aílim fe negociaram alguns pêra 
chegarem a participar da honra , que ga^ 
nhavam os que naquella guerra ailiftiam 
cada dia : e aílim fe embarcou Thomé 
á# Soufa Coutinho P itjnao do Governador: 



Decaia VIII. Cap. XXXVI. 343 

Manoel deSoufa, em hum parao comdoze 
.foldados a furto do Vifo-Rey , e fe apre- 
fentou ao Capitão mor *, pêra que o pu- 
zcífe onde fe cumpri iíem aquelles honrados 
defejos que alli o levaram. João Alvares 
Soares , fobrinho de André Soares , que 
foi grande vaífallo de EIRey D. João III; 
que efcava fervindo o cargo de Efcrivão 
da Alfandega de Dio ,■ que já outro irmão 
fervíra, em lhe chegando as novas, largou 
tudo, e bufcando huma galeota, eícolheo 
pêra o acompaharem trinta foldados , com 
que fe foi metter em Chaul , e fe oftereceo 
ao Capitão mor que lhe fez, muitos gaza- 
lhados , e o apofentou em huma parte da 
tranqueira defronte de S. Francifco , e aíTim 
chegou também Francifco Velho , Capitão 
que eílava na Tanadaria de Maí , que foi 
poíto junto a João Alvares Soares. 

Ignacio das Povoas irmão do Provedor 
da Alfandega de Lisboa, que fe achou em 
Baçaim , também fe fez preíles pêra ir de 
foccorro , como fez fem lho impedir o 
Capitão Martim Affonfo de Mello , que 
também receava trabalhos, e mandou lan- 
çar grandes , e públicos pregoes fob pena 
de quinhentos cruzados , e dous annos de 
degredo , aquém fe fahiíle daquella For- 
taleza , e Cidade , que também era de Eh- 
Rey como as outras , e hayia.iiiiíter quem 

a 



'344 ÁSIA dê Diogo de Couto 

a guardafle , porque andavam alguns Ca- 
pitães do Nizamoxá por aquellas terras > 
e fe prefumia que iriam affentar feu cam- 
po fobre aquella Cidade , os quaes parece 
quç accendèram mais os ânimos dos que 
defejavam achar-fe em Chaul , como foi 
D.João Bellez , primo com irmão de EIRey 
de Bellez , que eu vi entrar em Lisboa , 
quando veio a pedir foccorro a EIRey D. 
João o III. o qual D. João eítava cafado , 
e muito rico naquella Cidade , onde fe em- 
barcou em huma galeota com alguns com- 
panheiros , ao qual D. Francifco Mafcare- 
nhãs recebeo com grandes gazalhados , aíTim 
pela qualidade de fua pefíba , como porfer 
grande cavalleiro. Da mefma maneira fe 
embarcou Gafpar Velho , enteado de D. 
Pedro de Menezes o Ruivo , irmão do 
Conde de Cantanhede , o qual diífe publi- 
camente ao Capitão de Baçaim, que eile 
hia foccorrer a Fortaleza de EIRey ; que 
quanto á pena de dinheiro em que cahia , 
a podia logo mandar cobrar por fua fazen- 
da j porque a tinha muito boa de raiz , e 
que no degredo pêra Maluco , elle fe ha- 
via por condemnado , porque elle efperava 
de que no cerco merecia tanto , que EiPvey 
não ío lhe perdoaíle o degredo , mas ainda 
lhe fizeííe muita mercê : e aílim fe foi met* 
tsx em Chaul , onde o Capitão mor o poz 

cm 



Década VIII. Cap. XXXVI. 345- 

em parte, em que pudeífe defempcnhar-fe 
da fatisfação de fuás promeíTas : também 
acudio logo a Chaul António Rodrigues 
de Gamboa , Veador da fazenda daquellas 
Fortalezas , peiToa de muita importância 
pêra o ferviço de EIRey , em que por to- 
das as vias o fez affim nas armas , como 
nas letras , por fer grande Juriíla ; de ma- 
neira que com eftes foccorros ficou a Ci- 
dade de Chaul com mil e cento , até mil 
e duzentos foldados , e entre elles todas as 
fidalguias dos appellidos do Reino, e com 
a foldadefca mais efcolhida da índia. 

Foram tão grandes , e tão continuas 
as baterias , que os Mouros deram em to- 
das as noíías eftancias , que muitas menos 
eram baftantes pêra arrazar os fortiílimos 
baluartes das Fortalezas de Europa mais 
inexpugnáveis , quanto mais huns entulhos 
tão fracos com que os noílbs fe repara- 
vam , e defendiam , tendo contra li aquelles 
Cafapos arrumadores de tudo , que não 
davam tiro que não levaffem tudo após íi , 
e todavia arrazáram o baluarte Santa Ca- 
tharina , que defendia a Vafa , porque 0$ 
muitos , e certos tiros que delie fe fizeram 
contra os Mouros , provocaram a ira da- 
quelle Rey pêra mandar virar a elle a 
maior força da fua potencia , porque dalli 
ihçí mataram peífoas muito acceitas á fua 

pre- • 



346 AS TA de Diogo de Couto 

preíença , entre os quaçs, foi hum Badalu- 
cão Mogor cie nação, Capitão de cavallos, 
eftando junto delle , e ainda dizem que fi- 
cou EIRey borrifado do feu íàngue, coufa 
que tomou a ruim agouro , e logo fe mu- 
dou daqueile lugar, c encommendou aFar- 
tecao , e aos mais Capitães que lhe mof- 
traílem vingança daquelle baluarte de que 
tanto damno recebera , e ailim puzeram 
contra elíe toda a força do poder da arti- 
lheria, que não fó lhe cegou todas as pe- 
ças , mas ainda o arrazáram até o meio 
com fer o baluarte de hum groffo entulho., 
e com paredes de pedra , e cal de quinze 
palmos de groílura , o que quebrantou o 
animo a muitos em verem tão brevemente 
arrazada , e desfeita huma força de tanta 
confiança. 

Nefta bateria fe efmeráram os artilhei- 
ros tanto, que algumas vezes fuccedeo en- 
contrarem-fe os pelouros no ar, e quebra- 
rem das bombardadas os apparelhos , e 
repairos. Mas as peças que maior dámno 
fizeram , foram as que os Mouros prantá-r 
ram da outra banda do rio , porque def- 
cubriam toda a Cidade , e dentro nella fi- 
zeram grandes eftragos , e de huma vez 
mataram o noíTo Condeftavel da Fortaleza 5 
que foi grande perda , e doutra o Meiri- 
nho da. Cidade + e de outras alguns foldft- 
• . _ dos 



Década VIII. Cap. XXXVI. -347 

dos nos navios , c nas eftancias ; fenão 
quando fuccedeo huma vez paliar hum pe- 
louro muito por alto das noílas tranquei- 
ras, e atraveílando toda a Cidade , ir pef- 
car duas vigias da outra banda na eftancia 
de Pedro Preto , antes que fe fofle pêra Dio ; 
e aílim deftes defaftres , e de outros nun- 
ca deixou de haver nos noílos ao redor de 
duzentos foldados feridos , fenão quanto 
alguns o foram muitas vezes, aílim debom- 
bardadas, como de feridas , porque como 
pafiaram as primeiras baterias , e viram que 
ficavam as tranqueiras em pé , ficaram os 
noífos foldados tão affoutos 3 que fem licen* 
ca dos Capitães fahiam das tranqueiras , e 
hiam cada dia duas , e três vezes commetr 
ter os Mouros 5 e algumas vezes até -fuás 
eítancias , que eíta foi a guerra que elles 
mais fentiam que todas , porque os com- 
mettimentos eram accelerados , e com tanta 
preífa , que chegavam a fazer feus afíaltos 
correndo , e da mefma maneira fe reco- 
lhiam ; e aílim me lembra perguntar por 
hum foldado muito honrado pêra faber o 
que fizera nefte cerco , e diiTe-me hum feu 
amigo que nunca fahíra das eítancias, por-» 
que era muito zambo das pernas , e lança- 
va os pés atraveílados , e que como todos 
faziam feu negocio correndo , e eile o não 
jppdia fazer bem ., pelo impedimento que 

ti- 



348 ÁSIA de Diogo de Couto 

tinha 5 fe não achara nunca naquelles 
aiTaltos : muitos foldados de valor eram 
muito continues nelles , como eram João 
Barriga Simões , Luiz Machado Boto , 
Sebaffião Gonçalves de Alveilos , Gonçalo 
Rodrigues Caldeira 5 Francifco de Sá de 
Menezes Solufmundi , e aífim era tão gran- 
de ca vali eiró , que fe podia fó chamar 
entre muitos , Jeronymo Curvo , Francifco 
de Sá de Sampayo , Thomé de Soufa 
Coutinho , Braz da Silva , Álvaro Peixoto , 
Domingos do Álamo , Francifco de Soufa 
Tavares , D. Henrique de Menezes , pri- 
meiro que fe metteífe em S. Francifco , 
Nuno Velho Pereira , D. Gonçalo de Me- 
nezes , Heitor de Sampayo : em fim todos 
os que fe acharam naquelle cerco fizeram 
tanto, que nenhum podemos affirmar, que 
com razão fez mais. 

Paliados muitos dias de Janeiro deite 
anno de 1571. chegaram os Mouros a eítar 
tão perto com os de S. Francifco , que 
quaíl eílavam com elles á falia; e como já 
os noíTos traziam a mão folgada das visto- 
rias que em alguns aílaitos alcançaram dos 
inimigos ? aírrontados de fe lhes avizinha- 
rem tão perto , determinaram de lhes fa- 
hir , pêra o que fe prepararam, e vefpera 
do Martyr S. Sebaftiao lhes fahíram , e 
deram de fupito na eílancia que eílava jun- 
to 



Década VIII. Cap. XXXVI, 349 

to a huma cafa meia derrubada , lançando- 
Jhes muitas panellas de pólvora , com qtie 
abrazáram muitos que eftavam na cafa meia 
derrubada que diíTe , fem receio de ferem 
íalteados da gente cjue elles tinham em 
tanto aperto , ficando daquella feita mui- 
tos mortos > e feridos , e com receio de 
em nenhuma parte eftarem feguros dos 
noílbs ^ e aífim fe recolheram com efta hon- 
ra , fem fe perder nenhum ? pofto que os 
mais fahíram feridos , pouco ^ ou muito , 
não das mãos do-s Mouros , mas de huma 
roqueira de pedras , que deo no Rebelim 
entre todos , que derrubou feridos a maior 
parte delles. Acháram-fe nefte feito com 
Alexandre de Soufa , Ruy Gonçalves da 
Camera , D. Henrique de Menezes , D. Luiz 
•de Caftello-branco , Diogo Soares de Al- 
bergaria j Manoel Pereira, de Lacerda, 
Francifco de Soufa Tavares 9 Jorge da Cu- 
nha Coutinho , Francifco de Sá de Mene- 
ses Solufmundi , e outro Francifco de Sá 
de Sampayo , Braz da Silva , Álvaro Pei- 
xoto , Chriítovão Curvo , e outros cavallei- 
ros honrados , e aííim eíle dia do Bema- 
venturado S. Sebaftiao amanheceo celebra- 
do com eíla vitoria , que foi maior do que 
eu a foube efcrever. 

Deite fucceífo ficaram os Mouros mul- 
to afFrontados y pelo que determinaram af- 
iai* 



g yo A S I Â de Diogo de Coirro - 

faltar com hum grande poder o forte de 
S. Francifco , da qual empreza fe encarre^ 
giram dons Capitães ; e em huma noite 
muito efcura , antes do quarto da madorra 
rendido, cercaram a cala de S. Francifco 
com íinco mil homens , e logo começaram 
a fubida p.or três partes. Vigiava aquelle 
quarto Ruy Gonçalves da Camera com os 
ibldados de fua obrigação , encoftado a 
hum entulho fobre que jogava huma eí pê- 
ra, que já eftava cega no Rebelim ; e Ruy 
Gonçalves de cançado do fucceíío paíTado 
eftava repoulando , e ao rumor dos Mou- 
ros defpertou logo bradando por armas, 
ao que acudiram todos com ellas ; e pon- 
do-fe em defensão , fe travou entre todos 
huma muito afpera batalha , em que os 
Mouros como magoados fizeram denoda- 
dos accommettimentos ; mas em todos fo- 
ram rebatidos com grande esforço daquel- 
les valerofos Fidalgos , e cavalieiros , que 
todos nefte tranfe fizeram altiflímas cavalla- 
rias , lançando fobre os cardumes de Mou- 
ros , que fubiam pelas efcadas , mui baftas 
bombas de fogo , e outros artifícios ; e os 
inimigos infiítíram tanto na entrada , que 
vieram á efpada com os noífos pelas freftas 
de ííma das efcadas , os quaes eram debai- 
xo favorecidos com muitos tiros , que já 
tinham as freftas cegas de todo ^ e porque 

fe 



Década VIIL Cap. XXXVI. tfi 

fe preíiimio que os Mouros picavam a par 
tede em baixo , convidou o Capitão alguns 
foldados pêra por huma freíta verem fe os 
enxergavam trabalhar ; mas Chriftovão Cur- 
vo de Siqueira , fem fer chamado , embra- 
çou huma rodella , e com huma tocha nâ 
mão lançou o corpo pela freíta fora pêra 
ver o que hia em baixo , bradando alto 
pêra que os Mouros ouviíTem , e fe afFaftaf- 
fem ' } e eítando naquelle lugar , recebeo on- 
ze frechadas na rodella > que fe foram no 
corpo, fe pudera parecer com S. Sebaítião. 
O Capitão não teve avifo daquella op- 
prefsao , em que os noííos na cafa de S. 
Francifco eílavam , e defejou de mandar 
faber o que lá hia, ao que fahio Jeronymo 
Curvo y irmão do mefmo Chriftovão Cur- 
vo, com Sebaílião Gonçalves de Alvellos , 
Diogo Ribeiro , e António Mexia , e fo- 
ram de longo das paredes até chegarem a 
S. Francifco } e viram eítar Chriftovão Cur- 
vo na freíta bradando , e o irmão o conhe- 
ceo logo , affim na falia , como no roíto, 
que com a claridade da tocha fe via mui- 
to bem ; e bradando pelo irmão , lhe per- 
guntou como eílavam ? Ao que elle lhe re- 
ípondeo que bem. Eftas novas levaram ao 
Capitão mór , que logo defpedio Nuno 
Velho Pereira com quarenta foldados , e 
muitas munições pêra os ir foccorrer. Os 

do 



35^ ÁSIA de Diogo de Coirra 

do baluarte eítiveram muito apertados $ 
porque lhes durou aquelle conflifto perto 
de finco horas , em que fe gaitaram todas 
as panellas de pólvora , e depois não ficou 
gorgoleta , púcaro , talha , nem pote , que 
fe nao lançafíV fobre os inimigos , até tira- 
rem dos entulhos traves 5 e outras coufas 
que lançavam fobre elles ; em fim com tan- 
tos inítrumentos de morte ficaram os Mou- 
ros taes 5 que de puro cançados , e nao po- 
derem foffrer tanto damno , fe recolheram 
ás fuás eítancias 5 deixando trezentos dos 
feus abrazados ao redof da cafa deS. Fran- 
cifco , e levando mais de quinhentos feri- 
dos , fem da noíTa parte perigar nenhum y 
e fó alguns ficaram feridos y e defcalavra- 
dos. 

Nuno Velho Pereira foi com o foccorro 
por dentro de huma fiada de cafas , que hiam 
ter a S. Francifco, que eítavam furadas de 
humas pêra as outras , pêra darem paíTageiri 
aos noffos , querendo dar foccorro aos de 
S. Francifco y e indo com grande cautela, 
e vigilância por dentro de todas , por lhes 
parecer que em qualquer delias poderiam 
eftar Mouros » chegou á porta , e chamou 
pelos de íima que lhe acudiram ; e per- 
guntando-lhes.ò que havia paífado , lhe re+ 
dpondêram que todos citavam bem, e fem 
damno, mais que jalguns feridos, e que ao 

pé 



Decaga VIII. Cap. XXXVI. 35-3 

pé da cafa poderiam ver o que tinham fei- 
to ; e dando-lhe Nuno Velho grandes vi- 
vas 5 e louvores , lhes deixou as munições, 
e fe tornou. Deite íucceílb ficou Nizamoxá 
mui affrontado 5 e defenganado de poder 
ganhar o forte de S. Francifco , e com 
efta melancolia mandou aíleílar a elle duas 
peças groíTas y com que o bateram por três 
dias continuos , com grande perigo dos que 
eítavam dentro , porque nenhum deixou de 
fer ferido , e por vezes enterrado nas ruí- 
nas de pedra , e madeira que a bateria def- 
baratava , fem terem amparo 5 nem abrigo 
mais que cozerem-fe com as paredes cuber- 
tos com murriões > e felladas pêra repara- 
rem as cabeças das ruinas > que fobre elles 
cahiam das pedras , vigas , madeiramentos > 
lanços de paredes inteiros 5 com que os 
nolfos fe viram tão atormentados , que che- 
garam a^defefperar de poderem defender 
aquelíe forte ? e já alguns foldados fehiam 
fem os verem , dizendo que melhor era 
irem morrer nas eílancias dos Mouros , on- 
de melhor poderiam moílrar feu valor y o 
que não podiam fazer alli encurralados , 
porque fem pelejarem, os matavam, e fe- 
riam as mefmas ruinas do forte que defen- 
diam» 

• Eítes trabalhos , e defefperaçóes fabiam 

muito bem os Capitães, pelo que fe ajun- 

Cauto. Tom, V. P. /♦ Z tá- 



35*4 À S I A de Diogo de Couto 

-taram a confclho fbbre o que fe faria ; e 
apontados os inconvenientes , e riícos em 
que eítavam tão valerofos Fidalgos , e Tol- 
dados , que poderiam moílrar feu valor em 
outras partes mais neceífarias , e em que os 
inimigos melhor os conheceílem , e debati- 
das as coufas , aíTentáram por ultima deter- 
minação que fe largaífe aquelle forte,. .e fe 
recolheíre a artilheria com a maior diíli- 
mulação que fer pudeíTe , o que fe fez em 
féis dias depois do combate , tirando pri- 
meiro a artilheria , e ao depois fe fahíram 
todos , e o Capitão mor foi aquella noite 
dormir lá , e atrás delle todos os mais 
Capitães , cada hum fua noite , e fizeram 
brevemente huma tranqueira ao pé do mu- 
ro do Mofteiro, pêra dalli fe defenderem y 
deixando no Moíreiro vigias , e deita ma- 
neira fe defenderam finco dias. 

Vendo, oufabendo os Mouros que já o 
forte eítava defpejado , foram muitos del- 
les pêra fe metterem dentro ; e chegando 
ao Rebelim , em chegando a elíe começa-^ 
ram a fubir, e acharam ainda muitos dos 
noílbs que o guardavam tão anímofamente i 
que dando nos que hiam fubindo mui con- 
fiados , os deitaram do Rebelim abaixo, 
huns defpedaçados , e outros muito mal fe- 
ridos ; e com eíte ultimo fucceífo largaram 
os noílbs o Rebelim 7 ao qual acudiram 

lo* 



Década VIII. Cap* XXXVL 35$ 

logo os Mouros , e arvoraram nelle muitas 
bandeiras ; mas acudio logo D. Nuno Alva- 
res Pereira, e os lançou fora outra vez, in- 
do-os levando até os encurralar nas fuás eílan- 
cias , e tranqueiras , ficando-lhe as bandei- 
ras, e ainda muitos delles eílirados no campo* 
Aquella mefma tarde houve outra bata- 
lha entre os nollbs , e os Mouros em cam- 
po aberto , que durou por efpaço de duas 
horas ; mas os noífos fizeram nelles tal e£ 
trago , que com morte de muitos os arran- 
caram do campo, e os que foram fugindo 
não fe houveram por feguros , fenao den- 
tro em fuás tranqueiras. Morreo da noífa 
parte hum mancebo Fidalgo de huma arca- 
buzada , que parece tinha alli limitado feu 
termo , no qual fe perdeo muito , por ter 
por muitas vezes pelejado valerofamente , 
e morros muitos Mouros , porque parece 
lhe adivinhava o coração havia de morrer 
ás fuás mãos , e queria tomar vingança 
cruel tanto dante mão em vida de fua mor- 
te. Chamava-fe eíle Fidalgo D. Fernando 
de Menezes , e era neto de D. Henrique 
o Roxo , que foi Governador da índia. Fi- 
caram dos noílbs muitos feridos , dos quaes 
morreram logo féis , a quem não achei os 
nomes : dos inimigos pereceram quatro* 
-centos , ficando feridos , e queimados gran- 
de numero delles. 

Z ii Os 



35^ A S I A de Diogo de Couto 

Os Mouros não oufavam ainda de entrar 
em S, Francifco com eílar defpejado por 
caufa do fogo, que os noíTos deixaram no 
madeiramento do Moíleiro ; mas como cef» 
-fou a fúria , mettêram-fe dentro , e foram 
entrando naquella parte , que ficava entre 
osnoífos fortes, e a Igreja de S, Francifco , 
^ oceupáram muitas cafas ? e queimaram 
outras muitas ; e eftando os Capitães em 
confelho tratando fobre a fahida que de- 
terminavam fazer aos Mouros com todo o 
poder , acertou de ver Nuno Velho Pereira 
os inimigos muito perto das fuás cafas que 
elíe defendia , e entrou por huns quintaes 
com alguns companheiros , e deo nelles 
com muita fúria , travando-fe entre elles 
huma arrezoada batalha , que como os nof- 
fos o fouberam foram acudindo j e aperta- 
ram tanto com os Mouros , que largaram 
tudo , e foram fugindo por íima dos telha- 
dos das cafas , e os noífos debaixo com as 
lanças os cravavam , e outros muitos fe 
lançaram pelas jar*ellas , e fe lançaram em 
íima de hum cardume de alabardas dosnof- 
fos que eítavam em baixo, e tudo ifto por 
efeaparem ao fogo , que os noíTos lhes lan- 
çavam dentro nas cafas ; e na ponta de 
huns quintaes , aonde foi ter D, Nuno Al- 
vares Pereira , fe mataram, e cahíram to- 
dos com tanta confusão ^ que ficavam os 

mor-' 



Década VIII. Cap. XXXVI. $57 

mortos íbbre os vivos ; e tanto trabalhou 
D. Nuno Alvares Pereira eíle dia , que nas 
mãos íe lhe quebraram duas alabardas nos 
peitos dos inimigos ; e fuppoíto que os 
Mouros eram muitos , e fizeram por vezes 
voltas aos noílbs com grande determina- 
ção 5 foram em todas tão efcalavrados , que 
largando as rédeas á vergonha foram fugin- 
do , deixando dentro nas cafas , e nas ruas 
grande quantidade delles mortos , fem os 
de cavallo que lhes acudiram os poderem 
defender , porque ie não podiam metter en- 
tre as cafas , e paredes derrubadas. Foi 
Nuno Velho Pereira occafião deita vitoria, 
que foi das grandes que os noífos alcança- 
ram , porque cuítou aos Mouros mais de 
quatrocentos dos melhores , e da mais lu- 
zida gente que tinziam. 

Quando íogo oNizamoxá fefez preítes 
pêra defcer contra Chaul , mandou hum 
Embaixador ao Çamori a pedir-lhe huma 
boa Armada contra os noííbs , oíferecendo- 
Ihe grandes pagas , e mercês , e cuido que 
pêra iflo lhe mandou huma boa copia de 
dinheiro , o qual mandou chamar os arma- 
dores dos navios , e lhes mandou foíTem 
ajudar o Nizamoxá contra os nofíos , e que 
trabalhalTem por tomar a Armada que tí- 
nhamos no rio. Eltes Mouros fe fizeram 
preítes , negociaram vinte e hum navios, 

em 



35^3 A SI A de Diogo de Couto 

em que entravam finco galeotas grandes? 7 
e os mais navios de bom porte , nos quaes 
fe embarcaram ao redor de dous mil Tol- 
dados á fama dos grandes preços y que o 
Nizamoxá lhes tinha promettido do faço 
de ChauL Partida eíla Armada , dividíram- 
fe alguns navios , e os treze chegaram a 
Chaul no fim do mez de Fevereiro , e com 
grande determinação commettêram a entra- 
da do rio de noite 3 rendido o quarto da 
prima i muito a feu falvo 5 por culpa dama 
vigia dos da Armada que eítava no rio , 
que era de finco galés , e onze fuílas , a 
fora náos de mercadores , dando elles oc- 
cafióes de defpertarem com muitos inílru- 
mentos , e finos que foram tangendo ; e to- 
davia não deixaram de íer fentidos , ainda 
que tarde 5 pelo que arrancaram as galés 
de Leonel de Soufa, e a de Rodrigo Ho- 
mem da Silva , e os foram feguindo até 
defronte da fua Cidade ás bombardadas. 
Paffado efte dia do defcuido , dahi a três 
dias entraram pelo rio outros três paráos , 
que eram dos que fe apartaram 5 que não 
foram fentidos dos noífos j e vindo dahi a 
finco dias outros finco , que era o reílo 
dos navios , que fe armaram pêra eíle foc- 
corro , querendo também entrar de noite > 
foram fentidos , e lhes fahio Leonel de 
Soufa na fua galé 5 e os coçou de modo a 

que 



Década VIII. Cap. XXXVI. 359 

que fez varar hum por íima de humas pe* 
dras da outra banda do morro, e os mais 
pairaram a feu falvo j mas o que varou- foi 
tirado a monte 5 e efpalmado , e limpo , e 
no cabo de três dias entrou pelo rio den- 
tro ao meio dia , fazendo fuás algazaras , 
e dando fuás coqueadas. Francifco de 
Toar, e Rodrigo Homem da Silva, e Gon- 
çalo Bernardes , cada hum em feu navio, 
arrancaram apôs elles com tanta preífa , 
que os alcançaram ; e indo a fufta de 
Francifco de Toar pêra os inveílir , o ma- 
rinheiro que levava o leme fe defviou de 
feição , que lhe efcapou , ficando alguns 
dos foldados de Francifco de Toar feridos 
de frechadas , por defpedirem os Malava- 
res huma grande nuvem delias ao tempo 
que o noífo navio fe defviou. Os Malava- 
res ficaram tão ufanos de efcaparem dentre 
as mãos aos noífos , que chegaram á povoa- 
ção efgrimindo das efpadas , e rodelías , e 
deitando grandes barbaras pêra fe acredita- 
rem com EIRey. O Nizamaluco recebeo 
eftes Malavares com grandes honras > e os 
repartio pelas* eftancias , das quaes em hu^ 
ma puzeram huma bandeira de Chriíto co^ 
mo as noífas , gabando-fe ao Nizamaluco 
que a tomaram aos Portuguezes , e fazendo 
grande cabedal de cavallaria de paliarem 
pelo rio de Chaul , eílando nelle a noífa 

Ar- 



360 ÁSIA de Diogo de Couto 

Armada , de que os Mouros faziam gran- 
des zombarias , perguntando das Eílancias 
aos noflbs , porque não defenderam a en- 
trada aos Malavares , chamando-lhes dor- 
minhocos , que não fabiam vigiar , e cegos 
que não viam quem lhes paliava por diante. 
Os Capitães dos navios Malavares of- 
ferecêram-fe a EIRey pêra pelejarem á 
fua viíla com a noffa Armada , lançando 
grandes alardos de roncas contra os nof- 
fos y chamando-lhes de fracos , e cobar- 
des , e fazendo-fe tão fácil a vitoria que 
delles haviam de alcançar, que diziam não 
queriam efperas por dez navios que lhes 
faltavam 5 porque o Çamorim mandara trin- 
ta áquella empreza , e aflim fe fizeram pres- 
tes com tantas rebolarias, e defpejos, que 
obrigaram a EIRey a cuidar poderia fer o 
que elles promettèram ; e pêra os obrigar 
a defempenharem a palavra , fe offereceo 
pêra ver a batalha , e aflim fe foi pôr em 
hum lugar alto , e muitos dos feus vaífallos 
pêra fe irem achar com os Malavares na- 
quelle feito em huns canaletes , e entre ef- 
tes foi hum mais ordenado -de bandeiras, 
e galhardetes > em que levavam hum fom- 
breiro branco iníignia Real , e nelle hia 
hum feu grande privado de EIRey com 
feflenta foldados , gente mui efcolhida, e 
luzida , indo embarcados nos paráos com 

os 



Década VIII. Cap. XXXVI. 361 

os Malavares outros muitos Capitães , e 
foldados de preço , que defejavam de fe 
acharem naquella batalha naval , pêra par- 
ticiparem daquella vitoria , que os Mala- 
vares lhes certificavam infallivel. Eiteva en- 
carregada a guarda do rio a Leonel de Sou- 
fa com três galés , em que foram por Ca- 
pitães, afora clle, Francifco de Sá de Me- 
nezes , Gafpar Mimofo , e Rodrigo Ho- 
mem da Silva em li ama fufta. Os Malava- 
res fahíram de Chaul de fima todos em 
ala com grandes carrancas , eeftrondos bár- 
baros como elles ; eílando a praia cheia de 
gente , e as arvores de huma , e outra par- 
te pêra verem aquella feita , e regozijo : 
os noílbs vendo aquella demonítração , e 
barbara determinação , lhes fahíram do 
porto a efperallos ao meio do rio; e vin- 
do com todas aquellas carrancas , viraram 
os noíTos a elles : mas como as promeíTas 
foram no ar , e cuidaram que por iílo lhes 
déífem muito dinheiro > vindo a conclusão 
com os noíTos , lhes viraram as popas , e fe 
foram acolhendo com mais velocidade da 
com que vieram 5 e com muitos tangeres , 
e feitas , mas com grandes gritas que da- 
vam aos marinheiros , pêra que remaflem 
rijo: os noíTos os foram feguindo com hum 
fermofo jogo de bombardadas , que lhes 
foram zunindo pelas orelhas , e lhes arrom- 
ba- 



$6z ÁSIA de Diogo de Couto 

báram alguns navios , e mataram gente en* 
outros ; o canatale em que hia mettido o 
fombreiro de EIRey , foi mettido no fundo 
com a gente toda 3 de que efcapáram pou- 
cos 5 os quaes osnofíbs foram tomar vivos > 
ficando os Malavares dalli por diante mais 
encolhidos , e regiftados nas promeílas , e o 
Rei menos confiado nas que lhes fizeram; 
e commettendo-lhes por vezes que tornaf- 
fem a pelejar com a noífa Armada , elles 
fe eícusáram com as noíTas galés , dizendo- 
lhe que ellas , e os navios grandes amaífa- 
vam debaixo dos pés os pequenos ; e de-* 
pois de terem eftado em Chaul vinte dias, 
fe tornaram a fahir do rio corridos , e en- 
vergonhados ; e iílo fó fe pode achar em 
gente baixa como eíles bárbaros. * 

Quafi no mefmo tempo fuccedeo aquel- 
le honrado feito a Eftevao Pereftrello Ca- 
pitão de Caranja , pouco mais de três lé- 
guas de Chaul , o qual foi defta maneira. 
Andavam alguns Capitães do Nizamoxá 
correndo as terras de Chaul até Damão, 
com coufa de quatro mil cavallos , fazen- 
do guerra ás noffas terras , queimando as 
noííàs aldeãs , e com tenção de paliarem á 
Ilha de Salfete , e de Baçaim, que fempre 
lhes foi defendida por noífos navios , que 
andavam em guarda dos paíTos daquella 
Ilha > e dos rios y e vendo que não po- 
diam 



Década VIII. Cap. XXXVI. 363 

diam paliar delia, determinaram de paliar 
ao forte de Caranja , como fizeram Sabe- 
cao , e Fartecão , dous Capitães com dous 
mil cavallos , c féis peças de campo , fervidas 
por muita gente de trabalho. Tinha Eftevão 
Pereftrello , que era homem Fidalgo , e 
muito bom cavalleiro , impedido o paífo 
que faz pêra a Ilha com eftrepes : fizeram 
os Mouros depreífa outro paffo entulhado 
de madeira , e pedra por fer eftreito , por 
onde pairavam toda a fabrica > e foram 
pôr cerco ao Forte , que o he fó no nome , 
e fomente he roqueiro hum pequeno ba- 
luarte , que fe fez pêra apofentos do Ca- 
pitão em tempo que fe nao temiam fenao 
de alguns ladrões formigueiros , que ás ve- 
zes paliavam da terra firme á Ilha , e a 
cercaram á roda com féis tranqueiras , a 
tiro de efpingarda delias ; mas Eftevão Pe- 
reftrello fe defendeo delles com muito ani- 
mo , e lhes matou muita gente com algu- 
mas peças de artilheria miúda , e com a 
arcabuzaria ; mas foi logo foccorrido de 
Manoel de Mello Pereira , que hoje eftá 
por Capitão de Damão , que então andava 
por Capitão mor daquelles rios em guarda 
da Ilha de Salfete , com algumas manchuas 
que fe armaram em Baçaim , e vinha por 
mandado de Martim Àffonfo de Mello, 
Capitão de Baçaim, recolher a artilheria do 

for- 



364 ÁSIA de Diogo de Couto 

forte , e requerer a Eftevão Pereftrello ò 
largaíTe. Levava Manoel de Mello naquel- 
las embarcações trinta foldados , tendo Ef- 
tevão Pereftrello quarenta dentro no Forte ; 
e defembarcando huma noite Manoel de 
Mello , fe metteo na Fortaleza , que Efte- 
vão Pereftrello não tinha tenção largar, 
antes fez com Manoel de Mello que fof- 
fem dar nos Mouros com aquelies fetenta 
foldados que alli havia , porque efperava 
em Deos de fazer hum muito honrado fei- 
to; e aílim fahíram de madrugada , e com- 
mettêram as tranqueiras dos Mouros 5 que 
logo entraram, e mataram muitos ; e cui- 
dando elles que o cabedal era maior , e 
eme lhes viera grande foccorro de Baçaim , 
rói tamanho o feu medo \ e confusão , que 
logo fe puzeram em desbarato , deixando 
as tranqueiras com a artilheria , e muitas 
armas , e com boa quantidade de pólvora , 
chumbo , mantimentos , e muitos corpos 
mortos , que foram queimados com as tran- 
queiras , e nos ficou a Fortaleza provida 
de tudo o que lhe faltava , que ficou dos 
inimigos ? que ficaram tão enganados fem 
fua pertenção , que vindo a tomar aquelle 
Forte , o deixaram provido á fua eufta de 
tudo o que nelle havia neceífidade. O prin- 
cipal Capitão que foi a efte feito ficou tão 
envergonhado daquelle desbarate , e dos 

pou- 



Década VIII. Cap. XXXVL $6f 

poucos Portiiguezes , que nelle o vence- 
ram , que não fe atrevendo a tornar pêra 
o Nizamoxá , fugio pêra Cambaya com 
mil de cavallo , temendo também a ira de 
EIRey , que além de tomar muito abati- 
mento do pouco valor de fuás gentes , fen- 
tio muito a perda de fua artilheria. 

Em Chaul foram os Mouros continuan- 
do , depois que fe lhes largou S. Francis- 
co y as baterias mais apreífadas por todas 
as partes , empregando nos noíTos pobres 
entulhos toda a fúria de fua' artilheria , 
principalmente dos dous CafapoS, que eíta- 
vam prantados ás cafas de Diogo Lopes 
com ramadas por íima de taboado , e com 
mantas como galés, que cada vez que ati- 
ravam fe levantavam pêra iífo ; e porque 
fempre faziam grande damno , tinham os 
noílbs taes vigias , que em fe defcub rin- 
do tangiam hum fino pêra fe faber que ati- 
ravam elles , pêra que a gente que anda- 
va pelas ruas fe amparaíte á íòmbra das 
paredes , e ás eítancias fe refguardaíTem 
daquella parte , onde eílavam aíTeftados , 
com o que não faziam tanto damno como 
primeiro , de que os Mouros fe amofina- 
ram tanto , que afTeíláram algumas peças 
no lugar aonde eftava o fino , que era na 
Camera , e lhe deram tantas bombardadas 
até que a derrubaram ; e porque era ne« 

ce£ 



366 ÁSIA de Diogo de Couto 

-ceflario haver aquelle defpertador , o paf* 
íáram á íbmbra dos entulhos , aonde a ar- 
tilheria lhe não podia fazer damno ; mas 
aonde os Mouros faziam o maior emprego 
da fúria de fua artilheria , era nas caías 
que defendiam Manoel Pereira , e Luiz 
Xira Lobo , que fempre fe tiveram por 
mais arriícadas que todas , por filarem na 
fronteria da noíía Cidade , pêra onde fe 
diiparavam todos os tiros contrários , e 
affim eftavam todas arruinadas , e paliadas 
de parte a parte ; e foi a bateria delias 
tão continuada , que não dava lugar aos 
noíTos que nellas eftavam, a fe repairarem , 
e comerem hum bocado ; e entendendo 
Manoel Pereira , que as fuás cafas fe ha- 
viam de perder, fez muitas lembranças ao 
Capitão mor, pêra que ou o proveffe do 
neceíiario pêra fe repairar , ou o defobri- 
gaíTe delias , porque não queria que fe 
diífeíTe que fe perderam em feu poder ; e 
não deferindo o Capitão mor a efte reque- 
rimento por ferem os trabalhos em todas 
as partes geraes , Manoel Pereira fe fahio 
das calas, e fe foi pêra huma das eftancias 
de mor perigo. Heitor de Sampayo tanto 
que vio largar aquellas cafas , fe foi metter 
nellas , porque o feu animo íhe não deixa- 
va ver o rifco a que fe punha. Vendo os 
Capitães como os Mouros infiíliam em ga- 
nhar 



Década VIII. C a p. XXXVI. 367 

nhar as caías de Luiz Xira Lobo , pelo 
impedimento que lhes faziam de fe che- 
garem aos entulhos 5 determinaram de as 
largar , minando-as primeiro , pêra toma- 
rem nellas huma grande copia de Mouros ; 
e pêra eíta mina Te offereceo hum Condef- 
tavel Flamengo > que alli viera de Dio, 
grande artilheiro , e fora trazido, porque 
promettia rebentar osCafapos, pêra o que 
não achou invenção que aproveitaíTe pêra 
iíTo , por muito que eíludou , e trabalhou , 
o qual começou a pôr as mãos na obra da 
mina , na qual também andava Manoel 
Rapofo , Sargento mor, que tinha alguma 
pratica deite miniíterio ; e aflim como o 
vagar na guerra prejudica muito , aflim 
também damna , anticipando-fe demaziada- 
raente antes do tempo neceíTario , como 
aqui aconteceo a eite Manoel Rapofo , 
que por fe moítrar diligente , levou antes 
que fe acabaffe a mina os barris da pól- 
vora 5 que fe haviam de metter na mina , 
os quaes metteo em huma camera que fer- 
via de almazem das munições , onde havia 
muitas panellas de pólvora , lanças , e ou- 
tros artifícios de fogo : fuecedeo aos 18. 
de Fevereiro pelas nove horas do dia , 
prefumirem os Mouros que aquellas cafas 
eítavam defpejadas , porque não apparecia 
nellas gente 3 porque toda andava em bai* 



368 ÁSIA de Diogo de Couto 

xo na obra da mina , a qual Heitor de 
Sampayo eftava vendo pela rotura do fi> 
brado de huma camera , deixando em íima 
duas vigias que deviam de adormecer, ou 
os peccados de todos lhes taparem os o- 
lhos , pelo que os Mouros commettendo-as' 
com íufpeita de que eftavam defpejadas, 
quando já chegaram perto, fentíram gente 
nos baixos ; e vendo que os não fentiam, 
arrimaram as efcadas ás janellas , e fubidos 
á fala , muitos delles arvoraram fuás ban- 
deiras , e guiões , que fendo viftos das 
noífas tranqueiras , fe abalaram alguns Ca- 
pitães a foccorrellos , e dos primeiros fo- 
ram Fernão Telles , D. Duarte de Lima , 
com muitos foldados de nome , os quaes 
fe niettêram nos baixos das cafas , ficando 
os Mouros em íima , e logo os noífos fo- 
ram commettendo a efcada pêra fubirem 
aífima, fobre o que trabalharam bem, e o 
primeiro , ou dos primeiros foi João Bar- 
riga Simões , que nefte cerco fez grandes 
cavallarias ; o qual indo já em lima, o lan- 
çaram os Mouros pela efcada abaixo mal 
ferido em huma mão , de que ficou com os 
dedos todos encolhidos, e lhes defenderam 
valerofamente a fubida aos noífos , que 
vendo trabalhavam em vão , fe fahírám 
fóra , e foram dar em huma tranqueira ^ 
donde os Mouros fahíram } e lha ganha* 

ram: 






Década VIII. Cap. XXXVI. 369 

ram: o que viílo pelos Mouros , foram- 
fe fahindo por lhe acudir ; mas como os 
noflbs não podiam fuftentar as tranqueiras > 
fahíram-fe , e os Mouros fe tornaram a 
metter nas cafas ; e eftando Heitor de Sam- 
payo com todos os mais efperando embai- 
xo que fe acabafle o repuxo da mina pê- 
ra lhe darem fogo , permittíram noflbs pec- 
cados que lançaífem os Mouros de íima 
huma panella de pólvora 3 a qual cahio em 
outras poucas noífas , que lá eítavam > que 
tomaram fogo , e delias faltou logo nos 
barris , e caixões que eílavam pêra a mi- 
na , que tudo fez huiíi tão temerofo eftron- 
do i que foi efpanto , e quarenta e dous 
Portuguezes > que dentro eftavam 5 ficaram 
todos abrazados , e torrados fem empecer 
nada aos Mouros que eftavam em íima y 
fahindo tão grandes lavaredas pelas por- 
tas , e freftas , que tomando alguns que 
eftavam da banda de fora , os derrubou 
queimados huns por lima dos outros , con- 
iumindo-lhes logo as roupas , e ficando-lhes 
o fogo entre as armas , e a carne , e aífim 
ardendo chamavam pelos parentes , e ami- 
gos , de modo , que Domingos de Álamo 
iòldado de Fernão Telles , vendo fahir das 
cafas a Jorge de Soufa Coutinho , remet- 
teo a elle pêra o matar, cuidando que era 
Mouro y vindo elle já tal, que não durou 
Couto. Tom. V. P. 2. Aa mais 



rço ÁSIA de Diogo de Couto 

mais que até receber os Divinos Sacramen* 
tos , e chegando Pedro Ferreira de Sam- 
payo o Velho em bufca de feu fobrinho 
Ayres Ferreira > andando perguntando por 
elle ? tendo-o bem perto tão desfigurado, 
que o não pode conhecer , nem ò pobre 
Fidalgo lhe pode fallar mais que por ace- 
nos y pondo a mão no peito , como quem 
dizia que elle era, efcapando naquelloutro 
memorável cerco da Cota, pêra vir a aca- 
bar nefte. António Pinto ; que efcreveo efte 
cerco , diz , que Pedro Ferreira era irmão 
de Ayres Ferreira , fendo Pedro Ferreira 
feu tio , irmão de feu pai ; enganou-fe, 
porque tinha elle outro irmão chamado 
Pedro Ferreira , que depois recebeo huma 
bombardada em hum braço , de que fem- 
pre fe queixou até morrer dahi a alguns an- 
nos : foram eítes Fidalgos Ayres Ferreira 5 
e Pedro Ferreira , filhos de Francifco Fer- 
reira 5 que tinha hum morgado em Barre- 
do , e tinJia na índia outros dous irmãos 
chamados também Pedro Ferreira , e Go- 
mes Ferreira , cafados em Chaul , e eítes 
três irmãos eram filhos de Ruy Ferreira 
de Barcellos \ que era irmão da mãi de 
Simão Guedes de Soufa. 

Os Fidalgos que aqui foram abraza- 
dos , e mortos y foram os feguintes : Hei- 
tor de Sampayo , D. Duarte de Lima , que 



Década VIIL Cap. XXXVI* 37* 

pofto que ainda o tiraram vivo > pergun- 
tando-lhe hum foldado quem era > refpon- 
deo já muito fraco , que fora D. Duarte de 
Lima , a que acudio Luiz Freire de An- 
drade ? Capitão da Fortaleza , e o lçvou a 
curar a fua cafa , onde faleceo ao outro 
dia, e não em cafa do Capitão mór, comer 
diz António Pinto ; porque D. Luiza Couti- 
nha , mulher do Capitão > me contou em 
como lho levaram a cafa, e como morreo, 

?[ue foi com grandes moftras de Chriílão : 
oram mais queimados Jorge da Cunha , e 
Ayres Ferreira , como já diífe, João Dor- 
nellas , António de Sampayo , Luiz Xira 
Lobo i que largou as fuás cafas pêra vir 
morrer abrazado neítoutras , o qual nas fuás 
fez muitas cavallarias ; e em huma fahida , 
que ficou mal ferido , lhe fuecedeo feu pri~ 
mo com irmão Luiz Machado Boto 5 que 
fempre neíle cerco fe aprefentou dos dian- 
teiros , e pelejou muito esforçadamente: 
foi alli também abrazado , e morto o Sar- 
gento mór Manoel Rapofo , author daquela 
le cruel damno : os que foram queimados, 
e efeapáram y são Manoel Botelho , Gafpar 
Velho , Fernão Telles de Menezes , que 
depois foi Governador da índia , e Preíí- 
dente do Tribunal da índia , o qual fahio 
abrazado por muitas partes , principalmen- 
te nas mãos 7 de que fempre trouxe os íi- 
Aa ii naes. 



3?2 ÁSIA de Diogo de Couto 

naes , c não ío recebeo eíle damno , mas 
também fobre elle três cruéis frechadas* 
Alexandre de Soufa também ficou queima- 
do , mas não de maneira que deixaífe de 
ficar na fua tranqueira, Franciíco de Mello 
de Sampayo, Franciíco de Sá de Menezes 
Soluíinundi , Agoílinho Nunes , e outros 
Fidalgos. 

PaíTado o terremoto , e lavareda , en- 
traram na cala , em que o eftrago , e dcf- 
aventura íuccedeo , Gomes Eanes de Fi- 
gueiredo , Franciíco de Sá de Menezes , 
Francifco Pimentel , e outros que recolhe- 
ram muitas armas por não ficarem aos 
Mouros , e mandaram tirar os corpos de 
alguns já torrados, que não puderam co- 
nhecer, e Franciíco de Sá ouvio huma voz 
já caníada chamar por elle ; e acudindo 
onde lhe foou , achou hum foldado enter- 
rado entre as armações da cafa , e a cali- 
ça , ao qual defenterrou , e tirou pêra fora , 
finalmente as cafas ficaram em poder dos 
Mouros, nas quaes logo arvoraram muitas 
bandeiras , e guiões, e toda aquella noite 
feílejáram a vitoria» 

Caufou eíle laflimoíb efpeílaculo gran- 
des invejas aos mais Capitães Mouros , que 
eftavam pelas mais eftancias; e tocado del- 
ia , determinou Xirtiricao de combater o ba- 
luarte da Cruz 5 que ellava já muito damni- 






Década VIII. Cap. XXXVI. 373 

ficado , e desbaratado de huma bateria, 
que lhe haviam dado , que fe lhe naò viam 
mais que humas pequenas paredes. Vigia- 
vam elte baluarte aos quartos Fernão Tel- 
les , Fernão Pereira , Henrique de Betan- 
cor , por ferem os vizinhos de mais perto : 
Tuccedco no quarto de Fernão Pereira, ef- 
tando com a gente abatida , verem alguns 
dos nofíbs tomarem os Mouros bandeiras 
•nas mãos , e acclamando por armas ; quan- 
do os noflbs acudiram , já os Mouros eíta- 
vam em íima dos entulhos , e três delles 
da banda de dentro , que tão de fupito os 
commettêram ; e remettendo os noflbs com 
elles , mataram logo os três que eftavam 
dentro , e com os dos valos travaram huma 
afpera batalha. Domingos do Álamo, que 
eftava na íua cama abrazado da mina , ou- 
vindo a revolta , mandou-fe levar aos en- 
tulhos , e fentado em huma cadeira com 
huma alabarda nas mãos , pelejou valero- 
famente ; o Capitão mór acudio logo alli , 
e mandou os feus de foccorro , logo os 
inimigos foram lançados fora, e bem efca- 
lavrados , e Domingos Cabral tomou huma 
bandeira da mão a hum Mouro : defta fei- 
ta ficaram mortos mais de cento e lincoen- 
ta dos Mouros , e alguns alvos de cabello 
louro com arrecadas nas orelhas , que de- 
sviam de fer da noífa Europa. 

CA- 



374 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO XXXVIL 

Em que fe torna a continuar com a guer- 
ra de Goa > e o que os nojjos ftella 
fizeram. 

DEixemos agora por hum pouco a guer- 
ra de Chaul , e vamos-nos a Goa , on- 
de também pairaram cafos notáveis , por 
irmos alternando humas coufas com outras. 
Não procediam as coufas da guerra da par- 
te dos Mouros com a felicidade que elles 
cuidavam 5 porque cada dia fe viam aífal- 
tados dos noífos , onde menos fe temiam , 
ficando fempre efcalavrados , não fó dentro 
em fuás eílancias 5 mas ainda por fora do 
rio da fua coita 5 como foi D. Fernando de 
Vafconcellos em Dabul , como fica dito ; e 
agora Jorge Cabral , a quem o Vifo-Rey 
mandou com quatro fuftas dar no rio Cha- 
pará duas léguas de Goa , onde defembar- 
cou com íincoenta foldados , e queimaram 
quatro aldeãs , e mais de trinta navios de 
carga , e muitas embarcações miúdas 5 que 
o Idalcão alli tinha mandado ajuntar pêra 
nellas paííar a gente á Ilha de Goa , tra- 
zendo Jorge Cabral deita feita muito gado. 
D. Paulo de Lima , que eítava em Ra- 
cholj no mefmo tempo fez outras cavalga- 
das j entrando pelas aldeãs dos inimigos % 

em 






Década VIII. Cap. XXXVII. 37? 

em que matou ? e cativou muitos delles, 
não a leu falvo, porque durando a guerra, 
recebeo por vezes finco feridas 5 e de mo- 
do fe fez temido delles, que todos fugiam 
de o encontrarem. 

O Vifo-Rey não repoufava hum mo* 
mento , nem fe fatisfazia de nada, fe não 
viífe tudo com os feus olhos , e não appro- 
vaíle com fuás mãos , porque em nada fe 
fiava da induftria , e diligencia de ou- 
trem , nem das informações que fe lhe 
davam , dando por maior razão que não 
era juíto que lhe pediífe EIRey conta do 
Eftado da índia , e de qualquer perda que 
por lua omifsao fuccedeíTe , e que fe en- 
carregaíTe eíle cuidado a quem não tinha 
obrigação de dar conta delle ; e aílim nas 
viíitaçoes que fazia pelos paffos , lhe acon- 
teceram fucceflbs , e cafos milagrofos , dos 
quaes darei conta de alguns mais dignos 
de fe fazer delles menção. Eílando o Vifo- 
Rey no paífo de Beneftarim vendo paífar 
huma peça grafia pêra huma eftancia da 
borda da agua , vendo que a gente chega- 
va mal ao ferviço por caufa da artilheria 
da eftancia dos Mouros , que laborava a 
miúdo , e vendo o receio dos trabalhado- 
res 3 tomou hum páo 5 e fe mettco entre 
elles , efpertando-os , e lançando mão das 
cordas pêra exemplo dos que o viífem , e 

aa-» 



376 ÁSIA de Diogo de Couto 

andando defte modo muito affadigado , lhe 
deram huma arcabuzada pelo braço efquer- 
do , que paflando-lhe huma roupeta de Co- 
tonia que trazia , o gibão 5 e a camifa , lhe 
ficou o pelouro na manga delia , fem lhe 
fazer damno algum. 

Outra vez andando de noite vifitando 
as eltancias , lhe deo hum pelouro de mof- 
quete do tamanho de huma noz pelos pei- 
tos y e lhe cahio aos pés , deixando-lhe hu- 
ma nódoa na carne ; e mandando-lhe ao 
outro dia o Arcebifpo D. Gafpar , que eíla- 
va na Madre de Deos , hum açafate de fi- 
gos de Portugal , por ferem temporãos , o 
Vifo-Rey lhe mandou o pelouro no mefmo 
açafate entre as rofas delle, mandando-lhe 
dizer em refpoíta , que aquelle jardim em 
que elle ficava fe não dava outra fruta que 
lhe pudeíTe mandar em retorno dos figos , 
fenão aquella ; que lhe pedia a offereceíTe 
de fua parte á Madre de Deos y que tão 
grande mercê lhe fizera. 

E porque dos rios do Canará , e de ou- 
tros corriam alguns mantimentos á formi- 
ga , ordenou o Vifo-Rey a Belchior Ribei- 
ro , que foi Veador da Fazenda , pêra que 
andafie pelos rios de Goa Velha , e pelos 
da barra 5 tomando a rol todos os que por 
elles entraílem , pêra fe recolherem nos 
armazéns , porque não queria que lhe fal- 

taf- 



Década VIII. Cap. XXXVII. 377 

taíTem , que dalli havia de prover o povo ^ 
e pêra mais abaítança , deípedio Fernão 
Rodrigues de Carvalho pêra Barcelor com 
huma cáfila de navios de mercadores pêra 
carregarem de arroz, que tornou em Maio 
com boa copia de mantimentos. 

Tão efcandalizada ficou a Rainha de 
Olalá da Fortaleza que o VifoRey D. An- 
tão fez em feu porto , e da deftruição que 
lhe fez em fua Cidade , que tratou de fe 
fatisfazer o melhor que pudeííe , ainda que 
fofle com mão alheia ; e fabendo andava 
fora Catiprocá Marca com huma boa Ar- 
mada , lhe defpedio embarcações ligeiras 
com cartas em que lhe dizia , que a Forta- 
leza de Mangalor eítava fó fem gente , e 
imperfeita , e por acabar, desbaratada , e 
menos provida : que fe quizeíle intentar 
aífaitalla huma noite , que ella lhe fegurava 
tomalla muito facilmente ; e que além da 
honra que ganharia de tomar numa Forta- 
leza aos Portuguezes , que ella lhe fatisfa- 
ria ^os gaftos , e defpezas que fizeíTe na 
jornada. Eíte recado tomou a efte CoíTairo 
defronte de Baticalá , que vinha de noite 
de fe achar naquelle negocio deChaul que 
já contei lhe fuccedeo com a noífa Arma- 
da, onde foi em favor doNizamoxá, e do 
fuccelTo ficou defacreditado com elle, pelo 
muito que prometteo , e pelo pouco que 

fez 3 



378 ÁSIA de Diogo de Couto 

fez , e trazia boa copia de prezas que fez 
por aquella coita, o qual vendo as contas 
daquelia Rainha , e fuás promeíTas , e pa- 
recendo-lhe que tomando aqueila Fortaleza 
fe tornava a acreditar, e ficava emendando 
a defgraça de Chaul , lhe refpondeo que 
hía em caminho , e que pêra tal noite lhe 
tiveííe algumas efcadas , e cordas , o que 
ella logo mandou negociar, e dahi a dous 
dias entrou efte Coffairo pela barra com 
nove navios muito cheios de gente ; e fen- 
do principio do quarto d 3 alva , puzeram as 
proas em terra ; e achando já tudo o que 
mandaram pedir apparelhado , e preftes, en- 
coftáram as efcadas na janella do Capitão, 
por onde começaram a fubir com grande 
determinação. Iílo não pode fer com tanto 
íilencio que os não fentiíTem alguns cria- 
dos do Capitão , que dormiam na fala ; e 
não tendo tempo pêra acudir ás armas , 
teve hum deli es acordo pêra remetter a 
huma caixa encourada , que fervia da pra- 
ta de ferviço do Capitão , e lançalla é pela 
janella abaixo fobre os que fabiam pela 
efcada , e a elles , e a ella deitou em baixo 
bem eícalavrados. O Capitão ouvindo a 
bulha , e revolta acudio a ella, e não teve 
mais tempo que pêra tomar huma efpada, 
e huma rodeila ; e fahindo fora com oito , 
ou dez criados que tinha , e remettendo 

com 



Década VIII. Cap. XXXVII. 379 

com alguns que tinham fubido por outra 
parte , os foram levando ás cutiladas , até 
os lançarem do muro abaixo , ficando al- 
guns mortos y e logo acudiram os noííos 
a apagar o fogo que elles tinham poíto na 
cubertura dos telnados , que eram de fo- 
lhas de palma , e o apagaram com grande 
trabalho. 

Os Mouros vendo que eram fentidos, 
foram-fe affaílando ; e paffando por huma 
povoação que havia ao longo da Fortale- 
za , em que viviam alguns cafados , deram 
nella , e fizeram todç o damno que pude- 
ram ; e ainda fora mais , fe não fentíram 
gente do Rey de Bangel que os ouviram 
em fua povoação; e largando tudo, fe fo- 
ram recolhendo aos navios , levando a cai- 
xa da prata do Capitão , e hum navio de 
remo , que eítava junto da Fortaleza ; e 
dando á vela, paliaram ao outro dia por Ca- 
nanor muito embandeirados , e faivando a 
Fortaleza com toda a artilheria , dando a 
entender que hiam com alguma vitoria 
grande ; mas eíta gloria lhes durou bem 
pouco , porque logo á tarde houveram os 
noíTos navios da Armada, que D. Diogo de 
Menezes defpedio diante , viíla delles , e 
dando a vela , o foram feguindo , e o pri- 
meiro que chegou a elle foi D. Luiz de 
Menezes , que inveítio hum, com quem te- 
ve 



380 ÁSIA de Diogo de Couto 

ve huma boa refeita , mas em pouco efpa- 
ço o axorou. Ignacio de Lima fez o mef- 
mo a outro , de que dizem vinha por Ca- 
pitão hum Rume; Mathias de Albuquerque 
velejou mui bem , até chegar á gaieota de 
Catiprocá , e ferrando nella , lhe deo huma 
boa falva de arcabuzaria , e de panellas 
de pólvora ; mas o Mouro , que trazia du- 
zentos homens comfigo , lhe deo outra de 
que o axorou , e abrazou de feição , que 
o fez affaítar pêra fora a apagar o fogo , e 
naquelle mefmo tempo chegou D. João de 
Lima , e pondo a proa no Catiprocá , lhe 
deo fua furriada ; mas elles o tratou tão 
mal, como o tinha feito a Mathias de Al- 
buquerque , o qual tanto que apagou o fo- 
go , tornou a inveítir o inimigo , e teve 
com elle huma batalha até o tornar a foc- 
correr D.João de Lima , e ambos o axo- 
ráram , cahindo o Catiprocá de huma ef- 
pingardada que lhe deram : os mais navios 
Malavares vendo o negocio naquelle efta- 
do deram á vela , e foram-fe acolhendo. 
D. Diogo de Menezes chegou aos noílbs ; 
e vendo que os Malavares hiam defappa- 
recendo , por começar a anoitecer , def- 
pedio os navios que fe tomaram aos ini- 
migos pêra Cananor , em companhia de 
dous dos noíTos 5 em que embarcou os fe- 
ridos 7 e queimados , que eram mais de 

trin- 



Década VIII. Cap. XXXVIl. 381 

trinta pcra fe curarem , c elle com a mais 
Armada voltou peraTiracole , porque bem 
entendeo que os paráos que fe acolheram , 
haviam de ir demandar aquelle rio , ou de 
Coulete ; e chegando a elles > que eram per- 
to hum do outro , fe deixou eftar ao lon- 
go da terra ; e tanto que amanheceo , viram 
vir do mar os paráos , que com a clarida- 
de do Sol que já fahia , e com a fombra 
da terra não viram os noííos , até que fo- 
ram marrar com elles. António Fernandes 
de Chalé , que ficou mais perto > foi de- 
mandar Cutiale Marca , fobrinho do Cati- 
procá , e inveftio com elle , o qual tanto 
que vio os noííos navios , com muita ligei- 
reza cortou a driça da vela pêra dar com 
ella , e com o maílo , e verga ao mar, 
pêra ver fe á força do remo podia efca- 
par 5 fiando-fe em fua ligeireza ; mas fa- 
hio-lhe a forte muito contraria ao que ima- 
ginou > porque lhe cahio a vela dentro no 
navio, e ficaram os Mouros todos embara- 
çados com ella, de feição que chegaram os 
navios de Martim Affoníò de Mello , que 
foi o primeiro que lhe poz a proa , e logo 
António Fernandes Malavar de Chalé hou- 
ve pouco que fazer em metter todos á ef- 
pada , ficando-lhe o Cutiale cativo 5 que 
D.Diogo de Menezes eílimou muito. 

Os mais navios ferraram de outros 

dous 



382 ÁSIA de Diogo de Couto 

dous paráos , que logo axoráram , e os três 
ie mettêram pelo rio , e alguns dos noífos 
navios apôs elles ; e como os Mouros hiam 
com aquella preífa, lançáram-fe a terra, e 
os noííos tiraram os paráos pêra fora, não 
efcapando nenhum defta Armada tão ÍÒ-* 
berba : na galeota de Catiprocá não fe 
achou ninguém mais que a caixa de prata 
de D. António Pereira , e huma mulher 
miftiça , e dous meninos , e aflim acharam 
nella mais hum çapateiro Gallego , cafado 
em Dio , que foi cativo no Norte , o' qual 
era muito graciolo , e me contou, que vin- 
do nella jornada amarrado ao pé do ma£ 
tro da galeota do Catiprocá , quando vira 
a Armada de D.Diogo, bradara alto, di- 
zendo : Ah Senhor Catiprocá , faça-fe VoíTa 
Senhoria preíles , que aquelles navios pa- 
recem dos perros dos Portuguezes ; ao que 
elle lhe refpondêra , levantando huma cana 
de Bengala , que tinha na mão : Eítas são 
as armas que eu hei de miíter pêra elles, 
e que o çapateiro peia boca pequena lhe 
dizia , pelouro de onça ; e aílim íuccedeo 9 
que foi morto de hum pelouro. Acabado 
efte feito , fe foi D. Diogo de Menezes re- 
colhendo com os navios á toa ; e paliando 
por Cananor , tomou os outros que lá ef- 
tavam. 

Com todos os trabalhos que fe palia- 
vam 



Década VIII. Cap. XXXVII. 383 

vam na guerra de Goa , não deixaram al- 
guns foldados de fe eícoar das eítancias, 
e irem á Cidade a fuás traveíluras , como 
he fempre natural na foldadefca , no que 
o Vifo-Rey fernpre trouxe fuás intelligen- 
cias , fem o poder remediar , pelo que lhe 
foi neceíTario ufar de fuás eítratagemas , 
porque eftas ás vezes aproveitam mais 
que as armas ; e o modo que niílo teve 
foi efte. Mandou lançar bandos com pena 
de morte , que nenhum foldado foíTe á Ci- 
dade fem fua licença ; e que a quem elle 
a déífe , fe apontaíle na volta que fizefTe 
com Belchior Boto , pêra ver fe tornava 
dentro do tempo , que fe lhe concedia ; e 
pêra os mais atemorizar , mandou por 
peííoas ajuramentadas enforcar nos paífos 
de Beneftarim , e S. Braz alguns Mouros 
muito alvos dos que eftavam cativos , e 
mandou fazer as alvas hum pouco curtas , 
pêra que fe lhes enxergaflem os pés, e par- 
te das pernas , pêra parecerem na alvura 
delias Portuguezes ; e os pregoes 5 quando 
os enforcaram , diziam , que era porque 
foram á Cidade fem fua licença ; e com 
efta induítria ceifou a devailidão dos fol- 
dados , porque o temor da morte os en- 
freava. 

Eftava o Vifo-Rey apofentado, como 
já diíle, na Sacriília deSant-Iagoi e como 

to* 



384 ÁSIA de Diogo de Couto 

todos os dias fe continuaram as baterias ^ 
e o baluarte dos dous o dianteiro do paf- 
fo eftava já arrazado , ficaram os Mouros 
defcubrindo por huma ilharga do que ficou 
-em pé parte da Igreja > a qual bateram 
muito a miúdo. Succedeo hum dia dar hum 
pelouro pelo telhado da Igreja , que deo 
com parte delle em baixo : eftando o Vifo- 
Rey efcrevendo no corpo da Igíeja , e par- 
te da armação , e telhas , cahíram fobre (fi- 
le , fem lhe fazerem mais damno , que éf- 
calavrallo das mãos. Manoel de Souía Cou- 
tinho , que eftava alli perto , vendo a ar- 
mação , lançou-ie fobre o Vifo-Rey , pêra 
tomar o golpe fobre fi, do que o Vifo-Rey 
fe moftrou efcandalizado , e também abran- 
geo a Manoel de Soufa Coutinho parte do 
damno. 

No mefmo tempo foi o Vifo-Rey avi- 
fado de como o Idalcão andava muito trif- 
te , e melancolizado de ver que aquella 
guerra procedia muito diíferente do que 
imaginou , e que folgaria de haver occafião 
de fe tratar de pazes , com tanto que foi- 
fe com honra ília ; e como de ambas as 
partes havia iguaes defejos por eílarem os 
iòldados enfadados da guerra y e caníados 
delia , fuccedeo que eftando os noífos á 
falia com os Mouros , como fempre fa- 
ziam , dehumaseftancias ás outras, também 

fe 



Década VIII. Càp. XXXVII. 385* 

fe apalparam , e vieram a fallar fobre eíle 
negocio ; e dando-fe conta ao Vifo-Rey 
deitas praticas 5 teve confelho fobre o que 
faria fobre eíle negocio ? e aífentou que fe 
mandaíle huma peílba de refpeito a vifítar 
Mojatecao 5 com quem o Vifo-Rey fe car- 
teava , a ver o que achava neiie. Eíle elei- 
to foi D, Jorge Baroche > e com elle Dio- 
go Barradas , que chegaram á outra ban-> 
da; e fabendo-o Mojatecao, defceo á bor* 
da do rio a fallar com elles > e nas prati- 
cas que tiveram , trataram da matéria fobre 
que hiam , de que Mojatecao foi logo dar 
conta ao Idalxá , que mandou que correífe 
com aquelle negocio Norichao > e era iílo 
no fim de Fevereiro; e tratando-fe nocafo, 
correram recados de huma > e outra parte > 
aflim pêra EIRey , como pêra o Vifo-Rey ; 
e no fim veio o Norichao a apontar par- 
tidos tão defaccommodados > que fe não po- 
diam ouvir , e com tudo o Vifo-Rey diífi- 
mulou 5 e foi entretendo o negocio com 
efperanças pêra dous eíFeitos : pêra ver fe 
em tanto chegava D. Diogo de Menezes 
com a fua Armada do Malavar > e Luiz de 
Mello de Malaca ; e outro pêra em quanto 
lá andavam os nolTos , terem tempo de no* 
tarem as eftancias dos Mouros , e elle em 
Goa fe fortificar á fua vontade ; e não feí 
ie ouvi dizer que o mefmo Vifo-Rey pafc 
Cauto. Tom.KP.L Bb fá- 



386 ÁSIA pe Diogo de Couto 

fára defconhecido á outra banda em com- 
panhia dos que Jiiam com recados , porque 
defejava de ver tudo com os olhos. Neftas 
demoras chegou D. Diogo de Menezes a 
Goa com a Armada de Catiprocá a toa., o 
qual foi muito feftejado do Vifo-Rey , e 
logo o encarregou de Capitão mor dos 
rios , e deibbrigou a D. Jorge , porque 
também havia de ir entrar na Capitania de 
Chaul ; e o Mouro Cutiale , D. Diogo de 
Menezes o mandou metter na galé , onde 
porfeus peccados diíTe 5 que fe atrevia com 
quatro navios a tomar huma galé > o que 
fabendo o Viíb-Rey , lhe mandou dar pe- 
çonha , de que morreo. 

D. Diogo tomou a faa eftancia defronte 
da Ilha de João Lopes , donde coftumava 
ir correr os paííos ; e defejando reconhecer 
huma eftancia de Rumecão , onde o Vi- 
fo-Rey defejava dar , indo huma manhã 
aíTentado em huma cadeira defronte da- 
quella eftancia y fe deteve a vella devagar , 
efcando chovendo fobre elle nuvens de ba- 
las de efpingardaria , que eftava na eftan- 
cia , que o não inquietavam ; e levantan- 
do-le pêra notar bem o que queria , ficou 
em pé, e por entre as pernas lhe deo hu- 
ma bala de artilheria ; e tomando-Ihe o 
pelouro bem por dentro de huma coxa , 
chegado ao ceifo,, foi paliando, e rompen- 
do-» 



Década VIII. Cap. XXXVII. 387 

<do-lhe a carne, e ainda lhe ficou huma boa 
chaga ; e vindo-fe recolhendo , acudio o 
Vifo-Rey ao deíembarcar \ e dando-lhe a 
mão ao falúr da manchua y lhe perguntou 
que tinha: ao que D* Diogo muito riíonho , 

Í)ondo a mão por baixo dos tefticulos, re- 
pondeo : Ainda os tenho sãos ; e levando-o 
o Vifo-Rey á íua tenda , aííiílio á fua cu- 
ra , e encommendou a Armada a Manoel 
Dias Picoto, em quanto D.Diogo não fara£ 
íe ; e foi grande mercê de Deos o que lhe 
fuccedeo , de fe levantar naquelle tempo, 
em que fe difparou a bombarda \ porque 
fe eílivera aífentado como hia, tomava-o o 
pelouro pelos peitos , e fazia-o em peda- 
ços* As novas deita bombardada , que de- 
ram a D, Diogo , correram pelo exercito 
dos Mouros ; porém não com voz de que 
fe dera a D. Diogo , fenão ao Vifo-Rey , e 
que eftava muito mal ? pelo que houve en- 
tre todos grandes regozijes 3 porque ti- 
nham certo que fe morreífe o Vifo-Rey ^ 
haveria pouco trabalho em tomarem Goa. 
Neíle mefmo tempo tiveram os Capi- 
tães do Idalxá occafião com que paffáram 
três mil homens á Ilha de João Lopes ent 
almadias , celtões \ ú outras coufas ; e eítan- 
do no mefmo tempo ai li perto fete navios 
noíTos ? de que eram Capitães Mathias de 
Albuquerque ; D. Luiz de Menezes , Igna- 

Bb ii cio 



388 ÁSIA de Diogo de Couto 

cio de Lima , Martim Affonfo de Lima, 
Apollinario de Vai de Rama , Pedro Ro-? 
drigues Malavar , e António Fernandes 
Chalé , logo acudiram ao paflb , e com- 
mettêram a Ilha pêra lançarem os inimigos 
fóra , e o primeiro que defembarcou foi 
António Fernandes Chalé ; e porque no 
commetter dos Mouros houve alguns re- 
ceios nos noffos , adiantou-fe de todos 
Duarte Pereira de Sampayo , Capitão do 
paflb Secco ; e chamando o Apoílolo Sant- 
iago y remetteo com os Mouros ; o que ven- 
do os mais o fcguíram todos : e com fer 
o numero tão deíigual , como cento e fin- 
co enta pêra mil e quinhentos Mouros , que 
eram os que tinham paíTado á Ilha $ aper- 
taram os noffos tanto com elles que os 
desbarataram ? e fizeram fugir , lançando-fe 
todos ao mar , onde muitos fe affogáram ? 
e outros pereceram na Ilha á efpada. 

Mas todas eílas boas fortunas , e vitorias 
que os noffos alcançaram , fe tornaram em 
pezar , e trifteza pelo caio defaftrado que 
aconteceo a D.Fernando de Vafconcellos y 
que foi deita maneira. Eítava efte Fidalgo 
na fua galé defronte de huma eílancia dos 
Mouros y em que pareceo podia dar , e fa- 
zer algum bom feito , tendo em fua com- 
panhia outra galé , e mais duas fuíb.s , a 
cujos Capitães pareceo bem feu penfamen- 






Década VIII? Ca?. XXXVII. 389 

to ; e affím em huma madrugada defembar- 
cáram naquella parte, e commettêram aef- 
tancia dos Mouros com tanta determina- 
ção , que logo foi entrada, e ganhada com 
morte de muitos ; mas quiz a defaventunr 
que com o gofto deita vitoria fe defrnan- 
daflem alguns foldados em feguimento de 
alguns Mouros , que lhes foram fugindo ; 
que tornando a voltar com outros , que 
lhes vieram de foccorro ; e dando nos nof- 
fos , os cercaram , e mataram , e os defpí- 
ram , e lhes cortaram as cabeças, que le- 
váram ao Idalxá com algumas bandeiras , 
que tomaram ; e vindo com aquella fúria 
a fua eítancia , deram com D. Fernando, 
que hia recolher os feus , e o commettêram 
novamente , e com os poucos que levava , 
fe defendeo valero lamente , até que com o 
pezo dos inimigos , que cada vez carrega- 
vam mais , foram todos mortos , e lhes fi- 
zeram o mefmo que aos outros nos veíti- 
dos , e cabeças ; e acudindo á praia com 
aquella fúria , tomaram a fufta em que D. 
Fernando deíembarcou , e a bateria da galé 
por ficarem -em fecco. Eftas novas chega- 
ram ao Viíb-Rey , que as fentio muito , e 
logo mandou D. Jorge Baroche, pêra que 
foífe á artilheria , e recolher o corpo de 
D. Fernando , dando-lhe algumas Compa- 
nhias de foldados , o que elle fez ; e poi\ 

a- 



39o ÁSIA de Diogo de Couto 

achar 9 a fufta varada em terra , a queimou 
por fe não aproveitarem os inimigos delia , 
e lhe mandou tirar , e recolher ? os corpos 
mortos fem cabeças , fem poder conhecer 
entre elles o de D. Fernando , por eítarem 
nus ' y e com aquella trifte preza defembar- 
cou em Beneftarim , onde foram recebidos 
com muita mágoa de todos , e o Vifo-Rey 
os mandou amortalhar , e enterrar todos 
juntos em huma cova fem fe poder nunca 
conhecer o corpo de D. Fernando. Foi efte 
Fidalgo filho de D. Luiz Fernandes deVaf- 
conceílos , e neto de D. Fernando Arçebif- 
po de Lisboa , irmão do Conde de Penei- 
la j e foi filho de D. Branca de Vilhena y 
irmã de Diogo Lopes de Siqueira , Almo- 
tecei mor do Reino , nem delle , nem de 
feu pai ficou no mundo pofteridade , e am- 
bos pai , e filho morreram pela honra de 
Deos , e pela defensão , e ferviço do Rey 
feu pai no anno de feflenta e hum , indo 
por Governador do Brazil , ás mãos de In~ 
glezes Hereges , e feu filho pelejando aqui 
como vimos. Foi eíte Fidalgo mui bem 
difpoflo > e gentil-homem 3 muito deftro 
nas armas , mnito refoado fundidor, e ar- 
tilheiro y e tinha outras honradas , e boas 
partes , as quaes todas efmaltou com a 
honrada morte que aqui lhe deram , pele- 
jando pela honra de Deos, e peio ferviço 

de 



Década VIII. Cap. XXXVII. 391 

de feu Rey , e podemos piedofamente cui- 
dar que eftará gozando na gloria o premio 
delia. # 

Foram fempre grandes as intelligencias , 
<{\ie o Vifo-Rey trouxe no exercito do Idal- 
xá 5 não fó com Capitães , e alguns arrene- 
gados Portuguezes , mas ainda com hum tio 
da principal mulher doldalxá, á qual man- 
dava alguns prefentes por íua via , pela 
qual foube fegredos de muita importância; 
e hum dos arrenegados efcrevia ao Vifo- 
Rey tudo o que fe lá paliava com huma 
penna de chumbo , e as cartas lhe manda- 
va dentro em pelouros de cera , e delias 
foube como o Idalxá tinha tratos com al- 
gumas peíToas de Goa , aífim pêra deitarem 
peçonha na agua de Bengari , como pêra 
darem fogo a cafa da pólvora , o que en- 
tre os Mouros andava tão roto ■> que nas 
praticas que tinham com os dos noíTos 
navios , entre as palavras que lhes diziam , 
era , que fe deixaifem eftar , que a pólvora 
fe acabaria de todo , e que então entra- 
riam a Ilha ; e como o Vifo-Rey com as 
■mefmas traças , e induílrias que os inimi- 
gos bufcavam pêra o deílruir , lhes queria 
fazer guerra , lhes mandou por via de hum 
arrenegado lançar peçonha no. tanque , de 
que bebiam, com que lhes fez bem grande 
damno ., e com peitas , e dadivas induzio 

ai- 



392 ÁSIA de Diogo de Couro 

alguns a que lhes lançaíTem fogo á polvo-* 
ra , o que não puderam fazer pelo grande 
reíguardo , e vigilância que nella havia ; e 
porque tudo o que fazia , logo fe fabia en- 
tre os Mouros , mandou encher com mui- 
to fegredo muitas pipas de arêa por peííbas 
de quem fe fiou , e depois as mandou le- 
var \ e repartir pelos Mofteiros , os quaes 
levaram muitos Cafres , a quem chamam 
Pingos , que são como os mariolas , aos 
quaes quando lhas entregavam , lhes diziam 
que vieflem como as levavam , e tiveíTem 
reíguardo nellas, porque era pólvora pêra 
matar Mouro , tão entoados , e compaffa- 
dos , que era muito pêra fe ouvir ; e fup- 
pofto que diga que tudo o que eftes Cafres 
levam he cantando , fò quando acarretam 
as pipas de vinho que vem do Reino as le- 
vam com grandes muíicas , e feitas , e os 
Religiofos , a quem fe entregavam as pipas 
as punham a muito bom recado ; e man- 
dando tirar grandes inquirições fobre os 
que fe carteavam com oldalxá pêra darem 
fogo á cafa da pólvora , em que acharam 
alguns culpados, e os de maior culpa man- 
dou enforcar , e outros metteo nas galés ; 
e divulgando-fe fuás culpas nos pregões, 
deo tamanho medo na gente em geral , 
que andavam todos como pafmados , e al- 
gumas peffoas fe pairaram da Cidade pêra 

ai- 



Década VIII. Cap. XXXVII. 393 

algumas fazendas 5 e caías do campo ; e 
todavia ou foíTe certo o cafo da pólvora , 
ou não , encarregou o Vifo-Rey a guarda 
da cafa delia aos Religioíos , que faziam 
fuás fentinellas aos quartos com grande 
cuidado. 

Tanto que os Capitães de Chaul des- 
pejaram a Igreja de S. Francifco , e fe per- 
deram as cafas de Luiz Xira Lobo , em 
que fuccedeo aquella defaventura , e como 
Nizamoxá ficava com a cafa de S. FranciS 
co mais fenhor da Cidade , houve muitas 
defaventuras , e defconfianças de fe lhe 
poderem defender , porque bem fabiam 
que as baterias dalli por diante haviam de 
fer muito mais perigofas , e continuadas j 
porque as noífas tranqueiras tinham ate 
aquelle tempo as cafas que fe perderam 
diante , que recebiam a maior fúria da ba- 
teria 5 que dalli em diante fe havia toda de 
empregar naquelles fracos entulhos , que 
não fabiam fe poderiam reliftir , e aturar 
tanta continuação de baias ; pelo que pu-» 
zeram em confelho recolherem a artilhe- 
ria á Fortaleza velha , e fortificarem-fe de 
modo que fe reduzilfem as eftancias a mais 
pequena forma pêra ficarem mais defenfa- 
veis , e que fe mandaífe a Goa Ruy Gon- 
çalves da Camera, pêra informar ao Vifo- 
Rey daquellas coufas ? por lhes parecer 

que 



394 ÁSIA de Diogo de Couto 

que com a authoridade de hum Fidalgo 
tão honrado, evendo-o abrazado de mãos, 
e rofto, que parecia hum alarve, porque 
não pelejou em todas as partes , que fe 
achou , fenao como Elefante bravo , cita- 
vam certos foccorrellos o Vifo-Rey com 
maior cabedal , do que até então o tinha 
feito ; e pedindo os Capitães a Ruy Gon- 
çalves , que por remédio daquella Cidade 
quizeíTe aceitar aquella jornada, pois efta- 
va inhabilitado das mãos pêra poder pe- 
lejar , elle ainda que bem contra fua von- 
tade aceitou a jornada, pois os não podia 
ajudar a defender , dizendo-lhes i que ef- 
perava em Deos de tornar muito cedo a 
acompanhallos naquelles trabalhos em que 
os deixava , e logo fe embarcou em hum 
navio pequeno , no qual em breves dias 
chegou a Goa , e fe foi ver com o Vifo- 
Rey 5 que o recebeo com muitas honras , 
e o agazalhou na fua própria camera , que 
era a Sacriítia de Sant-Iago , como diíle , e 
delle foube muito particularmente o efta- 
do de Chaul ; e depois de praticar fó com 
elle todas as coufas , de que quiz fer infor- 
mado , juntou os Capitães a confelho , e 
nelle o tornou a ouvir , e pedio a todos 
que fobre lua propofição votaílem fe feria 
licito largar-fe Chaul , ou defender-fe , e 
que todos lhe deffem feus pareceres por 

ef- 



Década VIII. Cap. XXXVII. 395- 

eferito , . pêra o que lhes dava de efpaço 
até o outro dia pêra melhor o poderem 
difeurfar , e difpôr. 

Niilo quiz o Vifo-Rey ufar de feu cof- 
tumado artificio j porque como tinha em 
feu penfamento defender Cliaul contra to- 
dos os pareceres que houveíle , quiz ver 
o em que todos eftavam., pêra aífim ga- 
nhar mais honra com EIRey 5 e mais fama 
com os homens. 

Ao outro dia fe tornaram ajuntar os 
Capitães em confelho , trazendo todos feus 
pareceres por eferito ; e tendo-os o Viío- 
Rey todos juntos i lhes tornou a repetir 
as mefmas propoííçóes ? dizendo-lhes \ que 
bem viarn o eftado em que eílavam as 
coufas da guerra de Goa , e Chaul pela 
relação de hum Fidalgo tão authorizado i 
como Ruy Gonçalves daCamera, que bem 
tinha á fua cuíla experimentado as daquel- 
la guerra , e que coníideraíTem pelo que 
viam os trabalhos da em que eítavam ; e 
aílím lhes propoz mais o que fe praticou 
em Chaul fobre fe recolher a artilheria, e 
reduzir-fe a cerca dos vallos a muito me- 
nos forma ; pelo que pedia a todos que 
além dos pareceres que por eferito tra- 
ziam , tornaflem a cuidar naquellas coufas , 
pêra que fe pudeífein retraétar do que ti- 
nham deliberado , em caio que lhes aífuiv 

pa~ 



39^ ÁSIA DE DlÒGO de Cotrro ! 

pareceíTe mais conveniente i e acertado } 
ajuítando-fe em tudo com o ferviço de 
Deos , e de EIRey , e com o que mais 
convinha á reputação do Eftado 5 porque 
aquellas coufas eram de grande confidera- 
çao ; e pêra o poderem fazer com o acer- 
to que defejavam , lhes dava outro dia de 
efpaço. E com ifto fe tornaram todos a 
recolher. 

Eftava em Goa o Padre Braz Dias y 
Deão da Sé de Goa , pefíba grave , e de 
authoridade , que muitos annos eílivera por 
Vigário em Chaul. Era eíle Padre irmão 
do Doutor Pedro Fernandes , ConfeíTor da 
Rainha D. Catharina , peíToa muito conhe- 
cida por fangue , e por letras. Efte Padre 
vendo as praticas que fe moveram fobre fe 
largar Chaul , efcreveo ao Vifo-Rey hum a 
carta do theor feguinte: 

» Pareceo-me obrigação fazer a Voífa 
» Senhoria algumas lembranças fobre a 
» matéria de que fe trata de fe haver de 
» largar Chaul , cujos fundamentos eu ain- 
•» da não fei ; mas porque tenho noticia 
)) de quanto damno poderá fobre vir aoEf- 
» tado da índia , fe tal fe fizer, o que não 
» cuido , quiz advertir , e reprefentar a 
» Voífa Senhoria os inconvenientes que nif- 
a fo ha. Eu, Senhor, fui muitos annos Vi- 
$ gario de Chaul t e fei daquella terra me- 

» lhor 



Década VIII. Cap. XXXVIL 397 

a> lhor que muitos , e tão bem como todos : 
)> tenho muitos annos da índia , e muito 
» largas experiências das coufas delia ; pelo 
» que affirmo que fe fe largar Chaul , que 
)) logo a índia fe perde , e Vofla Senhoria 
» muito melhor o entende ; que largando-fe 
» Chaul , o que não cuido , nem Deos per- 
» mitta , que logo Nizamoxá , que o tem de 
» cerco, vai íbbreBaçaim com toda fuapo- 
» tencia , e paíla á Ilha de Salfete , de que 
y> não ha dúvida fazer-fe fenh</>r , no que 
» não lo tira ao Ellado mais de finco mil 
» cruzados de renda ~ 9 e os vaíTallos mais 
» de quinhentos mil , mas ficará accreicen- 
» tando iílo a fuás rendas 5 com que poderá 
» formar dobrados exércitos ; e ainda fepó- 
» de recear , que vendo-fe fenhor de Ba~ 
» çaim , e luas terras , o que Deos não 
» queira , que ajunte por ellas mais de tre- 
» zentas embarcações grandes , e peque- 
» nas , nas quaes fe embarque naqueíle fer- 
» mofo rio de Bombaim , e em quatro dias 
» entrar pela barra de Murmugão dentro > 
)> e que lance trinta mil homens na praia 
)> de Goa Velha ; e eftando o Idalxá nos 
» palTos , que haveis , Senhor , de fazer ? Eu 
» não vejo outro remédio á índia fenão 
» perder-fe tudo ; e fe o ha , he fó , Se- 
» nhor , defenderdes Chaul ,, mandar-lhe 
p gente > e munições, e ordem pêra fefor- 

ti- 



398 ÁSIA de Diogo de Couto 

» tificarem em menor forma , porque en* 
» tao não fará aquelle inimigo mais que 
» confumir feus thefouros 5 munições , é 
)> gente que cada dia os nofíbs lhe matão y 
» e a peite j e enfermidades que fe feguem 
» da guerra tem já em parte desbaftado, o 
» que tudo ha de quebrantar o Nizamoxá , 
» de modo que não ha de poder aturar o 
)> cerco mais que todo o inverno \ que com 
» as grandes chuvas hão de ficar todos 
» inhabilitados pêra poderem pelejar : e 
.» não imagine VoíTa Senhoria que digo 
» ifto por ter fazenda em Chaul 5 porque 
» as cafas da Madre de Deos não são mi- 
)) nhãs , que são dos Mouros , e as da Sé 
» eílão no chão das continuas baterias que 
» os Mouros lhes tem dado ; mas digo-o 
» pela honra de Deos noflb Senhor , e de 
» feus fantos Templos > e pela de noífo 
» Rey , e por credito de noífa nação tão 
» levantada , e temida no mundo , que fi- 
» cará amais acanhada, e vituperada deite , 
» fazendo-fe o contrario. » 

O Vifo-Pvey eftímou muito efta carta 
por fer conforme a feu intento , e a guar- 
dou muito bem ; e vindo os do Confelho 
praticar fobre o cafo das propoíições ■', de- 
ram os Capitães feus pareceres por efcri- 
to , e os mais dell.es deram feu parecer 
-em que parecia acertado . largarem Chaul , 

por- 



Década VIII. Cap. XXXVII. 399 

porque menos mal era largarem , e per- 
derem hum membro , que a cabeça do 
Império Oriental , que era Goa, que efta- 
va no mefmo rifco , e trabalho , que fe iflb 
não fora , eítavam todos obrigados a ir de- 
fender Chaul ; porém que bem viam o ef- 
tado em que eítavam , e o grofíb poder 
que os maiores dous Reys do Oriente ti- 
nham fobre aquella Ilha em circuito , com 
paílbs tão abertos , que alguns fe podiam 
paliar a váo ; e que fuccedendo algum defaf- 
tre , o que Deos não permittiífe , fe perdia 
toda índia , o que não feria largando-fe 
Chaul, e que feria conveniente recolher-fe 
a gente , e artilheria a Goa, daquella Ci- 
dade 5 e que depois daquelles trabalhos 
paífados haveria remédio pêra fe tornar a 
cobrar a Cidade de Chaul. E fobre ifto de- 
ram outras muitas razões , que deixo de re- 
ferir, porque não foíFre tanto a brevidade 
com que vamos refumindo as couías nefte 
Epilogo. 

Alguns que votaram haver-fe de defen- 
der Chaul , deram outras razões em con- 
trario , e muito urgentes pêra fe haver de 
íuftentar Chaul , fenão quando Fernão de 
Soufa Caftello-branco fe levantou , e votou 
muito largo fobre aquella matéria , accref- 
centando que o que dizia não era poreftar 
£m Goa fora dos perigos daquella Cidade , 

por. 



400 ÁSIA de Diogo de Couto 

porque eftava elle muito p refles pêra fe ir 
metter nella , emcafo que os Capitães alar- 
gaífem j o que não prefumia delles : e que 
elle fe obrigaria a defender aquella Cidade 
com mil homens á fua cufta , e que pêra 
iífo daria em reféns fua peífoa, e mulher, 
e hum fó filho que tinha, com oitenta mil 
cruzados de fazenda , que com tudo fe 
iria logo metter em Chaul em penhor de 
fua palavra, e que fe mais prendas tivera 5 
mais dera ; e fobre o modo como fe ha- 
viam de defender os da Cidade , votou 
muito largo. 

D.Jorge de Menezes Baroche , que efta- 
va defpachado com aquella Fortaleza , de 
que fe dava por aggravado por feus fervi- 
ços ferem dignos de maior mercê , de que 
íe tinha queixado a EIRey , e dito por 
muitas vezes ao Viíb-Rey , e aos Prelados 
que não havia de fervir naquella Fortale- 
za , vendo-a agora andar como em almoe- 
da , huns larga , outros não larga, fe le- 
vantou em meio de todos os do Confelho y 
e votou largo fobre fe haver de fuftentar 
Chaul , aífim por ferviço de EIRey , como 
por credito do Eftado , e também por fer 
aílim neceílario a defensão daquella Ilha 5 
fobre a qual tinham hum tão groífo poder; 
porque em quanto os Mouros viífem eftar 
aquella Cidade em pé , haviam de viver 

em 



Década VIII. Cap. XXXVIL 401 

em contínuos receios; porque fe fuccedef- 
fe mal ao Nizamoxá , não lhes podia fuc- 
ceder bem a elles ; e concluio com dizer 
que bem fabiam todos como elle fe dera 
por aggravado de o defpacharem por Ca* 
pitão daquella Fortaleza , que lhe vinha 
muito atrás de feus merecimentos ; mas 
que agora i que ella eftava naquelles traba- 
lhos , a tinha pelo melhor, e mais avanta-* 
jado defpacho de feus merecimentos, e de 
todo o Oriente : que elle queria ir entrar 
a fervir na mercê que EIRey lhe fizera , e 
com grande goíto ; c tirando do peito a 
Patente , a apprelentou ao Vifo-Rey , pe- 
dindo-lhe o defpachaífe , porque fe queria 
logo embarcar ; o que lhe elle agradeceo 
muito da parte de EIRey , e lhe diífe que 
fc fizeífe preftes : com o que ceifaram 
aquellas praticas , e o Vifo-Rey guardou 
os efcritos todos dos que votaram fe lar* 
gaife Chaul pêra os mandar a EIRey, pê- 
ra que a elle fó agradeceífe a defensão da- 
quella Cidade. 

Eis-aqui quanto pode hum artificio 
acompanhado de prudência , e valor, que 
tendo eíte Vifo-Rey tenção , e firme pro~ 
pofito de defender aquella Cidade , poz 
aquelle negocio em confelho ) porque fabia 
muito bem que haviam todos de vorar que 
fe largaífe , por eftar já avifado do cafo 

Cauto. Tem. V. P< L Ce pe- 



402, ÁSIA de Diogo de Couto 

pelas praticas que entre todos corriam, 
pêra ihe ficar fó a elle a gloria de lua de- 
fensão > ficando todos os que lhe deram 
por eícrito o contrario voto envergonha- 
dos ? buícando muitos modos pêra os tor- 
narem a haver ás mãos , o que não pude- 
ram nunca coníeguir , e trabalharam de 
remediar aquella falta com fe avantajarem 
dalli por diante na guerra , e fe offerecê- 
ram fempre nos caíbs de maior perigo, 
nos quaes obraram melhor do que vota- 
ram y no que teriam também muito bons 
intentos > e fegundo as coulas citavam dif- 
poílas , não cuido que peccáram em fuás 
tenções. 

Quaíi nefte mefmo tempo chegou a 
Goa Vafco Lourenço de Barbuda de alcu- 
nha o Carracão , que acabara de fervir os 
cargos de Capitão 9 e Veador da fazenda 
-de Cóchim , em que ficava João da Fonfe- 
ca , que foi Mantieiro da Rainha , pai do 
Arcebifpo de Goa , D. Fr. Vicente da Fon- 
feca. Trazia Vafco Lourenço hum grande 
foccorro de navios 5 e gente > que o Vifo- 
Rey eftimou muito , por fer hum homem de 
muita importância , aifim pêra a guerra , co- 
mo pêra o coníelho ; e o apprefcntou em 
hum paflb 9 onde teve muita gente , a 
quem dava de comer ; e ãndando-lhe mos- 
trando o muro de Sant-Iago 5 choviam da 
. . ou- 



Década VIII. Cap. XXXVII. 403 

/outra banda efpingardadas , e o Vafco 
Lourenço lhe diíTe por muitas vezes que 
fe guardaífe dalli , que não hia bem , pois 
dependia a confervaçao daquelle Eílado de 
fua peíToa > fem que o Vifo-Rey lhe re£ 
pondefle palavra , nem mudar o paífo, e 
fegurança do paíTeio que levava ; e ao fu~ 
bir de huma efcada do muro , fendo as ef- 
pingardadas muitas , hia Vafco Lourenço 
á fua ilharga hum pouco atrás , tomou o 
Vifo-Rey por hum braço, e adiantando-fe, 
fe poz fobre o muro diante delle , dizen- 
do-lhe : Ora tenãe-vos , Senhor , que eu fou. 
mais roncador que vós. O Vifo-Rey feíle- 
jou aquillo , e todavia lhe foi moílrando a 
muro ; e era tal o feu artificio, que fabia 
encubrir qualquer receio ; e por iífo diífe 
Luiz de Mello da Silva algumas vezes que 
o Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde de induf- 
tria defmentia o medo , porque o não ti- 
nha por tanto fem medo como moítrava. 
Outra vez fahio o Vifo-Rey por hum dia 
de fefta de cafa ao terreiro do Paço pêra 
paífar as carreiras ; e como Vafco Lourenço 
era hum dos grandes hpmens do Reino , o 
chamou o Vifo-Rey pêra correr com elle 
as carreiras ; e como era muito alto , e hia 
em hum grande cavallo , fobejava muito 
por íima do Vifo-Rey ; e paílando a car- 
reira, foi Vafco Lourenço brandindo a lan- 
Cc ii ça, 



404 ÁSIA de Diogo de Couto 

ça , que dizem he deícorteziâ , indo com 
outro mais honrado; o que vendo o Vifo- 
Rey , lhe diíle , indo correndo : Não me fa- 
çais defcortezias ; a que elle refpondeo 
mui apreíTado : Como vou com a lança na 
mão , não conheço ninguém ; gabou-fe-lhe 
por galanteria 5 e ronca \ e por eftas cou~ 
ias o eítimava o Vifo-Rey muito. 

Poucos dias depois chegou Luiz de 
Mello da Silva a Goa com toda fua Arma- 
da , com que alcançou aquella grande vi- 
toria do Achem , que já contei , com cuja 
chegada o Viíb-Rey acabou de fegurar as 
coufas de ambos os cercos pela muita gen- 
te que trazia \ e pela pelloa de Luiz de 
Mello , que elle -eítimou fobre tudo. Elle 
o agazalhou no paço de Sant-Iago pelo 
ter muito perto pêra fe valer delle , e de 
feu confelho. Chegou Luiz de Mello a Goa. 
juima quarta feira fcis de Março ; e pare- 
ce que pêra o Idalxá o feítejar , logo a 
quatorze do mez mandou paflar fuás gen- 
tes á Ilha de Mercamor, cafo que poz em 
grandes receios a muitos.^ por eita maneira. 

Eítando nefte dia oVifo-Rey na fua ef- 
tancia j depois do meio dia , ouvio tocar 
o tambor do Idalxá, muito conhecido de 
todos , o qual não fe coftumava tocar fenao 
quando a peífoa de EIRey fe abalava pêra 
grande feito j ..e aífim era ? que fabendo elle 

que 



Década VIII. Cap. XXXVIL 405: 

que no paíTo da Ilha Mercantor , que efta- 
va da terra firme menos de tiro de berço , 
havia menos receio de fe commetter pelo 
que eftava com menos guarda , aífentou 
com feus Capitães de metter poralli gente 
na Ilha de Goa , e o dia aprazado que foi 
efte , mandou lançar pregões por todas as 
eftancias que toda a gente pafíaífe da outra 
parte , e encommendou aquelle negocio a 
Soleimao Agá Turco de nação , Capitão 
de fua guarda , e a hum cunhado do mef- 
mo Rei 5 a quem não foube o nome, e ao 
paíTar da gente, fe foiElRey pôr no paíTo 
onde fe embarcava , pcra com iífo os ani- 
mar ' 7 e porque não havia tantas embarca- 
ções pêra paítar a gente , pofto que em to- 
das as eftancias da borda da agua tinha 
muitas Almadias , que todas acudiram 
áquella parte, em que começaram apaíTar, 
levando as armas , e munições , e muitos 
ceftoes , e os cavallos a nado. Os noíTos 
navios, que andavam poraquella paragem, 
acudiram a defender apaílagem, e ás bom- 
bardadas mettêram muitos no fundo. O 
Vifo-Rey teve logo avifo , e acudio a to- 
da a prefla ; e vendo que da Ilha de João 
Rangel fe defcubria a de Mercantor, man- 
dou paíTar a elle três falcões com que co- 
meçaram a varejar os Mouros, que eftavam 
na Ilha já paífados , e foi de feição, que 

os 



406 ÁSIA de Diogo de Couto 

os obrigou a fe ampararem com hum pe^ 
queno cabeço que alli faz a Ilha , e aflirn 
com eftes falcões 5 como com a artilheria 
dos noflbs navios , huns de rofto , e outros 
pelas ilhargas , os atormentaram muito , e 
os -que andavam na paíTagem fe tornaram 
pêra fuás eftancias. 

Succedeo efte dia ás quatro horas da 
tarde com enchente da maré fobrevir hu? 
ma tormenta muito grande com chuveiros , 
e cerrações , com que houve tempo , e lu- 
gar de chegarem os noflbs navios á Ilha , 
e lançarem nella trezentos arcabuzeiros , e 
em vafando a maré , que o váo começou a 
defcubrir , paíTáram também muitos dos 
noílbs , coula que atemorizou muito aos 
Mouros que eftavam na Ilha , e como gen- 
te defanimada não fe atreveram a defen- 
der a defembarcação aos noflbs , nem fe 
moveram do poílo em que eftavam , fendo 
menos de cem paflbs donde defembarca- 
vam. O Viíb-Rey mandou Luiz de Mello 
que fofle por General daquella empreza , 
porque D. Diogo de Menezes , cuja ella 
era , eftava ainda ferido , e a D. Fernando 
de Monroy que acudilfe áquelle negocio y 
que foram em navios de remo , e acertou 
de chegar D. Fernando primeiro á Ilha, 
onde defembarcou , e chamou a íl todos 
os noflbs que tinham defembarcado , e em 

mui- 



Década VIIL Gap. XXXVIL 407 

luto boa ordem foram dar nos inimigos , 
que eftavam apinhoados ao longo do cabe- 
ço que diíTe, donde vendo-fe commettidos 
defpedíram grandes nuvens de bombas de 
fogo , e chuveiros de pedradas ; e fobre- 
vindo Luiz de Mello com a mais gente, 
foi logo commetter os Mouros com quem 
travaram huma afpera batalha, em que el- 
les fizeram grande refiílencia ; mas tanto 
apertaram os noílos com elles , que não 
podendo foffrer feu Ímpeto , foram cons- 
trangidos a voltar as coílas , fendo os que 
mais fizeram que todos huns vinte folda- 
dos, a quem não achei os nomes, que fo- 
ram na dianteira de todos abrindo cami- 
nho aos mais com muitas panellas de pól- 
vora , cujo fogo pegou nos acolchoados de 
algodão , de que os Mouros hiam arma- 
dos , que de huns em outros fe foi atean- 
do como por canaveaes feccos , ou relto- 
lho , quando lhe dá o vento ; e como o fo- 

fjo fe lhes mettia pelos acolchoados , hia 
avrando lentamente , e não tinham mais re- 
médio que irem bufcar o mar , em que fe 
lançavam como doudos , e huns fe aífoga- 
vam , e outros çram alanceados 5 dos que 
eftavam nos noílos navios , e os mais dei- 
les fe envasaram na vafa , onde acabaram 
ás efpingardadas , e frechadas dos nofibs 
peães Canarís, que acudiram áquella mon-r 

ta- 



408 ÁSIA de Diogo de Couto 

íaria ; e depois de tudo concluído, eftes- 
mefmos os defpojáram do fato , e armas. 
Perdeo o Idalxá ncíte feito muitos homens 
com o feu Capitão da guarda, o Turco So- 
leimão Agá j e feu cunhado , e outros féis 
Capitães j e quatro elefantes , da qual vito- 
ria , que foi grande , ficou o nome da Ilha 
dos Mortos , que fempre terá , á imitação 
da outra que eftá junto a Dio , onde Nuno 
da Cunha , fendo Governador , matou a gen- 
te que nella citava pêra paífar a efta Ilha, 
que eram nove mil ; que fe nella entraram , 
puderam dar aos noííos grandiífimo traba- 
lho. Eftas novas fe deram ao Idalxá , ef- 
tando elle também de hum alto vendo a 
revolta ; e levantando-fe em pé , lançou a 
touca no chão, que he a maior demonftra- 
çao de fentimento que podem fazer os 
Mouros ; e pondo-fe em hum cavalio com 
fer de noite , fe parti o pêra Pondá , indo 
blasfemando de Mafamede. 

Efta grande vitoria tinha, havia pouco 
tempo , profetizado o Bifpo de Malaca Fr. 
Jorge de Santa Luzia , o qual eftando jan- 
tando no Domingo paliado com o Vifo- 
Rey no paço de Sant-Iago , entre algumas 
coufas que praticaram acerca daquelia guer- 
ra , lhe diffe o Bifpo , que tiveífe muita 
confiança em Deos noffo Senhor , porque 
havia de ter muito bom fucceflb 5 e para 

Gr 



Década VIII. Cap. XXXVII. 409 

final diflb elle lhe daria naquella femana 
huma grande vitoria; e depois quando foi 
a quarta feira , em que vio Luiz de Mello , 
lhe efcreveo huma carta , na qual dizia > 
que fe fizeíTe preítes pêra ao outro dia re- 
ceber a mercê que Deos lhe queria fazer; 
e affim fuecedeo , porque logo á quinta 
feira lhe deo efta vitoria , na qual fe fica- 
ram , fegurando as coufas da guerra. 

Nos dous exércitos de Chriftaos , e 
Mouros houve eftes dias por efte fueceflb 
differentes effeitos , porque no noíTo as 
feftas j folias , e tangeres faziam dobrar o 
fentimento no dos Mouros ; entre os quaes 
tudo eram prantos , laftimas , mágoas , e 
fentimentos , que nos nollos paíTos com o 
íilencio da noite foavam claramente ; aífim 
podemos com razão dizer que fe igualava 
nolfa alegria com -Tua trifteza. 

Na Cidade , quando chegou a nova da 
entrada dos Mouros na noíla Ilha , hou- 
veram-fc todos por perdidos , e deram tu- 
do por rematado , e concluído ; e entre 
mulheres , que são de animo mais fraco , 
houve muitos accidentes , e extremos , e 
andavam algumas de mais obrigações pelas 
ruas, de Igreja em Igreja, pedindo miferi- 
cordia a Deos noíTo Senhor , e os Religio- 
fos fe puzeram diante do Santiílimo Sacra- 
mento com muitas lagrimas, rogando pelo 

re- 



4io ÁSIA de Diogo de Couto 

remédio daquella Cidade ; e nefta confusão^ 
c trifteza eftiveram mais de duas horas até 
que entrou pela Cidade hum mulato 3 que 
foi dos primeiros que deram nos inimi- 
gos , o qual depois da batalha acabada , 
achando hum cavallo dos Mouros, fubio-fe 
nelle , e atraveílbu dalli á Cidade , pela 
qual entrou correndo por todas as ruas 
bradando : Vitoria , vitoria , com o que acu- 
dio a elle toda a gente, e então fouberam 
da vitoria que Deos deo aos noílbs ; e no 
mefmo inftante fe tornou a converter toda 
a Cidade da maior trifteza , que fe podia 
imaginar , na maior alegria da vida , que 
eílas são as coufas , e extremos delia. 

Havida efta vitoria , e allentado em 
confelho defender-fe Chaul , vendo-fe o 
Vifo-Rey com todas as Armadas recolhi- 
das , e que tinha em Goa mais de três mil 
homens 3 ordenou mandar hum bom foc- 
Gorro a Chaul , com o qual defpedio logo 
a Ruy Gonçalves da Camera , indo D. Dio- 
go de Ataíde por Capitão mor daquella 
Armada na galé Real ; e outros navios , em 
que hiam quinhentos homens, foi D.Jorge 
Baroche entrar na Capitania daquella For- 
taleza , e foram muitos Fidalgos , e Caval- 
leiros nefte foccorro , e hum delles foi D. 
João de Lima, irmão de D. Duarte de Lima, 
que ao embarcar dilíe , que hia fazer com* 

pa- 



Década VIII. Cap. XXXVII. 411 

panhia a feu irmão , fendo nifto Profeta 
de íi mefmo : homens principaes que com 
elle foram , Gonçalo Rodrigues Caldeira , 
feu irmão João Caldeira , Simão Pedroíb 
de Caftanheda i Chriítovão Ferreira, Dio- 
go Lobo de Soufa 5 que depois foi Capi- 
tão de Bardes , e outros que fe nomearam 
pelo difcurfo da hiíloria , que fizeram fei- 
tos abalizados. D.Jorge de Menezes tomou 
logo políe da Capitania , Luiz Freire fe 
partio pêra Goa , e D. Diogo de Ataíde , 
e D. João de Lima foram repartidos pelas 
eílancias. 

CAPITULO XXXVIII. 

Do que fucceâeo no cerco de Chaul no tem- 
po de D. Jorge de Menezes. 

DEpois da perda das cafas de Heitor 
de Sampayo , fizeram os Mouros hu- 
ma tranqueira defronte da Mifericordia , e 
foram ganhando algumas cafas chegadas a 
S. Domingos ; com o que obrigaram aos 
Padres a entupir a porta do Mofteiro , e as 
ferventias de todas as eílancias que havia 
dalli até a tranqueira de Gomes Ferreira > 
e abriram caminho por baixo da terra co- 
mo cavas até ás caías de D. Nuno Alva- 
res Pereira 3 e Nuno Velho , fendo já def» 

trui- 



412, AS IA de Diogo de Couto 

truido tudo quanto havia dalli pêra fora.' 
Feito ifto , determinaram os Capitães de 
irem dar nas eítaucias dos Mouros , que 
ficavam defronte da tranqueira de Luiz 
Trancofo , o qujál negocio encommendáram 
a D. Conçalo de Menezes , e a Alexandre 
de Soufa , que logo deíiftíram da empreza , 
refervando-a pêra melhor occafião > dando 
por caufa ter fugido aquella noite hum ef- 
cravo pêra os Mouros , que os poderia 
avifar do que determinavam ; e como já 
todos citavam alvoraçados , e preíles pêra 
aquelie aíTalto , e o furor dos foldados lie 
máo de refrear , não tendo elles dever 
com a refolução dos Capitães , juntando-fe 
mais de duzentos , deram de fupito nas 
eftancias dos Mouros , que eftavam fron- 
teiras 5 com tão grande impeto > que com 
morte de muitos as largaram , mettendo-fe 
pelas caías por onde os noílòs entravam 
apôs elles , ferindo 5 e matando á fua vonta- 
de 5 como em homens que hiam desbarata- 
dos. A efta revolta acudio o Capitão mor, 
e os dous Capitães D. Gonçalo , e Alexan- 
dre de Soufa 9 e outros , que fizeram nos 
Mouros tão grande matança , que fe pode 
eíla vitoria contar entre as mais aífinaladas 
daquelle cerco , e todavia ficaram mortos 
alguns dos noííbs , e outros feridos , a 
quem não achei os nomes : dos Mouros 

mor- 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 413 

morreram mais de cento e fincoenta , em 
que entrou hum Capitão de íbmbreiro 
branco, muito privado de ElRey. 

Eftes ruins íucceflbs fentio o Nizamo- 
xá muito , pelo que mandou aos feus Ca- 
pitães que deílem hum a (Falto geral a to- 
das as noílas eftancias em roda , de que 
logo o Capitão geral teve avifo , e foi em 
pefloa aviíàr os Capitães das eftancias , e 
animar os foldados pêra o trabalho , que 
efperava , dizendo-lhes , que alli tinham o 
que tanto defejavam , que moftraíTem aos 
Mouros quanto fe enganavam em cuida- 
rem que poderiam metter os pés daquelles 
entulhos pêra dentro ; e mandou prover a 
tddos de munições , e de outros provimen- 
tos neceílarios , dando a tudo muito boa 
Ordem com gentil difpoííçao. Entre os 
noííbs não houve melancolia , fenão muitos 
tangeres , feftas , e alegria todo aquelle 
dia , e noite, pêra que vi fiem os Mouros 
a alegria com que os efperavam. Eftando 
todos preftes, fendo no quarto d 5 alva, co- 
meçaram das eftancias cios Mouros a dis- 
parar aquella fúria infernal de toda fua ar-< 
tilheria arruinadora de tudo. Acabada a- 
quella corifeada , fahíram todos os Capi- 
tães de fuás eftancias com íuas bandeiras 
clefenroladas , e com grandes eftrondos de 
trombetas, e inítrumentos bellicos^ remet- 

ter 



414 ÁSIA de Diogo de Couto 

têram com as tranqueiras 5 cubrindo o ar 
de nuvens de frechas , e atroando com ur- 
ros dos elefantes que traziam diante , os 
<juaes chegaram a pôr as trombas nos noííbs 
vallos, e os Mouros por entre elles a que- 
rerem liibir ; mas acharam os noílbs tão 
promptos , que pafmáram , e foram fobre 
elles tantos os tiros , panellas de pólvora , 
lanças de fogo > e outros inílrumentos de 
morte , que choviam labaredas , e fuzila- 
vam trovões, e fcintillavam faifcas de fogo 
fobre elles , que como eftavam mui api- 
nhoados j fez nelles grandes incêndios ; do 
mar as galés , e fuftas pelas partes , por 
onde os defcubriam , não faziam fenão va- 
rejar , e matar de modo \ que do mar, e 
da terra eram tantas as coulas que atroa- 
vam os ouvidos , que fe não podia ninguém 
entender. Os inimigos como eram tantos 
não faziam caio dos que cahiam, paliados 
dos pelouros das efpingardas , e defpeda-- 
çados da artilheria , e abrazados do fogo , 
antes por fima delles paliavam até chega- 
rem ás tranqueiras , em que trabalharam 
tanto , que fe puzeram em lima , e logo 
arvoraram nellas muitas bandeiras , o que 
lhes cuílou tantas mortes , que foi efpanto. 
O Capitão mór acudia ora a huma parte , 
ora a outra , mandando reforçar as tran- 
queiras com gente que trazia em fua com* 

pa- 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 41? 

panhia , e dar ordem pêra que fempre 
houveííe munições de fobejo ; e chegado á 
eftancia de Gomes Ferreira , achou nella 
António de Teve , que vinha de foccorrer 
outras eftancias com muitos íbldados de 
fua obrigação , e com aquella ancianidade 
eftava pelejando, como fe fora hum Tolda- 
do mancebo de grande valor ; muitos Fi- 
dalgos , e gente folta acudiram ás partes, 
em que havia maior perigo , e fobre todas 
eíleve em nrúor aperto a eftancia de Dio- 
go Soares de Albergaria por ter huns por- 
taes tão devaíTos , que não tinham mais 
tapume que huns feixes de rama , fenão 
quanto na paragem mais perigofa tinha 
hum limoeiro que fe cortou em hum quin- 
tal , á fombra do qual eftavam os noílbs am- 
parados como bugios á fombra de qual- 
quer arvore ? ou folha verde ; o que vifto 
pelo Capitão mór , mandou alli trazer al- 
guns páos de teca > e taboas com que fe 
tapou aquella paragem o melhor que pode 
fer ; e dalli fe tornou o Capitão mór pêra 
a tranqueira de Gomes Ferreira ? onde a- 
chou os noílbs em lima dos vallos pelejan- 
do com os inimigos rofto a rofto á lança > 
e efpada muito animofamente , e certo que 
foi coufa milagrofa o pouco damno que 
os noífos receberam nefte conflicta , porque 
não morreram mais que três foldados , hum 

doa 



4i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

dos quaes foi D. João de Lima, irmão de 
D. Duarte, de liuma bombardada, que lhe 
deram pela cabeça , em que tinha hum 
murrião , que tudo lhe levou em claro , e 
algumas laicas de murrião deram porhuma 
orelha a Gonçalo Rodrigues Caldeira , de 
<]ue ficou bem eícalavrado , tendo já rece- 
bido algumas feridas ; porque nas partes 
em que fc achou , fempre pelejou tão va- 
leroíamente , que nunca fe refguardou dos 
perigos : mataram aqui também Simão Pe- 
drozo de Caftanheda , tendo-lhe já havia 
poucos dias em outro combate dado humá 
efpingardada pela boca , que lhe quebrou 
quatro, ou féis dentes: ficou também mui- 
to ferido outro foídado chamado o Guar- 
dali , que fempre foi dos primeiros que fe 
achou em todos os tranfes , e perigos : fi- 
caram muitos queimados , e inhabilitados 
pêra a guerra, em que fe perdeo muito; 
mas fobre todos fe fen tio a morte de D. 
João de Lima , por fer mancebo de gran- 
des efperanças , a qual morte , como já 
diífe , elle profetizou fempre antes , e foi 
cm fim fazer companhia a feu irmão na 
cova , em que eftava , coufa que eUc tan- 
to defejou. Os Mouros vendo-íe tão mal 
tratados dos noííos , fe retiraram com 
grande fornma de feridos , e quinhentos 
mortos. 

Nef- 



Década VIII. Cáp. XXXVIIL 417 

Neíte quarto d 5 alva , antes que oS Mou- 
ros commetteíTem os vallos $ fó òs Cafapos 
defpendêram trinta e quatro tiros $ tendo 
os dous dias antes defpendido mais de 
cento : ao outro dia que ifto paliou , Ruy 
Telles de Menezes mandou de foccorro* 
eftando em Dio por Capitão > embarcações 
cheias de mantimentos , gente , e munições í 
e pouco depois chegaram embarcações de 
Damão , em que Álvaro Pires de Távora 
mandou duas pipas de pólvora $ e muitas 
panellãs cheias , e grande fomma dé outras 
Valias 5 muitos murrões > é mantimentos $ 
tendo naquelle tempo neceílidade de pou-* 
par aquellas coufas , por ter cada dia no- 
-vas de virem os Mogores febre aquellà 
Cidade induzidos pelos mefmús Reys dá 
liga j e o mefmo fe temia do-Rey de Sãr^ 
feta , com quem o Capitão Aívaro Pires 
de Távora fe houve nefte negocio com 
tanta fagacidade , e prudência 5 que por 
meio de hum Bragmane muito iritelligén- 
te , como todos são , taes coufas diífe ao 
Rey Sarfeu, que o traítornou de feu pen- 
fa mento. 

Com eíla largueza fe fufteritavá iiaqiíel- 
le tempo a guerra , porque tinham os Ca- 
pitães liberdade pêra gaitarem \p e defpen- 
derem a fazenda de EIRey neítas neceííida- 
des , e outras fetnelhantes , o que depois 
Couto. Tom. F.P.J. Dd fe 



41 8 ÁSIA de Diogo de Couto 

fe veio a eftreitar tanto, que ainda que as 
Fortalezas fe arrifquem, não fe podem fa- 
zer mais defpezas das ordinárias ; e fup- 
pofto que não nego que muitos Capitães 
fizeram gaftos muito defneceííarios , e nos 
que eram forçados nas defpezas ordinárias 
punham cento por dez , por onde nem re- 
provo ,. nem approvo os regimentos que 
ha fobre efta matéria , nem fei regimento 
que fe polia fazer que fe ajufte tanto com 
os cafos que podem fucceder, que fe ache 
nelle o remédio a tão grandes inconve- 
nientes , fenão for o aperto, e neceífidade 
urgente o mefmo regimento. 

Com todos eíles trabalhos , mortes, 
rifcos , e perigos não deixava entre os 
noífos de haver zombarias , e galanterias, 
de que contarei fó duas. , Na eítancia de 
Fartecão fe armou hum trabuco pêra met- 
terem pelouros na Cidade , que todas as 
coufas que nos podiam empecer , não dei- 
xavam de as intentar ; e parece que lhe 
erraram a efquadria , porque os primeiros 
pelouros que difparou , os lançou pêra 
trás fobre o feu mefmo exercito : não ca- 
hio ifto no chão aos nolTos foldados , por- 
que alguns traveífos das eftancias armaram 
outro dia nos feus vallos outro trabuco , 014 
engenho ,,-a que na índia chamão Lates, 
com que çoítumavam tirar agua dos tan-? 
t quês, 



Década VIIL Ca* XXXVIII. 419 

quês, que são humas vergas delgadas com 
a ponta pêra Uma , e o pé grofíb por bai- 
xo , no qual lhe põe hum pezo armado 
íòbre huma forquilha, e na ponta de íima 
delgada amarraram huma porca ; e largan- 
do o pezo , levantava a ponta pêra lima 
com grande fúria ^ e como nella eftava ata- 
da a porca 5 a levantava no ar, fazendo tal 
gafnada que fe ouvia, e via na eftancia de 
Fartecão , de que os noflbs faziam grandes 
galhofas , e rifadas , ficando o Mouro mui- 
to affrontado. 

Outro joguete de mais zombaria fe fez 
nas caías , que defendia Francifco de 
Mello o Roncador , que foi mais provei- 
tofo que todos , e foi eíte, Delejavam os 
Mouros muito de tomar eílas calas , e as 
commettéram por muitas vezes > mas de 
todas fahíram bem efcalavrados - y e vendo 
que rião tinham remédio pêra as entrar, 
trataram de as minar, pêra o que lhe en- 
eoftáram humas fermofas 5 e fortes mantas 
de vigas , e taboado tão junto, que todas 
as panellas de pólvora 5 que nellas fe lan- 
çaram de íima , não faziam mais que que- 
brar, e as labaredas efpalharem-fe pelo ar, 
fem fazerem nojo aos debaixo* Vendo 
Francifco de Mello o cafo , encheo muitas 
panellas de çugidade de gente delida com 
qurina de maneira ji que ficava aquelle im- 
Dd ii mun- 



420 ÁSIA de Diogo de Coxjto 

mundo licor muito delgado ; e quebrando- 
as de íima nas mantas , corria pelas coftu- 
ras , e aberturas abaixo fobre os que tra- 
balhavam; e em lhes chegando o licor, foi 
tal o máo cheiro , que largando as man- 
tas , e ferramenta , fe foram acolhendo pêra 
luas eftancias ; e contando o cafo ao Ni- 
zamoxá, o feftejou muito, dizendo, que 
nunca vira tal modo de anuas , e que os 
Portuguezes de tudo fe ajudavam , e toda- 
via com efta induítria ficaram os noífos 
defapreíTados. 

Depois que fe perderam as cafas de 
Luiz Xira Lobo \ viraram os Mouros toda 
a força de fua artilheria contra o Templo 
de S. Domingos ; e depois que fahíram 
desbaratados naquelle aílalto geral , leva- 
ram aquelle negocio com mais vigor pêra 
fe fatisfazerem daquelle bairro. Eftava nelle 
Ruy Gonçalves da Camera , que depois 
que chegou de Goa fe metteo nelle, e fez 
o que pode, como já de antes tinha feito 
ao de S. Francifco , que parece defejava 
defender com particular cuidado as cafas 
daquelles dous Patriarcas , que fempre o 
favoreceram em feus intentos. Tinham os 
Mouros dado com o corpo da Igreja no 
chão, e fó lhe ficava aCapella, que era de 
abobada , a qual Ruy Gonçalves da Camera 
mandou desfazer pelo mefmo meítre, que 

ha- 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 421 

havia pouco tempo a tinha feito 5 e man- 
dou terraplenar o corpo da Capella todo , 
e fobre o terrapleno levantou hum baluar- 
te , que com muito trabalho foi acabado 
em poucos dias com huma trincheira da 
parte de dentro ao longo da parede do 
corpo da Igreja ; mas tudo ifto não podia 
fazer baftante defensão , porque os Mouros 
não fe contentaram de o bater com os 
dous Cafapos > mas também o fizeram com 
outras muitas peças groíTas que lhe aíTeftá- 
ram , com que em poucos dias puzeram 
por terra todas as cellas do Moíleiro com 
fuás officinas ; e em fim o baluarte , que fe 
levantou com tanto trabalho, foi todo ar- 
rafado. Feita eíta deftruição, começaram de 
novo a entender com as cafas de D. Gon- 
çalo de Menezes , e de D. Nuno Alvares 
Pereira, nas quaes fizeram grande damno , 
porém não fem muito da fua parte. 

Eftas cafas de D. Nuno Alvares Perei- 
ra eram as mais apartadas das tranqueiras 
que todas > e por iífo mais perfeguidas ', e 
mais arrifcadas , e aílim defta vez as bate- 
ram quarenta e dous dias continuos , e as 
arrasaram de todos os altos , fazendo delias 
huma mifcelanea de pedras , caliça , telhas , 
madeiramento , e até grades de ferro. 
Vendo-as o Nizamoxá naquelle eftado , 
mandou ao Fartecão que as commetteífe , 

e 



422, ÁSIA de Diogo de Couto 

e que fe não apartaíTe delias fem as ga- 
nhar , porque lhe faziam delias muitas af- 
frontas , e fobrançarias. O Fartecão fe fez 
preftes pêra aquelle negocio ; e pêra os 
íeus verem por onde haviam de entrar , e 
commetter , mandou fazer grandes fogos 
diante das cafas pêra os alumear , não ven- 
do que com elles moftravam aos nofíbs , 
onde haviam de pôr o feu ponto ; porque 
em fendo viftos das noífas galés , que ef- 
tavam daquella parte , difparáram naquel- 
las labaredas muitas bombardadas , de que 
mataram muitos inimigos* Fartecão que 
eílava preftes , tanto que foi no quarto dal- 
va , mandou commetter aquellas cafas por 
quatro mil dos feus efcoihidos , não fendo 
os noífos mais de quarenta , que fe puze- 
ram á defensão dos lugares por onde os 
Mouros commettêram a entrada , que foi 
pelas pontas das noífas lanças y alabardas , 
e panellas de pólvora, e outros inftrumen- 
tos mortaes , que todos fe empregavam 
bem nos Mouros , por ferem tantos , que 
não havia donde cahirem fenão fobre elles. 
O Capitão mor fentindo o negocio , mandou 
pelo caminho das Minas a Alexandre de 
Soufa , e Pedro da Silva de Menezes com 
vinte foldados , que fe foram metter den- 
tro , e logo apôs çlles Francifco de Soufa 
Tavares com outra Companhia, e o Capi- 
tão 



Década VIU. Cap. XXXVIII. 433 

tão mor fe poz na porta da tranqueira de 
D.João de Soufa, ailim pêra mandar mais 
foccorros ] e provimentos , e munições , 
como pêra ter mão nos íbldados , que to- 
dos trabalhavam por fe irem achar naquel- 
le feito , onde foi ter António de Teve 
por fora das tranqueiras por huma rua , 
que hia das cafas de D. Gonçalo de Me- 
nezes pêra as de Nuno Alvares Pereira y 
porque lhe difíeram que o Capitão mor 
era lá paliado , em que o enganaram ; e 
quando chegou , achou D. Nuno Alvares 
íobre as paredes quebradas com todos os 
companheiros , pelejando com grande va- 
lor y e era o lugar tão pequeno , que os 
que chegavam de foccorro não cabiam já 
nelle. António de Teve tomou o pofto por 
fora em parte que com a fua gente ficava 
defendendo a porta ; e ajuntando-fe allr 
outros companheiros que hiam chegando , 
determinou fazer huma fahida aos Mou- 
ros ; e abalroando a porta de hum quintal 
das mefmas cafas, donde também os nof- 
fos eram perfeguidos , deo de fupito nel- 
les , fendo elle o primeiro que entre eil es 
fe remeçou com huma gineta na mão , que 
logo enfopou na barriga de hum Mouro 
com que fe lhe quebrou ; e levando da 
efpada , derrubou outro, e os mais com- 
panheiros todos faziam emprego bem £ 

fua 



424 ÁSIA pe Diogo de Couto 

fua vontade , e com algumas panellas de 
pólvora abrazáram muitos com que os fi-* 
zeram affaífor do combate. D, Nuno Alva-* 
res Pereira apertou tanto com os que tra^ 
balhavam por lhe fubir as paredes , que 
com grande damno os lançou fora, e com 
tamanha perda , que fe recolheram defeA 
perados de poderem fazer coufa de fub- 
ítancia. Dos noíTos morreo hum fó , mas 
ficaram muitos feridos , entre os quaes foi 
Francifco de Sá de Menezes , que recebeo 
duas frechadas fobre querer recolher o 
corpo do foldado morto ; hum cafado de 
Chaul veip a braços com hum Mouro , e 
arcando com elle o levou nos braços , cor-r 
rendo ao Capitão mor y do qual foube 
muitos avifos , e lhe affirmou , que lhe ti- 
nham os noíTos mortos íinco mil homens 
pelo difeurfo da guerra, e alguns Capitães 
de nome. 

Com eíte ruim fuceeíTo ficou o Niza- 
moxá mui quebrantado , e mandou que fe 
não defiftiíle da empreza daquellas cafas 
até fe ganharem ; e dando a defeonfiança 
a Fartecão , mandou aos feus que fe foliem 
chegando com os feus vallos até fe abar- 
barem com aquellas cafas ; e em quanto 
ifto fe foi fazendo , mandou virar a artilhe- 
ria pêra a noífa Armada pêra fe vingar do 
damno que delia recebeo , e a começou a 

ba- 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 42? 

bater, mas ella fe mudou pêra outro pof- 
to , e aífim andou de hum em outro furtan- 
do-lhe o ponto. Os Mouros fe hiam che- 
gando cada vez mais com paredes muito 
groflas a modo de baluartes ; mas Agoiti- 
nho Nunes armou defronte delles hum ca- 
valleiro , no qual prantou hum falvagem, 
e no feu Rebelim poz outra peça groíTa, 
e o mefmo fez Gomes Ferreira pêra der- 
rubarem as cafas , que foram de Luiz Xira 
Lobo , donde os Mouros lhes faziam mui- 
to grande damno. Os Cafapos em quanto 
a obra dos vallos durou deixaram de la- 
borar, com que os noífos ficaram aquelles 
dias defafFogados , e fempre lhes pareceo 
que eram retirados , e aílím queriam os 
Mouros que fe cuidaíTe pêra verem fe por 
eíTe refpeito podia haver nos noífos algum 
defcuido ; mas logo tornaram aquellas pef- 
tilenciaes fúrias a laborar , huma contra o 
Moíleiro de S. Domingos , e outra nas ca- 
fas de D. Nuno Alvares Pereira , fem os 
noífos por caufa de feus vallos os poderem 
ver, detrás dos quaes os Cafapos começa- 
ram a bater braviffimamente , abrindo nas 
fuás paredes bombardeiras por onde os Ca- 
fapos fe abocavam, e cada vez que difpa- 
ravam parecia que tremia a terra , e o pri<- 
meiro tiro que o Cafapo difparoti , levou 
logo a Capella de S. Gonçalo , e o pelouro 

foi 



426 ÁSIA de Diogo de Couto 

foi pafíando por diante , e fazendo terre* 
motos efpantofos , que durou perto de duas 
horas que havia de dia quando difparou, 
e de outros tiros derrubaram também ou- 
tras três Capellas de que não ficou pedra 
fobre pedra. Ao tempo que efta bateria fe 
começou , eftavam algumas peflbas na Igre- 
ja falíànéo^na trincheira que Luiz Gonçal- 
ves da Camera fazia , com a qual foi cor* 
rendo com grande trabalho , e induftria até 
a acabar , com o que o corpo da Igreja 
parecia que ficava hum forte baluarte baf- 
tante pêra refiítir áquella diabólica fúria. 

Em quanto iíto aífim^ fe ordenava não 
faltavam todas as horas commettimentos 
em outras partes , dos quaes fempre fe re- 
colhiam com vitoria , porque ficavam ou- 
tras eítancias livres das baterias que fe da- 
vam a S. Domingos , e ás cafas de D. Nu- 
no Alvares , o que fe fazia continuamente 
com tão grande terror, que fe affirma que 
o ar andava defpovoado das aves, e ornar 
dos peixes , e os matos dos bichos , e ali- 
márias fylveítres , que andavam como ef- 
pantados y mas os peitos dos valerofos 
rortuguezes , contra quem aquella infernal 
fúria fe armava , não fe apartavam hum fó 
ponto de feus lugares , antes parecia que 
aquelle ellrondo diabólico os defpertava, 
e fazia mais oufados , e ufanos, allim co- 
mo 



Década VIIL Cap. XXXVIII. 427 

mo o famofo , e caíliço ginete em ouvindo 
a trombeta fe alvoroça 9 e desfaz pêra fa- 
hir á campanha , cavando a terra com as 
mãos , alargando as ventas , fitando as ore- 
lhas , e fazendo outras demonftrações de 
feu brio, 

Nefte tempo partio Jorge Pereira Cou- 
tinho de Baçaim de foccorro com quator- 
ze navios , em que fe embarcaram cento e 
quarenta foldados ; e vindo pelos rios den- 
tro por não paífar ociofo pela Galiana Ci- 
dade doNizamoxá, em que havia boa For- 
taleza , na qual eftava por Capitão Fame- 
cao com mil e quinhentos homens , na qual 
determinaram os noílbs dar hum toque ; e 
amanhecendo fobre aquella Cidade, defenr- 
barcou fem achar reííítencia , e mandou lo- 
go pôr fogo aos arrabaldes , em que fe quei- 
mou muita fazenda ; porém acudindo Fa- 
mecao , travou com os nolTos huma rezoa- 
da batalha , da qual fe recolheo ferido 
com outros muitos , e os noífos fe embar- 
caram a feu falvo , e entraram em Chaul 
com eíla vitoria , onde foram muito fefte- 
jados , e repartidos pelas eftancias em que 
havia mais neceíTidade. 

As cafas de D. Nuno Alvares Pereira 
eram neíle tempo mais combatidas , e o 
mefmo as de Nuno Velho Pereira, porque 
a tenção do Nizamoxá era fazer-fe Senhor 

de 



428 ÁSIA de Diogo de Couto 

de todas as cafas de fora pêra affaftar dal- 
li aquelle iínpedimento , pêra fe fenhorear 
logo dos vallos , e tranqueiras ; e poílo que 
as cafas de D, Nuno Alvares ficaram da 
outra bateria arrazadas , como fe diííe, 
com tudo ficou hum pedaço de huma ca- 
mera com o fotão debaixo , em que os 
noíTos fe fortificaram , e já a fúria defta 
bateria não tinha em que fe empregar fe- 
não naquelles materiaes das ruinas que 
eftavam apinhoados , de que fe levantavam 
grandes nuvens de caliça, que tratava mui- 
to mal aos noilbs ; mas com todos eítes 
trabalhos não deixavam eftes dous Capi- 
tães de fazer muitas fahidas aos Mouros > 
€ de huma delias fahio D. Nuno Alvares 
Pereira com huma arcabuzada , que lhe 
paífou huma perna , e parte da outra , e 
huma frechada pelos peitos , deixando elle 
feito grande damno nos inimigos , como 
também fez Nuno Velho Pereira nas fahi- 
das que fez , de que fahio bem aíTinalado , 
deixando-os a elles bem efcalavrados. Fa- 
ratemaluco , que tinha cuidado da bateria 
deitas duas caias , mandou-fe algumas ve- 
zes queixar a Nuno Velho, porque fempre 
ao jantar o convidava com iguarias de fo- 
go , o que lhe não fabiam nada bem , que 
lhe lembrava que não era primor tratar 
mal os vizinhos , que correífe melhor com 

el- 



Década VIII. Caí. XXXVIIL 429 

clle dalli em diante , aos quaes recados 
lhe reípondeo Nuno Velho , que muitas* 
vezes defejava de ir fer feu hofpede , mas 
que ainda o faria , e que primeiro o avifa- 
ria, pêra que' o agazalhaíTe bem. 

Das continuas baterias , e fahidas , que 
Nuno Velho fez aos Mouros, perdeo tan- 
tos foldados ,. que veio a ficar com fete ; e 
não ter em que fe recolher fenão em hu- 
ma logea , porque todos os altos lhe ti- 
nham as continuas baterias pofto no chão; 
e eftava em tal eftado , que por fe não 
perder hum Fidalgo tão honrado i trataram 
os Capitães de largarem aquellas cafas , e 
primeiro as mandaram minar , pêra que os 
Mouros não tomaíTem poíTe delias tão fol- 
gadamente, o que fe fez com grande pref- 
teza. Feito tudo , e negociado , largou Nu- 
no Velho as caías : ao outro dia que os 
Mouros as fen tiram defpejadas , fe mettê- 
ram logo nellas , e apparecêram muitas 
bandeiras arvoradas , e entre ellas huma, 
que tinha a figura de Mafamede tão fea, 
como foram fuás obras. Entrando os Mou- 
ros dentro, como diífe, eftando feftejando 
aquella vitoria, deram os noffos fogo por 
caminho , que eltava feito de fora até á 
mina , a qual em lhe chegando rebentou \\ 
levando pelos ares todas as paredes , cafas , 
Mouros , bandeiras , ficando tudo com á 

ban- 



4jo ÁSIA de Diogo de Couto 

bandeira de Mafamede abrazado , como 
elle eíU no inferno* O Capitão mor que eíta- 
va efperando aquella hora , tanto que o ef- 
trondo paíTou , deo nos Mouros , que eíta- 
vam a viíta das cafas , que* acudiram ao 
defaftre, lendo elle o dianteiro, efcz nel- 
les huma cruel matança. Nuno Velho, co- 
mo dono que foi das cafas ,. entrou logo 
nellas com os feus foldados, e dentro ma- 
tou lincoenta Mouros , que tinham entrado 
nellas : neíla volta andou Gomes Eanes 
muito gentil-homem , porque endireitou 
com hum Mouro armado , e deo-Ihe por 
íima das armas tal golpe , que lhe quebrou 
a efpada , ficando-lhe hum terço delia na 
mão i com a qual acabou de o matar ; e to- 
mando-lhe da. cinta o traçado , o quebrou 
também em outro j e remettendo com ou- 
tro , que já hia morto , lhe tomou outro 
traçado , com que pelejou valerofamente ; 
e depois dos inimigos desbaratados \ não 
fe quiz recolher fem o pedaço da fua ef- 
pada , a qual bufeou , e achou , e com mais 
duas que tomou aos Mouros fe recolheo. 
Hum pagem deD.João deSoufa, chamado 
Francifco, moço de quinze annos , eítando 
fem efpada, remetteo com hum Mouro, e 
lhe travou de huma lança que trazia com 
tanta cólera , e força , que deo com o 
Mouro em terra 7 e pondo-fe fobre elle, 

lhe 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 431, 

lhe metteo huma frecha pela garganta tan- 
tas vezes até que o matou. Se a mina fora 
melhor cavada , e tivera mais força , fizera 
maior eílrago , porque ao tempo que lhe 
deram fogo eílavam nos quintaes , e cafas 
mais de dous mil Mouros. Da noíTa par- 
te nefte tão honrado feito morreram dez 
dos noííbs 5 e ficaram fincoenta feridos. 

Pouco depois , eftando osnoíTos das ca- 
fas de D. Nuno Alvares vigiando o cam- 
po , viram vir três Mouros de cavallo 
muito airofos , e bem armados com os 
traçados defembainhados , correndo igual- 
mente pêra as noíTas tranqueiras até che- 
garem bem perto ;e fazendo algazaras pêra 
os noíTos , íe tornaram a recolher com mui- 
ta fegurança. 

Ao outro dia viram vir outro de ca- 
vallo pela praia; e chegando perto das ca- 
fas de D. Nunp Alvares , acenou aos noA 
fos que lhe fahiílem , defpedindo algumas 
frechadas pêra. o ar. Ignaçio da Fonfeca , 
que alli eícavavçndo efta foberba doMou^ 
ro, foi-fe diilímuladamente por detrás das 
cafas com. huma lança nas mãos , e foi de- 
mandar o Mouro , que nunca quiz aguar- 
dar , antes virando as ancas, fe foi reco- 
lhendo, QjO mefmo fez o noíTo íem fazer 
cafo das muitas efpingardadas que os 
Mouros lhe atilavam. 

Per- 



43^ ÁSIA de Diogo de Couto 

Perdidas as cafas de Nuno Velho , já 
não ficavam mais que as de D. Nuno A1-* 
vares , que já não eram cafas fenão huns 
entulhos 5 e montes de materiaes das cou- 
fas delias , e as de D. Gonçalo de Mene-» 
zes , que também eílavam bem derruba-* 
das ; e aífim como as de D, Nuiío Alvares 
eílavam , não oufavam os Mouros de che- 
gar a ellas , como fe fora algum muito for- 
te > e temido baluarte ; e todavia o Farte-* 
cão, que tinha aquelle negocio á fua con^ 
ta , e eftava já muito defconfiado i deter- 
minou de dar o ultimo aíTalto , no quat 
havia que concluiria com aquelle negocio} 
e o dia que determinaram fazer efta exe-» 
cução lhe deram huma temerofa bateria 
com os Cafapos , que coftumavam levantar 
aquellas nuvens de caliça 5 por meio dos 
quaes determinavam commetter a entrada 
daquelles montes de confusão \ que já fo- 
ram cafas bem fermofas , e que cuítáram 
muito a feu dono. João de Mendoça no 
feu cavalleiro y onde eftava, entendeo a 
tenção dos Mouros ; e vcndc-os cccupa- 
dos na obra que queriam fazer , foi-fe fa 
pela mina com huma panella de pólvora 
na mão pêra ir faber de D. Nuno Alvares 
Pereira fe havia mifter alguma coufa \ co- 
mo fez ; e não querendo fazer aquelle ca- 
minho em vão > fahio fora da mina por 

hum 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 433 

hum canto das cafas ; e vendo eílar muitos. 
Mouros juntos pêra darem o aflalto , aca- 
bada a bateria , remcííando entre todos a 
panella de pólvora , fe tornou a recolher 
á mina ; e quebrando-fe a panella entre 
elles , levantou as coftumadas labaredas 
com que abrazou alguns , e atemorizou 
grandemente a todos ; e todavia como vi- 
ram tempo , remettêram com os entulhos 
com grande determinação ; mas acharam 
feus valerofos defeníbres taes , e tão for- 
tes , como fe eítiveram em íima do mais 
forte baluarte do mundo , e a poder de 
golpes , e fogo os fizeram affaftar bem ef~ 
calavrados. Ao outro dia , como homens 
que ficaram efcandalizados , e affrontados , 
tornaram a commetter nos noífos , e puze- 
ram fogo a huma tranqueira , que D, Nuno 
-Alvares tinha feita , donde vigiavam a ef- 
tancia; e paliando o fogo, tornaram a ba- 
ter os cafapos aquelles entulhos , nos quaes 
fizeram tão grandes terremotos , que íepui- 
táram entre a caliça, e a pedra alguns dos 
noiTos \ e eílando aílim nefte confliòto , ha- 
vendo Fartecão que deita feita concluiria 
com aquelle negocio, mandou hum recado 
a D. Nuno Alvares , em que lhe pedia lhe 
largaíTe aquellas caías pêra fe elle apofen- 
tar nellas , porque eílava defagazalhado ; 
ao que lhe mandou refponder que- bem 
Couto. Tom. V. P. L Ee pc- 



434 ÁSIA de Diogo de Couto 

podiam caber todos , que foíTe lá fer feu 
hofpede , que elle lhe promettia de o aga- 
zalhar muito bem , e que pêra ifíb o man- 
daria receber com muitas tochas das coftu- 
madas. Ficou ifto aífim por eíle dia , e por 
fim fe tornaram os Mouros a recolher bem 
eícalavrados. 

Ao outro dia , que foi o ultimo de 
Março , tornou outra vez a commetter as 
mefmas ruínas com tanta fúria , que fe pu- 
zeram em íima , e arvoraram logo fobre 
aquelles montes de pedras algumas ban- 
deiras ; mas alli naqueiles pobres fragmen- 
tos fe travou entre os Mouros, e os noíTos 
huma cruel batalha , a que acudio o Capi- 
tão mor; mas quando chegou, já os noííbs 
tinham lançado os Mouros fora com gran- 
de affronta , e damno , fem dos noílbs fe 
perder mais que hum foldado. AíFaftados 
os Mouros , e vendo que a madeira das 
cafas , que ficou entre a ruina , lhes fazia 
grande impedimento pêra fe fazerem fe- 
nhores daqueilas cafas , tornaram a man- 
dar continuar a bateria , e no meio delia 
mandaram dar fogo áquillo que os impe- 
dia , porque ao tempo da bateria eftavám 
os noífos recolhidos , e com a bateria dos 
cafapos levavam madeiras , pedras , te- 
lhas , e outras coufas pelos ares , que hiam 
cahir no "clauftro de S. Domingos > onde 

fi~ 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 435- 

fizeram algum damno , ferindo alguns dos 
nofTòs. 

E porque fehia acabando overam, tra- 
taram alguns moradores de mandar pêra 
Goa fuás fazendas , mulheres , e filhos , que 
tudo embarcaram em huma náo de hum 
Gafpar Ribeiro , a qual fahindo pela barra 
fora por culpa do Piloto > fe encoftou ao 
baixo , onde fe perdeo o melhor de qua- 
trocentos mil cruzados ; porque como a 
náo fe defpedaçou , e a corrente alli he 
mui furiofa > levou logo tudo pela barra 
fora* 

Vendo os Mouros que os aílaltos lhes 
cuítavam tanto ^ trataram de minar por al- 
gumas partes por onde pudeífem entrar na 
Cidade , de que os íioífos foram logo avi- 
fados por alguns arrenegados que andavam 
no exercito , que por muitas vezes fe pu- 
nham á falia com os das noífas tranquei- 
ras 5 e por figuras y e metáforas lhes di- 
ziam o que paífava , como foi deita vez 
que lhes diíleram , que fe guardaífem dos 
ratos v e que trabalhaífem por regar os 
canaveaes > que fe vigiaffem das lapas , que 
cedo haviam de cahrr , e outras metáforas 
deite modo 3 que elles depois efcrevêram 
mais claro , deitando as cartas dentro na 
Cidade com frechas , as quaes por duas 
vezes fe acharam ; fobre que o Capitão 
Ee ii mór 



436 A S I A ' de Diogo de Couto 

mór mandou, fazer diligencias , e Francifc 
co de Mello o Roncador deo em huma 
mina , a qual contraminou , e tomou nella 
toda a ferramenta dos oíficiaes. 

A bateria nunca ceifou , contra a qual 
Ruy Gonçalves da Camera acabou o forte 
que fazia em S. Domingos , e mandou tra- 
zer hum leão , que tinha na Fortaleza ve- 
lha com hum falvagem mais , que p.rantou 
contra os cafapos 9 porque o Condeftavel 
que veio de Dio lhe prometteo de os que- 
brar , e o dia que fe havia de começar a 
experiência , fahio Ruy Gonçalves da Ca- 
mera muito louçao com coura de golpes , 
e muitos botões de ouro , e gorra de ve- 
ludo com plumas j. feftej ando as efperanças 
que tanto trabalho lhe tinham cuftado , e 
os primeiros tiros mandou que fe difpa- 
raífem nas eítancias de Fartecao ; pelo que 
o Bragmane Condeftavel mór mandou mu- 
dar os cafapos , defapreífando com iífo as 
cafas de D. Nuno Alvares , e mudando-os 
contra as de Ruy Gonçalves da Camera ; 
e querendo começar a jogar a artilheria de 
huma , e outra parte , fe viam os Condefta- 
Veis cavalgados fobre as peças com os bo~ 
tafogos nas mãos, ameaçando-fe , e fazen- 
do-fe biocos hum ao outro , encrefpando- 
fe como o coftumam fazer dous carneiros. 
O Condeftavel dos Mouros depois. que fez 

fuás 



Década VIII. Cat>. XXXVIII. 437 

fuás roncas , e ufanias , mandou dermbar 
a portinhola , que eftava diante do cafapo , 
e furtou o ponto ao noíío , e no meíino 
momento o tornou logo a virar pêra as 
noíTas peças , onde o difparou , indo o pe- 
louro fazendo tamanhas barafundas , que 
foi efpanto , quebrando logo as telhas, e 
os repairos ás noílas peças , enterrando-as 
nos entulhos , e enchendo-as de terra per- 
las bocas , ainda que logo as alimparam, 
^e tornaram a jogar ; e poíto que com al- 
guns tiros faziam grande damno nos Mou- 
ros , todavia logo elles as tornavam a ce- 
gar. Durou efta diabólica porfia três dias 
contínuos , no fim dos quaes hum tiro dos 
cafapos tomou o leão pela boca , e lhe 
quebrou hum beiço , e os repairos de am- 
bas as peças , e em fim tanto fizeram até 
que arrasaram o baluarte , e cegaram de 
todo as peças , levando pelo ar os ceftões 
entulhados , e allim defarmou em vão em 
breve tempo hum trabalho de tantos dias'. 
Vendo os Mouros arruinado aquelie 
baluarte , tornaram a virar os cafapos con- 
tra as cafas de D. Nuno Alvares , que já 
nao tinham em que pôr os olhos , e certo 
que era já temeridade iníiftirem em ter 
gente nellas ; e ainda que D. Nuno Alva- 
res era o que nao queria largallas , haven- 
do mais de três mezes que as fuitentava 

con- 



438 ÁSIA de Diogo de Couto 

contra toda aquella fúria ; e depois de os 
Mouros defcarregarem alli algumas bate- 
rias , vieram os cafapos contra a eftancia 
de João de Mendoça , Agoflinho Nunes , 
e Luiz Trancofo , nas quaes fizeram gran- 
des damnos ; mas também os receberam 
maiores dos noííbs , q^e como eram tan- 
tos , tinham os noílos tiros bem em que fe 
empregar. 

Quarta feira de Trevas , que caliio em 
onze de Abril , fobre a tarde fe foram os 
Mouros chegando ás noílas eílancias pelos 
quintaes , e cafas que ficaram de fora até 
ie metterem defronte da Portaria de S. Do- 
mingos , menos de vinte pálios das cafas 
de D. Gonçalo de Menezes , o qual não 
foífrendo tão ruim vizinhança , foi dar nel- 
les com tanto esforço , e impeto , que com 
morte de muitos os tornou a lançar fora , 
de que fe houveram por muito affronta- 
dos ; e ajuntando mais gente ? tornaram a 
commetter as cafas com grande determi- 
nação ; e indo-fe4he juntando mais folda- 
dos que alli acudiram , apertaram tanto 
com os Mouros , que os entraram 5 dança- 
ram fora das cafas , e ainda os foram fe- 
guindo até ás fuás tranqueiras , que tam- 
bém lhes ganharam , e os foram mettendo 
por outras cafas dentro , a cujas portas 
acharam grande refiítencia y e achando alli 

hum 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 439 

hum valente foldado noíTo , a quem não 
achei o nome , vendo o trabalho em que 
os nofíos eílavam , tomou hum calão de 
pólvora que hum moço trazia , e como era 
forçofo , e braceiro 5 chegou á porta , e o 
lançou entre os Mouros , aonde fe desfez 
em labaredas ? que abrazáram muitos \ e 
paliadas ellas , entrou o foldado pela porta 
com huma chuça nas mãos , com que foi 
derrubando muitos , e logo apôs elle en- 
traram muitos que fizeram tal eílrago que 
fe affirma matarem quinhentos Mouros - y e 
tomando finco bandeiras , que tinham ar-, 
voradas nas cafas , fe foram recolhendo 
pêra os noífos vallos. 

Três dias depois deite fucceíTo , que foi 
fabbado da Pafcoa da Refurreição , que eíte 
anno cahio a quinze de Abril , tornaram os 
noífos a fahir aos Mouros , aos quaes com- 
mettêram tão de fupito , e com tanta de- 
terminação que lhes entraram as mefmas. 
cafas , em que fe tinham outra vez metti- 
do 5 e fizeram outro tal eftrago femelhante 
ao paliado , em que alguns dos noflbs fe 
aíllnaiáram bem 5 fazendo feitos dignos de 
maior memoria da que lhe dou , porque 
não achei os nomes delles ; e crefcendo o 
poder dos Mouros , foram-fe os noífos re- 
colhendo já mais apertados delles , ao que 
acudio hum Frade leigo de S. Franciíco 

cha- 



440 ÁSIA de Diogo de Couto 

chamado Fr. António com huma chuça 
nas máos , com que fe metteo entre os Mou- 
ros , e fez nelles tal deílruiçao que parecia 
hum leão encarniçado ; mas como tinha 
alli cheio o numero de íeus dias , foi mor- 
to , e não achei fe de arcabuzada , fe de 
cutiladas , mas achei na boca de homens 
muito verdadeiros 3 que fe acharam neíte 
cerco , que era varão de muita virtude: 
perdêram-fe alguns dos noílbs também 
neíle feito, e entre elles D.Luiz deCaftel- 
lo-branco , Camereiro que foi de EIRey 
D. João o III. e pai de D. Jorge de Cal- 
tello-branco , que faleceo ha três annos y 
fendo Capitão de Ormuz. O qual D. Luiz 
nunca foi cafado , e houve na índia eíte 
filho , e huma filha de huma mulher viu-: 
va , matáram-no com huma bomba de fo- 
go que lhe deo ; morreo também Ruy Pe- 
reira de Sá , Fidalgo honrado , Francifco 
Barradas , e o Padre Pedro Colaço da Com- 
panhia y varão de grande virtude , e exem- 
plo. 

Foram os Mouros continuando a bate- 
ria em todas as partes das noílas tranquei- 
ras , principalmente contra as cafas de D. 
Nuno Alvares Pereira , que elle fempre 
íuftentou com o valor , e esforço tantas 
vezes repetido , e com receber muitas fe- 
ndas 3 e adoecer de diíFerentes enfermida- 
des 



Década VHL Cap. XXXVIII. 441 

des nunca fe tirou delias , e nellas fe ar 
rou , e fofFreo todas as incommodidades 
da guerra que os cercos trazem, aturando 
entre aquellas miferaveis ruínas toda aquei- 
la infernal fúria , e bateria de cafapos , 
bafilifcos , íalvagens , e outros inílrumen- 
tos arruinadores do mundo , moftrando 
fempre efte Fidalgo que não degenerava 
daquelle grande D. Nuno Alvares Pereira 
defenfor de Portugal, de quem defcendia.. 
Indo, como diífe, os Mouros continuando 
com fuás baterias , fendo huma terça feira 
vinte e dous de Maio , huma hora depois 
de meio dia em conjunção de Lua , que 
acertou de fazer grande cerração , muito 
ventofo , e com grandes cerrações , e tro- 
vões, com as quaes carrancas entra fempre 
o inverno na índia , como fez deíla vez ; 
pelo que vendo os Mouros o tempo ap- 
parelhado pêra o que tanto defejavam, 
abalaram de fuás eítancias com grandes vo-: 
zerias , e algazaras pêra irenl cominetter 
aquellas ruinas ; o que viílo pelos noífos 
foldados , que já nao temiam a morte pe- 
las muitas vezes , que com ella fe viram a 
braços , fahíram fora aos receber , e foi 
ifto de feição , que os fizeram recolher com 
tanta prefía , como vieram , pela ruim hof- 
pedagem que lhes fizeram. Fartecão vendo 
aquella vergonhofa retirada ^ os aífrontou 

de 



442 ÁSIA de Diogo de Couto 

de maneira, que tornando a voltar depois 
das três horas , chegaram com hum ímpeto 
diabólico aos que fe recolheram nas cafas, 
e em breve efpaço fe apoderaram daquellas 
ruinas , e de alguns pedaços de fobrados, 
que fuppoíto eíiavam em pé não ferviam 
mais que de fuftentar o credito dos Portu- 
guezes , ficando os noilos nos baixos das 
logeas ás lançadas , e arcabuzadas com el- 
les , trabalhando alguns por fubirem aífima 
pêra fe verem rofto a rofto com os inimi- 
gos , fobre o que de ambas as partes hou- 
ve muitos mortos , e feridos. O Capitão 
mor acudio alli ; e vendo o eílrago que os 
Mouros faziam nos noífos , que eftavam 
debaixo, mandou a D. Nuno Alvares que 
com todos os feus foldados fe fahiile das 
cafas , e fe ajuntaífe com elle , o que fez 
com muito defgoílo feu : perdêram-ie def- 
ta vez vinte foldados noílbs , e íincoenta 
feridos. 

Entregues os Mouros daquelles entu- 
lhos , viraram toda a artilheria contra o 
Mofteiro de S. Domingos , o qual acaba- 
ram de arrafar de todo , e pôr por terra , 
e por fim fe fenhoreáram delle , ficando tão 
vizinhos de Ruy Gonçalves da Camera, 
que tendo-lhe arrafado toda fua eftancia, 
veio a ficar defamparado da ilharga da Ca- 
pella que ainda eítava por fua, e os inimi- 

g°s 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 443 

gos de todo o corpo da Igreja, e da maior 
parte do clauílro , e dalíi viraram a arti- 
lheria pêra a eítancia de D.João deSoufa, 
e de João de Mendoça com hum baítião 
na ponta , donde fe defcubria o baluarte 
de madeira , que os cercados tinham na 
ponta da tranqueira da praia , contra o qual 
aífeltáram três peças groíTas , que logo a 
começaram a desfazer ; e batendo junta- 
mente as outras eítancias junto de S. Do- 
mingos 5 com que os noflbs receberam 
grande perda , e opprefsão, e na eítancia 
de D. Sebaítião de Teve, que foi huma das 
que batiam , deo huma bala em Jeronymo 
de Teve feu primo y que lhe levou a ca- 
beça em pedaços , e os miolos fortim bor- 
rifar as veneráveis barbas de António de 
Teve feu tio ; a outra eítancia que fe batia 
era a de D. Henrique de Menezes , que fe 
defendeo valerofamente , eítando muito fe- 
rido dos dias paífados, porque foi Fidalgo 
que em todo elte cerco fe achou fempre 
nos cafos mais perigofos , em que fempre 
moítrou bem o valor de feu brio , e a obri- 
gação de feu fangue. 

Não quiz o Nizamoxá confentir que fe 
commetteflem mais os noífos por aífaltos 
pelo muito que lhe cuítavam , mas mandou 
que fe levaíle aquelle negocio pelo rigor 
da artilheria, que com pouco perigo baila- 
va 



444 ÁSIA de Diogo de Couto 

va pêra concluir com tudo , porque deter- 
minava , depois que viffe tudo arruinado , en- 
trar a Cidade por hum afíaito geral, em que 
queria metter todo o reílo de feu poder ; pe- 
lo que foi continuando a bateria todo aquel- 
le mez , coufa que pêra os noflbs foi de 
maior trabalho que os aílaltos , porquê 
neítes vigiavam-fe das offenfas , que rece- 
biam dos inimigos , o que nas baterias 
não podiam fazer , antes tinham dobrado 
trabalho em reformarem as partes que fé 
arruinavam, porque fentiam mais andarem 
com os materiaes nas mãos , que peleja- 
rem com todo o poder daquelle inimigo ; 
porque mais honrofo exercido era perà 
elles exercitarem-fe no officio de defenfo- 
res , que de trabalhadores , contra o natu- 
ral dos Portuguezes. Durou eíte trabalho 
até dia de S. João, que cahio em Domin* 
go , e aquelles três dias depois em todos 
elles tiraram os Mouros o poder todo ao 
campo , como que queriam commetter os 
vallos ; e remettendo a elles já de perto, 
fe tornaram a recolher , e logo tornaram 
a fazer o mefmo commettimento , e reco- 
lhimento , porque a fua tenção era que- 
brantar os noífos , e fazellos eftar todo o 
dia , e noite com as armas nas mãos , no 
que fe enganavam , porque eram os vale- 
rofos Portuguezes como o gigante Antheo 

fi- 



Década VIII. Gap. XXXVIII. 44* 

íílhc^ da terra , que luílando com Hercu- 
les , todas as vezes que cahia , e tocava a 
terra fe tornava a levantar com novas for- 
ças , aflim os noflbs com aqueiles accommet- 
timentos táo contínuos ? e accelerados co- 
bravam de cada vez mais novo brio > e 
maior animo. 

Logo á quinta feira vefpera dos Após- 
tolos S. Pedro , e S. Paulo fe prepararam os 
Mouros pêra darem o ultimo aiíalto > no 
qual efperavam concluírem aquelle negocio 
de todo y o qual não houve effeito , por- 
que lhes mataram os noíTos hum Capitão 
dos principaes com huma efpingardada , 
andando vendo a parte , por onde havia de 
commetter com o feu Terço ; mas ao ou- 
tro dia dos mefmos Apoftolos , que parece 
que quizeram elles que nelle alcançaíTem 
os noíTos por fua intercefsão huma tão 
milagrofa , e memorável vitoria , eftando 
os Mouros a ponto , fe poz EIRey no 
Mofteiro de S. Franciíco em hum lugar al- 
to pêra dalli ver tudo á fua vontade , e á 
hora que quiz que os feus accommetteflem, 
mandou fazer final com huma touca de fe- 
da amarrada a huma lança , que começou a 
florear no ar ; e fendo vifta de todos, re- 
mettêram com aquella multidão confufa , c 
defordenada fem ordem alguma , nem fom 
de pífaros , e tambores , que eníina os fol- 

da* 



44^ ÁSIA de Diogo de Couto 

dados a remetter, e a retirar, nem dfftin* 
cão de Capitães , ou compaflb de bandei- 
ras , e íinal de Sargentos > e Capitães , fe- 
não com as barbaras vozerias , gritos , e 
vifagens , guiados de fua brutalidade, co- 
mo todas as fuás coufas ; e como eram 
mais de fetenta mil homens , e todos' os 
elefantes diante , cingiram todos os noífos 
vallos aílím âpinhoados , ficando mais de 
fete , ou oito mil âpinhoados , e oppoftos 
a cada eílancia noíla , em que haveria pou- 
co mais de lincoenta foldados , e com 
aquella primeira arrancada , e fúria fe pu- 
zeram alguns logo em íima dos vallos , e 
tranqueiras , onde arvoraram luas bandei- 
ras , levando primeiro a furriada de duas 
cargas danoífa efpingardaria , que lhes der- 
rubou mais de quinhentos ; e como os nof* 
fos eftavam já com as armas nas mãos, as 
começaram a jogar com tanta braveza , 
que em muito pouco efpaço os tornaram 
a lançar fora dos vallos , deixando aíFron- 
tofamente as bandeiras , que tinham levan- 
tadas , e muitos dos feus eftirados , e def- 
pedr.çados em íima das tranqueiras , e ao 
pé delias. Os inimigos vendo-fe aíTim reíifti- 
dos , ternáram com grande impeto, e dobra- 
da determinação a commetter a entrada, que 
lhes foi tão bem defendida , como da pri- 
meira vez , e fem fazerem cafo do grande 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 447 

eítrago que os noflbs nelles faziam 5 por 
Uma dos mefmos companheiros mortos, 
Jmns palpitando com os últimos arrancos , 
outros tornaram huma , e muitas vezes a 
commetter a entrada das tranqueiras , fo- 
bre a qual defensão os noíTos fizeram al- 
tiffimas cavallarias , que não particularizo , 
porque os Capitães 3 e Fidalgos que tenho 
nomeado fizeram , e obraram couías dignas 
de feu fangue , as quaes eu me não atre- 
vo a particularizar , nem fei efcrever , 
porque nellaç fe confunde a memoria, pára 
o entendimento , emmudece a lingua , e en- 
colhe-fe a mão. Os foldados que tenho no- 
meado , er outros que não tinham nome , 
que por defcuido fe não fez delles cafo , 
não fizeram menos , antes muitos dos me- 
nos fizeram coufas 5 que puderam efpantar 
ao mundo , e efeurecerem os valerõfos 
feitos dos famofos Gregos , e Romanos , 
fe elles tiveram hum Lúcio 3 ou hum Plu- 
tarco , que eferevêram feus feitos. G Ca- 
pitão mor , e D. Jorge de Menezes Capi- 
tão da Cidade não oufo a fallar delles , 
porque cumpriram como deviam as obri- 
gações de feu fangue , não fò com a obri- 
gação de valerõfos Capitães , mas ainda 
com a de esforçados , e valerõfos folda- 
dos ; porque correndo cada hum delles 
por fua parte as eítancias , não fó anima- 
vam * 



448 ÁSIA de Diogo de Couto"" 

vam j e proviam a todos das coufas que 
traziam pêra efle effeito de lbbrecellente i 
mas ainda pelejavam por feu braço, como 
qualquer particular foldado ambiciofo de 
ganhar honra , com o valor que fempre 
coltumáram. Os eftrondos , os gritos , os 
jarros dos elefantes , e os gemidos , e ais 
dos que cahiam , chammas das labaredas 
das lanças de fogo , panellas de pólvora , 
que os noflbs lançaram fobre os inimigos i 
os prantos, gritos, e exclamações ao Ceo 
das mulheres , e meninos que andavam pe- 
la Cidade pedindo a Deos mifericordia * 
ifto junto reprefentava o final juizo j e era 
jhuma confusão de Babylonia , e hum terre- 
moto 5 e fim do mundo univerfal. Durou 
eíle confíifto até ás féis horas da tarde , em 
que os Mouros fe retiraram por não po- 
derem mais foífrer, ficando osnoífos fobre 
os vallos com as armas nas mãos florean- 
do com fuás bandeiras , e chamando os 
inimigos pêra que tornaífem , porque ainda 
não eítavam fatisfeitos do pouco damno, 
que lhes tinham feito com lhes terem mor- 
tos mais de três mil homens , a maior par- 
te deíies Mouros brancos , Parfeos , Cara- 
coes , Guilanes , Xiraííes , Turcos , Rumes > 
e outras ditferentes nações da Afia , e 
Abaília : dos feridos foi grande o numero, 
e foram mortos d£ duas efpingardadas 

Inun 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 449 

hum filho de Acalafcão , e Sujatecao , fin- 
cando os mais delles aífinalados do nofíb 
ferro: muito poucos dos noílbs morreram > 
que quiz Deos que não foliem mais que 
finco > que valiao por muitos , que dous 
delles foram Francifco de Sá Solufmundi 
valerofo foldado , e outro Fráncifcô de 
Tovar, aos três não achei os nomes, fica- 
ram feridos coufa de cento y poucos dos 
quaes perigaram. 

Vendo o Nizamoxá ó desbarato dos 
feus , não lhes quiz aguardar o fim y antes 
no meio do confliíto fe poz em hiirn ca*- 
vallo , e fe foi recolhendo tão tfifte , e ma* 
iencolizado que não oufou nenhum dos 
feus Capitães a lhe ver o rofto > e aflim fe 
foi metter em huma Mefquita , devia fer 
pêra vituperar o leu Mafamede ^ que não 
preftou pêra com tão grande poder lhe dar 
vitoria de pouco mais de mil Portuguezes 
encurralados em huns fracos vallos. Depois 
de fazer termo fua paixão , não pelos mui- 
tos vaífallos que lhe mataram > que niíTo 
reparam' os Mouros pouco , e fazem me- 
pós cafo , fenão pela opinião que per- 
dem ; bem diíferente dos Reys Chriftãos 
que he efte o feu maior feritimento : e di- 
zia o Emperador Carlos V. Máximo , que 
antes não queria tomar huma Cidade íb- 
b.re que eftava, que perder fobre ella hum 
Couto. Tcm.F.P.L Ff foi* 



45*o ÁSIA de Diogo de Couto 

foldado feu ; mas depois que fez termo 
lua paixão , como hia dizendo , dizem que 
deo recado aos feus Capitães pcra apalpa- 
rem os nofíbs com pazes , o que eíles fi- 
zeram ao outro dia, porque alguns vieram 
por todas as tranqueiras , e começaram a 
bradar : Mar ião , Mar ião , que aííim cha- 
mão elles á Virgem Santiífima Senhora nof- 
fa , como coftumavam em todo eíle cerco 
todas as vezes que queriam fallar aos no£ 
fos , os quaes logo acudiam a perguntar 
o que queriam , como fizeram agora ; e 
chegados á falia, pediram com muita hu- 
mildade lhes deixaíTem recolher aquelles 
corpos mortos pêra os fepul tarem , a que 
o Capitão mor lhes mandou refpónder que 
os Portuguezes não faziam guerra fenao a 
vivos , que os podiam levar livremente , e 
que não fó lhes concedia facilmente eíla 
iicença , mas ainda lhes mandaria pagar, 
como fez, o trabalho que tiveíTem em lhe 
tirar dalli aquella corrupção , porque po- 
deria caufar peite ; no qual íerviço anda- 
ram os Mouros tão humildes , e obedien- 
tes , que íem repararem em couía alguma , 
levavam aos foldados ás tranqueiras tudo 
o que lhe pediam , armas , efpingardas, 
cabaias , toucas \ e outras peças dos mor- 
tos : e entre algumas praticas que tiveram 
com os noflbs , lhes perguntaram os Mou- 



ros^ 



Década VIII. Cap. XXXVIIL #1 

iros , que mulher era huma muito fermofa 
vertida de branco , que em toda a batalha 
andou pelejando da banda dos noíTos , e 
que deíviava os pelouros 5 e fettaS com a, 
borda do manto 5 para que não offendeílem 
os noíTos ? E depois das pazes deitas , que 
hiam communicar á noífa Fortaleza , levou 
o Padre alguns que viram aquella Senhora , 
á Igreja da Sé , e lhes moítróu huma Ima- 
gem de noíía Senhora , e perguntou-lhes fe 
era aquella ? Refpondéram , que não 3 por^ 
que a outra era mais fermofa > e com tudo 
fe proílráram diante daquella Senhora que 
Íhe$ moftráram , e lhe fizeram grande ve- 
neração* Havida eíla vitoria > logo os Mou* 
ros recolhêranl a fua artilheria > ficando as 
coufas aífim em tréguas até fe fazerem as 
pazes , como ao diante direi ; pelo que os 
Capitães ordenaram huma folemne procif- 
são, com que foram dar graças ao Âuthor 
de todos aqiielles bens , verdadeiro Deos 
dos Exércitos , e á Virgem Senhora noífa , 
e aos Santos Apoítolos S* Pedro , e S* Pau-* 
lo , por cuja intercefcão em feu dia alcan- 
çaram huma tão infigne vitoria : e todavia 
os Capitães não fe deicuidáram , antes re- 
novaram as eftancias do dàmnificamemo que 
Íhe$ ficou , aíTiílindo feus Capitães nellas 
tanto a ponto , e com tanta vigia, como que 
os inimigos eltiveram abordados com ellas. 

Ff ii Fi- ' 



4$z ÁSIA de Diogo de Couto 

Ficaram affim as coufas naquella tre- 
goa 5 até que fe alimpou o campo dos mor- 
tos ; e como o «Nizamoxá fe queria ir pêra 
a fua Corte \ e todos feus Capitães eftavam 
aborrecidos da guerra , fizeram com elle 
que trataíTe das pazes por não ficarem as 
coufas aífim em aberto , o que elle com- 
metteo a Fartecão , e Cafacão Veadorde 
fua fazenda , que por terceiras peífoas man- 
dou faliar naquejíe negocio com D. Fran- 
cifco Mafcarenhas , e D.Jorge de Menezes 
Capitão da Cidade ; e como elles tinham 
moderes do Vifo-Rey pêra aceitarem as 
3azes , tanto que lhe foíTem por aquelle 
[\ey pedidas , trataram com os Capitães 
Mouros de fe verem pêra as concluirem , 
e que as viílas haviam de fer entre as ca- 
fas que tevê D, Nuno Alvares Pereira , e o 
Mofteiro de S. Domingos , no que elles 
não tiveram âúvida ; e aílim aos vinte e 
quatro de Julho , vefpera doApoftolo Sant- 
iago, fe juntaram no dito lugar deputado, 
onde vieram os dous Capitães do Nizamo- 
xá com pouca companhia , e o Capitão D. 
Francifco Mafcarenhas , e o da Cidade 
com António de Teve 7 e Pedro da Silva 
de Menezes por adjuntos , e depois de nas 
primeiras viftas terem os cumprimentos or- 
dinários , em que elles Mouros são mui 
pontuaes , apprefen taram os poderes que 

ti- 



Década VIII. Cap. XXXVIII. 45*3 

tinham do feu Rey pêra tratarem daquelle 
negocio , e os noííbs Capitães fizeram o 
mefmo aos que tinham do Vifo-Rey da 
índia ; e viílos , e examinados , aílentáram 
as pazes com as condições feguintes. 

» Que feriam amigos de amigos , e ini- 
» migos de inimigos , e fe ajudariam con- 
» tra todos os Senhores inimigos de am- 
» bos , não fendo contra aquelles com 
)> quem tiveífem celebrado , e feito pazes. 

» Que o Rei Nizamoxá não agazalha- 
» ria em feus portos Armadas inimigas 
» dos Portuguezes ; e que entrando algu- 
» masnelles, as mandariam entregar, eque 
)) o mefmo fariam os Vilb-Reys. 

» Que o Nizamoxá mandaria em todos 
» os feus portos dar todos os marinheiros, 
)) mantimentos , madeira, e todas as mais 
» coufas neceífarias pêra as Armadas por 
» dinheiro , e que o Vifo-Rey lhe guarda- 
» ria a fua cofta de ladrões pêra fuás náos 
» navegarem fem receio. 

» Que o Vifo-Rey daria áquelle Rey 
» licença pêra todos os ãnnos mandar hu- 
» ma náo a Malaca, e que os Portuguezes 
)> lhe fariam bom tratamento , e que não 
)> levariam coufas defezas , nem gente 
» branca ; e que o Capitão daquella Cida- 
» de j e feus moradores não pagariam ne- 
» nhuns direitos do que compraífem. 

» Quç 



45^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

» Que os Mouros j e Gentios pagariam 
5) de todas as fazendas que vieflem por 
» mar os direitos áquelle Rey , tirado os 
)> Portuguezes , e Chriftãos que feriam li- 
» bertos. 

» Que poderiam todos os annos os 
3) Portuguezes , e Mouros levar á Cidade 
y> de Chaul quinhentos cavailos , e que 
» pagariam os direitos a EIRey de Portu- 
» gal ; e que vindo de Ormuz náos de 
y> Mouros com cavailos , dariam lá fiança a 
» irem a Chaul ; ç nao o podendo tomar , 
» iriam a Goa ; e que indo a outras par- 
» tes , incorreriam nas penas do regimento. 

» Que o Tanadar de Chaul de fima 
y> elegeria dous homens de confiança , e 
» D.Jorge de Menezes Capitão da Cidade 
» outros çlous y pêra eftimarem as perdas, 
)) e damnos que fe fizeram nas Igrejas , 
)) palmares , e hortas daquella Cidade ; e 
» da avaliação que fizeíTem , avifariam ao 
» Nizamoxá 3 pêra que em quatro mezes 
:» fizeífe íabedor.ao Vifo-Rey da índia pe- 
» ra niflb dar o talho que parecefle jufto, 
» e arrezoado » e outras mais coufas que 
deixo y porque são conformes ás pazes que 
já com os Reys feus antepaflados fizeram 
o Governador D. Eílevao da Gama , e o 
Governador Francifco Barreto , a qual ai* 
vidraçao 3 e compofiçao eu nao achei por 



Década VIIL Cap. XXXVIII. 455 

efcrito, nem quem mefoubeíTe dar delia re- 
lação verdadeira , pelo que fique iíto afííni 
em paz , e vamos continuar com a guerra de 
Goa por concluirmos com ambos eítes cercos* 

CAPITULO XXXIX. 

Do que Juccedeo na guerra de Goa , e do 

levantamento da Rainha de Onor contra 

a nojfa Fortaleza : e do foccorro 

que o Vifo-Rey lhe mandou. 

A Guerra de Goa no eftado em que a 
deixamos ; fe foi continuando por ba- 
terias de parte a parte , e da parte dos 
Mouros ja com menor confiança da com 
que a começaram , e da noífa com menos 
receio ; porque como a invernada fe mét- 
teo de permeio , e as tempeítades , e chu- 
vas eram groffas , fizeram ceflar a artilhe- 
ria , e arcabuzaria; mas nem com iífo cef- 
saram os noííos de darem contínuos asfal- 
tos nas eílancias dos Mouros,, de que fem- 
pre lhes faziam grande damno. Succedê- 
ram aqui também cafos notáveis \ e que fe 
podiam ter por milagrofos : a hum foldado 
deo hum pelouro de hum a peça pequena 
nos cabos da efpada , e paíTou fem fazer 
mais que amaílallos , aífim como fe conta 
na matéria dos raios , que aconteceo dar 

hum 



4^6 ÁSIA de Diogo de Couto 

hum em huma efpada , derretella dentro , 
fem a bainha receber lesão alguma. An- 
dando Fernão de Soufa de Caftello-bran- 
co a cavallo vendo as eílancias , deo4he 
huma bala nos peitos , que o derrubou no 
chão ; e levantando-fe \ não achou ferida , 
nem pizadura alguma. Andando o Sargen- 
to mor João de Abreu paíleando defron«- 
te da porta de Sant-Iago , de'o huma gran- 
de bala no portal , e hum pedaço dejle 
lhe foi dar na cabeça, que lha fe-z em pe- 
daços , havendo duas horas que fe tinha 
confeílado 5 porque parece infpirou Deos 
jielle aquella vontade pêra ufar com fua al- 
ma de miíericordia. 

Meiado o mez de Julho j que he a for- 
ça do inverno , teve o Vifo-Rey recado por 
terra de Jorge de Moura , Capitão da For* 
taleza de Onor , de como a Rainha de 
Garfo, induzida, e favorecida do Idalxá, 
tinha poíto cerco áquella Fortaleza com 
íinco mil. homens de pé , e quatrocentos 
de cavallo , a maior parte gente do Idal- 
xá , porque todos os Reys da liga intenta- 
ram por todas as vias induzir os vizinhos 
das noíTas Fortalezas contra ellas , no mef- 
mo tempo que elies tinham de cerco a 
cabeça do Eftado , pêra impoífibilitarem 
os foccorros , e por verem fe podiam lan- 
çar mão de hum fo Çaítello daquelles , pê- 
ra 



Década VIII. Cap. XXXIX. 45-7 

ra que de todo lhe não ficaílem em vão os 
gaítos de liia jornada,- quando nella não pu- 
deílem conieguir o principal intento que 
pertendiam : por Capitão de toda eíta gen- 
te foi Chaticão , hoínem afFouto , e de quem 
o Idalxá tinha boa opinião. O Vifo-Rey 
tanto que teve aquellas novas ; quiz moí- 
tfrar ao inimigo que ainda que tiraiíe de íl 
;;qualquer foccorro , e poder com o que 
jíie ficava , fe havia de defender 5 e oiíen- 
dello , e mandou com muita preffa nego- 
ciar huma galé com oito fuftas , de cujos 
Capitães não achei mais memoria que de 
Diogo de Azambuja em huma galé : dos 
navios , D. Luiz de Menezes , Apollinario 
de Vai de Rama , e António Fernandes o 
Malavar , que hia por Capitão mor de to- 
dos ; e commettendo a barra , que andava 
mui íbberba , quiz Deos que paflaflem fem 
rifco ; e dando á vela com tempos groflbs \ 
e ponteiros , em linco dias chegaram á 
barra deOnor, na qual entraram com mui- 
to rifco , achando a Fortaleza em muito 
trabalho ; e vendo-fe António Fernandes 
com Jorge de Moura , aíTentáram que a 
certas horas defembarcaífe elle com toda 
a gente que trazia , que eram pouco mais 
de duzentos homens , e que Jorge de Mou- 
ra fahifle da Fortaleza com cento a e que 
ambos commetteílem os inimigos por fua 

par- 



458 ÁSIA de Diogot de Couto 

parte cada hum , pêra affim os atormenta- 
rem , ccmo fizeram em muito boa ordem ; 
e dando de fupito nas eftancias dos inimi- 
gos ~ } fizeram nelles tal eftrago , que houve- 
ram por feu partido deixarem tudo , e aco- 
lherem-fe , ficando todas as tendas com a 
artilheria , armas , e mantimentos , que tu- 
do fe recolheo na Fortaleza, com que ficou 
provida pêra muitos dias. 

CAPITULO XL. 

Do cerco que o Clamor/ poz d noffa For-' 
taleza de Chalé , e do que nelle fuccedeo. 

NAo ficou coufa que pudeíTe refultar 
em mina doEítado, que os Reys con- 
jurados não intentaflem , nem humores 
ruins que fe não moveíTem contra o corpo 
de noífa Monarquia , pêra verem por todas 
as vias fe a podiam acabar de extinguir; 
mas Deos noflb Senhor , como verdadeiro 
Medico os remediou a todos \ porque que- 
ria que foífe nelle por diante fua Santa 
Lei j e Evangelho : pode fer que por iflb 
ordenaffe que fuccedeííe nefte tempo D* 
Luiz de Ataíde pêra com fua prudência , 
conílancia y e artificio ir curando todas as 
chagas , o que não fei fe outro fizera. Fi- 
cava fó na coita da índia o Çamori por fe 

mo- 



Década VIII. Cap. XL. 45-9 

mover contra nós , lendo o principal con- 
vocado pêra iffo , por íer o mais poderoíb 
Rey de toda elta fralda do mar , o qual 
como íagaz , e prudente foi difíimulando 
fua inclinação até o meio do inverno , que 
era no fim de Junho , tempo cm que as 
noíTas Armadas não podiam íahir pela 
barra de Goa fora , no que appareceo íu- 
pitamente fobre a nona Fortaleza de 
Chalé, e a rodeou toda com perto de cem 
mil homens , em que fe affirma haver cem 
mil efpingardas , cercando-a logo de mar 
a mar , de vallos , e trincheiras , por eftar 
limada em huma ponta da banda do Sul , 
pela qual afíeftou quarenta peças de bron- 
ze , das quaes mandou prantar mais de 
vinte ao longo do rio até á barra pêra de- 
fensão delia , porque lhe não pudeíTe en- 
trar dentro coufa alguma , por fer alli o rio 
muito eítreito, ainda que muito fundo \ e 
não bailando ifto, no mais eftreito do Ca- 
nal , por onde os noílbs navios podiam en- 
trar , mandou atraveííar hum grande maf- 
tro nelle com muitas ancoras 3 que ficava 
em huma braça debaixo da agua , pêra fe 
os noílbs navios commetteíTem a entrada, 
encalharem nelles , pêra alli os desfazerem 
com fua artilheria. Era Capitão da Forta- 
leza D. Jorge de Caftro o mais velho Fi- 
dalgo, prudente, e de maior coníelho que 

ha- 



460 ÁSIA de Diogo de Couto 

havia na índia , o qual pelas muitas vezes 
que eíteve naquella Fortaleza por Capitão 
lhe chamavam o Çamorí , e os mais Reys 
da Coita Pai ; e como a eíTe lhe tinham 
acatamento , e guardavam grande refpeito , 
e por ília cauía deixaram por muitas vezes 
de fazerem guerra áquella Fortaleza, e de 
algumas que lha fizeram fempre fe commu- 
11 içavam , e D. Jorge hia feguramente ao 
feu exercito , e outras coufas deitas que fe 
contao que pafsáram ambos ; e como D. 
Jorge eítava deícuidado de tal fobrefalto 
pelo grande fegredo com que o Çamori fe 
negociava , e não tinham provimentos, 
porque todos os que fe haviam miíter fe 
iiiam comprar ao Bazar dos Mouros , que 
fempre eram muito próvidos , nem tinha 
comíigo mais que feífenta homens velhos , 
e moços , gente pobre , como são todos os 
que fe recolhem a eítas Fortalezas , pêra 
viverem de feus quartéis , e mantimentos , 
que muitas vezes deixam de fe lhes pagar 
por defeuido dos Governadores , e Vifo- 
Reys. Tinha D. Jorge comíigo fua mulher 
D. Filippa de Galho , filha de Jorge Dias, 
Efcrivão da fazenda da Infanta D. Maria , 
filha de EIRey D.Manoel, que já fora ca- 
fada com Jorge de Soufa Pereira Camelo , 
que na índia chamavam o Guitarra , por 
fer muito bom Muíicq, e muito gentil-ho* 

mem, 



Década VIII. Cap. XL. 461 

mem , a qual D. Filippa tinha comíigo hu- 
ma lbb rinha filha de huma fua irmã , que 
fora cafada com Diogo Pereira , hum Fidal- 
go da Ilha da Madeira , que cafou fegunda 
vez com D. Francifca Sardinha , huma orfa 
que fe creou em Lisboa em caía de minha 
mãi , mulher pobre , e de mediano eílado , 
que por fer muito fermofa cafou com ella , 
e he a que elle trouxe á índia na náo S. 
Paulo no anno de feflenta , que fe foi per- 
der na contra-cofta de Samarra , onde a 
gente da terra a cativou , e por lá acabou , 
e os enteados filhos de Diogo Pereira, que 
aqui eftavam com fua tia D. Filippa , era 
cafada , ou cafou depois com Thomé de 
Mello de Caítro : fei eítas particularidades , 
porque me criei com efta gente. 

Aífentado o Çamori com aquella po- 
tencia fobre a noífa Fortaleza 5 começo u- 
lhe a dar fuás baterias braviífimamente , e 
com grande terror , e efpanto ; mas Os 
noífos íeíTenta homens , que D. Jorge re- 
partio pelos lugares mais neceíTarios , fe 
oppuzeram contra aquella multidão diabó- 
lica , e com a arcabuzaria , e artilheria os 
fuftigavam arrezoadamente. O Capitão tan- 
to que fe vio cercado , teve modo com 
que defpedio recado ao Vifo-Rey , e ã 
Cidade de Cochim \ pêra que o foccorref- 
fem , porque elle ficava no extremo dos pe- 

ri- 



462 ÁSIA de Diogo de Couto 

rigos ; e como a preífa deite cerco os to* 
mou defapercebidos , e faltos de tudo , co- 
meçou a fome a ameaçallos , e a entrallos 
rijamente, o que todos fentiammais que as 
bombardadas 5 e os cruéis allaltos ? com 
que continuamente eram commettidos ; e 
aílim foram paífando , e fuílentando-fe a 
melhor que puderam com as efperanças de 
ferem foccorridos* O Çamori bem efnten- 
deo que não havia de ganhar aquella For- 
taleza fenao por fome pelos poucos provi- 
mentos que fabia que tinham , e por iífo 
não tratou de a entrar logo por aíTaltos , e 
aílim os foi dilatando $ e continuando com 
as baterias , com que começou a fazer 
naqueiies pobres muros algumas minas , a 
que os noílos acudiram o melhor que pu- 
deram \ e como Cochim ficava tão perto 
daquella Fortaleza de Chalé , logo em bre- 
ves dias lhe chegou o recado de D.Jorge, 
o qual metteo a todos em grande confu- 
são ; e ' vendo-fe o Capitão Vaíco Louren- 
ço de Barbuda em Camera com a Cidade ,• 
trataram de foccorrer aquella Fortaleza 
com muita brevidade , e logo dalli manda- 
ram chamar D. António de Noronha 5 que 
alli eftava cafado , e lhe pediram quizeíle 
ir áquelíe negocio , ordenartdo-lhe- huma 
náo j que fe íhe apreílou em breves dias , 
carregada de arroz P munições 3 e outros 

pro- 



Década VIII. Cap> XL, 463 

provimentos ; e aííim mais duas fuftas pêra 
ver fe com ellas , em cafo que a náo não 

fmdefle entrar , podiam metter na Forta- 
eza alguns provimentos ? ao que fe deo 
tanta preíTa , que na entrada de Agofto fe 
fez á vela y e como os ventos eram debai- 
xo y em poucos dias foi furgir naquella 
barra de Chalé fora da lagem com tempos 
muito verdes , e carregados , cuja vifta pê- 
ra os cercados foi de grande confolaçao. 
D. António de Noronha trabalhou todo o 
polfivel por metter alguns mantimentos na 
Fortaleza ? aífim nas fuftas , como em hu- 
ma palega , que pêra ilío levava , que por 
muitas vezes commetteram a entrada, mas 
não puderam paífar adiante , affim pela 
muita , e baila artilheria , que eftava aifef- 
tada á borda do rio , como por huma Ar- 
mada de quarenta paraos , que andava em 
guarda delie ; e affim fe deixou eftar pêra 
ver fe havia alguma boa occaíião pêra 
aquelle negociQ. 

Chegaram também novas do aperto ? 
em que ficava efta Fortaleza á de Cana* 
nor , onde acertou de invernar Franciico 
de Soufa Pereira Camelo > irmão de Jorge 
de Soufa , que já difle fora cafado com 
D. Filippa, mulher de D.Jorge de Caftro , 
o qual aífim pela obrigação de feu fangue , 
de yaílallo de EIRey ; e do páaatefco que 

te- 



464 ÁSIA de Diogo de Couto 

teve com D. Filippa , logo com toda ã 
brevidade fretou huma Almadia ligeira 
mui bem efquipada de marinheiros , e fe 
metteo nella com quatro foldados , e hum 
eícravo feu , muito esforçado , levando o 
arroz , e peixe que pode caber na Alma-* 
dia , tudo por feu dinheiro , e muitos mur- 
roes , e chumbo que lhe deo Álvaro Pais 
de Souto-maior, Capitão daquella Fortale- 
za : aos féis dias do mez de Agofto fe fez 
á vela com hum tempo mui invernofo, 
com que não pode chegar mais que até ás 
Ilhas de Tiracoli .... léguas de Calecut, 
donde quafi alagado tornou a arribar a Ca- 
nanor > onde eiperou a primeira monção, 
com que fe tornou a fazer á vela ; e for- 
çando o tempo , chegou á barra de Chalé 
a dezefete do mefmo mez deAgoíto, onde 
achou furto D. António de Noronha, fem 
poder metter nenhum íbccorro naquella 
Fortaleza, com o qual fe vio , e diííe que 
com todo o rifco havia de ver fe podia 
chegar a ella , o que lhe louvou , e aífim 
commetteo a entrada do rio com grande 
determinação , promettendo aos marinhei- 
ros de lhes fazer muito bem ; e animan- 
do-os , porque com o que aqui tinham ou- 
vido hiam quaíi defconfiados 3 e por ííma 
dos mares, que rebentavam em flor, com- 
metteo a barra , em que eíteve alagado* 

Eu- 



Década VIII. Cap. XL. 465- 

Entrando no rio , começou a artilheria da 
terra a deícarregar fobre elle huma nuvem 
de pelouros , com que logo derrubaram 
lium marinheiro do leme, e feriram os ou- 
tros, pelo que no maior trabalho lhe larga- 
ram o remo, e fe baquearam, indo elle já 
áquelle tempo perfeguido de duas embar- 
cações dos Mouros ; e vendo-fe Franciíco 
de Soufa naquelle tranfe , como era ani- 
mofo , lançou a mão efquerda ao leme , e 
com a efpada nua na direita mandou aos 
feus foldados que fizeflem aos marinheiros 
tomar os remos , e fazer-lhes novas pro- 
meífas ; e dizendo-lhes , que fe elles haviam 
de morrer alli debaixo efcondidos , não 
feria melhor trabalharem hum pouco pêra 
verem fe podiam livrar daqueile trabalho? 
O que elles aííim fizeram, e foram reman- 
do pela veia da agua, e por encher a ma- 
ré o hia feguindo por poppa hum navio 
defemmaítreado com muita gente , e hia 
já tão perto , que quaíi lhe hiam pondo a 
proa ; o que yifto por Francifco de Soufa 
Pereira, diíTe aos foldados, que fe haviam 
de morrer fugindo, que mais honrado lhes 
feria vender bem caras as vicias j e virando 
ao navio dos Mouros pcra também o in- 
veílir , vendo elles fua determinação , fe 
foram affaftando , com o que teve tempo 
de fe ir efcoando , chovendo fobre elles. 
Couto. Tom. V. P. L Gg nu- 



466 ÁSIA de Diogo de Couto 

nuvens de efpingardadas , e frechadas das 
fuftas , aquella terrível tormenta de furiofa 
artilheria da terra, que milagrofamente os 
não defpedaçáram a todos. Aquelles tran- 
fes , e trabalhos fe eílavam vendo da náo 
de D. António , e da Fortaleza, donde os 
encommendavam á Virgem noíla Senhora , 
que os livraíTe daquelle perigo , que foi 
fervida de aflim o fazer , que a todos li- 
vrou ; e tanto foi obra da Santiffima Mãi 
de Deos , que ao tempo que chegou a po- 
bre embarcação perto da couraça , lhe deo 
huma , ou duas bombardadas que a arrom- 
baram , e aíTim defpedaçada foi varar á 
porta da Fortaleza , o que fe lhe fuccedê- 
ra hum tiro de efpingarda antes , não pu- 
dera efcapar. D.Jorge de Caftro acudio ao 
recolher ; e vendo que era Francifco de 
Soufa Pereira com quem tinha tanta razão , 
feílejou mais aquelle foccorro , e ainda 
do arroz , e peixe fe fuítentáram alguns 
poucos dias. O Capitão pelo feítejar o en- 
carregou do lanço do muro , e por toda a 
couraça por onde os inimigos pertendiam 
entrar a Fortaleza , que já tinham mui 
desfeita com a artilheria , e de feição que 
não havia amparo , nem poderem alli che- 
gar, que não foífem derrubados com a ef- 
pingardaria ; mas Francifco de Soufa Perei- 
ra com feus foldados , e marinheiros tor- 
nou 



Década VIII. Cap. XL. 467 

nou logo a levantar tudo de pedra , e bar* 
ro 5 de modo que ficou mais defeníavel. 

Eíle foi hum dos maiores feitos , ou 
o maior que fuccedeo na índia deita forte, 
e em fatisfação delle lhe não fizeram mer- 
cê alguma , merecendo huma boa Fortale- 
za , e muitas vezes fallava EIRey D. Se- 
baítiao neíta entrada , e valerofo feito y lou- 
vando-o ; e fe não íatisfez a efte Fidalgo, 
foi por não ter quem fallaíTe niifo , e affim 
ficou fempre pobre como Duarte Pacheco 
também Pereira , e ainda agora vive aílim 
pobre em Ceilão s onde lhe deram humas 
aldeãs de pouca importância pêra o que 
merecia , as quaes nunca os Geraes daquel- 
la Ilha lhe deixaram comer , nem lhe qui- 
zeram nunca dar a poíTe delias 5 e eu o vi 
vir aqui com eíla queixa ao Vifo-Rey , e 
tornar com fupprimento , que também en- 
tendeo lhe não cumpriram , e lá eítá eíle 
valerofo cavalleiro padecendo notáveis mi- v 
ferias , e delias ha cada hora muitas nos 
que governão , pela qual razão não fei com 
que coração os homens hão de aventurar 
as vidas em feitos arrifcados , fe lhes hão 
de remunerar feu valor com ingratidões ; 
mas fe não alcançou o galardão merecido 
por feus heróicos feitos > o terá feu esfor- 
ço neíta minha hiíloria , onde lhe durará 
mais que os defpachos temporaes que lhe 
Gg ii não 



468 ÁSIA de Diogo de Couto 

não chegaram } porque ha de permittir 
Deos nofío Senhor que quem affim íe ar- 
rifca por feu ferviço , e pelo de feu Rey , 
e Pátria , que por huma , ou por outra ò 
venha a ter ? como agora tem nefta hifto- 
ria efte Fidalgo Francifco de Soufa Pe- 



reira. 



Vendo D. António de Noronha que 
lhe não era pcíTivel metter dentro naquel- 
la Fortaleza o ícccorro que levava , e que 
o tempo era ainda muito grofío , e pode- 
ria aquella náo defcahir Jbbre a lagem ? 
que feria hum mal fobre outro > havendo 
já nove dias que alli eftava , fe fez á vela 
pêra Cochim , deixando os da Fortaleza 
defconfoiados 5 e íriftes , com as efperan- 
ças fó -em Deos ? de cuja mifericordia não 
defconfiavam , e fó efperavam feu remé- 
dio , e fe foram fuftentando o melhor que 
puderam 5 mas muito miferavelmente, por- 
que nem meia medida de arroz tinha cada 
peílba de ração , e muitos comião os mio- 
los dos cocos feccos , a que na índia cha- 
mão Copra , que os corrompia muito por 
fer já tudo azeite. 

As cartas de D.Jorge de Caftro 5 com 
o perigo em que eftava , chegaram aoVifo- 
Rey pouco mais , ou menos em dez de 
Agofto ? o que elie fentio muito , e logo 
com toda a prefía mandou chamar D. Dio- 
go 



Década VIII. Gap. XL. ... 469 

go de Menezes , pêra que foíTe foccorrer 
aquella Fortaleza com duas galés , e que 
de caminho paíTafíe por.Onor,. e tpmaífe a 
Armada que lá eílava ; e tanta preífa deo 
em feu aviamento , que aos dezefeis do 
dito mez de Agofto fahio pela barra fora , 
elle na fua galé , e Mathias de Albuquer- 
que na outra , e huma manchua de íervi- 
ço; e dando á vela , -foram navegando com 
tempos muito rijos , e tempeítuofos , e em 
breves dias chegou fobre a barra deOnor, 
onde íurgio : ao outro foi fahindo a Arma- 
da j e por a barra eílar foberbiffima r e a 
galé de Diogo de Azambuja nao poder 
paíTar , tornou pêra dentro , e os navios 
de remo nao deixaram de commetter a fa- 
hi.da , que foi tão perigofa, que no banco 
fe perderam três fuílas , que os mares , 
que eram grQÍlbs , foçobráram , e D. Luiz 
de Menezes , Apollinario de Vai de Ra- 
ma , e António Fernandes Malavar fahí- 
ram fóra por grande mercê de Deos com 
os navios alagados ; e dando á vela , che- 
garam a Cananor ,. onde fe proveram de 
algumas coufas , e ao outro dia foi alli ter 
com elle Diogo de Azambuja na fua galé , 
que fahio daquella barra com omefmo rif- 
co , e trabalho que os navios. Com efta 
Armada junta foi D. Diogo furgir fobre a 
barra de Chalé; e havendo três , ou quatro 

dias 



470 A S I A de Diogo de Couto 

dias que D. António fe tinha levantado 
delia , D.Jorge de Caítro tanto que vio a 
Armada, defpedio humapeflpa a nado com 
huma carta mettida em hum pelouro de 
cera pêra o Capitão mor delia , que não 
fabia quem era 3 na qual lhe dava conta do 
perigo em que eftava, e que não havia já 
que comer, pedindo-líie da parte de Deos, 
e de EIRcy o foccorreíle com mantimen- 
tos , munições , Cirurgião , e Botica , que 
de tudo eftava muito falto ; mas que em 
nenhum cafo arriícaíTe as galés , porque 
lhas haviam de metter no fundo. D. Diogo 
eftimou muito efte avifo , e refpondeo a 
D. Jorge que fe foííe entretendo por al- 
guns dias o melhor que pudeíTe , que elle 
chegava a Cochim a bufçar mais Armada , 
e que logo voltaria ao foccorrer em pelfoa 
por fima de todos os rifcos , que lhe re- 
prefçntava : e logo fe fez a vela pêra Co- 
chim , e defronte de Tanor encontrou D. 
António de Noronha na mefma não com 
huma fufta mais , em que hia por Capitão 
D. Trilião de Menezes ; e vendo-fe ambos y 
]he diíle D. Diogo que fe foííe fobre Cha- 
lé , que logo voltaria a fe ver com elle 
pêra foccorrerem aquella Fortaleza ; e che- 
gando a Cochim , fe juntou com o Capitão 
em Camera , e lhe reprefçntou a neceíhda- 
dç em quç ficava aquella Fortaleza , per* 

fua- 



Década VIII. Cap. XL. 471 

fuadindo aos Vereadores que quizeílem ar- 
mar alguns navios pêra tornarem a foccor- 
relias ; e como aquella Cidade , e as mais 
da índia não he necelTario mais que repre- 
fentarem-lhe a necelTidade pêra fe empe- 
nharem , e acudirem a ella, aíTim efta lo- 
go armou com muita brevidade oito navios 
muito bem petrechados , cheios de muito 
boa íbldadeíca , com que D.Diogo fe fez 
á vela, levando treze navios, e três galés; 
e furgindo na barra daquella Fortaleza, 
defpedio de noite a fua manchua , de que 
andava por Capitão Luiz Fernandes , mui- 
to valente foldado, com cartas a D.Jorge, 
o qual commetteo a entrada pela barra 

Í>equena ; e como levava marinheiros Ma- 
avare<: 5 que fabiam aquellas entradas mui- 
to bem , o favoreceo Deos de feição , que 
chegou até o pé da Fortaleza , e de fima 
delia , donde o eítavam vendo , lhe brada- 
ram que bem podiam chegar mais perto ; e 
eftando á pratica , acudiram por numa , e 
outra banda tanta quantidade de Mouros , 
e Naires 3 que tiveram tomada a manchua 
pelos remos , e lhe tomaram três , ou qua- 
tro peífoas ; mas pelo esforço de Luiz Fer- 
nandes não houve eífeito o que os Mou- 
ros pertendiam , porque fe aíFaílou pêra 
fora. No mefmo tempo mandou o Çamori 
dar hum afia] to geral na Fortaleza , en~ 

cof* 



47^ ÁSIA de Diogo de Couto 

coitando huns nella as efcadas por muitas 
partes , e outros a picarem as muralhas 
pelo pé , : ao que os nolfos acudiram com 
muito valor , defendendo huma , e outra 
coufa , e o bom velho D. Jorge de oitenta 
annos armado com huma efpada na mão 
correndo o muro, animando, e favorecen- 
do os feus pêra que pclejaíiem. Tudo fe 
desfazia ás bombardadas , e ardia em 
chammas de fogo, e gritos, e alaridos, e 
tudo era huma confusão , que mettia me- 
do ; da noíla Armada eftavam vendo tudo 
com grande mágoa , e paixão de os não 
poderem foccorrer. O Luiz Fernandes fokfe 
lahindo pêra fora mui perfeguido das .fullas 
do Çamori j e poílo que os marinheiros 
fabiám muito bem aquellas barras , todavia 
com a opprefsao em que fe viram, erraram 
o canal , e encalharam fobre huma pedra, 
no qual tempo Luiz Fernandes chamou 
muito do coração pela Virgem noíla Se- 
nhora do Rofario j e affirmão que no mef- 
mo tempo lhe dera hum mar pela poppa, 
que o lançou da outra banda da reftinga, 
ficando livre dos perigos ambos o do bai- 
xo, e dos paraos que o perfeguiam. 

Vendo-fe D. Jorge de .Caílro defapre- 
'/ado do combate , que os Mouros larga- 
ram já de noite , e que não pudera man- 
dar avilb a D.Diogo pela maiichua , o que 

o 



Década VIII. Cap. XL. 473 

o tinha muito penfativo , coufa que todos 
o enxergaram , o que vifto por dous Tolda- 
dos de fua obrigação , fe lhe oíFerecêram 
pêra irem á Armada com o recado que 
quizeíle , o que lhe D. Jorge agradeceo 
muito , e logo lhes deo a cada hum feu es- 
crito mettido em pelouros de cera , em 
que D. Jorge não dizia mais fenão que lhe 
déíTe credito : eíles foldados , a quem defe- 
jei íaber os nomes , fe defcèram por huma 
corda á boca da noite , e fe mettêram en- 
tre humas pedras até fe recolherem as 
manchuas do Çamori , que andavam pelo 
rio vigiando ; e como viram tempo , lan- 
eáram-fe a nado pela agua fora , gritanda 
pêra que os ouvilfem na Armada , ao que 
D. Diogo mandou a manchua , e barqiii- 
nhos a faber o que era , que logo lhe pa- 
receo o que poderia fer ; e entrando eftas 
embarcações o rio , os toparam ambos , e 
os recolheram dentro, levando-os a D. Dio- 
go ; e tão mal tratados hiam , que por 
mais de huma hora de tempo não torna- 
ram em fi , e os mandou metter em baixo 
ém huma camera , onde os mettêram, 
aquentando-os , e veítindo-os até tornarem 
em fi , e delles foube o miferavel eílado 
em que eftavam , aífim de damnificados das 
baterias , como debilitados das fomes ; e 
viftos os efcritos , como não eram mais 

que 



474 ÁSIA de Diogo de Couro 

que pêra credito , mandou chamar á fua 
galé D. António de Noronha , e todos os 
Capitães da Armada ; e prefentes todos , os 
ouvio * e lhe deram larga relação do cer- 
co , e de como o Çamori eftava fortifica- 
do , e que fe os não foccorreflem com 
gente, e mantimentos, não podiam tal fa- 
zer, fenão entregarem-fe todos aos inimi- 
gos , porque contra a fome não havia ar- 
mas defennvas , e que em huma maré po- 
dia entrar , e íahir-fe em outra ; mas que 
nao arrifcaíTe as galés , porque a artilheria 
era tão baila , que não poderiam efcapar 
de ferem mettidas no fundo : fobre efta 
relação pedio a todos que votaífem no mo- 
do como haviam de foccorrer a Fortaleza 
de EiRey , que no foccorrella não havia 
que tratar , porque o haviam de fazer, 
ainda que tudo fe perdeífe. Praticado o 
cafo , foram os mais de parecer que fe fof- 
fe foccorrer a Fortaleza nos navios ligei- 
ros , e que as galés lhefoífem dando guar- 
da , e varejando a praia pêra divertirem 
os inimigos , e fegurarem os navios ligei- 
ros dos paraos do Çamori , que andavam 
pelo rio de dia ; e de noite fe recolhiam 
no rio de Caramandi , que fe mette no mef- 
mo de Chalé , onde eítavam com determi- 
nação de pelejarem com a noffa Armada , 
por afllm lho ter mandado o Çamori. 

At 



Década VIII. Cap. XL. 475* 

AíTentado eíte negocio , mandou D. 
Diogo a D. António de Noronha que lhe 
chegafie o batel da lua náo cheio de man- 
timentos , e munições , e que nelle foííe o 
Cirurgião, e caixa de Botica; e ordenou a 
Fernão de Mendoça feu íbbrinho pêra fi- 
car na Fortaleza por Capitão da gente de 
guerra , e que ficaílem com elle Thomé de 
Mello de Caftro , e D. Álvaro de Caftro , 
com cada hum íua Companhia de Tolda- 
dos , e outros fidalgos aventureiros , que 
queriam ficar naquelle cerco , os quaes ao 
diante nomearemos : pelos navios ligeiros 
mandou D. Diogo repartir mais mantimen- 
tos , e munições , e as bombardeiras que 
haviam de ficar na Fortaleza ; e eftando 
tudo preftes pêra o outro dia de madruga- 
da j que era então conjunção de meia ma- 
ré cheia , commetter a entrada , dando a 
dianteira dos navios ligeiros a António 
Fernandes Chalé , que nomeou por Capi- 
tão mor de todos , fuccedeo aquella noite 
ir D, Álvaro de Caftro á galé de Matinas 
de Albuquerque , com quem elle hia em- 
barcado , e dizer-lhe , que os Capitães 
hiam receofos das galés não entrarem em 
fua guarda , e lhes parecia que fora artifi- 
cio aífentar-fe que foíTem ellas ; e que fe 
tal íufpeitava lho difleíle como amigo, 
porque fe paffaria a huma das fuílas , por- 
que 



476 ÁSIA de Diogo de Couto 

que cumpriria á fua honra metter-fe na- 
quella Fortaleza , pois nella tinha fua mu- 
lher. Mathias de Albuquerque ficou efpan- 
tado daquelle negocio , fabendo elle o con- 
trario , porque aquella fufpeita com que 
hiam bailava pêra fe perderem todos ; e 
mettendo-fe na fua bateira , foi bufcar a 
D. Diogo , e lhe deo conta do que paífa- 
va 5 de que elle ficou fobrefaltado. Era iíto 
em vinte e fete de Setembro ; e mandan- 
do logo chamar D. António de Noronha y 
e os Capitães de toda a Armada , lhes fez 
a todos huma breve pratica , na qual lhes 
propoz a neceífidade em que aquella For- 
taleza eílava , e que por nenhum, cafo ha- 
via de deixar de a foccorrer com todo o 
rifco que foíle : que elle eílava informado 
que alguns dos Capitães dos navios eíta- 
vam receofos de metterem aquellç foccorro 
por fufpeitarem lhe não haviam de dar. as 
galés guarda , peio que pedia a todos que 
fobre aquelle ponto votaTem livremente, 
porque o que alli fe affentatre< fe havia de 
executar ; e debatido o negocio, votaram 
quaíi todos que fe não arrifcaílem as ga- 
lés , e que os noífos navios bailavam pêra 
lançarem aquelle foccorro na Fortaleza , 
fenão quanto Mathias de Albuquerque , e 
Diogo de Azambuja accrefcentáram mais, 
que fe alguns Capitães dos navios, hiam 

pe^ 



Década VIU. Cap. XL. 477 

pejados y ficaflem por Capitães das luas 
galés , e que elles fe embarcariam nos feus 
navios. Aflentado em fim que as galés fe 
não arrifcaffem , mandou D. Diogo defem- 
maftrear os navios 5 e deixar os maílos , e 
vergas a bordo da náo pêra irem mais li- 
vres , e ligeiros , e ordenou que Fernão de 
Mendoça defembarcaííe logo em terra com 
íincoenta homens pêra defender a defem- 
barcação dos mantimentos \ e que António 
Fernandes Chalé levaffe a barcaça \ e fe 
encarregaífe da defembarcação delia , e or- 
denou outras coufas- que lhe pareceram 
neceífarias. «Eftando preftes pêra entrarem 
na rnaré de pela manhã , que foi dia de 
S. Miguel , que foi em vinte e nove de Se- 
tembro , e ao tempo de quererem partir* 
foi tanta a agua que cahio do Ceo , que 
parecia o fegundo diluvio das aguas : o 
que viílo por D. Diogo, mandou Tobreftar 
na entrada , porque ficaram os navios, 
artilharia , e efpingardaria tudo inhabili- 
tado pêra poder laborar , o que não era' 
na dos inimigos , que eilava tudo debaixo 
de ramas enxutas , e que faria feu empre- 
go muito á lua vontade , que paliaria aquel- 
la fúria , e ao outro dia fariam fua jorna- 
da , e que parece que Deos noíio Senhor 
queria que elle com todas as galés , e fuf- 
tas foffem íòecorrer aquella Fortaleza, co* 

mo 



478 ÁSIA de Diogo de Couto 

mo havia de fazer : que pêra iflb fe fizeíTem 
todos preíles , porque na maré do outro 
dia havia de entrar , ordenando logo ai li o 
modo como havia de fer, que foi por efta 
maneira. Diogo de Azambuja na lua galé 
defemmaftreada , por fermais pequena, fof- 
fe logo após dos navios de remo , que ha- 
viam de ir diante com o batel dos provi- 
mentos , e que Mathias de Albuquerque 
também . defemmaílreado foíTe na retaguar- 
da das galés , e que elle Capitão mor folie 
no meio , e com ifto fe foram preparar, e 
defemmaftrear , o que D. Diogo não quiz 
que fe fizeííe á fua galé , por reputação , 
€ authoridade da bandeira de Chrifto que 
levava , e cada hum preparou a fua galé, 
è encommendou os lugares mais perigolos, 
poílo que todos o eram , a peífoa de maior 
confiança , animando os feus forçados , e 
promettendo-lhes perdões de feus degredos , 
e alforrias aos cativos Chriftãos. 

Por Capitão mor de todos os navios 
de remo foi nomeado António Fernandes 
Malavar , os mais Capitães eram os feguin- 
tes : D- Luiz de Menezes , Apollinario de 
Vai de Rama , Jorge de Paiva , João Perei- 
ra , João Pinto , António de Menezes , Gomes 
Carvalho , Sebaftião Fernandes , Pedro Ro- 
drigues Malavar, FrancKco Fernandes , e 
Luiz Fernandes na manchua do Capitão mor, 

dos 



Década VIII. Cap. XL. 479 

dos mais não achei os nomes. Preftes tudo 
ao outro dia , que foi do grande Doutor 
S, jeronymo , commettêram a entrada na 
ordem que diífe, indo os paraos ladrando 
detrás delles , por verem fe os podiam des- 
ordenar , ou fazer dar com alguma galé 
febre o baixo ; e tanto que os Mouros 
viram entrar a noíTa Armada , começaram 
a defearregar fobre ella com aquella infer- 
nal fúria de fua artilheria , a que não en- 
capava coufa alguma , e por meio daquel- 
las trovoadas , carrancas mortaes , chegaram 
até á porta da Fortaleza com todas as ga- 
lés varadas de parte a parte , como logo 
direi \ e em defeubrindo as janellas dos 
apofentos do Capitão , viram a ellas D. 
Filippa , e fobrinha fuás , e outras defea- 
beJladas com Crucifixos nas mãos pedindo 
mifericordia a Deos noífo Senhor , pêra 
que livraífe a Armada daquella fúria infer- 
nal. D. Jorge de Caftro tanto que vio a 
Armada já perto , abrio a porta, e foi-fe 
fora com alguma gente, e mandou a Fran- 
cifeo de Soufa Pereira que com hum guião 
de vinte e finco homens Portuguezes , e 
quinze Chriftaos déíTe nos vallos dos ini- 
migos da banda do Norte , onde havia de 
fer a principal defembarcação dos noíTos 
pêra os favorecer , o que Francifco de 
Soufa Pereira fez com tanto esforço , e im- 

P e ~ 



480 AS I A de Diogo de Couto 

peto que lhes ganhou os vallos , depois de 
ter com elles huma afpera batalha , ajudan- 
dô-fe nella de muitas panellas de pólvora 
com que matou , e abrazou mais de qua- 
trocentos , ainda que a certidão que difto 
tem Franciíco de Soufa Pereira ? a qual 
eílá em meu poder , diz que foram feiscen- 
tos , em que entraram cento e feíTenta Pa-* 
niaes ^ e cento dos outros , que são Capi- 
tães , e peííbas principaes da cafa do Ça- 
mori , de maneira que quando António 
Fernandes Malavar, é os mais navios che- 
garam , acharam aquella parte deíimpedi- 
da , com o que tiveram tempo de delem- 
barcarem os mantimentos , e munições que 
levavam ; e chegou a galé de Diogo de 
Azambuja tão perto de terra , que muitos 
Mouros lhe ferraram dos remos ? metten- 
do-fe por a agua , o batel ficou encalhado 
á porta do baluarte por não poder paliar 
mais adiante com as bombaVdadas ? e alli 
fahíram os fervidores da Fortaleza a re- 
colher o que levava 5 onde acudiram tan- 
tos Mouros , e tão foffregos que fe met- 
tiam dentro no batel comos noííbs , e os 
faccos de arroz que fe tiravam , remettiam 
elles aos tomar , lbbre o que houve gran- 
des brigas , e muitas cutiladas entre os 
noíTos , e elles ; e ao defembarcar do cai- 
xão da botica , cuidando os Mouros que 



era 



Década VIII. Cap. XL, 481 

era dinheiro , carregaram fobre elle tantos , 
que o levaram nos ares fem os noííbs o 
poderem defender ; e ccmo hiam com 
aquella cubica de cuidarem que levavam 
muito ouro , foram-fe tantos após elle , 
que tiveram os noííbs tempo de recolherem 
os noííbs mantimentos ? de que fe refundi- 
ram muitos ao entrar da Fortaleza , e de 
entrarem nella os que haviam de ficar y que 
foram Fernão de Mendoça , D. Álvaro de 
Caílro , Roque de Mello , que depois foi 
Capitão de Malaca , Thomé de Mello de 
Caílro , Cuílodio Mendes de Vafconcellos , 
e Mathias Pereira de Sampaio feu irmão, 
os maiores , e mais fermofos dous Fidal- 
gos que havia na índia , e grandes cavallei- 
ros ? e Jeronymo de Lima , hum foao Car- 
rafco , e outros a que também não achei os 
nomes : e António Fernandes de Chalé 
também teve tempo de tirar fua mulher, 
que eftava na Fortaleza , e embarcalla no 
leu navio , o que tudo fe pôde fazer em 
quanto os Mouros eftiveram com a caixa 
da botica ás voltas , que também aqui a- 
proveitáram as fuás mezinhas aos noííbs , e 
lhe deram vida aquelles dias , até que de£ 
enganando-fe os Mouros , abrindo o cai- 
xão , em lugar do ouro que efperavam fe 
acharam com panellas de unguentos , e ou- 
tras coufas deita forte. Vendo o Capitão 
Couto. Tom. F.P.L Hh mor 



482 ÁSIA de Diogo de Couto 

mór que os provimentos eílavam recolhi- 
dos , os quaes tinha orçados pêra trinta e 
íinco dias , fez final a voltarem pêra fora , 
por repontar já a maré, e porque lhe cuf- 
tavam muitas mortes os momentos que alli 
eílavam , e aífim fe voltaram com o mef- 
mo rifco , e perigo , porque a artilheria 
nunca deixou de fazer íeu emprego , e de 
paíTarem os pelouros as galés por muitas 
partes de banda a banda , o que acudio a 
remediar com couros. Na galé do Capitão 
mor fe mataram vinte peíToas , na de Dio- 
go de Azambuja onze , na de Mathias de 
Albuquerque nove , por ir muito empa- 
vezada. 

Aconteceram neíla entrada 5 e fahida 
milagres muito evidentes : a António Fer- 
nandes de Chalé deram algumas bombar- 
dadas por diverfas partes do corpo , fem 
lhe fazerem mal algum ; mas deo-lhe hu- 
ma pelo paiol , onde levava fua mulher 
que lha matou , porque não ha fugir ao 
que Deos tem ordenado : a João Pereira 
lhe deo hum pelouro de camelete atravef- 
fado por baixo do ventre , que lhe levou 
a ponta do embigo fem lhe fazer outro 
damno : a Diogo de Azambuja deo hum 
pelouro de efpera na coxa direita por íima 
do joelho , fem lhe fazer mais damno que 
huma nódoa preta : a Bartholomeu de Le- 
mos, 



Década VIII. Cap. XL. 483 

mos , que hia na galé do Capitão mor, 
lhe deo outro pelouro de camelete nos 
peitos , que lhe não fez mais que huma 
nódoa vermelha , e lhe cahio aos pés , fa- 
zendo-lhe a efpingarda em pedaços : a 
hum foldado , a quem defejei íaber o no- 
me , lhe levou huma bala huma perna ; e 
quando o eítavam curando , e cerrando-lhe 
a perna , perguntava fe eftava a Fortaleza 
foccorrida , porque lhe deram a entrada •, 
e dizendo-lhe que fim , refpondeo com 
grande esforço : Jd que a Fortaleza de 
EIRey ejid fegura , morra eu muito embo- 
ra y que pouco vai na minha vida , e não 
quero mais honrada morte. Quanto he mais 
digno de louvor eíte foldado , que aquelle 
grande Marco Romano , ao qual mandan- 
do-lhe os Médicos cortar hum braço , por- 
que tinha herpes nelle , refpondeo que em 
nenhum modo tal havia de confentir, por- 
que não tinha a vida em tanta eítimação , 
nem achava que era tanto pêra cubicar , 
que por elle fe padeceífem tamanhas do- 
res , e affim morreo ; e com quanta mais 
razão fe pudera confolar a mai defte noífo 
foldado, do que o fez a daquelle Traíldas , 
Capitão dos Lacedemonios , o qual morreo 
na batalha em que levou aos Gregos de 
Trácia ; e dando eíla nova a fua mãi fem 
fe turbar , perguntou fe morrera feu filho 

et 



4S4 ÁSIA de Diogo de Goutcv 

esforçadamente pelejando ; e dizendo-lhe 
que iim ,* refpondeo com animo mais que 
varonil : EJJa confolação me ficara de fua 
morte. A efta mulher chama Plutarco Ar* 
gelona , e outros Archelionada. 

tornando a ' continuar com as coufas. 
que deixei , hum pelouro de hum camello 
de marca maior deo a hum foldado cha- 
mado André de Barros , e o tomou por 
huma coxa , em que lhe não ficou mais 
que huma nódoa vermelha 5 e o pelouro 
lhe cahio aos pés. Na galé de Mathias de 
Albuquerque deo hum pelouro de huma 
■efpera , que paíTou o coitado de huma ban- 
da , e íoi-fe metter em hum caixão de pól- 
vora no paiol , fem tomar fogo : levava 
também efte Capitão a fua galé toda em- 
bandeirada de bandeiras , que fe coftumam 
dar nos armazéns , o que já hoje não ha, 
as quaes eram quadradas , de três palmos 
de quadro , de panno de algodão branco 
çom a Cruz de Chriílo de panno verme- 
lho , as quaes aífim ao entrar, como ao fa- 
hir deram em cada bandeira a quatro, e a 
finco efpingardadas , fem nenhuma tocar 
Xi'à Cruz i e em huma deo huma bala de 
artilheria , que levou o branco por todas 
as partes , ficando a Cruz vermelha toda 
inteira fem lesão alguma: coufa milagrofa, 
porque nao fei fe com a mão fe pudera 

cor- 



Década VIII. Cap. XL. 485- 

cortar tanto aojufto, fem tocar hum fio no 
panno vermelho da Cruz : na galé do Ca- 
pitão mor deo huma bala , que levou oito 
forçados todos pelas pernas ; na galé de 
Matinas de Albuquerque deo outra bala 
por huma bancada , que levou quatro for- 
çados Mouros pela cinta ; e hum fó Chri- 
ftão , que eftava no meio delles , por fe 
abaixar nefte mefmo tempo a fazer feus 
feitos , não lhe fez mais que roçar-lhe os 
cabellos da cabeça : em conclusão na galé 
defte Capitão deram aílim á entrada , co- 
mo á fahida vinte e fete bombardadas , 
que a pafsáram de parte a parte ; e pri- 
meiro que D. Diogo fe foíle da barra pêra 
ir a Goa bufear mais foccorro , teve huma 
carta de D. Jorge de Caftro por hum ho- 
mem da terra , que lha levou a nado , na 
qual lhe dizia , que fizera orçamento do 
arroz que recolhera , e que não achara 
mantimento pêra mais de quinze dias a 
meia medida cada peííba 3 encarecendo-lhe 
nifto tornallo a prover dentro nefte tempo ; 
com o que fe fez á vela pêra Goa , e D. 
António de Noronha pêra Cochim , onde 
o deixaremos hum pouco , por continuar- 
mos com o Vifo-Pvey novo , que nefte tem- 
po chegou á barra de Goa. 

Fim. da Década Oitava. 



PLEASE DO NOT REMOVE 
CARDS OR SLIPS FROM THIS POCKET 

UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY 



DS Barros, João de 

4-11 Da Ásia de João de Barros e 

.7 de Diogo de Couto 

B275 
1778 
v.8 



UNIYERSITY OF TORONTO 
LIBRARY 




Acme Library Card Pocket 
Under Pat. " Ref. Index File. ,, 
Made by LIBRARY BUREAU 



^H 



IH 



z&m 



^jgãjf aV t 



■f 



SÊ 

!§§Í 



Irai 



a^ 



|9HB_ 
■MT